sexta-feira, 16 de julho de 2021

Um Quarto com Vista

 

A manhã entra-me quarto dentro desde cedo. A bem dizer, desperta com os pássaros e começa-me pelos ouvidos ainda as seis de olhos fechados, bocejando vagares. Só depois, num repentino de janela, o ímpeto de claridade salta vidros e cortinas e, em ápices de artista, molda a realidade do quarto. A escrivaninha deixa de ser vulto e o azul do teu olhar maroto e sorridente fixa-me da parede. No eterno presente das fotos, o teu rostinho de quatro anos. Sentado à mesa em casa de amigos,  blusinha vermelha, rosto brincalhão, a mão tapando a boca. Tão lindo. Do outro lado, ergues-te em compenetração esmerada no retrato do jardim-escola,  o teu amado “colete de caçador” luzindo vaidade. E, em voo de película, saltas para o início da tua primavera, um menino-homem – nada iguala a doçura transparente que, então, morava nos teus olhos -,  cabelo a encompridar e dedos longos, o orgulho admirado e ainda meio infantil devido ao assédio feminino no Facebook. Depois, o secundário e início da faculdade, os teus amores e os desaustinados caracóis ciganos e calça rota, a barba ameaçando a noite escura de hoje, certo ar de pensador moderno, um desleixo nonchalant que todos julgam esquerdista e sei que é de raiz. Rodeada de ti por todos os lados.

Quem sabe te ameigo e revejo para me reaver no tempo em que fui presente e útil, tão eterna como te garantia. E pensava noutra coisa.

22 comentários:

  1. Belo retrato de alma para belos retratos que o dia foi iluminando.
    Um abraço.

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  2. Para além da história das seis da manhã e do retrato dum filho (?), aplaude-se o estilo, a técnica narrativa.
    Já lhe disse que a Bea tem um estilo muito próprio e que representa uma atitude que se assume, uma orientação que se escolhe, uma paralela individual de tratar as coisas e as pessoas, as suas coisas e a sua gente, nesta terra que é a nossa.
    Essa estrutura que a Bea construiu é pois a sua linguagem e que a nós leitores nos soa tão bem aos ouvidos.
    Vamos à história das seis da manhã e do retrato dum filho (?).
    Este quarto com vista, bem que poderia ser o quarto do filho (grande Nanni Moretti), um lugar de memórias sincopadas trazidas pela claridade da manhã, embora, para os pais, elas não precisem de luz para estarem presentes.

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  3. Pensei nesse título, mas ver o filme foi-me penoso, ainda que o ache muito bom. E julgo que ter aí o motivo para recusar o título.
    Sempre que alguém me refere o estilo vou reler o que escrevi. Garanto-lhe que não é falsa modéstia, só acho que é um estilo. Isso sim. Mas penso que não o escolhi.
    Verdade, as memórias relativas aos filhos têm luz própria, mas enche-me de ternura aquela mãozinha que só deixa ver os olhos risonhos. Por onde andará o colega que a tirou, já não sei. Ficou a foto.
    Boa noite, Joaquim.

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  4. Espero acompanhar tudo isso na nossa bebé 💖... Bom domingo

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  5. Vai acompanhar, Gracinha e renovar a alegria de colaborar na formação de alguém. Ver crescer a Benedita em corpo e mente. E depois fica a memória. Em nós, neles, e, quem sabe, em quem nos viu por estar naturalmente presente ou até por acaso ou por ouvir falar. Muitos e vários são os caminhos da memória.
    Bom domingo:)

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  6. Não sou muito de ter ou guardar fotos mas hoje tenho pena de não ter mais fotos da infância da minha filha e das respetivas primas, tenho que recorrer quase apenas ao que guardo cá dentro e a memória é finita. Tanto amor e candura passam nesse olhar matinal, que bonito Bea.
    ~CC~

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    1. Tenho muito poucas fotos minhas, porque não gosto de ser fotografada e porque a minha infância decorreu toda sem máquinas fotográficas. Os meus filhos sim, foram fotografados, a época era outra.
      E é verdade que a memória guarda melhor os sentimentos que os rostos, talvez por que o rosto pertença ao outro e o sentimento seja do próprio.

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  7. Tenho a casa repleta de fotos das minhas filhas, principalmente de quando eram crianças.
    Parece que se passou uma eternidade desde então e quando olho aqueles rostos de meninas, os dias trazem-me outra candura.
    A sua escrita, Bea, é uma inspiração.
    Bom domingo

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    1. Tenho uma ou duas fotos dos dois juntos em lugares mais recatados da casa. No quarto de cada um as que, em seu tempo, mais gostaram. E também me dá prazer olhá-las.
      Bom domingo, Magui.

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  8. Que vista tão terna, tem esse quarto, bea. Revi-me olhando, também eu, para retratos dos meus filhos quando crianças. Uma nostalgia tão doce. :)

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  9. Verdade, Luísa. O quarto guarda ainda certo odor masculino que lhe pertence e tanto conheço. Mesmo não sendo habitado há anos e sujeito a limpezas. É inacreditável a marca que deixamos nas coisas e lugares.
    Uma doce nostalgia. Mesmo.
    Boa tarde, óptimo domingo.

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  10. Saudade não é amargo gosto.
    Saudade é vida passada
    Revivida e sendo nada
    É muito, por amor posto
    No presente e ele disposto
    Da alma à nossa mente
    Que vê e o coração sente
    Faz ser uma nova vida
    Que a saudade, então, sentida
    Traz do passado um presente.

    Abraço fraterno. Veja que o "presente" tem significa duplo - uma dádiva e o momento atual. Tudo de bom. Laerte.

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  11. É um presente que vem do passado e de que se faz oferta no presente, não é, Laerte?
    Obrigada pelo poema.
    Boa noite.

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  12. O curioso do Facebook é reencontrar pessoas que não víamos há um ror de anos.
    Boa semana

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  13. Depende da idade de quem o frequenta Pedro:). Não era o caso do meu filho.
    Bom dia e boa semana.

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  14. Um texto que me sensibilizou duplamente. Primeiro pela excelente estética da sua escrita. Depois pela sensibilidade e amor com que fala do seu filho à medida que foi crescendo. "Quem sabe te ameigo e revejo para me reaver no tempo em que fui presente e útil, tão eterna como te garantia. E pensava noutra coisa." Belíssimo!
    Continue a cuidar-se bem.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  15. Bom dia, Graça:)
    Dentro da pressa de viver há assim uns amores que são a nossa eternidade.
    Boa semana.

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  16. Magnífico texto, como sempre!
    Desta vez uma diferença, deixou em mim uma saudade dolorosa. Os filhos cresceram e voaram para longe. Ficaram momentos captados, e parados no tempo, espalhados pela casa. Agora, sorrisos só quando vejo as netas crescer de fotografia para fotografia, que, felizmente chegam com fartura. Vida esta!
    Bea, é linda a vista do seu quarto. Do outro, que vi, não quero recordar.
    Beijo, obrigada pelas paragens no pétalas apesar das minhas longas ausências. Boa semana.

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  17. A gente aqui não tem obrigações de maior, Teresa. Basta a delicadeza com que me trata quando me trata:). Essa é a única coisa que cuido e tenho em conta. E a Teresa estará sempre salva.
    Um beijinho. E não pensemos no mal. Ele vem ter connosco sem precisar chamamento.

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  18. Uma fotografia é sempre uma viagem no tempo, normalmente doce. Os momentos menos bons, no geral, não são registados em fotografia.
    Menos doce é a percepção que o tempo que nos aguarda, o futuro.. certamente será menor que o tempo guardado nas fotografias..
    Mas é tão bom vê-las em molduras e álbuns!
    Bonita descrição, Bea.

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