A
manhã entra-me quarto dentro desde cedo. A bem dizer, desperta com os pássaros e
começa-me pelos ouvidos ainda as seis de olhos fechados, bocejando vagares. Só
depois, num repentino de janela, o ímpeto de claridade salta vidros e cortinas
e, em ápices de artista, molda a realidade do quarto. A escrivaninha deixa de ser
vulto e o azul do teu olhar maroto e sorridente fixa-me da parede. No eterno
presente das fotos, o teu rostinho de quatro anos. Sentado à mesa em casa de
amigos, blusinha vermelha, rosto
brincalhão, a mão tapando a boca. Tão lindo. Do outro lado, ergues-te em
compenetração esmerada no retrato do jardim-escola, o teu amado “colete de caçador” luzindo vaidade.
E, em voo de película, saltas para o início da tua primavera, um menino-homem –
nada iguala a doçura transparente que, então, morava nos teus olhos -, cabelo a encompridar e dedos longos, o orgulho
admirado e ainda meio infantil devido ao assédio feminino no Facebook. Depois,
o secundário e início da faculdade, os teus amores e os desaustinados caracóis
ciganos e calça rota, a barba ameaçando a noite escura de hoje, certo ar de
pensador moderno, um desleixo nonchalant que todos julgam esquerdista e sei
que é de raiz. Rodeada de ti por todos os lados.
Quem
sabe te ameigo e revejo para me reaver no tempo em que fui presente e útil,
tão eterna como te garantia. E pensava noutra coisa.
Belo retrato de alma para belos retratos que o dia foi iluminando.
ResponderEliminarUm abraço.
Obrigada, Maria.
EliminarPara além da história das seis da manhã e do retrato dum filho (?), aplaude-se o estilo, a técnica narrativa.
ResponderEliminarJá lhe disse que a Bea tem um estilo muito próprio e que representa uma atitude que se assume, uma orientação que se escolhe, uma paralela individual de tratar as coisas e as pessoas, as suas coisas e a sua gente, nesta terra que é a nossa.
Essa estrutura que a Bea construiu é pois a sua linguagem e que a nós leitores nos soa tão bem aos ouvidos.
Vamos à história das seis da manhã e do retrato dum filho (?).
Este quarto com vista, bem que poderia ser o quarto do filho (grande Nanni Moretti), um lugar de memórias sincopadas trazidas pela claridade da manhã, embora, para os pais, elas não precisem de luz para estarem presentes.
Pensei nesse título, mas ver o filme foi-me penoso, ainda que o ache muito bom. E julgo que ter aí o motivo para recusar o título.
ResponderEliminarSempre que alguém me refere o estilo vou reler o que escrevi. Garanto-lhe que não é falsa modéstia, só acho que é um estilo. Isso sim. Mas penso que não o escolhi.
Verdade, as memórias relativas aos filhos têm luz própria, mas enche-me de ternura aquela mãozinha que só deixa ver os olhos risonhos. Por onde andará o colega que a tirou, já não sei. Ficou a foto.
Boa noite, Joaquim.
Espero acompanhar tudo isso na nossa bebé 💖... Bom domingo
ResponderEliminarVai acompanhar, Gracinha e renovar a alegria de colaborar na formação de alguém. Ver crescer a Benedita em corpo e mente. E depois fica a memória. Em nós, neles, e, quem sabe, em quem nos viu por estar naturalmente presente ou até por acaso ou por ouvir falar. Muitos e vários são os caminhos da memória.
ResponderEliminarBom domingo:)
Não sou muito de ter ou guardar fotos mas hoje tenho pena de não ter mais fotos da infância da minha filha e das respetivas primas, tenho que recorrer quase apenas ao que guardo cá dentro e a memória é finita. Tanto amor e candura passam nesse olhar matinal, que bonito Bea.
ResponderEliminar~CC~
Tenho muito poucas fotos minhas, porque não gosto de ser fotografada e porque a minha infância decorreu toda sem máquinas fotográficas. Os meus filhos sim, foram fotografados, a época era outra.
EliminarE é verdade que a memória guarda melhor os sentimentos que os rostos, talvez por que o rosto pertença ao outro e o sentimento seja do próprio.
Tenho a casa repleta de fotos das minhas filhas, principalmente de quando eram crianças.
ResponderEliminarParece que se passou uma eternidade desde então e quando olho aqueles rostos de meninas, os dias trazem-me outra candura.
A sua escrita, Bea, é uma inspiração.
Bom domingo
Tenho uma ou duas fotos dos dois juntos em lugares mais recatados da casa. No quarto de cada um as que, em seu tempo, mais gostaram. E também me dá prazer olhá-las.
EliminarBom domingo, Magui.
Que vista tão terna, tem esse quarto, bea. Revi-me olhando, também eu, para retratos dos meus filhos quando crianças. Uma nostalgia tão doce. :)
ResponderEliminarVerdade, Luísa. O quarto guarda ainda certo odor masculino que lhe pertence e tanto conheço. Mesmo não sendo habitado há anos e sujeito a limpezas. É inacreditável a marca que deixamos nas coisas e lugares.
ResponderEliminarUma doce nostalgia. Mesmo.
Boa tarde, óptimo domingo.
Saudade não é amargo gosto.
ResponderEliminarSaudade é vida passada
Revivida e sendo nada
É muito, por amor posto
No presente e ele disposto
Da alma à nossa mente
Que vê e o coração sente
Faz ser uma nova vida
Que a saudade, então, sentida
Traz do passado um presente.
Abraço fraterno. Veja que o "presente" tem significa duplo - uma dádiva e o momento atual. Tudo de bom. Laerte.
É um presente que vem do passado e de que se faz oferta no presente, não é, Laerte?
ResponderEliminarObrigada pelo poema.
Boa noite.
O curioso do Facebook é reencontrar pessoas que não víamos há um ror de anos.
ResponderEliminarBoa semana
Depende da idade de quem o frequenta Pedro:). Não era o caso do meu filho.
ResponderEliminarBom dia e boa semana.
Um texto que me sensibilizou duplamente. Primeiro pela excelente estética da sua escrita. Depois pela sensibilidade e amor com que fala do seu filho à medida que foi crescendo. "Quem sabe te ameigo e revejo para me reaver no tempo em que fui presente e útil, tão eterna como te garantia. E pensava noutra coisa." Belíssimo!
ResponderEliminarContinue a cuidar-se bem.
Uma boa semana.
Um beijo.
Bom dia, Graça:)
ResponderEliminarDentro da pressa de viver há assim uns amores que são a nossa eternidade.
Boa semana.
Magnífico texto, como sempre!
ResponderEliminarDesta vez uma diferença, deixou em mim uma saudade dolorosa. Os filhos cresceram e voaram para longe. Ficaram momentos captados, e parados no tempo, espalhados pela casa. Agora, sorrisos só quando vejo as netas crescer de fotografia para fotografia, que, felizmente chegam com fartura. Vida esta!
Bea, é linda a vista do seu quarto. Do outro, que vi, não quero recordar.
Beijo, obrigada pelas paragens no pétalas apesar das minhas longas ausências. Boa semana.
A gente aqui não tem obrigações de maior, Teresa. Basta a delicadeza com que me trata quando me trata:). Essa é a única coisa que cuido e tenho em conta. E a Teresa estará sempre salva.
ResponderEliminarUm beijinho. E não pensemos no mal. Ele vem ter connosco sem precisar chamamento.
Terno e lindo!
ResponderEliminarUma fotografia é sempre uma viagem no tempo, normalmente doce. Os momentos menos bons, no geral, não são registados em fotografia.
ResponderEliminarMenos doce é a percepção que o tempo que nos aguarda, o futuro.. certamente será menor que o tempo guardado nas fotografias..
Mas é tão bom vê-las em molduras e álbuns!
Bonita descrição, Bea.