Após sumária averiguação no doutor google, posso avançar que, seja por telha caída bem a propósito, ou trambolhão de cavalo, a morte do garoto assemelha-se a castigo dos deuses. Mas também pode ter sido acaso. Ou intriga mortal da mana e seus partidários, beneficiados com tal falecer (cá se fazem, lá se pagam, Berengária). Bom, isso nem interessa, os espanhóis que se avenham com suas heranças régias, a nós cabe-nos a princesa que presidiu ao convento. E nem importa se ali afundou o desgosto de ter sido rainha sem sê-lo e não ter conhecido homem; se, movida por espírito místico, decidiu mais tarde retomar a vocação de menina e não ter conhecido homem lhe deu um jeitão que ela desligava dos prazeres sensíveis e era uma santa Teresa de Ávila em ponto pequeno. De êxtases e isso. Cada um é como é e tem os êxtases que tem; ou não tem. Sabemos, isso sim, que D. Mafalda beneficiou os que com ela conviveram e que teria certo gosto estético, baniu o hábito negro das freirinhas que passaram a usar alva vestimenta. Abençoada senhora. Parece que era alma bondosa e dedicada e é seguro que deu nova vida ao mosteiro, cujo mudou para a Ordem de Cister; e muito lhe doou de sua régia herança (nem me apetece falar das brigas com o mano rei D. Afonso II, um autoritário de nariz empinado, ainda por cima gordo). Sobre a morte de D. Mafalda Sancho se conta que foi a burra em que se fazia transportar habitualmente quem escolheu o lugar onde dormir a noite eterna, dado que, féretro no lombo, apontou sozinha ao Mosteiro de Arouca deixando o convento onde morrera um bocadinho defraudado (seria a vontade da Beata a comandá-la com rédea transcendente). Também se conta que o corpo foi exumado por duas vezes e se encontrava intacto, marca segura de santidade. E hoje se diz que rapariga que queira casar não ousa sentar-se na cadeira que lhe coube no cadeiral da igreja e que as restantes abadessas/madres não usaram, suponho que em sinal de respeito. Mas gosto de pensar que o lugar se destinava ao espírito de D. Mafalda que, sem canseira, se estabelecia em terreno conhecido. Porque, em corpo, tal qualzinha tinha sido, jamais alguém a viu. Portanto, aquela cadeira tem feitiço, virgem que ali pouse não sai do estado. Se bem que, casamento e virgindade deixaram de condizer, não fazem pendant. Por via das dúvidas, o melhor é não experimentar o assento.
E
pronto. Ah, esperem lá, ainda me sobram uns apartes: a vaca arouquense que é uma ruiva avantajada e autónoma - sabe
ir até ao pasto sozinha e voltar -, além de ser uma beleza frondosa – em vaca,
claro –, é irresistível de tão macia, come-se à dentadinha. A serra da Freita é uma belezura
incandescente apesar de verdejar e ter semeadas algumas aldeias, miniaturas solitárias no meio das fragas. Portanto, está visto que quase não passeei. À
mesa, mesmo coxinha, não houve faltas. Arouca pareceu-me bem, mas que sei eu, assim
posta em pé partido.
Foi
isto. Sem aquela pedrita de má sorte, teria muito que contar. Ou, quem sabe,
ela veio a propósito porque não conseguiria terminar a etapa.
PS: Ao santo meu parente que vive no mosteiro, que pena tenho por não ter podido ver-te.
Terra de gente boa e boa comida.
ResponderEliminarTenho um primo a trabalhar lá há muitos anos.
Talvez boa gente, Pedro. Pareceu-me, efectivamente, de boa comida.
ResponderEliminarBom dia.
Afinal, já fui a Arouca um par de vezes, vi muitas coisas bonitas, mas muitas mais ficaram por ver. Tenho de lá voltar. Sim, dizem que também se come bem e se recheia e adoça bem o pratinho da sobremesa. Se for, ficarei pelo prato maior para, mais leve, poder ver mais coisas que D. Mafalda lá deixou ou faz lembrar.
ResponderEliminarUm dia feliz, Bea, e obrigada por tão boa crónica.
Bom dia, Maria.
ResponderEliminarSim, a doçaria também convida.
O pé torcido não veio a calhar. Ainda assim, deixa-nos aqui um belo relato. Arouca é, para mim, sítio ainda por conhecer.
ResponderEliminarNão veio mesmo, Luísa, sobretudo porque bisei o desastre em poucos meses e no mesmo pé. Em Arouca não passeei. Visitei um ou outro ponto do geoparque no dia da chegada, que na manhã seguinte tratei de cair:).
EliminarQuando passei em Arouca apenas visitei um jardim muito agradável. Ficará para uma próxima a comidinha, que acredito ser muito boa.
ResponderEliminarPor agora fiquei deliciada com os êxtases de D. Mafalda.
Valha-nos o humor.
Boa noite, Bea.
Quem sabe os êxtases de D. Mafalda eram feitos de gema de ovo batida e assim, Magui:). Ao dito jardim só o vi de longe, já não deu para lhe pôr o pé.
ResponderEliminarHummm...o meu humor é tocado a café, Magui, a entorse não facilita e sentir-me tão dependente desanima.
O seu incidente, desafortunadamente permitiu às pessoas que o seu público é, ficarem a conhecer mais um episódio da nossa história, que se não tem ocorrido, provavelmente ficaria ignorado.
ResponderEliminarA sua arte de contar não ficou afectada, pois continua a seduzir tudo e todos, e quando digo todos incluo a própria Febe e quando digo tudo incluo a própria nuvem arquivadora.
Rápidas melhoras.
O que raio é a Febe, Joaquim? Pois eu tenho um pé partido, é o que é. Isto é tudo ou nada, a entorse não me bastou:). Se a nuvem me pudesse dar um pézinho novo...
EliminarMas é que faria na mesma a crónica, por quem me toma? Eu que quase não ponho um pé na rua, quando o faço tenho de contar ao mundo. E aproveito para cair, obviamente. Creio até que a dita croniqueta ficaria mais brunida se. Mas não se:).
Tenha um dia bom e melhor fim de semana.
Não percebi o conteúdo, mas adorei a forma da escrita! Acho que vou ter de ler mais alguma coisa para trás para entender.
ResponderEliminarAdoro sarcasmo e ironia, acho que vou ficar. :)
Pois fala como entender, Same. As janelas de minha casa estão abertas:)
ResponderEliminarBoa tarde.
Realmente a zona é linda e eu que por aí caminhei algum tempo... ficou o regresso de regressar!!!
ResponderEliminarBom domingo Bea
Bom dia, Gracinha:). Boa semana.
ResponderEliminarNunca fui a Arouca. Deve ser uma terra com muito interesse. Gostei de a ler neste seu estilo tão literário.
ResponderEliminarContinue a cuidar-se bem.
Uma boa semana.
Um beijo.
Arouca pareceu-me bem, mas vi tão pouco e sem percurso (farmácia e casa de doces conventuais), que apenas posso dizer que passei por lá. Pareceu-me lugar afável.
EliminarMuito se aprende com as viagens que se fazem.
ResponderEliminarConheço bem Arouca e esse mosteiro, de que a rainha santa Mafalda foi patrona.
Permita-me, apenas, um reparo em relação ao seu texto: santa Mafalda era irmão de D. Afonso II, entre quem houve desavenças e tia de D. Sancho II.
Abraço amigo.
Juvenal Nunes
Tem o senhor muita razão, Juvenal. Até por saber eu desde a primária que até D. Afonso III, e começando no nosso primeiro Afonso, foi sempre a alternar entre Afonsos e Sanchos. Foi assim que, então, os decorei. Obrigada pela correcção sempre bem vinda.
ResponderEliminarAprende-se muito a viajar, sim. É tempo nómada e desigual. Pena dos tantos que nunca beneficiaram de tal luxo. Grande pena.
Um dia bom para si, Juvenal.