domingo, 25 de julho de 2021

Sombra Chinesa

 

É bastante o que distingue o homem do mundo natural. E muito o que os iguala. Azar e má sorte humanos, parecem até, em certos casos, provir da fixidez determinista desse fundo da natureza.  Senão, veja-se o que acontece quando uma tempestade está próxima. Primeiro o ar encrespa e invade, apresta-se em forte azáfama, soprando a acastelar nuvens, espiralar folhas, assustar a passarada que toca a recolher em farfalho de asas. Mas, quando a atmosfera satura, nasce a calma nos elementos e um repasso de instintivo medo imobiliza a bicharada nos abrigos. Cai sobre o mundo um repente de silêncio. Expectantes, todas as forças se aquietam. Nem vento.  Nem chuva.  Nem um pio ou murmúrio de conversa por entre as folhas das árvores. Suspense. O mundo coalhou em quietude e a Terra é ouvido atento, aberto ao rumor da tempestade que virá. Pronto ao beijo e à raiva da água.

Ora sucede, por vezes, o inexplicável tempo demorar-se também assim num estado pessoal, espreguiçar-se nele e, gozando suavidades de maré baixa, atrasar a mudança. Grata pelo interregno, Veridiana bendizia a virtude da curandeira e acoitava-se de mãos postas à sombra do tempo rebolado e dormente, saboreando a trégua. E, pensamento em Jaime, vinha-lhe a prece da mente à boca, faz que dure, faz que dure.  Mas o enganoso tempo imita a tempestade. Não dorme. É fera que se esconde para melhor medir o salto.

Enquanto isso, ancorado na ingénua certeza das virtudes humanas, o iludido  Formosinho vivia os dias em dobro e entregava-se ao negócio das vinhas com o vigor antigo. Olhando o desabrochar do seu rapaz, esquecia velhos receios e reafirmava o propósito, que estude, de boa vontade troco as vinhas por um trabalho limpo, fora do sufoco dos campos e da enxada.

Jaime, esse, vivia quase inteiro no enlevo de si. Se acompanhava o pai, fazia-o de boa mente e sem vaidade, mas imbuído de secreto orgulho, agradado do que lia nos olhos de outrem. Mas era com a mãe que desvanecia. Talvez fosse laço de umbigo, coisa de lhe andar nove meses nas entranhas. Preocupava-o a palidez, a magreza, a tristura pontual que surpreendia  em Veridiana. Vigiava-lhe as tomas de remédio e a alimentação; obrigava-a a descansar no remanso penumbroso de quarto ou sala. E alegrava-se dos sorrisos que lhe vinham, da forma como o apetite lhe voltava, o pai em contraponto, agora arriba, pois se já não tem fastio. E distraía. Pegava na bicicleta e corria colinas e planuras, visitava lugares e memórias de infância deixando, em quem calhava de cruzar, um misto de inveja e bem querer,  como ele mudou, benza-o Deus. Jaime era jovem, a ignorância fazia-o inocente.

 

18 comentários:

  1. Bom rapaz... este Jaime!!!
    Mais um bom momento de leitura! Bj

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  2. Sempre resultaram as artes da curandeira, Veridana a melhorar. :)

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  3. Infelizmente não tenho o dom de Gabriel Garcia Marquez que pegaria nesta curandeira e punha-a a curar tudo que lhe acudisse à memória, de crises de acne a cancros escancarados:). Ia de cabo a rabo.

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  4. Penso de quase certo que o caso de Veridiana não vai acabar bem. Contudo a Bea faz-nos este interregno, para vermos o filho medrar e nos dar - a nós, a ela e aos seus - a boa esperança.
    A esperança e a espera que vão ser em vão, porquanto o vil mal "não dorme. É animal que se esconde para melhor medir o salto sobre a presa".
    E assim, a autora confunde-se com a divina providência, que tudo decide quando e como quiser :)
    Que sensação é essa Senhora, de ao menos uma vez, ter o poder de dar e tirar a vida, na ponta dos dedos?

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    1. Joaquim
      aos homens que pouco podem resta, julgo cada vez mais, o imaginário. Há muitos anos, numa outra vida - cada homem vive várias numa só -, pensava na força da vontade, no imperativo da escolha como elemento decisivo e incortornável para transformar a realidade. Hoje penso que o imaginário pode por vezes empurrar-nos para a mudança do real. E que, para além desse poder efectivo de alteração há um outro lado da imaginação, o da única omnipotência humana: que com palavras mata e cria, enche de tédio e rejubila, morre de amores e solta raivas. Mas é omnipotência tão pequena, quase risível. Dá pelo nome de sobrevivência:). Mas torna os impossíveis possíveis.

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  5. E aqui está um caso muito semelhante aos que ouvia o meu pai contar; muitos doentes voltavam dessas " boas criaturas " ( algumas eram e muito.. ) e passados dias, voltavam a definhar e lá partiam. Fiquei impressionada com a " consulta "da Viridiana e o que lá se passou é algo que nos ultrapassa, mas, a mim, faz-me acreditar que nem todas as " bruxas " são oportunistas; há em algumas e alguns um dom especial que a nossa humildade nos deve levar a aeitar que haja pessoas superiores a nós em muitos aspectos. Nunca fui a uma curandeira, nem tenciono ir, mas, se me visse desesperada , de certeza que " correria tudo" ...até promessas faria( nunca fiz nenhuma...) vamos lá ver o que acontece com a nossa protagonista; pelo menos, está a ter uns momentos felizes com o filho. Obrigada, Bea e uma bos semana, com SAÚDE! Beijinhos
    Emilia

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    1. Veridiana é uma protagonista secundária, Emília. Nem era para tomar tal proporção, mas admito que gosto dela e a deixei tomar conta da história em seu momento. Tenho alguma pena de a excluir, mas as histórias são como a vida, há nelas o "tem de ser".
      Verdade, que a saúde não nos falte.
      Um abraço

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  6. Até na vida há calma antes da tempestade.
    E é isso que pressinto.
    Boa semana

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  7. Eu também, Pedro. Muitos falam nas melhoras da morte.
    A morte é apenas um aceno do tempo.
    Boa semana, Pedro.

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  8. Sempre ouvi falar nas melhoras da morte, que vem sorrateira, com pezinhos de lã, dando alguma esperança para depois levar as vítimas no sono eterno.
    Boa semana, Bea

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    1. E existem. Seja lá pelo que for, existem. Se não em todos os casos, na maioria.

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  9. Bela descrição a do aproximar da borrasca. É mesmo assim quando o pressento. Será que a curandeira apenas suspendeu a tormenta de Veridiana? De tempestadas anda Jaime arredio, porque a idade tenra assim o pede, e Formosinho vai folgando por montes e vales.
    Às vezes, há fenómenos repentinos. Veremos, então. Não há pressa, Bea, porque a sua prosa chama.
    Um dia muito bom.

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    1. Não creio que sejam as personagens a ter pressa. Sou eu. Euzinha que não aprecio tristezas fundas e quero sair delas o quanto antes. Digamos que tenho andado a refrear-me para não encerrar a vida de Veridiana em dois parágrafos. Mas também por gostar dela :).

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  10. Muito para além daquilo que posso dizer das personagens, encanta-me esta forma de narrar que me faz entrar num mundo quase do passado, embora saiba que há personagens assim como estas hoje em dia. Que gosto que é ler o que escreve.
    Cuide-se bem.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. É um mundo de passado, sim, ainda que a história tenha começado no presente. Mas, sendo contada, o enredo existe, substancialmente, no passado. Um passado cada vez mais próximo.
      Quanto a escrever...que posso eu acrescentar a tão bela voz poética.
      Boa semana, Graça.

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  11. Sempre ouvir falar nessa questão, as melhoras da morte...
    Já presenciei. Nunca é fácil.
    Beijocas

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  12. N-ao será fácil, mas tudo que é alívio de sofrimento tem a nossa gratidão, Cláudia.

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