É
bastante o que distingue o homem do mundo natural. E muito o que os iguala. Azar e má
sorte humanos, parecem até, em certos casos, provir da fixidez determinista desse
fundo da natureza. Senão, veja-se o que
acontece quando uma tempestade está próxima. Primeiro o ar encrespa e invade,
apresta-se em forte azáfama, soprando a acastelar nuvens, espiralar folhas,
assustar a passarada que toca a recolher em farfalho de asas. Mas, quando a
atmosfera satura, nasce a calma nos elementos e um repasso de instintivo medo imobiliza
a bicharada nos abrigos. Cai sobre o mundo um repente de silêncio. Expectantes,
todas as forças se aquietam. Nem vento.
Nem chuva. Nem um pio ou murmúrio
de conversa por entre as folhas das árvores. Suspense. O mundo coalhou em
quietude e a Terra é ouvido atento, aberto ao rumor da tempestade que virá. Pronto
ao beijo e à raiva da água.
Ora
sucede, por vezes, o inexplicável tempo demorar-se também assim num estado
pessoal, espreguiçar-se nele e, gozando suavidades de maré baixa, atrasar a
mudança. Grata pelo interregno, Veridiana bendizia a virtude da curandeira e acoitava-se
de mãos postas à sombra do tempo rebolado e dormente, saboreando a trégua. E,
pensamento em Jaime, vinha-lhe a prece da mente à boca, faz que dure, faz que
dure. Mas o enganoso tempo imita a
tempestade. Não dorme. É fera que se esconde para melhor medir o salto.
Enquanto
isso, ancorado na ingénua certeza das virtudes humanas, o iludido Formosinho vivia os dias em dobro e entregava-se
ao negócio das vinhas com o vigor antigo. Olhando o desabrochar do seu rapaz, esquecia
velhos receios e reafirmava o propósito, que estude, de boa vontade troco as
vinhas por um trabalho limpo, fora do sufoco dos campos e da enxada.
Jaime,
esse, vivia quase inteiro no enlevo de si. Se acompanhava o pai, fazia-o de boa
mente e sem vaidade, mas imbuído de secreto orgulho, agradado do que lia nos olhos
de outrem. Mas era com a mãe que desvanecia. Talvez fosse laço de umbigo, coisa
de lhe andar nove meses nas entranhas. Preocupava-o a
palidez, a magreza, a tristura pontual que surpreendia em Veridiana. Vigiava-lhe as tomas de remédio
e a alimentação; obrigava-a a descansar no remanso penumbroso de quarto ou sala.
E alegrava-se dos sorrisos que lhe vinham, da forma como o apetite lhe voltava,
o pai em contraponto, agora arriba, pois se já não tem fastio. E distraía.
Pegava na bicicleta e corria colinas e planuras, visitava lugares e
memórias de infância deixando, em quem calhava de cruzar, um misto de inveja e
bem querer, como ele mudou, benza-o
Deus. Jaime era jovem, a ignorância fazia-o inocente.
Bom rapaz... este Jaime!!!
ResponderEliminarMais um bom momento de leitura! Bj
:))
EliminarBoa noite, Gracinha.
Sempre resultaram as artes da curandeira, Veridana a melhorar. :)
ResponderEliminarInfelizmente não tenho o dom de Gabriel Garcia Marquez que pegaria nesta curandeira e punha-a a curar tudo que lhe acudisse à memória, de crises de acne a cancros escancarados:). Ia de cabo a rabo.
ResponderEliminarPenso de quase certo que o caso de Veridiana não vai acabar bem. Contudo a Bea faz-nos este interregno, para vermos o filho medrar e nos dar - a nós, a ela e aos seus - a boa esperança.
ResponderEliminarA esperança e a espera que vão ser em vão, porquanto o vil mal "não dorme. É animal que se esconde para melhor medir o salto sobre a presa".
E assim, a autora confunde-se com a divina providência, que tudo decide quando e como quiser :)
Que sensação é essa Senhora, de ao menos uma vez, ter o poder de dar e tirar a vida, na ponta dos dedos?
Joaquim
Eliminaraos homens que pouco podem resta, julgo cada vez mais, o imaginário. Há muitos anos, numa outra vida - cada homem vive várias numa só -, pensava na força da vontade, no imperativo da escolha como elemento decisivo e incortornável para transformar a realidade. Hoje penso que o imaginário pode por vezes empurrar-nos para a mudança do real. E que, para além desse poder efectivo de alteração há um outro lado da imaginação, o da única omnipotência humana: que com palavras mata e cria, enche de tédio e rejubila, morre de amores e solta raivas. Mas é omnipotência tão pequena, quase risível. Dá pelo nome de sobrevivência:). Mas torna os impossíveis possíveis.
E aqui está um caso muito semelhante aos que ouvia o meu pai contar; muitos doentes voltavam dessas " boas criaturas " ( algumas eram e muito.. ) e passados dias, voltavam a definhar e lá partiam. Fiquei impressionada com a " consulta "da Viridiana e o que lá se passou é algo que nos ultrapassa, mas, a mim, faz-me acreditar que nem todas as " bruxas " são oportunistas; há em algumas e alguns um dom especial que a nossa humildade nos deve levar a aeitar que haja pessoas superiores a nós em muitos aspectos. Nunca fui a uma curandeira, nem tenciono ir, mas, se me visse desesperada , de certeza que " correria tudo" ...até promessas faria( nunca fiz nenhuma...) vamos lá ver o que acontece com a nossa protagonista; pelo menos, está a ter uns momentos felizes com o filho. Obrigada, Bea e uma bos semana, com SAÚDE! Beijinhos
ResponderEliminarEmilia
Veridiana é uma protagonista secundária, Emília. Nem era para tomar tal proporção, mas admito que gosto dela e a deixei tomar conta da história em seu momento. Tenho alguma pena de a excluir, mas as histórias são como a vida, há nelas o "tem de ser".
EliminarVerdade, que a saúde não nos falte.
Um abraço
Até na vida há calma antes da tempestade.
ResponderEliminarE é isso que pressinto.
Boa semana
Eu também, Pedro. Muitos falam nas melhoras da morte.
ResponderEliminarA morte é apenas um aceno do tempo.
Boa semana, Pedro.
Sempre ouvi falar nas melhoras da morte, que vem sorrateira, com pezinhos de lã, dando alguma esperança para depois levar as vítimas no sono eterno.
ResponderEliminarBoa semana, Bea
E existem. Seja lá pelo que for, existem. Se não em todos os casos, na maioria.
EliminarBela descrição a do aproximar da borrasca. É mesmo assim quando o pressento. Será que a curandeira apenas suspendeu a tormenta de Veridiana? De tempestadas anda Jaime arredio, porque a idade tenra assim o pede, e Formosinho vai folgando por montes e vales.
ResponderEliminarÀs vezes, há fenómenos repentinos. Veremos, então. Não há pressa, Bea, porque a sua prosa chama.
Um dia muito bom.
Não creio que sejam as personagens a ter pressa. Sou eu. Euzinha que não aprecio tristezas fundas e quero sair delas o quanto antes. Digamos que tenho andado a refrear-me para não encerrar a vida de Veridiana em dois parágrafos. Mas também por gostar dela :).
EliminarMuito para além daquilo que posso dizer das personagens, encanta-me esta forma de narrar que me faz entrar num mundo quase do passado, embora saiba que há personagens assim como estas hoje em dia. Que gosto que é ler o que escreve.
ResponderEliminarCuide-se bem.
Uma boa semana.
Um beijo.
É um mundo de passado, sim, ainda que a história tenha começado no presente. Mas, sendo contada, o enredo existe, substancialmente, no passado. Um passado cada vez mais próximo.
EliminarQuanto a escrever...que posso eu acrescentar a tão bela voz poética.
Boa semana, Graça.
Sempre ouvir falar nessa questão, as melhoras da morte...
ResponderEliminarJá presenciei. Nunca é fácil.
Beijocas
N-ao será fácil, mas tudo que é alívio de sofrimento tem a nossa gratidão, Cláudia.
ResponderEliminar