Dessa visita jurada e secreta à curandeira, conheceu Celestina a inteireza, mas sob condição de a desvelar apenas em tempo sem prejuízo. Foi assim que minha avó a conheceu e ma contou quando Jaime era já rapaz de futuro e por motivos que aqui virão. Porém, vai o leitor perdoar-me que, tomada de simpatias por esta personagem de ouvir contar, e não querendo baldear a sequência da história, siga viagem com Veridiana e seu consorte, os dois em meio a uma mortificada tristeza, cada um a disfarçando para animar o outro. Formosinho sabia tanto do estado grave da mulher como do que realmente a apoquentava. Bastara-lhe o desalentado meneio de cabeça do médico para entender que a ausência de saúde não era coisa temporária; e estava seguro que, sem pergunta ou conversa, Veridiana a sabia na pele e na mente. A mulher sucumbia ao irremediável sulco de doença que se expandia como veneno pelos interiores e a ia comendo, um sugadouro de alento e força. Feita um compressor, a dor impunha-se e, paulatina, ia asfixiando o tempo. Veridiana não necessitava confirmação da ciência. Ambos cientes do que a doente buscava em ânsias, da luz que ainda a iluminava. Mas seguiam mudos e como que descansados, fingindo-se em passeio natural.
A
viagem desembocou num cabeço soalheiro pontuado por casita com poço e rua de
vasculho. Na abastança de um damasqueiro exuberante, estacionavam táxis repletos
e dois automóveis-gaiola, demasiado cingidos aos ocupantes. No outro lado da rua, a
calma dos animais, um cão ensonado e a indiferença de duas ou três galinhas ciscando
na terra. Encostados na parede sombria da casa, os condutores de táxi conspiravam
novidades, rosto vermelho e manga arregaçada, o pulso esquerdo abraçado pela
malha elástica da bracelete do relógio. Resumiam as doenças que transportavam;
a boa estrela da curandeira que ali os trazia à quinzena, o táxi como um ovo para
embaratecer a viagem; a calma que se anunciava pela tarde abaixo e de que discutiam
a temperatura; agasturas e bondades de motor naqueles caminhos de bois.
Formosinho olhou-os, mirou o cão, as galinhas, a rua varrida. Tudo tão vulgar e
comezinho. Entrou-lhe uma descrença. Como é que um poder maior cabia em mãos de
vasculho e vivia debaixo de telha vã. Mas Veridiana que até ao fim o soube ler,
sentenciou, ficamos. E ele em mesura vocal, palavra de rei.
Para uns eram bruxas, para outras santinhas.
ResponderEliminarNormalmente tinham a casa abrigada na ladeira da aldeia.
A que eu imagino estava desenfiada, era sem companhia:).
ResponderEliminarBom dia!
ResponderEliminarFantástica descrição do 'cabeço soalheiro' com tantos visitantes e ao mesmo tempo. Parece uma sucessão de planos de um filme. Talvez neorrealista.
Na minha aldeia, também havia uma curandeira. Diziam-na bruxa. Nunca a vi 'debaixo da (sua) telha vã', mas eu achava estranho que tivesse os estranhos poderes quando ia à mercearia, ao lavadouro (dizíamos ribeiro), etc, como todas as outras mulheres.
Mas aguardemos, então, a vez do casal entrar. Se é que a narradora não lhe vai trocar as voltas. Se a curandeira lhe resolver as maleitas, tanto melhor. Se é que Veridiana não opta por outro caminho.
Um dia com boas histórias, Bea.
Nunca tive o privilégio de conhecer uma curandeira, mas imagino-as bem comuns e iguais à outra gente. Não consigo crer que façam milagres. Veridiana sabe o troço de caminho que a espera.
ResponderEliminarBoa tarde, Maria.
Se me permites a intromissão, Bea, gostaria aqui de lembrar o meu pai, já noutro lugar, infelizmente. Ele era taxista de aldeia, numa eopca em que havia, talvez três automóveis. Era ele que levava o povo para todo o lado, inclusive para as " curandeiras " ou bruxas como eram mais conhecidadas. Quendo a situação na minha aldeia começou a mudar ( hoje parece uma cidade...) a do meu pai também melhorou muito e deixou de ser taxista, mas sempre dizia, quando se falava neste assunto : " não acredito, nem deixo de acreditar, mas respeito muito, pois vi coisas impressionantes ". Lembro de muitas que ele contava e, como ele, comecei a respeitar. A mente humana é de uma complexidade tremenda e, na minha modesta opinião é essa mente que às vezes faz verdadeiros milagres. Então, esperemos para ver o que acontece com a Veridiana. Como lhe disse uma vez, venho cá todos os dias ler os seus escritos; hoje, resolvi deixar este apontamento em homenagem ao meu querido pai que partiu há 4 anos com 89 de idade. Um beijinho e SAÚDE para todos aí à sua volta. Boa noite
ResponderEliminarEmilia
Obrigada pelo comentário, Emília.
ResponderEliminarO que sinto em relação a essas mulheres e homens que plantavam réstias de esperança no coração da pobreza desiludida tem semelhança com a afirmação de seu pai. E é fora de dúvida que os respeito, se não encaixam nos chupistas, melífluos e grandes fingidores, vivendo à custa da desgraça alheia - que também os há. Mas disso darei notícia no próximo post. Quem escreve, em alguma parte escreve a seu favor ou contra si. É assim:)
Meu pai tem 88 anos e veio ver-me com suas histórias de antigamente, aquelas a que só eu presto atenção. Ele gosta de falar sobre o passado. Eu gosto de o ouvir.
Bem verdade, a pessoa que está à minha volta precisa de saúde, estou bastante ineficaz.
Bom dia, Emília.
Na minha aldeia ainda existe essa ideia de que se pode resolver muita coisa... eu não sei o que pensar!!! 🤔🤗... Bj Bea
ResponderEliminarTambém não sou pessoa de grandes certezas neste âmbito. Mas respeito a liberdade de cada um. E muito mais se é último reduto.
EliminarUm beijinho, Gracinha.
De tantas histórias de curandeiras, tenho a que aconteceu com o meu avô paterno.
ResponderEliminarEm criança um gato cegou-lhe um olho, tendo ficado completamente branco.
A sua mãe, minha bisavó, com uma mézinha conseguiu que a cor do olho voltasse, mas nunca a visão.
Olhando para ele, ninguém dizia que era cego duma vista.
Boa semana, Bea
Mas a sua avó não era curandeira, ou era? Mezinhas muita gente usa e pratica, Magui. Desde chás para isto e aquilo, ao uso de ervas e ingredientes mais depurados.
ResponderEliminarBoa semana, Magui.
Em desespero, as pessoas querem acreditar em milagres.
ResponderEliminarLuísa
ResponderEliminarTemos sempre de acreditar em algo, transcendente ou não; a descrença absoluta é suicida. A crença não resolve, mas torna mais suportável o caminho. Que a vida é mesmo como os alcatruzes da nora, uma vez em baixo, não é apenas um mal a afligir. Talvez o tempo seja o mesmo ou semelhante ao do bem que acontece, mas parece infinitamente mais longo por ser penoso e trazer desgosto. Viver comporta esta sequência implacável que para uns é mais acesa do que para outros e sem que qualquer tenha escolha. Uma roleta russa aquilo a que estamos sujeitos, Luísa. Mas sei, como tanta gente, saber de experiência feito, que tem o povo razão, uma desgraça nunca vem só. Pode crer que não. Destino, acaso ou o que seja, o ditado cumpre-se.
Bom dia e bom fim-de-semana.
Como dizia Umberto Eco n'O Pêndulo de Foucault, "...desde que os homens deixaram de acreditar em Deus, não é que já não acreditem em nada, acreditam é em tudo...".
ResponderEliminarAcho que já lhe contei que há uns anos atrás, por mor de uma crise aguda de hérnia discal e depois de muitas injeções e analgésicos, sugeriram-me que fosse a um "endireita" numa pequena vila rural nos arredores de Lisboa. O desconforto das dores era tanto que lá fui. Cena parecida com a que relata, fila à porta, taxis e carros em redor da casa. Perguntei o preço e disseram-me que cada um dava o que queria. O sujeito era um homem grande com umas mãos enormes e tinha como actividade principal (ou secundária) ser uma espécie de "veterinário" de cavalos, nas redondezas acudia a todos os chamamentos das quintas quando os equídeos enfermavam.
Bem, para abreviar, sei que entrei todo torto e saí quase direitinho. Voltei lá algumas vezes nos anos seguintes, até que da última achei estranho a falta de gente... o filho informou-me que tinha morrido e agora era ele que tomava conta do negócio. O que é certo Bea, pense-se e diga-se o que se quiser, o descendente não herdou o dom.
Bom fim-de-semana Bea e as suas melhoras.
Não li esse livro. Mas tenho para mim que existe gente com certo dom. Se não cura, alivia. Acredito que aliviem determinadas patologias. Tenho algumas dúvidas quanto a hérnias discais e estenoses em colunas jovens e com processo degenerativo. Ou casos de semelhante gravidade. Infelizmente, o mau não desiste e mantém-se em qualquer situação. Há coisas para que a força humana é incapaz. Resta sofrê-las.
ResponderEliminarMelhorei um bocadinho, Joaquim. Não sou o objecto das minhas preocupações senão porque as canadianas me condicionam a vida em demasia, estou velha para malabarismo tão impeditivo:).
Bom fim-de-semana, Joaquim. E obrigada pelos votos