A
viagem de volta foi para Formosinho um mar de projectos e sonhos. Ciente das
melhoras da mulher e desconhecendo os entremeios, regressava falando pelos
cotovelos, mais feliz que pobre beijado por lotaria bojuda. Celestina benzia-se
a vê-la descer do automóvel com modo despachado, como se a virtuosa, sem
procurar, tivesse encontrado a Veridiana de sempre e lha devolvesse. Atoleimada,
exclamava de si para si, alma ajoelhada e contrita, ai pela pureza da Senhora lá
de cima, a Verdiana voltou à maneira antiga, haja Deus que bem o merecia.
Não
tardou que a aldeia se incendiasse em loas à virtuosa; como cogumelos despontando
em pútridas humidades, nasceram histórias dos seus grandes milagres, redondas invenções
que o povo toma nas mãos para aligeirar a escusa vida que lhe cabe; e, qual
navalha de ponta e mola, saltou a inveja de alguns, têm tudo da sorte, até a
saúde, não há mal que lhes chegue.
Entretanto,
Jaime que partira adolescente, pernas e braços de interdição, um disparate no
comprimento dos sapatos, todo dentes e olhos, chegou outro. Existe em cada ser
humano uma fase de beleza incólume e primordial. Plenitude sem data, a uns surge
na infância; a outros na velhice; a estes na juventude; àqueles na idade
madura; a muitos, no início da adultícia; e alguns usufruem dela na puberdade e
adolescência. Jaime - posso dizê-lo com segurança porque fui presente aos anos
finais dessa beleza natural - gozou-a no pegar da adolescência à idade adulta
que era, então, aos vinte e um anos. A beleza do garoto-homem impressionava não
pela desmesura (em falta), mas pelo apuro ocorrido no que antes eram defeitos.
Uma larva mudada em borboleta. As pernas e os braços de antes, apenas menos
angulosos, tinham deixado de embirrar com o tronco. Passeava-lhe no corpo uma
harmonia insuspeita, como se a anterior balbúrdia
de notas dissonantes se apresentasse agora unida e conjugada, constituindo
a melodia a que qualquer corpo tem direito. Por exemplo, os pés deixaram de ser
objecto de reparos, ainda que não tivessem minguado. E o rosto como que assumira
a proporção final, os redondos de infância fora de combate. O nariz afilara e
os olhos fundos, enrameados e escurecidos de pestanas, agradavam até às mais
acintosas opinadoras que deles diziam, “bonitos olhos”. Quanto aos dentes,
perguntavam-se as hostes femininas onde teriam a cabeça, pois, se acontecia
Jaime passar e saudá-las, agradavam-se do sorriso brando e, Deus lhes
perdoe, ficavam a pensar em coisas que não vale a pena, para já, firmar em
letra.
Posso dar-lhe um conselho?
ResponderEliminarPublique os seus contos.
São uma delícia.
Bfds
não julgo que valham a pena, Pedro. há tanta gente a escrever...diria que demasiada para o número de leitores.
ResponderEliminarboa noite.
A descrição física de Jaime termina por uma insinuação de natureza mais intimista, numa afirmação do seu impacto sobre o sexo oposto.
ResponderEliminarAbraço amigo.
Juvenal Nunes
As borboletas são tão breves como atraentes, não é mesmo Juvenal.
EliminarTenha um dia bom e melhor fim de semana.
Que alívio ver que Veridiana voltou Verdiana. Obra da virtuosa? Estou em crer que sim, porque isto de crer ou não querer crer tem muito que se lhe diga. E gostei da inveja das vizinhas, picante e sorrateira.
ResponderEliminarQue maravilhosa descrição física de Jaime. O antes e o depois num corpo só. E nem os dentes escaparam. E o suspense maroto do final também é excelente.
Parabéns, Bea, por mais uma página perfeita.
Um dia muito bom.
P.S. Também concordo com o Pedro Coimbra.
Sorry, Maria. A resposta foi cair ali em baixo:)
Eliminar"Uma larva tornada borboleta", acontece assim mesmo, embora a fase de "transição" seja às vezes muito desengraçada e até dolorosa. Publique sim, se não se estiver para chatear com editoras e pareceres, faça uma edição de autor, hoje são baratas e fica como um legado seu, nem que seja para os mais próximos e aqui os fãs do blogue.
ResponderEliminar~CC~
Não, CC. O meu caminho não é o das edições. E muito menos as de autor. A minha prosa é para se perder mesmo, como se perdem tantas coisas na vida. O que conservo é o gosto da escrita. Nunca desejei ter livros meus e continuo a julgar que também o mundo vive bem sem eles.
EliminarÉ verdade, a transição da larva para a borboleta pode ser dolorosa. Vale serem dores que depressa passam, esvanecem.
Boa noie, CC. Bom fim de semana.
A morte entrelaça na vida e os seres pagam uns aos outros pena, como dizia Anaximandro. Por destino ou condição, a mãe desce e Jaime sobe; a uma chegou o tempo de encerrar o percurso, ao outro o de o traçar. E eu sou um deus a destiná-los:).
ResponderEliminarBom dia, Maria. E que o fim de semana seja do seu agrado.
Quando a sua crónica me chega, geralmente pela manhã, leio-a rapidamente - sou demasiado impaciente para não o fazer.
ResponderEliminarDepois volto a lê-la do princípio - desta vez mais devagar, para poder interiorizar e saboreá-la - e à medida que vou lendo, vou tecendo mentalmente o comentário que deposito na sua janela.
E assim, a dois tempos, permaneço inebriado, afastado de tudo e de todos, o que não é difícil porque geralmente o faço sentado à mesa do café, somente com a chávena da bica por companhia.
Este pequeno prazer, hoje levou-me por outros caminhos, por isso, sente-se aqui comigo um bocadinho e enquanto esperamos pelo seu café com leite, escurinho, conte-me lá como foi - porque eu só consigo imaginar - com a veia para a escrita que se lhe reconhece, a felicidade do seu amado, naquele tempo, ao abrir a caixa do correio e se deparar com carta sua.
As suas melhoras Bea.
A minha sexta feira foi ontem, Joaquim. Por vezes, como sabe, urge encurtar as semanas e aproximar os dias que me são benéficos.
EliminarGostei do como de me ler. Em dois momentos distintos. Bondade sua, Joaquim. A que sou grata. É um pequeno prazer ter alguém que passa os olhos sobre os meus rabiscos e se dá ao trabalho de comentá-los. Pode crer. Os comentários são hipótese de conversa à distância, linhas para o mundo.
Quanto às cartas... a gente só sabe o que sente e tenta pôr em letra corrida. As cartas, mal as expedimos, deixam de ser apenas nossas:). E nem fazem muito sentido se perdem um dos intervenientes.
Um abraço e, de caminho, votos de bom fim de semana.
Adorei a frase "larva mudada em borboleta"...
ResponderEliminarE fico feliz pela Verdiana =)
Bjs
Há felicidades pequeninas que sabem muito bem, não é, Cláudia.
ResponderEliminarBom fim de semana.
Realmente a descrição física impressiona pelas características tão interessantes que o caracteriza!
ResponderEliminarVenha daí a publicação de tão agradável leitura!!!
Bj
Boa noite, Gracinha. A adolescência tem destas avarias, o corpo não cresce todo ao mesmo tempo, o que chateia um bocadinho os próprios.
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