quinta-feira, 22 de julho de 2021

Sombra Chinesa

 

A viagem de volta foi para Formosinho um mar de projectos e sonhos. Ciente das melhoras da mulher e desconhecendo os entremeios, regressava falando pelos cotovelos, mais feliz que pobre beijado por lotaria bojuda. Celestina benzia-se a vê-la descer do automóvel com modo despachado, como se a virtuosa, sem procurar, tivesse encontrado a Veridiana de sempre e lha devolvesse. Atoleimada, exclamava de si para si, alma ajoelhada e contrita, ai pela pureza da Senhora lá de cima, a Verdiana voltou à maneira antiga, haja Deus que bem o merecia.

Não tardou que a aldeia se incendiasse em loas à virtuosa; como cogumelos despontando em pútridas humidades, nasceram histórias dos seus grandes milagres, redondas invenções que o povo toma nas mãos para aligeirar a escusa vida que lhe cabe; e, qual navalha de ponta e mola, saltou a inveja de alguns, têm tudo da sorte, até a saúde, não há mal que lhes chegue.

Entretanto, Jaime que partira adolescente, pernas e braços de interdição, um disparate no comprimento dos sapatos, todo dentes e olhos, chegou outro. Existe em cada ser humano uma fase de beleza incólume e primordial. Plenitude sem data, a uns surge na infância; a outros na velhice; a estes na juventude; àqueles na idade madura; a muitos, no início da adultícia; e alguns usufruem dela na puberdade e adolescência. Jaime - posso dizê-lo com segurança porque fui presente aos anos finais dessa beleza natural - gozou-a no pegar da adolescência à idade adulta que era, então, aos vinte e um anos. A beleza do garoto-homem impressionava não pela desmesura (em falta), mas pelo apuro ocorrido no que antes eram defeitos. Uma larva mudada em borboleta. As pernas e os braços de antes, apenas menos angulosos, tinham deixado de embirrar com o tronco. Passeava-lhe no corpo uma harmonia insuspeita, como se  a anterior balbúrdia de notas dissonantes se apresentasse agora unida e conjugada, constituindo a melodia a que qualquer corpo tem direito. Por exemplo, os pés deixaram de ser objecto de reparos, ainda que não tivessem minguado. E o rosto como que assumira a proporção final, os redondos de infância fora de combate. O nariz afilara e os olhos fundos, enrameados e escurecidos de pestanas, agradavam até às mais acintosas opinadoras que deles diziam, “bonitos olhos”. Quanto aos dentes, perguntavam-se as hostes femininas onde teriam a cabeça, pois, se acontecia Jaime passar e saudá-las, agradavam-se do sorriso brando e, Deus lhes perdoe, ficavam a pensar em coisas que não vale a pena, para já, firmar em letra.

15 comentários:

  1. Posso dar-lhe um conselho?
    Publique os seus contos.
    São uma delícia.
    Bfds

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  2. não julgo que valham a pena, Pedro. há tanta gente a escrever...diria que demasiada para o número de leitores.
    boa noite.

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  3. A descrição física de Jaime termina por uma insinuação de natureza mais intimista, numa afirmação do seu impacto sobre o sexo oposto.
    Abraço amigo.
    Juvenal Nunes

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    1. As borboletas são tão breves como atraentes, não é mesmo Juvenal.
      Tenha um dia bom e melhor fim de semana.

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  4. Que alívio ver que Veridiana voltou Verdiana. Obra da virtuosa? Estou em crer que sim, porque isto de crer ou não querer crer tem muito que se lhe diga. E gostei da inveja das vizinhas, picante e sorrateira.
    Que maravilhosa descrição física de Jaime. O antes e o depois num corpo só. E nem os dentes escaparam. E o suspense maroto do final também é excelente.
    Parabéns, Bea, por mais uma página perfeita.
    Um dia muito bom.
    P.S. Também concordo com o Pedro Coimbra.

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  5. "Uma larva tornada borboleta", acontece assim mesmo, embora a fase de "transição" seja às vezes muito desengraçada e até dolorosa. Publique sim, se não se estiver para chatear com editoras e pareceres, faça uma edição de autor, hoje são baratas e fica como um legado seu, nem que seja para os mais próximos e aqui os fãs do blogue.
    ~CC~

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    1. Não, CC. O meu caminho não é o das edições. E muito menos as de autor. A minha prosa é para se perder mesmo, como se perdem tantas coisas na vida. O que conservo é o gosto da escrita. Nunca desejei ter livros meus e continuo a julgar que também o mundo vive bem sem eles.
      É verdade, a transição da larva para a borboleta pode ser dolorosa. Vale serem dores que depressa passam, esvanecem.
      Boa noie, CC. Bom fim de semana.

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  6. A morte entrelaça na vida e os seres pagam uns aos outros pena, como dizia Anaximandro. Por destino ou condição, a mãe desce e Jaime sobe; a uma chegou o tempo de encerrar o percurso, ao outro o de o traçar. E eu sou um deus a destiná-los:).
    Bom dia, Maria. E que o fim de semana seja do seu agrado.

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  7. Quando a sua crónica me chega, geralmente pela manhã, leio-a rapidamente - sou demasiado impaciente para não o fazer.
    Depois volto a lê-la do princípio - desta vez mais devagar, para poder interiorizar e saboreá-la - e à medida que vou lendo, vou tecendo mentalmente o comentário que deposito na sua janela.
    E assim, a dois tempos, permaneço inebriado, afastado de tudo e de todos, o que não é difícil porque geralmente o faço sentado à mesa do café, somente com a chávena da bica por companhia.
    Este pequeno prazer, hoje levou-me por outros caminhos, por isso, sente-se aqui comigo um bocadinho e enquanto esperamos pelo seu café com leite, escurinho, conte-me lá como foi - porque eu só consigo imaginar - com a veia para a escrita que se lhe reconhece, a felicidade do seu amado, naquele tempo, ao abrir a caixa do correio e se deparar com carta sua.
    As suas melhoras Bea.

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    1. A minha sexta feira foi ontem, Joaquim. Por vezes, como sabe, urge encurtar as semanas e aproximar os dias que me são benéficos.
      Gostei do como de me ler. Em dois momentos distintos. Bondade sua, Joaquim. A que sou grata. É um pequeno prazer ter alguém que passa os olhos sobre os meus rabiscos e se dá ao trabalho de comentá-los. Pode crer. Os comentários são hipótese de conversa à distância, linhas para o mundo.
      Quanto às cartas... a gente só sabe o que sente e tenta pôr em letra corrida. As cartas, mal as expedimos, deixam de ser apenas nossas:). E nem fazem muito sentido se perdem um dos intervenientes.
      Um abraço e, de caminho, votos de bom fim de semana.

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  8. Adorei a frase "larva mudada em borboleta"...
    E fico feliz pela Verdiana =)

    Bjs

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  9. Há felicidades pequeninas que sabem muito bem, não é, Cláudia.
    Bom fim de semana.

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  10. Realmente a descrição física impressiona pelas características tão interessantes que o caracteriza!
    Venha daí a publicação de tão agradável leitura!!!
    Bj

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  11. Boa noite, Gracinha. A adolescência tem destas avarias, o corpo não cresce todo ao mesmo tempo, o que chateia um bocadinho os próprios.

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