segunda-feira, 19 de julho de 2021

Sombra Chinesa

 

         No ramerrão de calor amodorrado, ficaram horas em espera. Assistiram primeiro ao aumento de automóveis e táxis que, só mais tarde, pela torrina do sol, começaram a debandar. De tempos a tempos, um ruído de motor que se afastava sacudia a inércia da paisagem anestesiada de sol, o insólito movimento da viatura a minguar nos olhos até ser devorado por uma nuvem de poeira na curva da estrada. E os que saíam e tinham sido próximos à palidez de Veridiana, que na desgraça o povo é um, vinham debruçar-se ao vidro traseiro de onde a mulher  os inquiria sem palavra, um fio de esperança a espreitar-lhes na voz, qual pássaro que teme o próprio canto, vamos lá ver, gostei, mas vamos a ver. E Veridiana crescia no seu propósito. No interior da casa, inacessível às vicissitudes da espera, a virtuosa mantinha o ritmo.  Ajudada pelo marido, Veridiana derramara-se no banco traseiro e o afogueado Formosinho, agora junto dos condutores, parlamentava sobre os pequenos nadas que emperram os dias. Agia como se a desgraça não mexesse com ele, que um homem, quando não tem por onde, vira-se para o quotidiano, empenha-se no hábito e atola num  pontilhado de ocupações, finge que a conta dos dias corre toda por igual. O pensamento luta por se reinstalar na segurança passada e toma o quotidiano como senha de acesso. Ilusão voluntária do eu a quem não basta saber que maleita e saúde, tristeza e alegria, são estados transitórios e cada um os vive a seu modo. Ao invés, a fuga de Formosinho quer esquecer a eternidade que o presente comporta em sofrimento e amargura, e de que só o homem tem experiência. E adiar a dor.

         Quando, enfim, lhe chegou a vez e Veridiana entrou amparada pelo marido, não a viu. Doída e ofuscada de sol, evoluía na penumbra desejando tão só um arrimo onde pousar a moléstia do corpo. Mau grado o desconforto, mais sentiu do que ouviu a voz pausada, sente-a nesta cadeira bem em frente a mim e saia por favor, o meu encontro é com a doente. Já sentada, deu pela porta a fechar e começou, gradualmente, a distinguir o que a rodeava: o que primeiro fora vulto amorfo ia-se aperfeiçoando em nitidez. Na sua frente, uma mulher, talvez entre os trinta e os quarenta, cabelo apertado em rabo de cavalo, testa ampla e roupa escura. Ocupada a mirá-la. Atenta. Coalharam-se-lhe as palavras. Azedaram na garganta. Fácil foi sustentar-lhe o olhar. Fácil, como no tempo em que lhe apetecia correr e corria. Deixou-se ficar em silêncio, imaginando-se liberta na claridade dos campos que ladeavam o Monte do Cortiço. Então, a curandeira levantou-se, pousou-lhe uma mão no ombro a sossegar temores, e disse naturalmente, os meus poderes não chegam para a cura, a senhora sabe que está muito doente. Mas posso dar-lhe uns dias de conforto. Vou pôr-lhe as mãos sobre a cabeça, não receie, não a toco. Mas respeite o que faço sem interromper. Veridiana observava. A mulher estendeu os braços e, mãos abertas e palmas viradas para baixo, aproximou-se. Logo que as colocou a cerca de um palmo da cabeça da doente, fechou os olhos. Veridiana viu-lhe a testa a perlar de suor,  gotas minúsculas que engrossavam como se carregasse grande peso. Aos poucos, sentiu a dor a ir embora. Porém, na proporção em que a dor esvanecia, a mulher, tremendo de esforço,  suava em bica, regos de suor em escorredouro cara abaixo, coisa de dar dó. Estiveram assim conectadas, talvez entre cinco e dez minutos. Quando a virtuosa retirou as mãos, a leveza de Veridiana media-se no cansaço exaurido da mulher. Quis agradecer, mas a curandeira tornou com voz ténue, não volte, não posso fazer mais por si. E diga lá fora que hoje não consigo ver mais ninguém.

16 comentários:

  1. Confesso que sou fraquíssimo a comentar texto em prosa. Mas, confesso, que gosto muito de ler os textos que escreve
    Cumprimentos

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  2. Pronto. Está perdoado, Ricardo. Confessou:). Se foi sincero, não garanto. Mas prefiro acreditar.
    Boa noite.

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  3. Este capítulo foi o meu favorito até agora.
    As mézinhas, a curandice, a bruxaria, que todos os que viveram em aldeia ouviram falar.

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  4. Mas nem todos tiveram, nos tantos curandeiros que existiram, a mesma sorte. Como em tudo, ou mais que em tudo o restohá muito brilho falso a luzir por aí.
    Bom dia, Pedro.

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  5. Bolas Bea, eriçaram-se-me os pelos, senti-o como um exorcismo... e diga lá fora que hoje não consigo ver mais ninguém.

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    1. :). Não contei nada de assustador, Joaquim.
      Boa noite.

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  6. Ai, Bea, que, com o seu texto, eu parecia estar a assistir àqueles minutos de conexão tão estranha e tão extrema entre Veridiana e a vidente.
    Realmente 'yo no creo en brujas, pero que las hay las hay'.
    No que acredito, sem dúvida, é na capacidade de escrever e de contar. Esse dom, Bea, está em si.
    Uma boa noite e continue a partilhar estas belíssimas 'Sombras Chinesas'. Obrigada.

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  7. A sua escrita dava uma interessante série
    Bom dia, Bea

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  8. Muito bom... Adoro cada pormenor.
    Tenho que pôr a leitura toda em dia =D

    Beijocas

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  9. Já não vinha ao teu blog há tempos e tinha saudades. A série Sombra Chinesa está num ponto que me deixa água na boca. Li e reli os vários episódios. Sensacional, não só a maneira literária como descreves os tempos de outrora, no país rural, mas também o suspense que consegues criar.

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  10. :) prosa tu tens o dom de aproveitar de cada um o melhor que tem. Oxalá o mundo te copiasse. Obrigada.
    Um beijinho.

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  11. Este texto lembrou-me uns episódios que a minha mãe e avó contavam. E perante estas descrições eu penso: quem sou eu para duvidar? Quem sou eu para não acreditar que algumas pessoas têm poderes diferentes e que os podem utilizar para o bem...ou para o mal?
    Esta "Viridiana", pelo menos, ficou mais aliviada...

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