No ramerrão de calor amodorrado, ficaram
horas em espera. Assistiram primeiro ao aumento de automóveis e táxis que, só
mais tarde, pela torrina do sol, começaram a debandar. De tempos a tempos, um
ruído de motor que se afastava sacudia a inércia da paisagem anestesiada de sol,
o insólito movimento da viatura a minguar nos olhos até ser devorado por uma
nuvem de poeira na curva da estrada. E os que saíam e tinham sido próximos à
palidez de Veridiana, que na desgraça o povo é um, vinham debruçar-se ao vidro
traseiro de onde a mulher os inquiria
sem palavra, um fio de esperança a espreitar-lhes na voz, qual pássaro que teme
o próprio canto, vamos lá ver, gostei, mas vamos a ver. E Veridiana crescia no
seu propósito. No interior da casa, inacessível às vicissitudes da espera, a
virtuosa mantinha o ritmo. Ajudada pelo
marido, Veridiana derramara-se no banco traseiro e o afogueado Formosinho,
agora junto dos condutores, parlamentava sobre os pequenos nadas que emperram
os dias. Agia como se a desgraça não mexesse com ele, que um homem, quando não
tem por onde, vira-se para o quotidiano, empenha-se no hábito e atola num pontilhado de ocupações, finge que a conta dos
dias corre toda por igual. O pensamento luta por se reinstalar na segurança passada
e toma o quotidiano como senha de acesso. Ilusão voluntária do eu a quem não
basta saber que maleita e saúde, tristeza e alegria, são estados transitórios e
cada um os vive a seu modo. Ao invés, a fuga de Formosinho quer esquecer a
eternidade que o presente comporta em sofrimento e amargura, e de que só o
homem tem experiência. E adiar a dor.
Quando, enfim, lhe chegou a vez e Veridiana entrou amparada pelo marido, não a viu. Doída e ofuscada de sol, evoluía na penumbra desejando tão só um arrimo onde pousar a moléstia do corpo. Mau grado o desconforto, mais sentiu do que ouviu a voz pausada, sente-a nesta cadeira bem em frente a mim e saia por favor, o meu encontro é com a doente. Já sentada, deu pela porta a fechar e começou, gradualmente, a distinguir o que a rodeava: o que primeiro fora vulto amorfo ia-se aperfeiçoando em nitidez. Na sua frente, uma mulher, talvez entre os trinta e os quarenta, cabelo apertado em rabo de cavalo, testa ampla e roupa escura. Ocupada a mirá-la. Atenta. Coalharam-se-lhe as palavras. Azedaram na garganta. Fácil foi sustentar-lhe o olhar. Fácil, como no tempo em que lhe apetecia correr e corria. Deixou-se ficar em silêncio, imaginando-se liberta na claridade dos campos que ladeavam o Monte do Cortiço. Então, a curandeira levantou-se, pousou-lhe uma mão no ombro a sossegar temores, e disse naturalmente, os meus poderes não chegam para a cura, a senhora sabe que está muito doente. Mas posso dar-lhe uns dias de conforto. Vou pôr-lhe as mãos sobre a cabeça, não receie, não a toco. Mas respeite o que faço sem interromper. Veridiana observava. A mulher estendeu os braços e, mãos abertas e palmas viradas para baixo, aproximou-se. Logo que as colocou a cerca de um palmo da cabeça da doente, fechou os olhos. Veridiana viu-lhe a testa a perlar de suor, gotas minúsculas que engrossavam como se carregasse grande peso. Aos poucos, sentiu a dor a ir embora. Porém, na proporção em que a dor esvanecia, a mulher, tremendo de esforço, suava em bica, regos de suor em escorredouro cara abaixo, coisa de dar dó. Estiveram assim conectadas, talvez entre cinco e dez minutos. Quando a virtuosa retirou as mãos, a leveza de Veridiana media-se no cansaço exaurido da mulher. Quis agradecer, mas a curandeira tornou com voz ténue, não volte, não posso fazer mais por si. E diga lá fora que hoje não consigo ver mais ninguém.
Confesso que sou fraquíssimo a comentar texto em prosa. Mas, confesso, que gosto muito de ler os textos que escreve
ResponderEliminarCumprimentos
Pronto. Está perdoado, Ricardo. Confessou:). Se foi sincero, não garanto. Mas prefiro acreditar.
ResponderEliminarBoa noite.
Este capítulo foi o meu favorito até agora.
ResponderEliminarAs mézinhas, a curandice, a bruxaria, que todos os que viveram em aldeia ouviram falar.
Mas nem todos tiveram, nos tantos curandeiros que existiram, a mesma sorte. Como em tudo, ou mais que em tudo o restohá muito brilho falso a luzir por aí.
ResponderEliminarBom dia, Pedro.
Fabulous blog
ResponderEliminarBolas Bea, eriçaram-se-me os pelos, senti-o como um exorcismo... e diga lá fora que hoje não consigo ver mais ninguém.
ResponderEliminar:). Não contei nada de assustador, Joaquim.
EliminarBoa noite.
Ai, Bea, que, com o seu texto, eu parecia estar a assistir àqueles minutos de conexão tão estranha e tão extrema entre Veridiana e a vidente.
ResponderEliminarRealmente 'yo no creo en brujas, pero que las hay las hay'.
No que acredito, sem dúvida, é na capacidade de escrever e de contar. Esse dom, Bea, está em si.
Uma boa noite e continue a partilhar estas belíssimas 'Sombras Chinesas'. Obrigada.
Boa noite, Maria.
ResponderEliminarA sua escrita dava uma interessante série
ResponderEliminarBom dia, Bea
Retalhos da vida numa aldeia, Magui.
EliminarMuito bom... Adoro cada pormenor.
ResponderEliminarTenho que pôr a leitura toda em dia =D
Beijocas
Bom dia, Cláudia. E seja bem aparecida.
EliminarJá não vinha ao teu blog há tempos e tinha saudades. A série Sombra Chinesa está num ponto que me deixa água na boca. Li e reli os vários episódios. Sensacional, não só a maneira literária como descreves os tempos de outrora, no país rural, mas também o suspense que consegues criar.
ResponderEliminar:) prosa tu tens o dom de aproveitar de cada um o melhor que tem. Oxalá o mundo te copiasse. Obrigada.
ResponderEliminarUm beijinho.
Este texto lembrou-me uns episódios que a minha mãe e avó contavam. E perante estas descrições eu penso: quem sou eu para duvidar? Quem sou eu para não acreditar que algumas pessoas têm poderes diferentes e que os podem utilizar para o bem...ou para o mal?
ResponderEliminarEsta "Viridiana", pelo menos, ficou mais aliviada...