Veridiana
não era de igrejas e nem aparecia aos domingos no adro. Jaime nunca fora de
anjinho nas procissões, mas era batizado e não o impediram de frequentar a
catequese para não sentir diferença dos colegas. Uma vez por outra, se
calhava passar por perto, a menina Verdiana entrava na igreja da aldeia, molhava
os dedos na cândida concha de água benta que se oferecia na entrada e persignava-se.
De seguida, avançava para um dos bancos corridos na parte traseira e sentava-se
a meditar na vida. Ou, quem sabe, perdia-se em mudas confidências com o divino. Na frente, privilegiados e próximos
ao altar, os genuflexórios personalizados das senhoras marcavam a distinção. Luziam
almofadinhas fofas e debruadas a gosto, evitando a mágoa dos joelhos na madeira
nua. Em hora de consagração, “meu Senhor e meu Deus”, preconizado em batom e
meia de vidro, um halo de beleza nos desenhos do véu sobre a laca dos cabelos e
as pálpebras castamente descidas, o corpo de Cristo era adorado em submissão e mistério de mundo separado.
No anteparo, repousava, encadernado, o missal de cada uma. Durante a liturgia,
as luvas de pelica descansavam vizinhas do livro sagrado, em delicadeza
afunilada e feminina a que a mala de mão
dava um toque de refinamento. As duas filas da frente tinham das restantes,
armadas de bancos corridos, um abismo de distância não confirmado pelo metro
padrão, mas que o olhar abarcava. Eram outro mundo.
Mas Veridiana sabia que a vida não se
compadece e aporta desgosto a ricos e pobres. A memória trazia-lhe com
frequência a manhã em que encontrou no genuflexório a senhora da Herdade de
Montes Azuis. Estava ela tão imersa e
concentrada no desgosto que lhe corria cara abaixo, lábios movendo-se em prece
ou desabafo, que se alheou da presença estranha, tudo o que havia era ela e
Deus. E Veridiana, que se aproximava do altar para ofertar uma flor ao
santíssimo, desistiu: sentia-se testemunha involuntária de um desgosto,
invasora de intimidade. Comovida e penalizada, saiu pé ante pé, flor na mão.
Pasma e irmanada naquele sofrer insuspeito e para que ninguém tem defesas
seguras.
Antes de Jaime chegar, Veridiana tentou toda a protecção, bateu a muita porta. Quando a vida se nos furta não se olha aos braços que nos abrigam, basta-nos que o façam. Nesta conjuntura ainda insuspeita, viram-na entrar na igreja com um círio comprido como quem cumpre promessa e negoceia favores, “ofereço um círio do meu tamanho”, “pago-te um círio de metro”, “acendo-te o maior círio que haja na venda”. Quando saiu, logo a gente acorreu à igreja e espreitou. Lá estava, aceso e a consumir-se junto ao Santíssimo. E concluíram, aquilo é promessa que devia, coitadinha; veio pagá-la, que as almas penadas não descansam nem deixam descansar. É que, se não haja quem lhes pague as promessas feitas em vida, ficam sem eira nem beira, penando sem destino. E acrescentavam condoídas, aquilo é que ela gosta do Formosinho, não quer ficar a apoquentá-lo.
Mas a hora faz o ladrão e o crente. E a hora era de medidas drásticas. Veridiana manteve o propósito e nem a indulgente Celestina, que já a envolvia em maternais cuidados, lhe entendeu a necessidade de uma luz última quando se achegou a pedir o endereço da curandeira mais falada, mulher que, dizia-se à boca cheia, sarara isto e mais aquilo só pela imposição das mãos. Podia lá ser, a Verdiana não era mulher de crendices, não embarcava em balelas. Mas Veridiana estava firme na ideia de tudo tentar, tenho de a visitar, pois então, vincava peremptória, uma febre no olhar. E sem acrescentar, auxiliada por Formosinho e ausente de receios, rumou à virtuosa.
Bom dia, Bea.
ResponderEliminarPois é, a leitura do seu texto levou-me a igrejas da minha infância onde havia os mesmos adereços e se viam os mesmos hábitos e, até diria, as mesmas pessoas. A sua forma de os descrever e os integrar na história é que é de grande mestria. Maravilha.
Vejamos, então, se Celestina ajuda na cura e a encontrar a curandeira.
Bea, um dia bom.
Não me parece que Veridiana almeje a cura, há um tempo em que as pessoas se abandonam à má sorte que as derrota. O corre corre dela é outro. Nas aldeias como nas cidades, com mais ou menos luxo, mais ou menos pobreza, o povo não tinha ordem de mistura com a abastança. É que nem proximidades. Também julgo que as não desejasse, a distância era demasiado grande para poder ser confortável.
EliminarObrigada pelas palavras em flor de que rodeou o meu texto. Que o fim de semana lhe sorria.
O que se passará na visita à curandeiro! Não acredito neste género de cura mas respeito a escolha!
ResponderEliminar👏👏👏... Bj
... curandeira... 🙄
EliminarPerdido por um, perdido por cem, Gracinha. E por acaso acha que Veridiana, como a conhecemos, seria mulher de acreditar em crendices? O que for, soará.
EliminarJá William James dizia que o desespero do homem é a oportunidade de Deus. Mas esta sua frase que retive, "Quando a vida se nos furta não se olha aos braços que nos abrigam" vai mais além, e eu não podia estar mais de acordo pois, quem já passou por momentos de aflição e impotência, sabe bem avaliar.
ResponderEliminarPois a senhora, depois de um dia de grande azáfama e canseira na limpeza e pintura de exteriores, ainda arranjou um bocadinho para, com o talento que lhe foi dado (e melhor é não perguntar por quem, na grande dúvida que a resposta encerra), nos deixar mais um capítulo deste belíssimo conto.
E desenganem-se os que pensam que são primícias tardias de autor, antes fruta madura que há muito pedia vindima.
Um bom dia de descanso Bea, mas como hoje é sexta-feira, não sei não...
William James tinha em grande parte razão, a quem nos havemos de ater quando o poder dos homens fracassa. Embora, a título pessoal, um Deus seja sempre presente, no bom, no mau, no duvidoso e assim-assim. Pois. Descanso à sexta é mentira, Joaquim. Hoje é mesmo um dia cheio. Um dos meus meninos ao almoço, outro ao jantar. E mais o que é de costume. E parece que lá se vai o bom tempo, andei eu a matar a cabeça à cata de chapéus e calções e toalhas para o infante ir até à praia...e nada. Pobrezito. Mas pronto, tem a trouxa aviada:).
ResponderEliminarNão entendi bem essa vindima de que fala. Sendo da história, olhe, vamos andando.
A sua intuição é algo rara, andei mesmo em pinturas no exterior.
E como este fim de semana é também raro, sou capaz de me ausentar e deixar a janela aberta a quem passe.
Divirta-se, Joaquim.
Texto de inegável valor literário.
ResponderEliminarAbraço amigo.
Juvenal Nunes
Obrigada, Juvenal.
EliminarBom dia e boa semana.
O azar quando chega não escolhe classes sociais. A Veridiana quis estar a sós com ela ou com Deus. Mas por que não tentar tudo? Que narrativa extraordinária!
ResponderEliminarCuide-se bem.
Um beijo.
Não é uma narrativa extraordinária, mas o meu modo de dizer o que sentem as pessoas que sabem a morte por perto e lhe resistem como podem, mais pelos outros que por si mesmas.
EliminarUm abraço e boa semana, Graça.
Na igreja ou fora dela, com mais ou menos fé, a este ou àquele Deus, até a nenhum, mas julgo não haver quem não se entregue uma ou outra vez ao transcendente.
ResponderEliminarConcordo, Luísa. Tive um professor que era padre e acerca do filósofo positivista Comte, sorria e dizia entender a razão por que ele - Comte - tratava a mulher por quem se apaixonara por Saint Clotilde. Talvez o transcendente nos more como última esperança dado que supõe um prolongamento da vida, essa dádiva tão suprema que nos é dada com a mesma surpresa com que é retirada.
EliminarQuando se tenta TUDO e se está disposto a TUDO.
ResponderEliminarDefinição perfeita de desespero.
Boa semana
A vida traz consigo um impulso de conservação. Talvez se chame desespero, mas não é um tresloucamento da mente, antes uma espécie de obrigação que leva a pôr de lado princípios antes aceites, chamo-lhe o esgotar de todas as possibilidades.
ResponderEliminarBoa semana, Pedro.
Beautiful blog
ResponderEliminarTambém neste texto os detalhes da descrição são tão perfeitos, reais e concisos que conseguimos visualizar a cena como um filme vivo.Seja nos pormenores físicos/materiais seja das emoções das personagens.A realidade, nua e crua de um tempo e vivências.
ResponderEliminarTendo a Bea uma escrita com uma personalidade tão própria, nunca pensou em compilar estas narrativas num livro?
Penso apenas que gosto de escrever, é isso que me move, um certo gosto por. Distrai-me.
EliminarMas não julgo que escreva de molde à escrita merecer uma lombada. Bem sei, há quem escreva pior e publique. Mas essas são opções de cada um, tenho pena das árvores cortadas e empregues no que não presta. Mesmo que seja pago em edição de autor (ou não) é um bocadinho criminoso.
A propósito de (mais) um texto encantatório, lembrei "Viridiana, um filme de Buñuel, 1961, proibido por Franco. Também aí a religião "transforma ou transtorna" os humanos sentimentos.
ResponderEliminarNunca vi ou ouvi falar de tal, bettips. Mas é sempre bom saber que não fui a primeira a escolher este nome:)
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