Crescemos.
Ana mudou-se com os pais para terra distante, não voltei a vê-la. Estudei fora, empreguei-me longe da casa paterna e perdi o rasto aos colegas da escola. Certo dia, num restaurante, uma empregada sorridente citou o meu nome inquirindo se
não a conhecia. E não conheci. Apresentou-se, a Tininha da escola paga.
Também ela mudara, fizera-se uma linda jovem. Corpo alto e airoso, a mesma franja, o
cabelo escorrido caindo junto ao rosto como então, olhos alegres.
Abraçámo-nos a rememorar as horas de brincadeira, os jogos do mata e os outros,
a menina Margarida que entretanto casou e também saiu da aldeia, não se sabe
para onde. E ela quase de lágrima no olho, a voz a sumir, ela é que foi a minha
professora, nunca a esqueço; ensinou-me me a ler e deu-me coragem para a
escola, eu tinha um medo da escola que me pelava. E olha, no ciclo até ganhei
um prémio por ser a melhor aluna. Pena que não estudei mais, a minha mãe
não podia. E estendendo a mão esquerda, casei e estou à espera dos papéis, vamos emigrar. E despedimo-nos com muito recado de voltarmos a encontrar-nos quando
viesse de férias.
Passaram
anos. Soube que regressara para atender a mãe que sofria de doença degenerativa.
Entretanto, descasou por maus tratos do marido. Criou dois filhos
pequenos. A filha, muito semelhante à mãe na figura e na mente, era aluna
aplicada. A droga atravessou-se na adolescência do filho. Foi assim que a encontrei segunda
vez, de novo a servir à mesa. O mesmo cabelo e diferentes olhos. Pesarosa, contou-me o desgosto, os esforços
para que deixasse a dependência, o dinheiro que gastava com ele. Moravam
juntos. Eu pouco disse, faltam-me sempre as palavras para a fundura sofrida.
Num entardecer de calor, depois de um dia de trabalho e enquanto eu sacudia a areia da praia e retomava o caminho de casa, Tininha chegou a casa e encontrou o corpo do filho pendurado numa viga. Fui acompanhar. Não acompanhei coisa
nenhuma, ninguém acompanha dor que não tem dimensão. Se algum dia senti compaixão
por alguém foi por ela, boneca desarticulada, perdido o elástico que lhe unia as peças. Desmaiava
consecutiva; a esmo, os cabelos sedosos e costumeiros do rosto, caindo por aqui
e ali e apenas com ela porque implantados no couro cabeludo. Mãos, pernas
e braços, todo o corpo perdia vida num deslembramento de beleza trágica.
Sozinha, engolida por dor sem contornos, rosto de nenúfar em águas turvas,
olhos fechados. A Tininha.
É uma história real, Bea?
ResponderEliminarQuem dera não fosse, quem dera essa Tininha fosse personagem ficcionada.
Será que nascemos já com um destino marcado e, embora lutemos para fugir dele, acabamos por ir ao encontro desse destino - tal como na fábula do homem que fugiu para Samarra com medo da morte e era precisamente lá que ela tinha um encontro marcado com ele?
Muitos dirão: Disparate, o destino somos nós que o fazemos, e patati e patatá, mas eu tenho muitas dúvidas, mesmo muitas.
E esta história deixou-me muito triste, com um nó na garganta...
⚘
Maria
Real. Estava escrita à mão cheia de riscos e emendas num dos meus cadernos antigos. Foi só copiar. E a história completa é bem mais triste. Tanta vez a vida ultrapassa a ficção.
EliminarNão sei se nascemos com o destino marcado, ninguém sabe. Acreditamos que sim ou que não. O que sei é que não conhecer o futuro é bom para nós.
Mais uma crónica social bem lavrada como é apanágio da Bea.
ResponderEliminarFica patente a impotência de quem assiste, que nestes casos se limita a testemunhar, escutar e a palavras de consolo.
Mas será que não se podia fazer mais para além da inevitável compaixão?
Como muito bem disse JMT no dia de Camões, aquilo que se pede aos políticos, sejam eles de esquerda ou de direita, é que nos dêem alguma coisa em que acreditar.
A Via Crúcis destes casos está identificada e é sempre a mesma; dificuldade económica, abandono prematuro dos estudos, casamentos instáveis, desemprego, droga.
A vida dos mais pobres está cheia de vias crucis, Joaquim. Por vezes há uma mão amiga que os encaminha. Não havendo, dependem da sorte e de si mesmos.
EliminarQual política?! Duvido que tenhamos em Portugal dez políticos.
" Ninguém acompanha dor que não tem dimensão" dizes bem, e essa a que te referes é inimaginável de tão profunda,tão densa, tão longa, tão inextinguível...
ResponderEliminarE que a não conheçamos nós, Alda.
ResponderEliminarBoa noite pati:)
Pobre Tininha! Quem houvera de imaginar tal desfecho? Às vezes reencontro as meninas da minha infância. Normalmente em eventos tristes, em funerais de quem em tempos nos uniu. Frequentemente, são Tininhas como essa, a quem a vida destratou.
ResponderEliminarTininha foi muito destratada, sim. Pelo nascimento e infância que a não ajudaram; pela nojice e solidão que lhe trouxeram todos os elementos masculinos da sua história; pelo filho que entrou no caminho de que só a morte - e quem sabe a culpa - o libertou.
ResponderEliminarApesar da indissipável nuvem que se acoitou no olhar, hoje é uma mulher serena e, enlaçada na família que resta, revive no neto que floresce:). Sem que se perceba, continua jovem e linda, como se a natureza queira compensá-la. Nós, as colegas, parecemos todas mães dela:).
Tininha... e uma história de vida que nos toca na alma!!!
ResponderEliminarBj e gostei de ler
Obrigada, Gracinha:).
ResponderEliminarBFS