segunda-feira, 24 de junho de 2019

The Heart is a Lonely Hunter


Há uns anos, foi-me sugerido o filme e investiguei, que é como quem diz, procurei-o na net. Então, vi-o sem legenda e, por  falta de fluência na língua inglesa, limitei-me ao entendimento sumário de personagens e história. Mas um destes dias o meu cinéfilo de estimação deu-me o filme legendado. Valeu. “The heart is a lonely hunter” ou “O coração é um caçador solitário” é um bom filme, baseado em livro que decerto lhe acompanha a qualidade.
A história contada não é apenas uma, são várias. E, nas várias, existe uma personagem que se repete e intervém quase como anjo da guarda: um surdo mudo. O filme é esse conjunto de histórias diversas, num mundo de trabalho e dificuldades que a personagem unifica. Ou, é a história da solidão da personagem que como náufrago se vai agarrando às ervas e arbustos das margens, que se soltam da terra ou apenas não o seguram, e continua impelido pela corrente. É como se ele permaneça uns momentos agarrado aos arbustos e nesse tempo breve pense, estou a salvo; mas logo a corrente o arranca, o arbusto desfalece, as mãos lhe escorregam. E de novo se vê sem chão. A diferença entre o náufrago e o surdo mudo é que o último, onde toca, planta semente boa. É um anjo. Um anjo solitário e fechado no seu mundo de silêncio e que comunica por escrito e em linguagem gestual. Gestos é tudo que faz durante o filme. Tem um amigo do coração; também surdo mudo. Para estar próximo,, muda de cidade e de emprego sem hesitar. Mas o amigo, de quem pede a custódia, é deficiente mental; vê-lo no hospício é tudo que lhe resta até que chegue a decisão do tribunal. E ainda assim não desanima.
Na nova cidade, reparte a sua atenção com quem a precisa: um bêbado que recupera para a normalidade e o emprego, e com quem julga poder sentar-se a jogar xadrês, o que nunca acontece. Dói notar o cuidado que põe no encontro para o primeiro jogo, as cervejas, os copos limpos, o tabuleiro...e o parceiro chega numa pressa, afirmando que o novo  emprego o espera e outra vez será. Vez que a vida se encarrega de não haver. E há o médico e os seus fantasmas de racismo, com quem se confronta e que por fim lhe reconhece valor. Encontram-se. Mas o médico debate-se com problemas familiares e um cancro incógnito que lhe viaja nos pulmões. E o nosso homem-anjo conta à filha desavinda e aplana o caminho do médico. Mas a sua ternura maior vai para a garota da casa onde aluga o quarto que antes fora dela. Ele que é atento e tudo perscruta, descobre que gosta de música clássica e compra um gira discos e os discos dos concertos a que ela não assiste porque a família atravessa um período difícil. É de ternura inédita esse momento em que ela, treze ou catorze anos magrinhos, sobe a escada e ouve a melodia. E ele contente da alegria que fez nascer, ele a fingir que ouve o que nunca será capaz de ouvir. E ela sonha e como que descansa das coisas difíceis ao som da música.
Um dia visita o hospício e o amigo, o único que o idolatra, que conhece a linguagem gestual e fala com ele, que o abraça com alma, morreu. A perda tira-o de si, precipita-o na dor. E a solidão completa-se. Como casa que o encerre,  sem portas ou janelas.
Não há culpados. Ao recusá-lo, todos tinham os seus motivos e não eram motivos fúteis. A vida desatentou a todos de quererem saber sobre ele. Ninguém lhe fez companhia ou perguntou se tinha amigos. Ninguém chorou com ele a perda que nem sequer se soube. Não houve uma pessoa interessada na sua vida. Ninguém desviou a cortina da serenidade que aparentava no silêncio conveniente e lhe espreitou a alma.
Um filme que aconselho e que excede largamente o que este emaranhado consegue dizer.
Bem haja quem mo deu a conhecer.

14 comentários:

  1. Embora o filme seja bom, o livro é muitíssimo melhor!!!

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  2. Sobre o livro não posso falar. Mas obrigada pela dica.
    Boa noite

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  3. Li o livro, não vi o filme. Vou ter que investigar :)
    Tenho aqui em casa três livros da Carson McCullers e de um deles (Reflexos num olho dourado) tenho o dvd. O filme é com a Elizabeth Taylor e o Marlon Brando, num dos seus desempenhos menos comuns.

    Maria

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  4. Não li nada dessa escritora. Posso ver se existe na biblioteca pública. E nem me lembro do filme Com a Taylor e Marlon Brando. Mas quem sabe ainda o arranjo:)
    Boa noite, Maria

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  5. Com o Alan Alda como protagonista promete logo muito

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  6. é uma interpretação extraordinária. Mas o realizador também merece parabéns:). Estão todos de parabéns , é um filme muito conseguido e com várias faces sugestivas.

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  7. Tomei nota deste filme que, parece-me, nunca tinha ouvido falar.
    Pelo que descreve é tocante, e eu nunca fui indiferente à solidão e à ternura.
    O sugestivo título — o coração é um caçador solitário — transporta-me para os diálogos da raposa de Saint Exupéry que sabiamente ensinou ao principezinho o básico das relações com um pedido — cativa-me — e logo o advertindo de que só vemos bem com o coração porque o essencial é invisível aos olhos.

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  8. Se não lhe são indiferentes solidão e ternura, veja. Vai gostar. O Principezinho é um livro eterno. E terno qb. Mas este filme é outra coisa. Talvez também por ser muito igual ao mundo e nos dizer que os homem-anjo são sem lugar ou pertença.

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    1. E por falar em homens-anjo, a Bea já viu As Asas do Desejo do Wim Wenders?
      É sobre um anjo que queria ser homem... e sobre muitas outras coisas.
      Penso que talvez gostasse.
      Fica a sugestão.

      Maria

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  9. Sim:) já vi algumas vezes. É um filme à Wim Wenders.
    Bom Dia, Maria

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  10. Bea, fiquei curiosa e interessada. A ver se consigo desencantá-lo!Obrigada pela dica - mais uma das muitas que me tem dado.

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