quinta-feira, 13 de junho de 2019

Feira do Livro e Jacarandás


Não se explica o meu gosto pela Feira do Livro de Lisboa.  Nascida numa casa sem livros, os que por lá passaram não nos pertenciam. Qual Benjamin Button, as minhas leituras começaram do fim para o princípio, soletrei e tomei velocidade nos romances de Corín Tellado e, após muitas derivações, dedico-me presentemente a comprar e ler as histórias que Sophia escreveu talvez para entreter as suas crianças. Agora. Na idade de reforma. As histórias de Sophia são auroras boreais de uso privado. Presumo que, em termos de idade mental, me situo para aí entre os dez e os treze, o que só em parte mínima me beneficia. Paciência. Um pormenor que me intriga na convivência prematura com romances de cordel é que neles tudo dava certo, o amor saltava mais barreiras que um cavalo em competição e não sofria abrandamento ou queda. O fim do romance era mesmo coisa de semi recta, um continuum de felicidade. Contudo, jamais a minha mente de pássaro julgou que as situações  dos romances pudessem ser comuns à vida da gente. Nada. Os romances tinham ser próprio, começavam e acabavam nas palavras. Basicamente, entendi-os como contos para adultos, só existiam no papel. A instituição desta parede mental poupou-me muito dissabor e pode ter-me retirado algumas hipóteses. E condicionou-me o gosto. Basta olhar a pilha de livros que trouxe da Feira.
Apesar do desgraçado vento frio que encanava pelas ruazitas da Feira, passeei-a de gosto no pára arranca de gastar minutos e meias horas a estudar futuras compras na folha de cálculo dos gastos e dilatando a fasquia desde a partida. Pena não me ter sobrado tempo nem bolsa para os livros de alfarrabista que tanto aprecio. Propósito: no próximo ano hei-de visitá-la em dois dias e dedico um monte de horas aos meus amigos alfarrabistas.
 Debrum de caminhos, os jacarandás arredondavam subtilezas lilás pelo recinto e quem bem olhasse veria o zelo languescente em recortes de braço e uma materna finura de dedos sobrevoando as juvenis barraquinhas de livros. Os jacarandás de Lisboa, tão cheios dos olhos de tanta gente. Tempestades e sóis de esturricar meninges, ventos fortes e brisas, arrulhos de pássaro e de gente. A tudo assistem. Às seringas de efémero prazer, a zangas de toda a espécie, tristezas que se não dizem e eles notam, fomes longas e lentas que matam o fora e o dentro de cada um,  aos barcos que levam e trazem gente, aos afogados que dão à costa num inchaço deslavado de lábios roxos e meio comidos, à apertada saudade das despedidas, aos comboios que chegam cansados e partem de má vontade. A tudo que não sei dizer e eles coleccionam por dentro da seiva, tudo que lhes requebra e curva braços e dedos, tudo que escurece nos troncos, os salienta na paisagem e faz mais vivos que a vida toda que mexe em seu redor. E assim gritam calados e choram e riem, os jacarandás de Lisboa.

12 comentários:

  1. Os livros e os jacarandás, uma associação perfeita, deleite dos olhos e da imaginação. Com uns e outros passaria tempo sem remorso. Bela e espantosa a resenha de acontecimentos que colocas nas memórias dos jacarandás de Lisboa.

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    1. Obrigada:). Nos teus olhos a minha prosa fica sempre mais bonita.

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  2. Ora aqui estão duas coisas que eu adoro: livros e jacarandás.
    Cresci numa casa com muitos livros, mas não eram livros infantis, daí que tenha lido alguns demasiado cedo.
    E já era bem crescidinha quando descobri os da Sophia.
    E por falar em Sophia, acabei hoje a Biografia.
    Numa primeira fase, tinha ficado a meio do livro, andei por Lagos, pela Granja, pela Grécia. Não sou muito viajada, mas um dos países que conheço é a Grécia e foi muito bom revisitá-la em tão boa companhia - da Sophia e da Isabel Nery.
    Ontem voltei ao livro, àquela parte mais política da Sophia, ou seja, do 25 de Abril até à morte dela.
    Gostei um imenso, Bea ;)
    É livro para releituras, está cheio de post-it, digamos que vai andar aqui perto do sofá mais uns tempos.

    Maria

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  3. Um dia ainda compro esse livro:). Mas agora espero que saia a prosa reunida de Sophia. Entretanto, vou comprando os livros de contos que são bem mais do que julgava. E vou lendo as cartas trocadas entre Sophia e Jorge de Sena. A leitura de cartas alheias não é a minha praia, sinto-me bisbilhoteira violadora de intimidades que me não pertencem.
    A vida política de Sophia é de clara inteireza. Não podemos deixar de admirar a mulher que foi.

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  4. E eu um dia ainda compro esse das cartas :) deve ser bem interessante, eles eram muito amigos. Não me recordo de ter lido livros de cartas, parece-me que este será um bom começo.
    Eu tinha os contos naquelas edições da Figueirinha, mas também comprei os da Porto Editora por causa das ilustrações.
    Agora deu-me para gostar de livros para crianças, alguns são belíssimos. Sempre que compro algum para oferecer, aproveito e compro também um para mim.

    Maria

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  5. Nasci e cresci em casa cheias de livros.
    E estão MUITOS ainda em Portugal.
    Outros, as preciosidades, vão ser brevemente deixados à guarda de uma biblioteca aqui de Macau.
    Não são doados, não são vendidos, ficam à guarda deles para poderem ser conservados e consultados.
    Bfds

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  6. Que boa ideia:). Parabéns aos seus livros, têm um proprietário magnânimo e que pensa neles e nos serviços que podem prestar a outrém.

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  7. Também eu nasci numa casa cheia de livros e, se tivesse nascido num outro tipo de casa, hoje era futebolista de profissão.

    Como SEMPRE adorei ler o seu excelente texto, bea 📚

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    1. Sim? e acha que tinha conseguido sendo mulher? Bom, talvez as alemãs tenham começado mais cedo a jogar futebol.

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  8. Bea, achei imensa graça ao seu assertivo julgamento sobre o final dos romances cor de rosa. Já antes deles, lembro das primeiras leituras em que os protagonistas "eram felizes para sempre". No fundo, acho que me formatou. Cheguei a acreditar em príncipes e que um seria para mim. Depois, cresci. E aprendi.
    Os jacarndás são árvores verdadeiramente arrebatadoras, pelo inesperado da explosão colorida. Aqui bem perto, no Jardim Botânico vive uma que particularmente encantou os meus olhos.
    O frio voltou com grande pujança. Eu que já fiz uma semana de praia, estou quase a acender a lareira.
    Bom fim de semana, Bea.

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  9. Como disse, nunca acreditei em príncipes: Os príncipes eram das histórias e na minha cabeça não havia misturas.
    Expressivos jacarandás florido tapete roxo pelo chão. Entendo-lhes os braços. São harmonia, gesto de de gente. E ressaltam.
    Bom Fim de Semana, Nina:) Ter um jacarandá perto de si é uma dádiva para os olhos. Um colírio, digamos.

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