Lembro-me
dela, franja de âmbar sobre os olhos, dedinhos em vírgula afastando o cabelo,
ocupados a acondiconá-lo lá atrás, no claro recanto da orelha minúscula. E
a mente enganchada na hesitação das
sílabas. Chegara em peça única com a mala, tábua de salvação que o receio dos dedos apertava. O medo arredondava-lhe os
olhos de castanha e tudo nela era improviso de boneca. No outro braço, carregava
o banquinho onde havia de sentar-se, o moxo, como lhe chamavam todos, “vais
para a escola paga da menina Margarida, dás cinco escudos por semana e tens de
levar o moxo; podemos lá ficar até as mães virem do trabalho. E brincamos muito”.
Era assim o aviso que corria. E a divisão pequena da escola paga encheu como um
ovo.
Como
em todos os grupos, havia um líder, neste caso, uma líder, a Ana. Ana vestia
melhor que as outras crianças, era alta para a idade e desempoeirada; era a
única criança que se sentava numa cadeira com florinhas pintadas e que todos
cobiçavam se ela faltava, menina Margarida, posso sentar-me na cadeira da Ana.
Além da cadeira, as outras crianças admiravam–lhe a pele branca e sardenta, o
verbo fácil e o cabelo de corvo radiante. Era muito assertiva a jogar ao
mata. Reinava. À vista da nova aquisição,
logo abriu um espaço na roda de banquinhos e antes que a menina Margarida
dissesse palavra, senta-te aqui ao pé da Irene. E depois, como quem se recorda,
pode, não pode, menina Margarida. E podia. Menina Margarida sabia a importância
do acto. Sem promessa ou escritura, Ana fazia-se protectora da garota, o melhor antídoto para o medo. A nova sentou-se
sem uma sílaba, pássaro que encontra ninho. Sob a cortina da franja, um olhar
grato e medroso para a menina Margarida também sentada num moxo, risonha e muito jovem, nada parecida com a
professora da escola oficial.
Na
segunda semana, ela que não sabia ler nem escrever e reprovada de dois anos na
escola, ganhou entusiasmo, aprendeu as vogais e as duas primeiras consoantes, o
pê e o tê. E lia de gosto as lições.Tornou-se faladora e brincalhona e, aos
poucos, foi deixando de se mirrar toda, rosto escondido nos braços, se a menina
Margarida se movia para mudar a página do livro. Ana ria-se dela, a
menina Margarida não bate, palerma, não tenhas medo. No final das férias, lia
fluente em qualquer lugar, fazia cópias e ditados sem erro, era barra nas
tabuadas e nas contas. Dizia a mãe, a minha Tininha ganhou inteligência, faz
contas e lê tão bem...e deixava a outrém o ensejo de imaginar os prodígios repentinos do seu rebento.
(cont)
Um passado com sucesso no futuro!?
ResponderEliminarBj
a ver vamos, Gracinha.
EliminarPalpita-me que a menina Margarida era a Bea. A ser, Ana, Irene e Tininha (todas bons corações) já, talvez sem saber, lhe serviam de cobaias.
ResponderEliminarCorações bons.
Também dentro de mim tenho um vulcão apaixonado. De chama inundou mares, e as águas deixaram a frieza do inverno.
Porém a praia morena só em sonho a alcancei. Agora, sem lava e já sem força lá vai batendo meu coração.
A menina Margarida existiu mesmo. Sem mim. E as crianças que ensinou não eram cobaias. Esse é um nome que nunca darei e nem ela decerto deu a uma criança.
ResponderEliminarToda a gente que ainda vive tem um coração a bater dentro do peito. E só cada um sabe como, por quem e quanto bate. E mesmo não batendo por ninguém, bate, e basta. Mas não sabemos valorizar a vida que temos. Infelizmente, acontece. Desejo que não seja o seu caso.
Gostei muito deste excerto das suas memórias, da menina Margarida e da Tininha que com ela desabrochou e se fez gente.
ResponderEliminarHá assim pessoas na nossa vida:). Gente que ajuda ao clique, né? Oxalá consigamos fazer o mesmo, que só há sentido se a cadeia não quebrar.
ResponderEliminarBFS, Nina