quarta-feira, 26 de junho de 2019

Tininha


Lembro-me dela, franja de âmbar sobre os olhos, dedinhos em vírgula afastando o cabelo, ocupados a acondiconá-lo lá atrás, no claro recanto da orelha minúscula. E a  mente enganchada na hesitação das sílabas. Chegara em peça única com a mala, tábua de salvação que o receio  dos dedos apertava. O medo arredondava-lhe os olhos de castanha e tudo nela era improviso de boneca. No outro braço, carregava o banquinho onde havia de sentar-se, o moxo, como lhe chamavam todos, “vais para a escola paga da menina Margarida, dás cinco escudos por semana e tens de levar o moxo; podemos lá ficar até as mães virem do trabalho. E brincamos muito”. Era assim o aviso que corria. E a divisão pequena da escola paga encheu como um ovo.
Como em todos os grupos, havia um líder, neste caso, uma líder, a Ana. Ana vestia melhor que as outras crianças, era alta para a idade e desempoeirada; era a única criança que se sentava numa cadeira com florinhas pintadas e que todos cobiçavam se ela faltava, menina Margarida, posso sentar-me na cadeira da Ana. Além da cadeira, as outras crianças admiravam–lhe a pele branca e sardenta, o verbo fácil e o cabelo de corvo radiante. Era muito assertiva a jogar ao mata.  Reinava. À vista da nova aquisição, logo abriu um espaço na roda de banquinhos e antes que a menina Margarida dissesse palavra, senta-te aqui ao pé da Irene. E depois, como quem se recorda, pode, não pode, menina Margarida. E podia. Menina Margarida sabia a importância do acto. Sem promessa ou escritura, Ana fazia-se protectora da garota,  o melhor antídoto para o medo. A nova sentou-se sem uma sílaba, pássaro que encontra ninho. Sob a cortina da franja, um olhar grato e medroso para a menina Margarida  também sentada num moxo, risonha e muito jovem, nada parecida com a professora da escola oficial.
Na segunda semana, ela que não sabia ler nem escrever e reprovada de dois anos na escola, ganhou entusiasmo, aprendeu as vogais e as duas primeiras consoantes, o pê e o tê. E lia de gosto as lições.Tornou-se faladora e brincalhona e, aos poucos, foi deixando de se mirrar toda, rosto escondido nos braços, se a menina Margarida se movia para mudar a página do livro. Ana ria-se dela, a menina Margarida não bate, palerma, não tenhas medo. No final das férias, lia fluente em qualquer lugar, fazia cópias e ditados sem erro, era barra nas tabuadas e nas contas. Dizia a mãe, a minha Tininha ganhou inteligência, faz contas e lê tão bem...e deixava a outrém o ensejo de imaginar os prodígios repentinos do seu rebento.
(cont)

6 comentários:

  1. Palpita-me que a menina Margarida era a Bea. A ser, Ana, Irene e Tininha (todas bons corações) já, talvez sem saber, lhe serviam de cobaias.
    Corações bons.

    Também dentro de mim tenho um vulcão apaixonado. De chama inundou mares, e as águas deixaram a frieza do inverno.
    Porém a praia morena só em sonho a alcancei. Agora, sem lava e já sem força lá vai batendo meu coração.

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  2. A menina Margarida existiu mesmo. Sem mim. E as crianças que ensinou não eram cobaias. Esse é um nome que nunca darei e nem ela decerto deu a uma criança.
    Toda a gente que ainda vive tem um coração a bater dentro do peito. E só cada um sabe como, por quem e quanto bate. E mesmo não batendo por ninguém, bate, e basta. Mas não sabemos valorizar a vida que temos. Infelizmente, acontece. Desejo que não seja o seu caso.

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  3. Gostei muito deste excerto das suas memórias, da menina Margarida e da Tininha que com ela desabrochou e se fez gente.

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  4. Há assim pessoas na nossa vida:). Gente que ajuda ao clique, né? Oxalá consigamos fazer o mesmo, que só há sentido se a cadeia não quebrar.
    BFS, Nina

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