sexta-feira, 21 de junho de 2019

Sophia e Sena - correspondência


Durante dezoito anos Sena correspondeu-se com Sophia. Dois poetas grandes. Estilo poético diverso. Amigos de verdade. Como previsto, trouxe a correspondência da Feira do Livro 2019. Li-a com algum pejo, a sentir-me invasora, nenhum deles terá pensado que as suas poderiam ser cartas abertas ao mundo. Eram cartas. Não eram páginas de livro. Mas, a mulher de um e os filhos da outra dispuseram-se à divulgação. Facto que tem tanto de prós como de contras e que não me pertence discutir. Aprovaram e superintenderam a publicação. Está feito. E não sabemos até que ponto o que lemos é integral. Há grandes, enormes intervalos entre elas. Assinalado em várias missivas, era correspondência vigiada e lida pela PIDE. E, em amizade tão longa e dedicada, não há uma referência à prisão de Francisco Sousa Tavares e apenas uma vez encontrei alusão a um interrogatório de Sophia na PIDE (talvez tenha sido o único, não estou por dentro da vida pessoal da poeta).  Contudo, há muito sobre poesia e ambiente cultural português. E, sobretudo, há, por parte de Sophia, um puxar constante pela poesia de Jorge de Sena, emigrado primeiro para o Brasil e depois nos USA por contingência política e desagrado com o ambiente intelectual da pátria.  Salienta-se o cuidado da poeta nos incentivos e louvores verbais que abundam nas cartas, como nas críticas atentas e na moderação a que por vezes o exorta. Mas sobretudo na insistente divulgação, cá dentro e fora de portas, da poesia de Sena. É enternecedor o quase orgulho com que imaginamos Sophia a recitar Sena, a falar dele e enaltecer o seu indiscutível valor, a mostrá-lo e a contar-lhe isso mesmo na medida em que o poeta sempre se queixou do pouco valor que tinha para os seus conterrâneos. Era como que se quisesse, sozinha, fazer justiça ao amigo. Por seu lado, Sena, que necessitava de quantias módicas para sustentar a família numerosa e as adquiria jogando mão a qualquer trabalho intelectual para além do ensino universitário, Sena era esse incansável estudioso, uma mente brilhante que não esquecia a amiga Sophia e, mais modestamente, a divulgava; seria por falta de oportunidade e contexto, quem sabe. Muito haveria a dizer sobre os dois poetas, Cartas são confidência e lê-las ajuda a mão que escreve. Mas o que admiro sem fronteiras nestes dois espíritos que ofereciam um ao outro o que iam publicando, é o comum desejo de elevar Portugal quando e se fazem parte da representação portuguesa no estrangeiro; e Sena, que tanto condenava a pseudo intelectualidade portuguesa  e a partidarite que imperava (impera?) no meio, claramente as separava do povo português e de Portugal como país a que pertencia. A preocupação em mostrar o que há de melhor na literatura lusa, a proposta de obras e iniciativas que iam muito além da evidência pessoal. O gosto em mostrar o outro como bem literário inestimável. Um grande bem haja aos dois.


21 comentários:

  1. E agradecemos a sua existência e neste caso a sua partilha!
    Bj

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    1. Então que seja à saúde dos vivos e permanência dos que não o sendo são:). Que é grata a convivência.

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  2. A correspondência afastou-me de Sophia.
    O Jorge Sena foi desde sempre um homem azedo, mas a maneira como a Sophia ataca a Natália Correia e a Maria Judite de Carvalho é inacreditável. Isto não significa, que eu não os considere, duas personalidades importantíssimas da cultura portuguesa. Jorge de Sena o maior intelectual português de SEMPRE.

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    1. Concordo, Jorge de Sena é muito amargo e demasiado queixoso, mas note-se que as queixas não lhe retiraram valor nem persistência na obra ou no estudo que sempre o acompanhou. Julgo que as opiniões de cada um acerca dos da mesma igualha - outros poetas e escritores - são condicionados por gostos subjectivos e que não relevo. Sena não gostava de Torga, achava-o de pouco valor e reclama isso de Sophia que apreciava o escritor em causa. E´um dos riscos da leitura de cartas, poder o homem apoucar o poeta ou prosador. Mas cabe ao leitor distinguir. Parece-me.
      Natália Correia e Judite de Carvalho são importantes, sim; mas na minha opinião, - que vale o que vale, não se escora em causas e justificações, vive do gosto - não têm a dimensão de Sophia e Sena. Prefiro a última à primeira, mas é, como em qualquer pessoa, um gosto pessoal.
      Não sei quem é o maior intelectual português, Teresa. Mas dou conta de que Sena o foi:).
      Um óptimo fim de tarde para si

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  3. Sempre tive uma grande admiração intelectual pelo meu pai. Nunca lhe cheguei aos calcanhares, por muitos mais livros que tenha lido e horas de estudo que tenha tido. Longe de ser um intelectual, a sua bagagem era essencialmente proveniente dos jornais e da sua inteligência. Livros poucos lia. Era do tempo das tertúlias nos antigos cafés lisboetas onde à volta de uma bica se reuniam três ou quatro amigos ou conhecidos que calhava aparecerem. E conversava-se. Conversava-se muito. E debatiam-se ideias e factos políticos, à surdina da Polícia política. Após o 25 de Abril, posicionou-se como defensor dos ideais da social-democracia.
    Bastas vezes ganhava calor e encrespava-se nos despiques ideológicos. Nesses momentos associava-o pela imagem que me transmitia ao Francisco Sousa Tavares, então director de A Capital, que por sinal muito apreciava. Ao fim do dia chegava invariavelmente a casa com o vespertino debaixo do braço, dáva-me um beijo e enquanto minha mãe preparava o jantar, punha a leitura em dia. Durante o jantar "educáva-nos" sobre os assuntos relevantes do dia. E nós escutávamos e ficávamos mais ricos. O que eu gostaria de te voltar a ouvir, nem que fosse por uma hora...

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    1. Desculpe bea de abusar do Erva Príncipe, mas a homenagem do nosso amigo Joaquim Ramos ao pai, comoveu-me.

      Pelo o que leio nos seus comentários, Joaquim Ramos, a sua inteligência e intelectualidade é bem relevante.

      Abraço ambos 🍀

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    2. Teresa: não tem que pedir desculpas, este espaço é livre:). E podemos conversar uns com os outros. Que eu saiba, não há nos estatutos do bloguer nada que o impeça.

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  4. Joaquim
    eu gostava de ter tido assim um pai. Calhou-me diferente. E aprendi a gostá-lo aos poucos. A rir-me dos defeitos que em tempos me fizeram chorar, das discussões em que só os manos mais novos me seguravam e por quem ia ficando; do muito que já não vem ao caso.
    E agora assisto-o a enfurecer-se pelo muito que não pode e a querer poder. E lamento. Lamento que ser velho seja assim. É muito desconsolado. Pode crer. Quem sabe, seu pai partiu antes desta ruína. Há sempre o lado bom de tudo. Mas a saudade não é conforme à razão de todas as coisas. A saudade é autónoma, anda como e por onde quer.
    As recordações de seu pai, por certo dão para aquecer a ausência:).
    Que bom ter dele recordações tão limpas como exemplares.

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  5. Obrigado Teresa por suas cordiais palavras. Há dias que acontece assim. A coisa já andava cá a congeminar-se há uns tempos, desde que a Bea falou a propósito de uma carta de Sophia a Jorge de Sena onde dizia ela que era difícil viver sendo em simultâneo poeta, mulher de um D. Quixote e mãe de cinco filhos. Hoje simplesmente soltou-se.

    Bea, não escolhemos os pais que temos nem o dia da sua partida. Aí chegados, resta-nos a sua memória, enquanto alguma malfadada doença também não no-la leve.

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  6. Sabe Joaquim, ainda bem que os não escolhemos; a diversidade seria bem menor. E todos aprendemos com os nossos pais. Eles não nos ensinam apenas quando e o que querem ensinar. Por outro lado, vemos neles aquilo que seremos se antes não nos leve a morte. Como diz a canção, "a vida é uma passagem para a outra margem". E já não estamos muito longe da outra margem. O meu pai tem essa noção de proximidade e luta contra ela a mais não poder.

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  7. Na questão da privacidade, questiono-me. Mas o que seria da História se a privacidade não fosse invadida? :)

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  8. Luísa
    a história não é, excepto em alguns casos de gente extraordinária, uma devassa do privado. O indivíduo não é o que lhe interessa. Pode responder-me que o geral histórico sai da análise do mundo privado. Pode ser. Mas os temas que a história busca são outros.

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  9. Tenho imensa vontade de ler esse livro, mas ultimamente problemas vários não me têm permitido ir à cidade procurá-lo (na livraria ou na biblioteca).
    Penso que o livro estava esgotado, a Bea comprou uma edição recente?
    Apesar de os herdeiros terem feito uma selecção das cartas, é natural que as mesmas revelem animosidades (leia-se ódios de estimação) entre alguns dos nossos escritores: sempre fomos muito dados a esse tipo de coisas.

    Maria

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  10. Comprei-o na Guerra e Paz, Maria; e a edição é de 2010. A happy hour da Feira é uma grande invenção.
    Mas odiar é desperdício. Tanto sentimento e emoção ao dispôr e cansa-se uma pessoa a odiar. Não favorece ninguém, antes azeda o carácter e a vida de quem odeia. E muita vez dá que fazer e prejudica o odiado. Que nem sempre os odientos se cingem ao sentimento.
    Mas hoje é domingo, está fresco, o dia promete não trazer sol:).
    Um dia bom e descansado para si

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    1. Bea, e eu já acrescentei "de estimação" ao ódio para suavizar a coisa ;), mas a verdade é que basta lembrarmo-nos do Saramago e do António Lobo Antunes para constatarmos essa triste realidade.
      Bom e ameno Domingo para si também.

      Maria

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  11. Gosto muito dos dois e "Sinais de Fogo" é um dos livros da minha vida mas conheço mal a poesia de Sena enquanto a de Sophia quase sei de cor...gostava de ler a correspondência deles, embora não seja muito adepta do género literário (talvez por não ser realmente para publicar).
    ~CC~

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    1. Não li na íntegra Sinais de Fogo. Aborreceu-me antes do meio. Mas sim, até já li em algum lugar que é o livro do século. Tenho até pena mas não sou muito eclética nas leituras.
      Também não conheço e nem gosto tanto da poesia de Sena. Mas reconheço no que li o grande poeta que ali está.

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  12. Também me faz impressão andar a coscuvilhar a correspondência dos mortos assim como a dos vivos. Publicar coisas que não acrescentam nada à obra literária dos autores parece-me desnecessário.

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  13. Sou da tua opinião. Cartas são escritos de um para um. E acabou.

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