domingo, 30 de junho de 2019

Madama Butterfly


Sou, em sentido musical, uma herege,  o meu ouvido não se habitua ao bel canto e nem sabe apreciá-lo.  A ópera, ó sacrilégio, cansa-me as meninges feitas para coisas pequenas e menores, sem elevação tonal, talvez mesmo medíocres.  No entanto,  convencem-me pequenas árias lamentosas, a voz trinando baixo; e, presa de  característica vocal específica, um intérprete ou outro.  Foi com este sentir que assisti “Madama Butterfly”  na Gulbenkian. 
Possuía o ingresso há meses. Porque o filme do mesmo nome, inesquecível e interpretado por Jeremy Irons, me incentivou ainda que divergente na história; por ser o último espectáculo da temporada e me nascer a esperança do inefável jardim em fundo musical, como sucede em concertos especiais e que é demais de bonito; por a presença do coro somar pontos ao concerto. À beira do acontecimento, soube que também ias; acredita, foi uma doce viagem.
Agora repara: o coro quase não cantou; não houve o fundo verde do jardim iluminado na noite; vi-te de raspão na entrada, desencontrámo-nos no intervalo que perco faculdades em multidões selectas e deixo de ver. E no entanto, na esplanada repleta, bebias café com a família. No final, levaste-me a casa perseguidas pelo carro do lixo que é como quem diz, deixaste-me e seguiste. Só os olhos mataram a saudade imediata e fácil. A outra, a que dói e importa, a que se faz buraco cá dentro, permanece. Estavas em família, não era nem havia o tempo de sermos as duas.  
Mas o espectáculo. O que gostei da orquestra toda em traje de gala, do drama às escâncaras na música de Puccini. Somos levados pela história  - contada e cantada - desde o esplendor amoroso que tudo dá e nada exige, até à solitária insistência na esperança pungente, crença amorosa que se rende apenas no confronto com o intransponível muro da realidade. E há desde o início o presságio de angústia e solidão a rodear a doce Butterfly. Que admirável a soprano Melody Moore, uma Cio-Cio-San (Butterfly) extraordinária. A pureza e sensibilidade da voz a ecoar no silêncio, sinais inenarráveis da sua qualidade artística e humana. Tão, mas tão aplaudida.    Naquelas três horas, Butterfly tomou posse. Reinou.

8 comentários:

  1. Eu que, em geral, não aprecio cantores líricos, gostei.

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  2. É das coisas que se aprende a gostar. :)

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  3. Pode ser, Luísa. Não creio que venha a acontecer-me. Mas há excepções. Foi o caso:).

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  4. Um texto excelente. Um quase diálogo entre a pessoa que vê "Madame Butterfly" e a pessoa que reencontrou alguém que ama. Gostei muito.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Viu bem, Graça. Congregaram-se dois factos que me são caros.

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  5. Bea, acho a ópera o espetáculo perfeito, completo. Quanto mais clássica, quanto menos moderna, melhor. O gosto vem do meu pai, adorador do canto lírico. Teoricamente sou uma nulidade, mas gosto porque gosto e se não me delicio mais é por falta de companhia. Mas uma noite destas decido-me e vou. Sozinha.
    Tenha uma feliz semana.

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    1. Nina, a solidão não me impede de ir a um espectáculo. Não deve impedir ninguém, até julgo que facilita. Portanto, decida-se a ver aquilo que deseja se é apenas esse o seu motivo.
      Assinalei uma excepção, não gosto de ópera, faz-me mal a qualquer coisa, mesmo nesta de que gostei saí com dor de cabeça. Penso que não é coisa que eu domine

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