Há datas assim, caem-nos em cima feitas marcos quilométricos. Jamais eu notaria marcos dessa natureza ao longo das estradas. Mas estão lá. A despeito da minha ignorância, só desperta ano passado quando uma amiga, que avalio tão zonza quanto eu, puxou do telemóvel e me comunicou que, em vez de estar a chegar à praia, caminhava numa estrada, não via o mar, e parara no quilómetro não sei quantos (ela sabia o número exacto). E eu mais tonta que ela, isso é o quê?! Ela cansadíssima, bolas pra ti e pra mim, olha não sei onde estou, mas fico aqui junto ao marco, acho que me vou sentar. Eu, espera aí que vou buscar o carro e apanho-te onde estejas. E o resto da história não interessa, mas os ditos marcos ficaram-me.
Esta converseta sobre marcos vinha a propósito de outra amiga que me ligou no último aniversário e parabéns e tal. E respondi o que se deve; tal como afirmou um querido aluno na aula de apresentação e carregando muito no erre por defeito de linguagem, "eu sou rude, sou do campo". Digo eu que ambos sabemos agradecer apesar de campónios. E vai daí, ao convencional do telefonema juntei, "nós duas fazemos este ano 50 anos de amizade". E ela acordada para a longevidade, "ah, pois, é verdade; temos de comemorar". Eu pensava nos outroras em que vivíamos como corda e caldeiro. Porém, Agosto é mês de férias e não passávamos juntas a minha data festiva. A bem da verdade, as comemorações pessoais nasceram quando os filhos deram um basta enérgico e mesmo contundente nas suas. E quais parabéns, e quais pais e família e bolos e palmas e eteceteras. Tinham crescido.
Essa amiga que desde o início me pareceu garota modernaça e decidida, comungou apertos e ignorâncias juvenis; obrigou-me a fazer um enxoval, ajuizando ser pertença de todas as raparigas; enxugou-me lágrimas amargas; fazíamos os tpc juntas e ajudou-me nas férias com os meus irmãos de quem se fez amiga. Em tempo de aulas saíamos à meia noite de um comboio que nos deixava na gare deserta, um quilómetro a palmilhar sem temor em vila iluminada e solitária, facto que me fazia dizer-lhe amiúde, "ainda não percebi a recomendação da tua mãe, "ai filhas não se encostem às paredes, andem pelo meio da rua". Nunca soube se não respondia à questão por concordância comigo que achava muito mais perigo em andar no meio da estrada, se os subentendidos da mãe lhe eram claros. Seguíamos rindo e conversando de tudo e nada, como se no dia seguinte não nos levantássemos cedinho porque o trabalho. Quando em minha casa, participava activamente nas limpezas, toda ela alegria despachada e convicta, eu gosto mesmo é de limpar casas sujas e de "aventar" o lixo. E ria-se do novo sentido do termo. Nas férias escrevia-me cartas em círculo e chamava-lhes circulares, eu a dar a volta à circular porque a escrita combinava com a forma da carta. As circulares que me enviava eram ordens para uma saída nem que fosse só até sua casa, ou avisos do dia em que chegava. E selava as ditas, devidamente assinadas por ela e um secretário, com impressões labiais fixadas por batom vermelho vivo que ambas compráramos em Badajoz, sendo verdade que o meu mano caçula deve ter espreitado a mesa de cabeceira, rodado o batom sem o destapar e fui dar com ele debaixo da minha cama, todo esbarrondado e sem proveito, os tacos do quarto em vermelhidão aflita, ai, não me digam que isto é sangue, querem ver que estou doente e não sei. Sou bem capaz de ter dado um enxota-moscas no mano mais novo pelo silêncio acerca de; aquele batom era para nada, ficava-me pessimamente e não me atrevia a sair com ele posto. A amiga ficava linda: amarrava um lenço (usavam-se), deixava uns caracolinhos castanhos a assomar nas laterais ou cobria-os no completo de si, branca de pele e olhos verdes, o vermelho da boca ia-lhe tão bem como a mim o inverso. Tivemos sacos de praia parecidos (que ela inventava e costurava); lenços de cabeça iguais e que bisavam o cair do batom; chapéus à beto(a) e de que não recordo o nome, mas eram brancos e pareciam chapéus de bebé; boinas bascas que só a ela ficavam bem, mas eu usava na mesma por me emprestar certo ar revolucionário; casacos de carneira e botas caneleiras (aí eu tomava algum jeito). Um mundo de coisas pequenas e baratas - exceptuem-se os casacos de carneira - de que ela se lembrava e eu alinhava contente.
(cont.)