terça-feira, 27 de agosto de 2024

Inventário de Anjos

 

    Há datas assim, caem-nos em cima feitas marcos quilométricos. Jamais eu notaria marcos dessa natureza ao longo das estradas. Mas estão lá. A despeito da minha ignorância, só desperta ano passado  quando uma amiga, que avalio tão zonza quanto eu, puxou do telemóvel e me comunicou que, em vez de estar a chegar à praia, caminhava numa estrada, não via o mar, e parara no quilómetro não sei quantos (ela sabia o número exacto). E eu mais tonta que ela, isso é o quê?! Ela cansadíssima, bolas pra ti e pra mim, olha não sei onde estou, mas fico aqui junto ao marco, acho que me vou sentar. Eu, espera aí que vou buscar o carro e apanho-te onde estejas. E o resto da história não interessa, mas os ditos marcos ficaram-me. 

Esta converseta sobre marcos vinha a propósito de outra amiga que me ligou no último aniversário e parabéns e tal. E respondi o que se deve; tal como afirmou um querido aluno na aula de apresentação e carregando muito no erre por defeito de linguagem, "eu sou rude, sou do campo". Digo eu que ambos sabemos agradecer apesar de campónios.  E vai daí, ao convencional do telefonema juntei, "nós duas fazemos este ano 50 anos de amizade". E ela acordada para a longevidade, "ah, pois, é verdade; temos de comemorar". Eu pensava nos outroras em que vivíamos como corda e caldeiro. Porém, Agosto é mês de férias e não passávamos juntas a minha data festiva. A bem da verdade, as comemorações pessoais nasceram quando os filhos deram um basta enérgico e mesmo contundente nas suas. E quais parabéns, e quais pais e família e bolos e palmas e eteceteras. Tinham crescido.

Essa amiga que desde o início me pareceu garota modernaça e decidida, comungou apertos e ignorâncias juvenis; obrigou-me a fazer um enxoval, ajuizando ser pertença de todas as raparigas;  enxugou-me lágrimas amargas; fazíamos os tpc juntas e ajudou-me nas férias com os meus irmãos de quem se fez amiga. Em tempo de aulas saíamos à meia noite de um comboio que nos deixava na gare deserta, um quilómetro a palmilhar sem temor em vila iluminada e solitária, facto que me fazia dizer-lhe amiúde, "ainda não percebi a recomendação da tua mãe, "ai filhas não se encostem às paredes, andem pelo meio da rua". Nunca soube se não respondia à questão por concordância comigo que achava muito mais perigo em andar no meio da estrada, se os subentendidos da mãe lhe eram claros. Seguíamos rindo e conversando de tudo e nada, como se no dia seguinte não nos levantássemos cedinho porque o trabalho. Quando em minha casa, participava activamente nas limpezas, toda ela alegria despachada e convicta, eu gosto mesmo é de limpar casas sujas e de "aventar" o lixo. E ria-se do novo sentido do termo.  Nas férias escrevia-me cartas em círculo e chamava-lhes circulares, eu a dar a volta à circular porque a escrita combinava com a forma da carta. As circulares que me enviava eram ordens para uma saída nem que fosse só até sua casa, ou avisos do dia em que chegava. E selava as ditas, devidamente assinadas por ela e um secretário, com impressões labiais fixadas por batom vermelho vivo que ambas compráramos em Badajoz, sendo verdade que o meu mano caçula deve ter espreitado a mesa de cabeceira, rodado o batom sem o destapar e fui dar com ele debaixo da minha cama, todo esbarrondado e sem proveito, os tacos do quarto em vermelhidão aflita, ai, não me digam que isto é sangue, querem ver que estou doente e não sei.  Sou bem capaz de ter dado um enxota-moscas no mano mais novo pelo silêncio acerca de; aquele batom era para nada, ficava-me pessimamente e não me atrevia a sair com ele posto.  A amiga ficava linda: amarrava um lenço (usavam-se), deixava uns caracolinhos castanhos a assomar nas laterais ou cobria-os no completo de si, branca de pele e olhos verdes, o vermelho da boca ia-lhe tão bem como a mim o inverso. Tivemos sacos de praia parecidos (que ela inventava e costurava); lenços de cabeça iguais e que bisavam o cair do batom; chapéus à beto(a) e  de que não recordo o nome, mas eram brancos e pareciam chapéus de bebé; boinas bascas que só a ela ficavam bem, mas eu usava na mesma por me emprestar certo ar revolucionário; casacos de carneira e botas caneleiras (aí eu tomava algum jeito). Um mundo de coisas pequenas e baratas - exceptuem-se os casacos de carneira - de que ela se lembrava e eu alinhava contente.

(cont.)


sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Lampejos

             A vida é como os alcatruzes da nora, umas vezes em baixo outras em cima. Isto diziam os antigos no tempo em que havia noras. As noras, como expliquei a muita criança que as não conheceu, eram uma roda gigante e metálica com caldeiros pendurados. Este artefacto montava-se sobre um poço por forma a haver sempre alguns caldeiros imersos. A roda girava através de roldanas  por esforço de burro, cavalo, macho ou égua, almas do sistema já que o faziam mover. Os pobres bichos rodavam em volta do poço de olhos vendados para julgarem que iam em frente - os animais não são destituídos de inteligência. Horas cansadas as que gastavam ligados à nora, baldes abaixo e acima, sob as patas um círculo calcado e remoído de sulcos, a nitidez das ferraduras a falarem do caminho  redondo, umas apagando as outras em cada volta, aqui e ali a anarquia de desafogo intestino que pisavam e fedia. Alguns garotos, se o hortelão regava lá pelos fundos, afoitavam-se quinta fora e, aproveitando os olhos vendados, judiavam do animal. Se a marcha abrandava, logo o malvado hortelão se aproximava e lhe zurzia o lombo, "Arre burro! Em frente burro de um cabrão" (isto sendo o burro, claro; que a conversa não diferia se o animal fora outro). Acudia - até aos catraios mais judeus -  uma piedade dolorida de assim batidos andarem os animais ao engano, eternos na esperança de  chegar, talvez sonhando-se livres do jugo que os fazia presos e sofridos. Nos intervalos das voltas - enquanto o animal pisava do outro lado do poço -, os garotos,  em bicos de pés, espreitavam a água cada vez mais funda e os caldeiros em eterno vaivém, perdendo líquido que a fundura recebia em eco sinistro, alguns mergulhados na escuridão da água. Havia um sobe e desce de caldeiros que enchiam de água no poço  e, chegados ao cimo, um a um a despejavam numa calha, passagem afeita a frescura ímpar que formigava desejos sôfregos na garotada. A calha era caminho para o tanque de rega onde a água caía em sussurro contínuo. À superfície do tanque que lhes surgia enorme, libelinhas coloridas ziguezagueavam contentes, cada um perfilhando uma por via da cor. Na parte baixa do tanque, retirada a comporta (rolha de cortiça),  a água corria por forma a regar leguminosas e árvores de fruta. Deve ter nascido deste sistema de rega a complexidade escolar de problemas com tanques que em simultâneo recebiam e perdiam água. Que culpa poderia ter a água, assim límpida e fresca, caindo de manso no tanque onde uma ou outra garota ousava uns dedos e depois a mão inteira. O inventor de tal aritmética, raro entendida por crianças, por certo desconhecia passos líquidos em regueiras de terra simples, os garotos invejando a frescura e o vagar com que a água deslizava, pés num desatino sedento. Mas o hortelão. O vigilante carrancudo, um diabo adivinho que vinha pomar fora, o cabo da enxada virado a eles, "o primeiro a pôr um pé na regueira atiro-lhe a enxada acima". E atirava a enxada que batia na terra a meio caminho, um baque surdo que entendiam por "desculpem lá o mau jeito, pirem-se antes que seja tarde". Quando o homem ia por ela, acentuava a carranca e,  olhos vândalos de peçonha, vociferava, "ponham-se daqui para fora seus bardamerdas, só sabem roubar e dar cabo de tudo".

Não precisava tanto. À vista da enxada no ar, os garotos debandavam à força toda, receando o golpe e mais a sova em casa por invadirem lugar que lhes não competia. Só paravam na estrema do território. Aí, arfando, esperavam os que, com a pressa ou por serem mais pequenos, se tinham enrolado nas pernas e caído. E combinavam fazendo-se valentes, "contamos até vinte; se não vierem, vamos ver se o mama-na-burra os aleijou". E iam contando devagar não fosse dar-se o caso de terem de voltar a terra estrangeira. Mas logo os restantes apareciam esbaforidos e amedrontados, as gaiatas umas para as outras " apalpa lá o meu coração, bate com tanta força". E o minorca desligando-se da irmã, a fazer-se notado, "corri tanto que até batia com os calcanhares no cu" e acrescentava em meia afirmativa, "não fui o último, pois não?"  E os primeiros a mirá-los, um trejeito depreciativo a torcer-lhes a boca, armados de forças que não tinham, "cagarolas". Sentavam-se no chão encostados ao muro, protegendo-se na magra tira de sombra, pés de pó, o suor escorrendo em fitas de sujidade, cabisbaixos do proibido, raivando contra o hortelão. Foi aí que o Justino cuspiu de chofre, "d'hoje pá frente o mama-na-burra fica lobisomem". 

E por ali se quedaram rindo alto e inventando vidas de lobisomem. Contudo, por dentro,  roía-os o sonho nunca enunciado de um impossível banho no tanque de rega, a imaginação de brincadeiras dentro da água a que nunca chegariam. Anos mais tarde, compensaram o tanque proibido com idas à ribeira desleal que matou dois deles sem autorização. A ribeira era um nunca mais de água e só alguns - muito poucos - viram o mar e nele molharam os pés, calça arregaçada, homens já de sua casa, a puxarem de filhos temerosos, "anda, um dia cresces e vens banhar aqui". Que é deles, esses que me habitam sujos e felizes, infância gregária encostada no muro branco da Quinta Grande. 

segunda-feira, 29 de julho de 2024

Inventário de Anjos

           A vida nem sempre é transparente e, subreptícia, vai tecendo a sua teia. Pode ter sido acaso, vontade de Deus, ou prece de minha mãe.  O certo é que, entretanto, abriu na vila um colégio religioso e, por influência paroquial, mal as férias grandes terminaram, ocupei nele um lugar. Grátis. Foi-me dado sob condição: que eu "apanhasse uma bolsa de estudos". 

No tempo de costureiras, criadas de servir e meninas ao serviço da casa e dos irmãos mais novos, destaquei, fui estudante. Viva!...Quando minha mãe o anunciou num sorriso tão bonito e aberto como poucas vezes lhe vi, a incredulidade fez-me balbuciar vezes sem conta, de verdade, a sério?, e mais baboseiras desconexas. Guindei a um contentamento quase histriónico, cume de que tardei a descer, tão impossível me parecia. Desconhecia o que era "ir estudar", mas, impressiva, guardara a  imagem das religiosas. Privara com duas missionárias que haviam chegado à nossa terra directinhas de África, mendigando porta a porta para esse mundo ultramarino que de repente se nos revelou real e não apenas um pedaço de mapa que relegámos porque a professora tinha mais que fazer e a fonética dos nomes nos parecia a nós estapafúrdia. Portanto, nunca soube patavina de províncias ultramarinas: não estudei rios, províncias, capitais, relevo, vias férreas.     

        Em cada dia, e por determinação da mestra, as freirinhas chegavam à escola e levavam consigo uma criança que lhes era guia e preâmbulo. Calhou a quase todos. Também a mim. É certo, as freiras pediam. Angariavam o que houvesse: dinheiro, batatas, couves, nabiças, o que fosse (vendiam na praça da vila os produtos hortícolas). Mas o que melhor recordo é vê-las bater às portas, entrarem e assistir ao fazer de novelo que era dobrar más vontades, a lã de cada um passando-lhe nas mãos do pensamento, até que os nós deslindado e um silêncio de compreensão a fazer cama, um chá borbulhando em restos de lume, café de pé para que eram convidadas sem o mais que não havia e as mãos procurando as melhores canecas, as mais limpas. Mas aceitavam contentes e cirandavam a ajudar no preciso. De todos os casais, católicos ou não (a maioria não),  só um as enxotou do portão fechado, carranca raiando a má educação. Elas a todos serviam; aceitavam almoço em casa de quem convidava com receio e logo ressaibos de orgulho apregoados na loja, comeram da nossa panela. Viravam-se à fraqueza de brasas envergonhadas, velhas e velhos dobrados sobre si, olhos perdidos na cinza, contando, do nascimento ao presente, e com notável indiferença, a história própria. Eu esforçava-me para não chorar, mas eles não se tolhiam de esmiuçar feridas sem carapela,  que me doíam de ouvido e a que os anos tinham dado auréola e uma subentendida  terceira pessoa do singular, cujas peripécias mal tocavam os intérpretes principais. Actores da vida,  embrulhavam-se em rebotalhos de indiferença, talvez admirando esses que tinham sido e perguntando de si a si, fui este?. Tanto mundo por aprender. 

sábado, 27 de julho de 2024

Inventário de Anjos

        Penso no que devo à vida. Todos somos devedores. Ou quase todos. Ou a maioria. Esta constatação chama pelo nome amizades e amores que partiram (ou não) e me valeram mais do que eles mesmos poderão ter imaginado. Como se eu fora barco que não comandei, mas também não seguiu ao acaso. Algumas dessas amizades e amores foram ponto de viragem, condensação dos meus sonhos mais voláteis e de reconhecida impossibilidade. Suponho que esses sim, são anjos da guarda.

Desde o nascimento, só o talento amoroso de minha mãe conquistou e deu lugar na terra a um espécime com defeito, tolhido de maleitas e difícil gestação. Devo-lhe, desde o leite materno, a costumeira normalidade por que todos ansiamos: apesar do início conturbado, tornou-me quase igual a toda a gente. As tias velhas,  que então não sabia serem tias-avós, miravam o minúsculo de mim cantarolando, desenvolvendo a todo o momento perguntas difíceis a que não davam resposta conveniente e me faziam repisar a pergunta. E elas alheias, antes acompanhando um mimético sinal da cruz com a lengalenga, "benza-a Deus; quando nasceu não demos nada por este ninguenzinho". Afirmações e gestos estranhos os das velhotas, mas o mundo dos adultos aparecia-me cifrado e tomava-o tal qual. Devo à vida ou a Deus essa mãe inexcedível, anjo que me puxou para o mundo, me encaminhou com todas as forças do seu coração e não apenas em alguns momentos. Sempre. Sem desfalecer. Contra todos os prognósticos. Fez de mim uma criança feliz.

 Chegada à quarta classe, juntei-lhe a admissão, vontade materna que teve alguns inadvertidos apoios a pesarem na exigente balança do meu progenitor. Meu pai chamava-me "arara", abécula" e "arvela"; mas creio que foi sobretudo essa debilidade (mal podia com uma enxada e com a agulha era um desastre) e o facto de minha prima mais velha ir também fazer o exame de admissão ao liceu, que contornaram a sua má vontade. Os nossos pais eram irmãos e meu tio detinha qualidades admiráveis: era pacífico, terno e sabedor, factores incomuns no nosso mundo de porradas, asneiras e pouco tacto. Eu só o achava bonito, um senhor bem vestido e que falava de forma diferente. Invejava minha prima.

A porta estava aberta. Sem onde. Apesar de não conseguir segurar um dedal no dedo, meu pai ajuizava que iria "enformar" e podia pelo menos ir para a costura. Sem razão que me assista, jamais acreditei que alguma costureira me recebesse; portanto, ia vivendo como os lírios do campo: cumpria a natureza. Um tudo de inconsciência. 

(cont.)


domingo, 21 de julho de 2024

Encantamentos

  Estava no mesmo lugar, tão calma e linda como ela só. Repito-me, mas em cada vez é a vez primeira no amor que lhe dedico. Não é entusiasmo, nem um agrado simples, é razão que aviva o meu ser mortal. Penso nela em todas as estações, lembro-a saudosamente em dias não; no estio,  anseio a leveza dos seus abraços molhados e marco no calendário os dias da semana em que a visito. Se me chega a insónia, apetece-me a simbiose única que mantemos e me alisa os refegos da alma dissipando nebulosas, nódoas negras e o mais. Como se já não bastassem os nós que vamos dando e nos enredam a vida, os anos trazem de presente mazelas que nos recordam o encurtar desmedido dos limites. Porém, na sua presença tudo mingua e se retrai a ínfima proporção. 

Contemplá-la do alto da escadaria é pura maravilha. Vejo-a e sou feliz por antecipação. Esperam-me horas e horas de prazer, por acaso - ou não -,  bastante monótono. Apanhar sol e ler - ir à água - apanhar sol e ler - ir à água. O que eu sonho com este repete, repete, repete. É um facto: trazer companhia tem prerrogativas e serve de interrupção. Mas a identidade do gosto cumpre a sequência.

Este ano a espera foi tão longa que nem olhei as árvores costumeiras, não notei as que morreram e mesmo mortas persistem na vigília, olham sem ver a fita de alcatrão, alentejana de gema no "sempre em frente" do caminho. Reparei nas cegonhitas novas e desabrochadas, armadas em donas da casa, olhando a mutação do mundo em quieta placidez. Para trás deixaram os dias de bico laranja em vê escancarado  e o novelinho que mal se enxergava a sustentá-lo, uma diligência de asas a rodeá-las em voos de cuidado. 

            As cegonhas da beira de estrada medem-me o tempo. Sei por elas se adiantei ou atrasei viagem. Perdi a avioneta da cura e a praia só mosquinhas e outros bichos microscópicos que conseguem fugir-lhe e chateiam pele e paciência fazendo teias em tudo que encontram, até na pala do boné ou no laço do chapéu; e mesmo nas nossas pestanas se o consentirmos ou adormecermos.  São pragas que a força dos químicos afugenta dos arrozais e tomatais e mais culturas em ais (provavelmente). Rainhas contra vontade, ordenam o que não pertence. E, heureusement, perdi os buracos no alcatrão, a estrada apetece. No meio do verde, um alto pinheiro morto, carregado de pinhas. Tão alto e tão morto. Talvez a morte também escolha as árvores. Imagino-a céptica e sinuosa, a mirá-lo, a sentir-lhe o orgulho de líder na altura impávida e frutificada. E ela vingativa,  indicador esquálido e determinante, este.

Porém, a morte das árvores é cada vez mais determinada pelos humanos. E há demasiada morte a fugir à contingência natural. A morte criminosa. Sofrida por árvores e homens, falha do respeito pela vida, doação inexcedível. Não lhe existe critério válido. Posta ao serviço dos vendilhões do Templo-Terra.


sábado, 13 de julho de 2024

Clássicos Momentos

 O cinema atrai-me desde que aos 10 anos, numa colónia de férias, as zeladoras decidiram levar ao cinema os pobres de tudo que nós éramos. Vimos "Tintim e o mistério das laranjas azuis". E foi de paixão que substituí as letras por imagens com vida. Eram desenhos animados a que chamámos bonecos  -  mexiam e diziam coisas que os menos aptos na leitura não conseguiam entender, olhos escancarados para as figuras que desenvolviam a história

O cinema instaura  essa possibilidade de outro mundo, outra história onde a nossa se apaga para vivermos a que corre na tela. E valeria tão só por isso. No cinema somos existimos com a película. Podemos ir acompanhados, termos ao lado um(a) amigo(a), namorado, sogra, gente de qualquer parentesco de alma ou corpo; e continuamos a sós com a fita, em simbiose. Mas os bons filmes deixam lembrança, a memória escolhe-os. Podemos não recordar o filme todo, ou sequer metade, mas há neles o qualquer coisa que permanece. E todos,  mau grado a efeméride que somos e nos rodeia, procuramos o permanente. Já era essa a luta que movia os filósofos antigos, encontrar na constância do mutável o imutável, esse ideal motor imóvel, causa da substância do mundo. Contudo, sabemos da experiência que o imutável não nos é próprio; que, possivelmente, o único imutável que conhecemos é a própria mutabilidade de tudo.

Fui ver "Bolero". E gostei. Trouxe-me "Les uns et les autres". Não todo o filme, a apoteose final. Não sei classificar a música, mas aquele ritmo é inequívoca lembrança. Marca-nos, é ferrete para a vida. Na vez original, e foi nesse filme, senti nela uma urgência desesperada que a repetição vai agudizando, como movimentos de ondas sonoras que cada vez mais se levantam até engolir e rasar tudo o resto. E agora o filme "Bolero" é como que a história do nascimento musical do Bolero de Ravel, assistimos à pretensa concepção da peça, ao zénite do maestro e compositor Ravel e à sua mais que previsível loucura/doença. Não tem a grandeza de "Les uns et les autres", nem a pretende. Apresenta-nos Ravel, o homem e o músico. O génio que traduzia a música que tinha na mente e de repente - ou não tão de repente assim - deixa de a saber traduzir; ela está lá, mas já não consegue pô-la em pauta. Sofrer de tal doença neurológica deve ser profundamente dramático. O filme foca-se na difícil concepção do Bolero sem esquecer a sua apoteose. Talvez a cineasta que concebeu e dirigiu o filme tenha exagerado um pouco a importância musical da peça, parece que o maestro não a achava genial nem do melhor que criou. Mas seduziu-me a personagem Ravel. E é fora de dúvida: de tudo que o seu génio concebeu, o Bolero é o que mais se ouve. 

terça-feira, 2 de julho de 2024

Salamanca

  Antes de viajar, e contrariando o meu gosto por surpresas, decido o que desejo ver/visitar. De acordo com a companhia nem sempre dada a museus e que tais, escolho e anoto os imprescindíveis.  O restante, que antevejo não poder ser abrangido, deixo na mesma anotado, quem sabe há uma reviravolta que o proporcione. Ora, frente à Catedral de Salamanca fica o Museu de Arte Nova, um dos meus imprescindíveis. Percorri-o sozinha, facto de que tirei benefício. É uma frescura para os olhos aquele museu; e um derreter de alma.  Situa-se num palacete muito claro devido ao revestimento do tecto ser, em grande parte, constituído por  um vitral lindo que me lembrou a Lello; e à parte da casa que suponho em tempos ter sido a frente (e ainda será, mas não entramos nem saímos por lá) e é, no primeiro piso e no rés do chão, completamente vidrada e suportada por estrutura em ferro, tão delicadamente concebida que mais parece renda beijando o vidro. Acrescente-se que o tom cinza claro nas portas e umbrais agrada ao olhar de quem entra, desfatiga.  As peças são pequenas maravilhas expostas em vitrine ou são mobília compondo a sala. Subindo ao primeiro piso, maravilha-nos a vista total do tecto, um longo vitral a coar a luz em tons diversos com predomínio de azul. Olhando ao redor, verificamos estar em sala ampla com varanda corrida a toda a volta, mercê da estrutura de ferro que  a abraça e ampara, permitindo a expansão do vitral. Damos por nós num corredor que percorre a sala e é delimitado pela citada varanda.  Abaixo do belíssimo vitral do tecto, o friso também em vitral que o guarnece e como que emparelha e olha a varanda abaixo que percorre a sala e é também cor e luz de vitral. Deslumbre. Dando costas à varanda abismamos no conjunto cinza das portas fechadas: umbrais guarnecidos de motivos florais e na bandeira da porta o semicírculo de vitral com motivo rosa. Um achado de conto de fadas. Ao longo do corredor rectangular, encontram-se outras portas iguais ou parecidas. Junto ao tecto, as paredes interiores rematavam num friso de flores pequenas suponho que em gesso e que, salientes, pareciam descolar do lugar onde alguém assim as fez nascer. Imagino que aquela varanda interior existiu para contempladores de bailes ou outras actividades que aconteciam em baixo, no grande e arejado salão ora vazio. Abençoado seja quem inventou todos os requebros da Arte Nova. Fotografei o que consegui e me chamou: figuras de mulher, em maioria. Não por sectarismo, eram as que mais abundavam. Gostei da mulher mariposa, lembrou-me os meus braços de vinte anos. E das duas bailarinas, mãos dadas, em bicos de pés e tão airosas no rodopio leve das saias.  Fascínio. A umas captei pela beleza, outras pelo movimento que  emanam, outras apenas por gosto e rendição. Gostei de tudo. Só as jarras e jarrinhas de arte nova brilham na ausência da flor, são a própria floração. 

Raras vezes me deixo tentar pela loja de artigos de museu (exceptuo a Gulbenkian). Mas, o Museu de Arte Nova é-me irresistível. E apesar de serem ofertas, saí contentinha. A minha dádiva foi estar lá inteirinha e observá-lo amorosamente.