Penso no que devo à vida. Todos somos devedores. Ou quase todos. Ou a maioria. Esta constatação chama pelo nome amizades e amores que partiram (ou não) e me valeram mais do que eles mesmos poderão ter imaginado. Como se eu fora barco que não comandei, mas também não seguiu ao acaso. Algumas dessas amizades e amores foram ponto de viragem, condensação dos meus sonhos mais voláteis e de reconhecida impossibilidade. Suponho que esses sim, são anjos da guarda.
Desde o nascimento, só o talento amoroso de minha mãe conquistou e deu lugar na terra a um espécime com defeito, tolhido de maleitas e difícil gestação. Devo-lhe, desde o leite materno, a costumeira normalidade por que todos ansiamos: apesar do início conturbado, tornou-me quase igual a toda a gente. As tias velhas, que então não sabia serem tias-avós, miravam o minúsculo de mim cantarolando, desenvolvendo a todo o momento perguntas difíceis a que não davam resposta conveniente e me faziam repisar a pergunta. E elas alheias, antes acompanhando um mimético sinal da cruz com a lengalenga, "benza-a Deus; quando nasceu não demos nada por este ninguenzinho". Afirmações e gestos estranhos os das velhotas, mas o mundo dos adultos aparecia-me cifrado e tomava-o tal qual. Devo à vida ou a Deus essa mãe inexcedível, anjo que me puxou para o mundo, me encaminhou com todas as forças do seu coração e não apenas em alguns momentos. Sempre. Sem desfalecer. Contra todos os prognósticos. Fez de mim uma criança feliz.
Chegada à quarta classe, juntei-lhe a admissão, vontade materna que teve alguns inadvertidos apoios a pesarem na exigente balança do meu progenitor. Meu pai chamava-me "arara", abécula" e "arvela"; mas creio que foi sobretudo essa debilidade (mal podia com uma enxada e com a agulha era um desastre) e o facto de minha prima mais velha ir também fazer o exame de admissão ao liceu, que contornaram a sua má vontade. Os nossos pais eram irmãos e meu tio detinha qualidades admiráveis: era pacífico, terno e sabedor, factores incomuns no nosso mundo de porradas, asneiras e pouco tacto. Eu só o achava bonito, um senhor bem vestido e que falava de forma diferente. Invejava minha prima.
A porta estava aberta. Sem onde. Apesar de não conseguir segurar um dedal no dedo, meu pai ajuizava que iria "enformar" e podia pelo menos ir para a costura. Sem razão que me assista, jamais acreditei que alguma costureira me recebesse; portanto, ia vivendo como os lírios do campo: cumpria a natureza. Um tudo de inconsciência.
(cont.)
Registei: Anjo mãe, Anjo tio. Bom domingo Bea.
ResponderEliminarNão foi bem assim, CC.
ResponderEliminarPorrada.
ResponderEliminarSó ler arrepia.
Nunca levantei a mão às minhas filhas.
Nem eu nem a mãe.
Para quê?
É ao murro que se educa???
Boa semana
Era assim. Umas palmadas no sítio certo e sem cólera não mataram ninguém e fizeram-nos entender e não repetir; até por termos entendido na hora que magoavam tanto quem as recebia como quem as dava; e por tal razão, depois de pensada, nos desculpávamos mais tarde. Porradas coléricas e sem procurar sítio, doem a vida toda, ainda que hoje lhes possamos - eu e tantos da minha idade e condição - reconhecer alguma razão; nada criaram além de má vontade contra a injustiça.
ResponderEliminarO Pedro não tem a idade dos nossos pais e, de certeza, não viveu nesse tempo nem teve sequer ameaços da vida rude e aflita da pobreza, prenhe de apertos e desconcertos. É como diz o filósofo, "eu sou eu e a minha circunstância". E cada um com a sua história que não é melhor nem pior que outra qualquer; tem diferença.
PS: ainda assim, sempre lhe digo que dei algumas palmadas quer em alunos quer nos filhos. Mas não bati por cólera ou apenas zanga. Os meus princípios não mo proíbem. Hoje repetiria? Não sei, os tempos diferem e eu também. Mas não me caem os parentes na lama, se uma palmada em tempo certo.
Boa semana, Pedro.
Apesar de todas as vicissitudes também acho que devo muito à vida e a uma força anímica que me fez aceitar cada dia da melhor maneira. A minha mãe foi quem mais me deu força, quando acreditava que eu ia vencer porque era a melhor acreditava ela. Acho que foi ela o meu anjo da guarda.
ResponderEliminarTão bom lê-la, minha querida Amiga Béa.
Uma boa semana.
Um beijo.
Minha mãe nunca me disse e nem sequer alguma vez deu a entender que gostaria que fosse a melhor. Também julgo que esse à vontade fez de mim uma garota muito mais feliz e livre do que se ela se preocupasse com notas, trabalhos de casa e etc. Talvez por isso não tenho qualquer sentido competitivo, detesto jogos de ganhar e perder, e não me recordo de querer ser a melhor em coisa nenhuma. Era íntima da melhor aluna da turma mas nunca me ocorreu imitá-la.
EliminarA Graça sim, casa palavras que adejam vaporosas.
Um abraço e boa semana
Identifiquei-me com algumas partes do texto, que realmente hoje em dia não fazem sentido, mas era o que se tinha na altura.
ResponderEliminarDou graças por a minha mãe também ter mudado e o meu pai, apesar de tarde, mas acho que ainda a tempo.
Beijocas
P.S: Bea, eu adoro ler. Para mim, sempre foi um vício. O meu marido é que lhe está a tomar o gosto :D
Bom, fiquei com a ideia num post lá muito atrás que não seria coisa do seu gosto e que andava a tentar contrariar. A leitura e a escrita (para mim mais a escrita que a leitura), fazem-nos reflectir e dão clareza ao pensamento.
EliminarDeve ser agradável ter um marido que lê. E lêem os mesmos livros ou cada um tem a sua secção?
Temos alguns em comum, sim. Mas eu ando mais virada para neuropsicologia e ele ainda não anda nessas andanças :P
EliminarTambém devo muito à vida! Dou comigo a pensar que tenho "merecido" o meu viver na (im)perfeição do mesmo! Bj Bea
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