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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Música de Todos os Dias

 

        A música é arte antiga. Merece respeito. Música criada com palavras; ou só ela, flutuando numa sala desde os grandes espaços ao recôndito de um escaninho. Música assim não conhecíamos.

        Sabíamos músicas da natureza – do leve desprender de uma folha ao murmúrio da água correndo nas regadeiras; ninguém aflorara sequer as ondas mansas da praia estival ou o bravio e exasperado mar que o inverno constrói. Sentíamos a brisa num sussurro a brincar-nos nos cabelos e o uivo do vento que nos levava de vencida, braços abertos, “olha eu a andar para a frente e a ir para trás”. Doía-nos haver gente que não pode ouvir e apenas sente da música a vibração. Desses sabíamos, havia dois gémeos surdos-mudos a morar lá em cima.

        Da infância guardámos a música dos guizos e das patas das mulas puxando lestas carroças, a voz das mães jovens cantando a seus meninos, as estridências da primeira vez num comboio que nos soavam musicais sem que o fossem. Habituámos o ouvido ao leve restolhar dos gatos sobre as folhas quebradiças da figueira, sabíamos o silvo do ar na roda da frente da bicicleta, esperávamos o assobio que nos unia em brincadeiras de quem nasce para o trabalho e antecipa, pelos irmãos mais velhos, a estreiteza do tempo de brincar. Ainda que não seja dito, todos lembramos o som do caldeiro a tocar a água na escuridão do poço, sabemos da torção de enchê-lo e da subida a pulso, a música nascendo da água baldeada que teimava em voltar a si e caía num eco trinado de pureza integral. No fundo da alma de cada um dos gaiatos de rua, mora o som vibrátil da membrana interna das canas que os mais hábeis deixavam exposta para o efeito, “toca lá”; e todos tocávamos apurando o sopro e o lábio inferior até que a membrana rompia e cessava a música. Essa era a nossa gaita de beiços.

        Inda sei a música dos grilos e a respiração nocturna das laranjeiras. Outros saberão das modinhas que assobiavam, do conforto alegre de um lume de chão e dos estalos da lenha musicando toda a cozinha; do trinco da porta e da volta da chave, música que a todos descansava de ladrões (o que roubariam, penso hoje).

        Imagino que minha mãe me cantasse muita vez; recordo-me de estar sentada nos joelhos de um capitão cujo nome esqueci e a cantar para ele. Ignoro-lhe a figura, mas são memórias de genuína ternura. Se minha mãe me levava a sua casa, a mulher mandava chamá-lo ao quartel e ele ia ver-me. Teria sido um bom pai aquele capitão e julgo que a minha presença faladora e cantadeira lhe dava grande prazer. Não sei quais os seus humores noutros momentos, sei que quando nós dois nos juntávamos ele era feliz e eu também.

        O rádio do meu avô acompanhou-me na saúde e na doença, levei-o comigo para todo o lugar. E continuei cantando pela vida para a tornar mais animada e bonita. Ou seria homenagem ao ensinado por minha mãe, embora não a iguale no dom. Que pensarão hoje os meus amigos de então acerca da música e do que cantávamos empoleirados no valado de minha casa?! Alguns já partiram em modo definitivo. Outros terão suas moléstias, estes descasaram, enviuvaram ou apenas foram e são sozinhos, ignorando talvez que todos o somos, que não os imagino com grandes filosofices. Levava-os a ouvir música clássica, hoje um gosto meu?! Mas eu mesma a frequento cada ano menos... Fiz outras amizades, com incentivos musicais próprios. Canto pouca vez e só em alguns momentos me lembro da música, agora ao alcance de um clic. 

        Prezo cada mais o silêncio que me tem vindo a seduzir; e os pequenos sons - quando uma amiga ri e eleva a sua voz determinada fazendo-me reconhecê-la; se outra trauteia em surdina uma canção; se a gata mia ternamente. E quando os filhos chegam e dizem como quem vem dali perto, “tão mãe”, há um rio que canta na voz deles. Ou na minha alma, que é a mesmíssima coisa.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Genealogia Casual

 

        Não recordo o tema que me trouxe à escrita no post anterior e que, inadvertidamente, abandonei; portanto, vou deixar a mão e a mente divagarem. Sou pessoa muito sem ideias para postagem. Desagrada-me escrever sobre política e aos temas fracturantes só uma vez por outra sucumbo. Prefiro histórias, factos banais e quotidianos, pormenores que noto aqui e ali nas poucas vezes em que me dou ao luxo de sair da condição de eremita a que me dedico cada dia com mais afinco; falta-me viver, como certo tio-avô, numa cova isolada e silenciosa, longe de quaisquer laços humanos. Herdei de minha mãe uma foto de juventude desse tio, anterior à sua solidão monástica: surge já cabeludo e barbado até meio do peito, vestido de forma insólita, olhando a objectiva com naturalidade, em jeito puro de criança. Irmão de meu avô - senhor com aspecto geral de Charlot sério e bondoso, e alta tendência para o silêncio -, o tio foi cortando relações e palavras até ao afastamento total de ambas. Na minha mente infantil e pautada por essa foto única, assumiu a figura de homem das cavernas alimentado por raízes, frutos de plantas e árvores silvestres, imagem que minha mãe nunca desmentiu e até ajudou a construir, à vista insistente da minha estranheza inquiridora. Não soubemos nunca quando ou como morreu e as lembranças que deixou nos meus tios mais velhos, se bem que muito incipientes, pautavam-se pela afectividade: todos gostavam dele e, segundo confidências maternas, em quase silêncio, brincava com os sobrinhos, dava-lhes atenção, facto invulgar nesse tempo. Suponho que as gerações mais novas da família o ignoram. Por vezes quedo-me a esquadrinhar aquela foto amarelecida pelo tempo, de certeza a mais antiga que possuo. Que pensamentos povoavam a sua mente emudecida por vontade, estaria mesmo desligada de tudo e todos?! O que tinha aquele homem contra a espécie humana que tanto o foi afastando – desprezou herança, roupas, objectos pessoais, tudo. Ou seria antes uma espécie de chamamento ao silêncio e ao mundo natural. Minha mãe dizia dele, “não pertencia bem a este mundo” e meu pai tasquinava, “pois não, gostava mais de dormir numa cova com os lobos e as raposas, a cheirar mal e cheio de piolhos”. Jamais minha mãe, herdeira de silêncios ensurdecedores, retorquiu a tais dichotes. Desvaneço ao pensar que dos muitos netos que tem e não conheceu, legou a um dos meus filhos os silêncios prolongados e igual forma inteligente e ponderada de observar e analisar as situações, qualidade que é lança na aproximação à verdade.

        Atardo-me a pensar que talvez exista em cada família humana um ser que sai da série e destaca pela diferença do comum dos mortais. Serão anómalos?! No caso, é sintoma positivo; minha avó, professa de religião que rejeita a santidade, dizia do cunhado, “um santo”.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Tempus Fugit

 

        Se colocamos em perspectiva os males de ontem, parece-nos quase sempre que os de hoje, que doem e fazem mossa no presente, são mais fortes, piores, crescem-lhes garras e cadeias de tormento. Ora, ainda que diverso disto, um dos grandes males de sempre é a luta insana e contra relógio que comanda a vida dos homens. Acontece demasiadas vezes a toda a gente. 

        Andava eu a apreciar as novas entradas no CAM, a experimentar entrar e sair; a sair para observar em pormenor o tecto da célebre pála, dando um soslaio para as várias cadeiras de plástico branco espalhadas na clareira em frente e onde algumas pessoas descansavam concentradas em si e parecendo satisfeitas com isso; e ia eu entrando de novo e descendo as escadas de mármore tão bonito agora tapadas com um metal que deve estar na moda, já que a entrada da Casa da Música também assim é, eu ressoando escada abaixo e aqueles bancos de pedra corrida a virem-me à memória - ainda estão no mesmo lugar -, eu sentada perto de adultos com crianças que comiam bolachas ou só vinham perguntar alguma coisa e retornavam à relva e à brincadeira; onde pares de namorados paravam para atacar os sapatos, ou apenas decidir se iam à biblioteca ou se estendiam na relva. Pensava nisso e nas cadeiras plásticas. A sério: apetece-vos ir para a Gulbenkian sentar numa cadeira plástica que podem mover no sol ou na sombra do terreiro?! Talvez apeteça ter uma peça móvel para sentar em modo unipessoal, já que várias estavam ocupadas. Retomando o assunto, é claro que no final da escadaria não estava o wc de sempre, mas outra coisa qualquer. E subi, pom, pom, pom. Fui comprar a entrada no museu e salta-me o jovem, a senhora quer mesmo entrar? É que daqui a um quarto de hora o museu fecha. E eu para dentro, mas quem me manda a mim andar a passaricar sem ver as horas?! Do lado de fora, sorri-lhe à simpatia e prometi voltar noutro dia. Ainda não era o dia de convívio com Paula Rego. Ora bolas!

        Semanas passadas, lá me pespeguei. Lembrada de que não encontrara o wc, resolvi investigar-lhe o paradeiro. Não sei se consigo encontrá-lo de novo, tanto corredor branco baralhou-me, senti-me, ao vivo, num filme de ficção científica - julgo que tudo em mármore, mas preciso confirmar, atordoei um bocado. Com ajuda, atingi o objectivo. Satisfeita a primeira condição, marchei contente ao museu. Ia disposta a sentar-me em contemplação, Paula Rego é alguém que admiro e gosto-lhe dos temas. Mas qual contemplação?! Os quadros estavam lá na sua inteira realidade, na feiúra bela em que Paula os concebeu. Algumas figuras parecem querer sair da pintura, apostrofar-nos; aquelas mulheres-homens cheias de músculo, o sofrimento de tantas, a ingenuidade daquela, a amargura nos vincos de rostos endurecidos. E o simbolismo de tudo: Portugal a derramar-se sem espartilho. Enfim, eu queria mesmo era ver em pormenor e com tempo – fui cedo e tudo. Mas não havia onde sentar-me e a minha acção contemplativa não transige: só funciona na posição de sentada. É forçoso. Portanto, vi-os sim senhor, mas não contemplei. Gostei da sensibilidade que soube juntar Paula Rego com Adriana Varejão, gerações diferentes e parecidas. Admirei os rasgões de Adriana lembrando carne lacerada e outros golpes. Até achei bonita a disposição das pinturas em pequenas salas de faz de conta. Mas quem é que, num museu reconstruído, se lembra de expor pinturas e lhe retira o sentar?! Será também uma nova técnica?! É que o único banco que vi, curiosamente, estava nas costas das paredes onde as obras estão instaladas, espaço que, a bem falar, já não é exposição. O que pensaria disto Rui Mário Gonçalves, crítico de arte e professor universitário, que, como primeiro trabalho, pedia aos alunos que olhassem um quadro do MAC durante meia hora para depois escreverem as suas impressões.

        Será que a concepção da exposição, ao preferir as divisões de casa falsa, retira a distância necessária à contemplação? Pode ser preconceito, conservadorismo elevado à última potência, mas ausência de todos os assentos?! Todos, todos?!

domingo, 24 de agosto de 2025

Tempus Fugit

 

        Durante anos visitei com regularidade o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. Penso que o descobri por mim, nem sei como; imagino que através de referências sobre as pinturas de Amadeo, por exemplo. Levei lá carradas de alunos. Gostava-lhe da situação e tinha preferência pelo serviço de restaurante. Envelheci com aquela gente: no princípio dominava em nós o tom natural de cabelo, sobrancelha, bigode (havia um senhor muito simpático e de bigode) e terminámos grisalhos ou atintados. Coisas. Não que os visse muito, mas havia naquela sala alguma coisa de familiar que me atraía. Seria a simpatia na recepção, a qualidade do atendimento que não se eximia de sugerir se nos descortinava indecisão, o conforto de mesas e cadeiras, a cultura de falar baixo, a diversidade de pratos quentes e frios, os sumos naturais e a variedade de sobremesas, a eficiência delicada na retirada de tabuleiros. E, lógico, a qualidade de tudo. Ali estive com amigos(as) e tanta vez só, para lanche ou almoço. Próximo do meu local de consultas e de um cinema, havendo tempo, passava para olhar o verde no meio da cidade, sentir o trânsito lá fora, sentar-me num banco a contemplar a vida em câmara lenta, o cheiro a relva molhada oferecendo certezas simples. Todos os sentidos à superfície. Só depois rumava ao destino, alma leve.

        Amei com vigor o museu, vulgo CAM. Quando a entrada era gratuita para professores entrava sempre e geralmente ficava-me pela primeira sala. Sentava-me a olhar os quadros de Amadeo e o fabuloso retrato de Pessoa axadrezado em vermelhos, branco e negro, divina pintura de Almada Negreiros. Fazia-me bem ao espírito contemplá-los. Punha um pé na Gulbenkian e o meu eu diário suspendia.

        Entretanto, aconteceram as obras no CAM e o covid, amplas restrições aos passeios pela Gulbenkian. Não que os deixasse de todo. Mas o ponto que mais me interessava manteve-se demasiados anos encerrado ao público. Vi exposições no museu do edifício principal, assisti a concertos e conferências, sentei-me no mesmo banco a observar o vagar com que a vida por ali se derrama. E os muros altos continuavam a cercar o CAM. Até que foi notícia de telejornal: o CAM reabrira. Não fui a correr. Sou a cada dia mais conservadora e saudosista, parou-me o receio de não gostar da célebre pála e nem do resto. E depois fui adiando, adiando, quase até ao esquecimento. Adiei tanto que deixei mesmo de passar nos jardins de que tanto gosto, tenho devoção contemplativa por Gonçalo Ribeiro Teles um dos criadores daquela maravilha. E nem é preciso citar que o senhor Gulbenkian tem lugar cativo no meu coração.

        Bom. Há cerca de dois a três meses enchi-me de coragem e fui ao Centro de Arte Moderna. E sucedeu o que pensara: não achei que a célebre pála merecesse o dinheiro que ali se gastou. Mas pronto, está lá, tem um ar moderno, deve ser obra de arquitecto iluminado. Espreitei o restaurante. Oh! Perdeu todo o ar familiar. Ganhou individualismo minimalista e perdeu em qualidade. Talvez tenham um chef ou algo parecido, mas espreitei as iguarias e não só não apareceram, como faltava sedução aos arranjos(taças de inox?) em que se encontravam alguns alimentos. Bom, junto à janela panorâmica ainda há resquícios de antigamente (para os saudosistas), mas tudo ocupado. Da empresa e da simpatia eficiente dos funcionários de antes não há sinais. O mundo está sempre a mudar. Aceito. Só receio que esta actualidade severa e cool não deixe memórias. Mas a minha amiga dilecta está encantada com a mudança e mais sua beleza; portanto, será inadaptação da minha pessoa, cuja perdeu um lugar de almoços e lanches. Paciência.

        O mais que me aconteceu conversamos noutro dia.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Inventário de Anjos

 

Hospedámo-nos juntas por dois anos. Contudo, a vida e a ocasião dispõem e também escolhem. O mais do que fizemos foi em lugares diferentes. Mas visitávamo-nos amiúde e quase sempre com noite incluída. Ela dava-me prendas com que eu nem sonhava, como por exemplo uma máquina fotográfica. Mais tarde, passou a dar-me roupa. Fazia-me prometer que não abria o presente senão no dia de aniversário ou no Natal e que o usava nesse dia. Certa vez pôs-me a prenda na mão e disse " e agora se faz favor não vás já a correr para casa, os teus irmãos podem esperar mais um dia. Se vais para a praia, usas isto depois de tomares banho, ouviste?  (Tróia tinha balneários). É mais nova que eu, mas armava em mãezinha. Cumpri. Abri o presente depois do banho, já o sol descia no horizonte. Do pacote glorioso e tão ansiado saíram uns calções brancos e justos que me davam abaixo do joelho - usavam-se - e uma blusa azul escura só com uma manga de cava; bem que procurei a outra manga, mas não havia. Os balneários tinham um espelho a todo o comprimento da parede. Quando me olhei entrou-me funda ternura e pensei na sorte de ter assim uma amiga e ser inimaginável que nos perdêssemos uma da outra.  Tinha a certeza que ela andara a escolher o mais original que encontrasse e me assentasse bem.

De alunas da mesma turma no ensino nocturno a amigas foi um pulinho, mas o tempo e a vida são móveis e trazem no ventre a mudança. Conhecemos outra gente, fizemos outras amizades, tivemos novos amores -  deixámos de ser corda e caldeiro. Mas tenho nela a mesma confiança. Continua leal e desabrida. É batalhadora e, não havendo batalha, inventa-a. Seguimos a mesma profissão, mas a sua determinação batia-me aos pontos se eu fosse competitiva e comparasse o que não é comparável. Apesar de se auto denominar alentejana por adopção, é uma mulher do norte integral como sou uma mulher do sul por inteiro. Continua divertida e com ideias que são só dela e não lembram a mais ninguém. Lê livros sempre a maquinar sobre o que subjaz; por norma, vemos neles coisas diferentes; ela desconstrói o romance e constrói o romance do romancista, procura nele razões pessoais que o tenham levado à escrita disto ou daquilo, a criar esta ou aquela personagem e  procura documentar as suas teorias, espiolhando o que pode sobre; o romancista não sabe, mas, se a conhecesse, chegaria à conclusão de que lhe dava tanto trabalho desconvencê-la como escrever novo romance. Eu sou apenas leitora, a vida do romancista, os motivos de tema e personagens não me interessam, gosto apenas da história. Foi ela que me apresentou a Lobo Antunes, Agustina (sua escritora preferida) e a autores estrangeiros como Camus, Hemingway e outros que não lembro - comprava livros que eu lia depois.. Continuamos a conversar sobre livros e aconselhamo-nos mutuamente. Fez de mim uma amante de cinema, vimos juntas O caçador e Era uma vez na América. Na verdade vimos juntas muito filme, mas gostei especialmente destes e recordo-nos saltando as poças de água nas ruas de Lisboa no pós filme tentando arejar o coração apertado, o nosso amigo R, seu quase irmão e bem mais novo que nós, desanuviando o ambiente como só ele sabia e inda sabe. 

No princípio da nossa amizade, quando uma à outra nos desvendámos, um dia perguntou, quando vais a casa? Dei-lhe a data e retorquiu, vou despedir-me de ti à rodoviária. E lá estava com um grande ramo de cravos, toma, são para a tua mãe. Deu-mo sem delongas e foi embora. E eu segui viagem a pensar no seu gesto. Penso muitas vezes nesse gesto e pergunto-me se seria capaz de algo semelhante.

No meu último aniversário vestiu cetim, pintou-se, aprimorou. E eu metida num percal qualquer e sem um nico de pintura, cabelo em desalinho. Sentou-se à minha direita, uma senhora fina, bonita e competente. Borbulha nela um ar de competência que pode até assustar quem a não conheça. A mim, comovida e imersa, nem me ocorre o que conversámos. 

Esta amiga é um dos meus anjos mais terrenos.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Inventário de Anjos

 

    Há datas assim, caem-nos em cima feitas marcos quilométricos. Jamais eu notaria marcos dessa natureza ao longo das estradas. Mas estão lá. A despeito da minha ignorância, só desperta ano passado  quando uma amiga, que avalio tão zonza quanto eu, puxou do telemóvel e me comunicou que, em vez de estar a chegar à praia, caminhava numa estrada, não via o mar, e parara no quilómetro não sei quantos (ela sabia o número exacto). E eu mais tonta que ela, isso é o quê?! Ela cansadíssima, bolas pra ti e pra mim, olha não sei onde estou, mas fico aqui junto ao marco, acho que me vou sentar. Eu, espera aí que vou buscar o carro e apanho-te onde estejas. E o resto da história não interessa, mas os ditos marcos ficaram-me. 

Esta converseta sobre marcos vinha a propósito de outra amiga que me ligou no último aniversário e parabéns e tal. E respondi o que se deve; tal como afirmou um querido aluno na aula de apresentação e carregando muito no erre por defeito de linguagem, "eu sou rude, sou do campo". Digo eu que ambos sabemos agradecer apesar de campónios.  E vai daí, ao convencional do telefonema juntei, "nós duas fazemos este ano 50 anos de amizade". E ela acordada para a longevidade, "ah, pois, é verdade; temos de comemorar". Eu pensava nos outroras em que vivíamos como corda e caldeiro. Porém, Agosto é mês de férias e não passávamos juntas a minha data festiva. A bem da verdade, as comemorações pessoais nasceram quando os filhos deram um basta enérgico e mesmo contundente nas suas. E quais parabéns, e quais pais e família e bolos e palmas e eteceteras. Tinham crescido.

Essa amiga que desde o início me pareceu garota modernaça e decidida, comungou apertos e ignorâncias juvenis; obrigou-me a fazer um enxoval, ajuizando ser pertença de todas as raparigas;  enxugou-me lágrimas amargas; fazíamos os tpc juntas e ajudou-me nas férias com os meus irmãos de quem se fez amiga. Em tempo de aulas saíamos à meia noite de um comboio que nos deixava na gare deserta, um quilómetro a palmilhar sem temor em vila iluminada e solitária, facto que me fazia dizer-lhe amiúde, "ainda não percebi a recomendação da tua mãe, "ai filhas não se encostem às paredes, andem pelo meio da rua". Nunca soube se não respondia à questão por concordância comigo que achava muito mais perigo em andar no meio da estrada, se os subentendidos da mãe lhe eram claros. Seguíamos rindo e conversando de tudo e nada, como se no dia seguinte não nos levantássemos cedinho porque o trabalho. Quando em minha casa, participava activamente nas limpezas, toda ela alegria despachada e convicta, eu gosto mesmo é de limpar casas sujas e de "aventar" o lixo. E ria-se do novo sentido do termo.  Nas férias escrevia-me cartas em círculo e chamava-lhes circulares, eu a dar a volta à circular porque a escrita combinava com a forma da carta. As circulares que me enviava eram ordens para uma saída nem que fosse só até sua casa, ou avisos do dia em que chegava. E selava as ditas, devidamente assinadas por ela e um secretário, com impressões labiais fixadas por batom vermelho vivo que ambas compráramos em Badajoz, sendo verdade que o meu mano caçula deve ter espreitado a mesa de cabeceira, rodado o batom sem o destapar e fui dar com ele debaixo da minha cama, todo esbarrondado e sem proveito, os tacos do quarto em vermelhidão aflita, ai, não me digam que isto é sangue, querem ver que estou doente e não sei.  Sou bem capaz de ter dado um enxota-moscas no mano mais novo pelo silêncio acerca de; aquele batom era para nada, ficava-me pessimamente e não me atrevia a sair com ele posto.  A amiga ficava linda: amarrava um lenço (usavam-se), deixava uns caracolinhos castanhos a assomar nas laterais ou cobria-os no completo de si, branca de pele e olhos verdes, o vermelho da boca ia-lhe tão bem como a mim o inverso. Tivemos sacos de praia parecidos (que ela inventava e costurava); lenços de cabeça iguais e que bisavam o cair do batom; chapéus à beto(a) e  de que não recordo o nome, mas eram brancos e pareciam chapéus de bebé; boinas bascas que só a ela ficavam bem, mas eu usava na mesma por me emprestar certo ar revolucionário; casacos de carneira e botas caneleiras (aí eu tomava algum jeito). Um mundo de coisas pequenas e baratas - exceptuem-se os casacos de carneira - de que ela se lembrava e eu alinhava contente.

(cont.)


sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Lampejos

             A vida é como os alcatruzes da nora, umas vezes em baixo outras em cima. Isto diziam os antigos no tempo em que havia noras. As noras, como expliquei a muita criança que as não conheceu, eram uma roda gigante e metálica com caldeiros pendurados. Este artefacto montava-se sobre um poço por forma a haver sempre alguns caldeiros imersos. A roda girava através de roldanas  por esforço de burro, cavalo, macho ou égua, almas do sistema já que o faziam mover. Os pobres bichos rodavam em volta do poço de olhos vendados para julgarem que iam em frente - os animais não são destituídos de inteligência. Horas cansadas as que gastavam ligados à nora, baldes abaixo e acima, sob as patas um círculo calcado e remoído de sulcos, a nitidez das ferraduras a falarem do caminho  redondo, umas apagando as outras em cada volta, aqui e ali a anarquia de desafogo intestino que pisavam e fedia. Alguns garotos, se o hortelão regava lá pelos fundos, afoitavam-se quinta fora e, aproveitando os olhos vendados, judiavam do animal. Se a marcha abrandava, logo o malvado hortelão se aproximava e lhe zurzia o lombo, "Arre burro! Em frente burro de um cabrão" (isto sendo o burro, claro; que a conversa não diferia se o animal fora outro). Acudia - até aos catraios mais judeus -  uma piedade dolorida de assim batidos andarem os animais ao engano, eternos na esperança de  chegar, talvez sonhando-se livres do jugo que os fazia presos e sofridos. Nos intervalos das voltas - enquanto o animal pisava do outro lado do poço -, os garotos,  em bicos de pés, espreitavam a água cada vez mais funda e os caldeiros em eterno vaivém, perdendo líquido que a fundura recebia em eco sinistro, alguns mergulhados na escuridão da água. Havia um sobe e desce de caldeiros que enchiam de água no poço  e, chegados ao cimo, um a um a despejavam numa calha, passagem afeita a frescura ímpar que formigava desejos sôfregos na garotada. A calha era caminho para o tanque de rega onde a água caía em sussurro contínuo. À superfície do tanque que lhes surgia enorme, libelinhas coloridas ziguezagueavam contentes, cada um perfilhando uma por via da cor. Na parte baixa do tanque, retirada a comporta (rolha de cortiça),  a água corria por forma a regar leguminosas e árvores de fruta. Deve ter nascido deste sistema de rega a complexidade escolar de problemas com tanques que em simultâneo recebiam e perdiam água. Que culpa poderia ter a água, assim límpida e fresca, caindo de manso no tanque onde uma ou outra garota ousava uns dedos e depois a mão inteira. O inventor de tal aritmética, raro entendida por crianças, por certo desconhecia passos líquidos em regueiras de terra simples, os garotos invejando a frescura e o vagar com que a água deslizava, pés num desatino sedento. Mas o hortelão. O vigilante carrancudo, um diabo adivinho que vinha pomar fora, o cabo da enxada virado a eles, "o primeiro a pôr um pé na regueira atiro-lhe a enxada acima". E atirava a enxada que batia na terra a meio caminho, um baque surdo que entendiam por "desculpem lá o mau jeito, pirem-se antes que seja tarde". Quando o homem ia por ela, acentuava a carranca e,  olhos vândalos de peçonha, vociferava, "ponham-se daqui para fora seus bardamerdas, só sabem roubar e dar cabo de tudo".

Não precisava tanto. À vista da enxada no ar, os garotos debandavam à força toda, receando o golpe e mais a sova em casa por invadirem lugar que lhes não competia. Só paravam na estrema do território. Aí, arfando, esperavam os que, com a pressa ou por serem mais pequenos, se tinham enrolado nas pernas e caído. E combinavam fazendo-se valentes, "contamos até vinte; se não vierem, vamos ver se o mama-na-burra os aleijou". E iam contando devagar não fosse dar-se o caso de terem de voltar a terra estrangeira. Mas logo os restantes apareciam esbaforidos e amedrontados, as gaiatas umas para as outras " apalpa lá o meu coração, bate com tanta força". E o minorca desligando-se da irmã, a fazer-se notado, "corri tanto que até batia com os calcanhares no cu" e acrescentava em meia afirmativa, "não fui o último, pois não?"  E os primeiros a mirá-los, um trejeito depreciativo a torcer-lhes a boca, armados de forças que não tinham, "cagarolas". Sentavam-se no chão encostados ao muro, protegendo-se na magra tira de sombra, pés de pó, o suor escorrendo em fitas de sujidade, cabisbaixos do proibido, raivando contra o hortelão. Foi aí que o Justino cuspiu de chofre, "d'hoje pá frente o mama-na-burra fica lobisomem". 

E por ali se quedaram rindo alto e inventando vidas de lobisomem. Contudo, por dentro,  roía-os o sonho nunca enunciado de um impossível banho no tanque de rega, a imaginação de brincadeiras dentro da água a que nunca chegariam. Anos mais tarde, compensaram o tanque proibido com idas à ribeira desleal que matou dois deles sem autorização. A ribeira era um nunca mais de água e só alguns - muito poucos - viram o mar e nele molharam os pés, calça arregaçada, homens já de sua casa, a puxarem de filhos temerosos, "anda, um dia cresces e vens banhar aqui". Que é deles, esses que me habitam sujos e felizes, infância gregária encostada no muro branco da Quinta Grande.