Está
na minha frente, ray ban genuínos, fato preto vincado em harmonia com
irrepreensível camisa branca. No rosto fino e menineiro, a barba aparada assenta
de forma agradável e confere a gravidade que, palpita-me, não lhe habita o
rosto limpo e miúdo. Tem as duas mãos enlaçadas à frente, descidas ao
comprimento dos braços como compete a um mestre de cerimónias fúnebres. Será mais de metro e oitenta de elegância
retro. Enquanto o miro e me distraio, empenha-se no papel. Sabe o que responder
na cerimónia religiosa, age como crente. A seu lado e um pouco atrás, a jovenzita que
julgo ser a sua menina. Não lhe chega ao ombro. Veste como ele, cabelo longo e
liso, rosto lavado e sem óculos. Percebo ao longo da cerimónia que começou a
treinar e ainda não está segura no desempenho. Do outro lado, a avó, cérebro do
negócio, pragmatismo em forma de gente no trato da morte dos outros. Sustenta-se nela. Miro-a longamente, recordando o que conheci há muito tempo quando, na
minha vida nómada, aportei a este lugar por uns anos. Nesse tempo, Conceição
tinha um marido carrancudo que lhe arreava como a qualquer animal, nas vezes em
que levantava cabelo – era respingona -, ou apenas porque a dispepsia lho pedia,
a pancada um descarrego de humores. Viviam na minha rua e era frequente a noite
ser assombrada pela voz colérica do homem que levava de vencida a resistência
das paredes. O festival de gritaria antecipava o que conhecíamos: no dia
seguinte, a mulher aparecia a coxear, protegia-se com óculos escuros e tinha negras pelo
corpo. Era um sujeito temível, sem
amigos e que só não assustava os mortos. Tinha, pois, a profissão que
convinha. Eu, adulta certificada e com prática, fugia de ser atendida por ele
na loja de flores que possuíam. Nos olhos de Conceição lia eu – talvez mesmo só
eu – os desastres e naufrágios do casamento, em bolandas com submissão falsa e um
excesso de desesperança posta em fundura
de poço.
Envelheceu e engordou. É hoje uma avó de duplo
e farto queixo adiposo e mudou-se-lhe o olhar. A escuridão de poço sumiu. Ao invés, noto-lhe a
vaidade orgulhosa de quem subiu e está bem de vida. Também recordo o garoto de
então, três ou quatro anos de gente que entregava no jardim de infância. E a
educadora a receber a encomenda e entrando com ele pela mão, Hem, Ricardo, uma
boleia no carro funerário, olha que não é para todos. E ele tão magrito e
pequenino como impante, a minha avó trouxe-me.
Observo-os
a trabalhar, consonantes e comedidos. Apenas a garota, talvez por esquecimento,
mastiga pastilha elástica, facto que muitos lastimam para dentro e a avó vai
reverberar em casa. Mas ele é um craque. Discreto. Silencioso. Eficaz.
Simpático na medida justa.
Depois…bom,
depois a avó leva-os no carro funerário até ao descapotável de último grito.
Entram e recuperam-se. Partem para onde, cabelo de champô em rodopio. Dois
jovens a quem a pandemia trouxe benefício. E a Conceição? Ora, a Conceição está
sozinha há muito ano e do defunto não há em casa um sinal. Homens, só o neto. Um
dia destes, quem sabe, lá volta o carro funerário ao jardim de infância. E ela a repetir-se, desfeita em ternura.
Como sempre, a bea cria (ou recria) personagens de forma inigualável. E é um prazer lê-la.
ResponderEliminarObrigada, Luísa.
ResponderEliminarBoa tarde.
Gostei da descrição, custou-me mesmo foi a parte da violência doméstica.
ResponderEliminarE acho que não conseguia ter essa profissão. Eu sou toda das energias e estar ao pé de falecidos... naaaa
Beijocas
:)) Acredito que a morte a repugne, Cláudia. Parece-me mesmo que repugna à maior parte do people.
ResponderEliminarHá muito mais violência doméstica do que se imagina, Cláudia. Mascara-se disto e daquilo, mas continua violência. E também continua a mostrar onde mora o verdadeiro poder, aquele que se teme. É sempre a dialéctica do senhor e do escravo, o que é triste. Já pensou que o espírito machista a gera sempre e que vivemos ainda numa sociedade dessa espécie?! No caso que escrevo existem de mistura dois ingredientes propícios à porrada, a ruindade pessoal e a suposta superioridade masculina cuja se enquista na força masculina, indubitavelmente superior. A mim agrada-me a justiça cósmica da morte prematura do indivíduo. Só me esqueci de lhe dar um cancro bem forte e maligno a compor o ramo:)).
Bom Dia
Na verdade essa profissão é necessária mas não simpatizo nada com ela...
ResponderEliminare nem eu, Prosa.
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