sexta-feira, 3 de junho de 2022

A Vida que Passa

Está na minha frente, ray ban genuínos, fato preto vincado em harmonia com irrepreensível camisa branca. No rosto fino e menineiro, a barba aparada assenta de forma agradável e confere a gravidade que, palpita-me, não lhe habita o rosto limpo e miúdo. Tem as duas mãos enlaçadas à frente, descidas ao comprimento dos braços como compete a um mestre de cerimónias fúnebres.  Será mais de metro e oitenta de elegância retro. Enquanto o miro e me distraio, empenha-se no papel. Sabe o que responder na cerimónia religiosa, age como crente.  A seu lado e um pouco atrás, a jovenzita que julgo ser a sua menina. Não lhe chega ao ombro. Veste como ele, cabelo longo e liso, rosto lavado e sem óculos. Percebo ao longo da cerimónia que começou a treinar e ainda não está segura no desempenho. Do outro lado, a avó, cérebro do negócio, pragmatismo em forma de gente no trato da morte dos outros. Sustenta-se nela. Miro-a longamente, recordando o que conheci há muito tempo quando, na minha vida nómada, aportei a este lugar por uns anos. Nesse tempo, Conceição tinha um marido carrancudo que lhe arreava como a qualquer animal, nas vezes em que levantava cabelo – era respingona -, ou apenas porque a dispepsia lho pedia, a pancada um descarrego de humores. Viviam na minha rua e era frequente a noite ser assombrada pela voz colérica do homem que levava de vencida a resistência das paredes. O festival de gritaria antecipava o que conhecíamos: no dia seguinte, a mulher aparecia a coxear, protegia-se com óculos escuros e tinha negras pelo corpo.  Era um sujeito temível, sem amigos e que só não assustava os mortos. Tinha, pois, a profissão que convinha. Eu, adulta certificada e com prática, fugia de ser atendida por ele na loja de flores que possuíam. Nos olhos de Conceição lia eu – talvez mesmo só eu – os desastres e naufrágios do casamento, em bolandas com submissão falsa e um excesso de desesperança posta  em fundura de poço.

 Envelheceu e engordou. É hoje uma avó de duplo e farto queixo adiposo e mudou-se-lhe o olhar.  A escuridão de poço sumiu. Ao invés, noto-lhe a vaidade orgulhosa de quem subiu e está bem de vida. Também recordo o garoto de então, três ou quatro anos de gente que entregava no jardim de infância. E a educadora a receber a encomenda e entrando com ele pela mão, Hem, Ricardo, uma boleia no carro funerário, olha que não é para todos. E ele tão magrito e pequenino como impante, a minha avó trouxe-me.

Observo-os a trabalhar, consonantes e comedidos. Apenas a garota, talvez por esquecimento, mastiga pastilha elástica, facto que muitos lastimam para dentro e a avó vai reverberar em casa. Mas ele é um craque. Discreto. Silencioso. Eficaz. Simpático na medida justa.

Depois…bom, depois a avó leva-os no carro funerário até ao descapotável de último grito. Entram e recuperam-se. Partem para onde, cabelo de champô em rodopio. Dois jovens a quem a pandemia trouxe benefício. E a Conceição? Ora, a Conceição está sozinha há muito ano e do defunto não há em casa um sinal. Homens, só o neto. Um dia destes, quem sabe, lá volta o carro funerário ao jardim de infância. E ela a repetir-se, desfeita em ternura.


6 comentários:

  1. Como sempre, a bea cria (ou recria) personagens de forma inigualável. E é um prazer lê-la.

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  2. Gostei da descrição, custou-me mesmo foi a parte da violência doméstica.

    E acho que não conseguia ter essa profissão. Eu sou toda das energias e estar ao pé de falecidos... naaaa

    Beijocas

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  3. :)) Acredito que a morte a repugne, Cláudia. Parece-me mesmo que repugna à maior parte do people.
    Há muito mais violência doméstica do que se imagina, Cláudia. Mascara-se disto e daquilo, mas continua violência. E também continua a mostrar onde mora o verdadeiro poder, aquele que se teme. É sempre a dialéctica do senhor e do escravo, o que é triste. Já pensou que o espírito machista a gera sempre e que vivemos ainda numa sociedade dessa espécie?! No caso que escrevo existem de mistura dois ingredientes propícios à porrada, a ruindade pessoal e a suposta superioridade masculina cuja se enquista na força masculina, indubitavelmente superior. A mim agrada-me a justiça cósmica da morte prematura do indivíduo. Só me esqueci de lhe dar um cancro bem forte e maligno a compor o ramo:)).
    Bom Dia

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  4. Na verdade essa profissão é necessária mas não simpatizo nada com ela...

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