terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Sombra Chinesa

Por detrás do postigo desvidrado, Zefa do Prado, embiocava na escuridão espreitando a silhueta de Jaime, recorte móvel no ar pardacento, por vezes já atravessado de um ou outro raio de sol que dourava este e aquele telhado. Agente secreto posto em serviço, um resto de xaile pelos ombros, espiolhava a rua seguindo os passos do rapaz até a figura esfumar e desaparecer na curva. Enquanto isto, Zé da Adega descoroçoava e dava voltas ao miolo para não contar o que vira e supunha secreto e apenas seu. Moía-o não repartir com a mulher. Bem a conhecia. Virgínia era uma língua de trapos, não sabia guardar mexericos, e este era de alto lá, o que lhe impedia o desabafo. O segredo aturdia-o, pesava-lhe nos interiores. Para amenizar, espalhava-o pelos montes, abria-se à indiferença das ovelhas e contava-lhes o que vira. Mas não resolvia. Adormecido, a mente expandia o mal estar e apoquentava a mulher, homem, tu não andas bom, dantes, dormias que nem pedra; agora, levas as noites aos esticões e a revirar a cabeça na almofada como um danado. E ele com desculpas e atenuantes esfarrapadas, uma ovelha perdida, menos leite na ordenha, o dinheiro que faltava para a contribuição. A agravar, vinham-lhe as histórias que ouvira na infância, histórias de segredos invioláveis que torturavam os detentores. Vinha-lhe o tocador que fora ao canavial por uma flauta e que, mal a punha à boca, logo divulgava o segredo que alguém fora enterrar nesse lugar. E, na sua crença ingénua, temia que castigo semelhante caísse sobre ele. Por vezes, imaginava que o Chico aportava a casa, havia um estrilho tamanho mas resolvia o seu mau estar. E chegava mesmo a fingir o assombro devido, no momento em que a mulher lhe comunicava a nova.  Mas a vida não se dobra aos desejos de cada um.  Zefa e Zé, presentes e sem interferência, pareciam anjos de Wim Wenders. Não julgavam. Refém da amizade que dedicava a Jaime, Zefa emudecia contrariando a sua natureza; quanto ao Zé, sujeito de boa índole e algum romantismo serôdio, sentia-se compelido a proteger os amantes e apoquentava-o o remorso se, em pensamento, chamava o Chico.

Mas os anjos mundanos perderam as asas, habitam a Terra de olhos inquietos e desejantes, e eternamente guardam o céu a que aspiram e lhes é incógnito. São por vezes de uma imperfeição tocante, de outras, mera boçalidade; uns dias capazes de heroicidade e noutros apenas malévolos, vaidosos, autênticos barris de inveja. Ninguém sabe onde nasceu, quem acendeu o rastilho, mas a bomba rebentou: era fonte segura, tinham-no visto, Jaime andava metido com a filha do Pelinhos. E foi um diz que diz, um tal arrasar da mulher que, com filha crescida e pouco mais nova que Jaime, devia ter juízo. Porém, qual fosse a razão, o burburinho fazia-se em surdina e em surdina se esperava a vinda do Chico. Enquanto isso, as madrugadas fizeram-se de companhia, havia gente que desejava surpreender a desfaçatez dos amantes.  


4 comentários:

  1. Nem na mulher poder confiar, isso é mauzinho...
    Mas achei graça ao desabafo com as ovelhas :P

    Mas é só curiosos nestas vidas :)

    Beijocas

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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  2. Em lugares pequenos e mais ou menos isolados, onde pouco acontece, tudo é objecto de curiosidade, tudo se espiolha, Cláudia.
    E atenção, uma coisa é conhecer bem a mulher e, neste aspecto que é frisado, não confiar. Outra coisa é a desconfiança sistemática. As mulheres, como os homens, não têm auréola:).
    Bom dia, Cláudia

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  3. Língua de trapos é uma expressão maquista.
    Xuxumecos e línguas de trapos que são os típicos fala mau da terra.

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  4. :). Ou será alentejana e viajou até Macau. Xuxumecos não consta do vocabulário das gentes da planície

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