sábado, 7 de janeiro de 2023

Sombra Chinesa

 

                O tempo irreversível foi andando, passo certo como só ele. Conservou abertas as pequenas frinchas de esperança no coração dos pais de Ernesto, murou de silêncio a natureza transida, deu nova arte às brincadeiras das crianças, assistiu ao zelo aziago dos homens que blasfemavam com a escassez da forragem, o gado em manjedouras tristes. E trouxe o Chico. O homem passou uns dias letárgico e mono. Comia, dormia, sentava-se uns minutos na rua. Encasacado, a risca do cabelo desalinhada e barba por fazer, pensaram-no doente. Mas logo, renovado de forças, se dedicou à limpeza e arrumação cuidada da carrinha. Quando a mercadoria voltou à ordem que só ele dominava e fazia a admiração feminina, e porque o inverno era tempo de miséria pungente e dali nada retirava, voltou a partir.

Na aldeia, o sufoco invernoso eternizava os suspiros e o frio levava mulheres e crianças a catar os pinhais. Não havia, a média lonjura, mais que as árvores e mato; ramos secos e pinhas, há muito desaparecidos. Chegavam cansados de calcorrear, um feixe magro de gravetos à cabeça das mulheres e,  na mão dos garotos, uma ou outra pinha preterida em buscas anteriores. Uma insuficiência para o frio que atazanava os corpos a todo o comprimento da noite.

E foi assim até a primavera se apresentar em claridade e a terra sair do marasmo. Voltaram a soar os balidos do gado e ouviam-se os chocalhos das vacas  a caminho do pasto de mistura aos gritos dos homens e das crianças que as tocavam. Os dias mostraram o seu poder elástico enquanto a natureza se enfeitava de verde e botões avulsos. A silhueta das mulheres clareou e os laços armados de goma nos aventais das raparigas alegravam a vida e chamavam amores. Na mercearia, a um canto do balcão, a vaidade da rima de chapéus novos convidava.  Após o avio semanal, a rima modificou e o mundo da rua coloriu. Chapéus de palha com remates de fita e garridice de cores protegiam a cabeça das crianças mais abonadas. Mas a surpresa geral era a carta. Época de pouco escrevente, as cartas eram luxo; ou, tarjadas de luto, aviso de grande perda. A carta  chegava branca e pontual - um dia sim, um dia não - para a filha do Pelinhos. E o mulherio invejando a sorte, a relembrar bilhetinhos engordurados, gatafunhos e erros que marcavam encontros e denunciavam amores, em papel de caderno antigo e linguagem de lenços de Viana. Escondiam-nos junto ao coração como fortuna bem guardada; e era ainda bendizendo essa memória que exclamavam, olhem bem o que havia de dar ao Chico. E vinha-lhes uma saudade do que não houvera e, então, não careciam: nunca na vida e só para elas uma carta endereçada e com selo. Nunca a expressão de um amor palavroso e de romance em caneta de tinta permanente com o seu nome caprichado no endereço. Em força de gesto invariável, a filha do Pelinhos chegava-se à mercearia mal via o carteiro. O homem, ainda sentado na bicicleta, um pé nos pedais outro no chão, abria a mala do correio e passava-lha. Só depois entrava a depositar o correio restante sobre o balcão; e já ela seguia, alada, até casa.

12 comentários:

  1. A Bea, como sabemos, tem na miséria e na pobreza terreno fértil para as suas palavras. Recorrentemente. Direi, porque repetidamente o afirma, que é um saber de experiência feito e vivência nunca renegada o que lhe confere uma chancela de autenticidade. Mas felizmente a vida trouxe-lhe dias melhores, restando a nós, seus leitores, a reminiscência desse passado anelado num vocabulário rico e enleante e de grande beleza estética. A palavra esperança, tão querida dos desafortunados, reside no nosso povo... como em dia de carteiro na ânsia de carta recebida.

    PS - perdoe-me o desabafo Bea: que lástima ver terra de Vieiras, Albuquerques e Gamas com a corrupção e trafulhices entaladas até à medula. Nem com lanterna e lupa lá vamos!

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  2. Eles não prestam, Joaquim. Uns, por não prestarem mesmo; outros, por falta de zelo sobre o que pertence a todos e seria do seu pelouro tomarem conta. Afinal, um cargo político não é igual a nenhum outro. O serviço público já não é ponto de honra.
    Quanto ao post: os homens, com o 25 de Abril e suas decorrências, melhoraram substancialmente a vida do povo. Foi um povo inteiro a erguer cabeça. E isso sim, é coisa muito bonita. E séria.
    Não há o que perdoar, Joaquim; os desabafos fazem-nos falta; são inspiração mais prolongada. Mesmo se desalentados:).

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  3. Como descreves tão bem os anseios e os amores "em linguagem de lenços de Viana" BFS.

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  4. O amor, se o é, tem sempre qualquer coisa de lenços de Viana, não é mesmo prosa? Talvez certa ingenuidade arrebatada e juvenil mesmo que sem idade.
    Bom domingo

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  5. Como as suas palavras, Bea, pintam tão bem a passagem do inverno para a primavera. E as cartas que o carteiro trazia na sua bicicleta. A imagem faz-me lembrar O Carteiro de Pablo Neruda.
    À minha aldeia, ele chegava a pé, segurando na mão o saco pesado da correspondência. E a ida da filha de Pelinhos em busca da carta para logo desaparecer com ela também parece ter som e imagem em vários planos. Um regalo.
    Bom domingo, Bea, e sempre boas escritas.

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    1. Talvez eu tenha também recordado Pablo Neruda e mais aquele carteiro que não se esquece e era um actor tão mas tão doente, à beirinha de morrer. Enquanto fui garota nunca vi um carteiro. Mas o nome da nossa rua fomos nós e o carteiro da altura que escolhemos num dos primeiros dias da distribuição de correio - já eu passava dos vinte anos. Acho que fazia a distribuição de motorizada.

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  6. Mais um texto com sons, gestos, cores, emoções e imagens, muitas imagens que vemos, sentimos e nos levam a entrar no "palco" do seu imaginar. E até a sentir uma carta manuscrita na nossa mão!
    É tão peculiar e bonita a sua forma de escrever, Bea!

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    1. Gosto da palavra, peculiar; tem um ar doméstico mas pessoal. Não assusta ninguém:)
      Boa noite, Dulce

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  7. Mas que excelentes descrições Bea. Sem palavras!

    Beijocas e boa semana

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  8. Hummm, a Cláudia já cumpriu os objectivos do dia:). Ou não andaria a passear por aqui.
    Boa noite

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  9. Um texto que nos transporta além dos 5 sentidos! Parabéns Bea e bj

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  10. Olá Gracinha, Bom dia:). E as suas fotos, onde nos transportam?!
    Uma semana aprazível e sem sobressaltos.

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