Incongruência do tempo, ser imune ao que gera. Não se apressa nem retarda. Quer
terríficos cataclismos, quer contratempos de trazer por casa esbarram na sua
indiferente acefalia. Nesse oceano de
costumes que é a vida, não se agitam os homens antes da desgraça ou da sorte
imprevistas, e só algumas almas predestinadas e portadoras de sensibilidade
incomum sentem a agonia que, tanta vez, não lhes pertence. Ignora-se a razão
por que o corpo colabora com a tristeza e não exulta na previsão do benefício. Quem
sabe se acontece apenas porque a desgraça põe em causa a integridade física e, adivinhando
a ameaça, o corpo dispara. Idênticas a tanto animal que detecta descalabros -
naturais ou emotivos -, assim elas adoecem de coisa nenhuma, antevendo ninguém
sabe o quê. Não são videntes, não preveem qualquer acontecimento, antes o sofrem
incógnito. Vem-lhes o sentir tão espontâneo e imediato como possivelmente acontece
em seres vivos irracionais que uivam e alvoroçam sem que se entenda o motivo. E
é isto um facto tão inexplicável no homem como neles.
Ora, na aldeia, ninguém sofria de distúrbios sem motivo e as poucas
admirações surgiam com o uivo continuado dos cães de Zé da adega que nunca
falhavam a adivinhar trovoadas: os animais eram avessos à electricidade espalhada
no ar e encafuavam, todos tremeliques, no mais fundo do estábulo, muito antes
da trovoada deflagrar. Havia também o temor aos corvos. Se as aves sobrevoavam
alguma habitação insistente, eram prenúncio de morte próxima. Porém, reparavam todos, quando tal acontecia,
já nessa casa havia um enfermo. E também isso se escondia do defunto a haver e se
explicava em crueza lapidar: “corvos são pássaros que comem carne podre e lhe sentem
o cheiro a léguas”. As aves eram a cadeira eléctrica que se escondia do
condenado, não havia escapatória.
Sem avisos nem sinais, a vida seguiu. Alguns notaram vagamente a
continuidade das visitas de Jaime a Zefa do Prado. E o mais que delas se soube
e viu foi a mudança de posição da cadeira de quarto. Fugido ao centro da rua, Jaime
chegara-se ao canteiro de flores debruado de canas certas e cruzadas que
separava o território da Zefa do da filha do Pelinhos. E, depois da figura de
Jaime se tornar hábito, quando já nem era reparado, as conversas cessaram
abruptas. Sem explicação, o rapaz perdeu-se por outras bandas. Comentava-se na
aldeia que eram ideias de rico sem mais que fazer. Caprichos. Ainda vaidosa da
companhia, a Zefa sorria. E minha avó, exímia contadora, tudo me apontava. Aos
meus treze anos Jaime aparecia como um jovem Deus. Por vezes, em visão
unilateral, admirava-lhe a compostura e o ser masculino. Vinda de um mundo de
mulheres, os rapazes interessavam-me pelo desconcerto. Ainda só me agitava a
curiosidade.
De volta a estas histórias maravilhosas :)
ResponderEliminarBeijocas
Boa tarde, Cláudia. Que o fim de semana corra como deseja.
EliminarUm beijinho
Que bom, Bea, ter tido uma avó assim. Imagino-a a contar estas histórias como se estivessem a passar imagens diante dos olhos curiosos e encantados de uma menina de treze anos.
ResponderEliminarE Jaime devia ser mesmo uma figura romanesca. Não lhe tivessem posto o verbo 'aimer' dentro do nome, logo de pequenino!
Boa quinta-feira, Bea.
Nenhuma das minhas avós contava histórias, Maria Dolores. Jaime é uma figura romanesca, sim. Suponho que todas as minhas personagens - mal delas e meu - nascem, meio irreflectidas, do que li sem entender nos Corín Tellado de minhas tias.
EliminarAos treze, limitava-me a ser uma garota desengonçada, das que cresceram num repente e não se habituam ao novo tamanho do corpo. Além disso, as garotas de então - as da minha aldeia e de outras com a mesma pobreza -, deformavam metidas dentro de saias e vestidos de bainhas deitadas abaixo e cosidas pelas pontinhas. Havia grande falta de proporção entre o corpo pequeno e apertado de um vestido e o comprimento da saia. O conjunto não era harmonioso - e estou a ser piedosa.
Pronto, é como lhe disse, escolhi Jaime por ser um nome, para aquele tempo, "esquisito". O verbo aimer estar dentro foi coisa inconsciente, só bem tarde dei por tal. Mas já me habituara à personagem e ao que dissera sobre a escolha do nome.
Um óptimo fim de semana, Maria Dolores.
Bom dia, Bea, o retrato que faz de si parece o retrato de muitas raparigas da minha aldeia, comigo incluída. A minha mãe não se cansava (ou cansava, mas não dizia) de descoser e coser bainhas dos vestidos. Ainda me lembro da cor de alguns, porque a variedade era pouca.
EliminarTambém tenho pena de não ter tido uma avó que me contasse histórias. A única avó que conheci gostava das histórias do Tide e guardava-as para ela, como ela sabia ou podia. Como tinha muitos filhos e a riqueza era nenhuma, talvez a animassem.
Para as minhas tias, Corin Tellado seria desaforo. Ficavam-se pela vida de santos e essa não dava muito para contar.
Quanto às suas histórias, Bea, conta-as tão bem que parecem próximas.
Um abracinho e bom fim de semana.
Tão querida, Maria Dolores! Apenas gostei de uma aó e essa também ouvia os romances do Tide:), as vizinhas juntavam-se em sua casa de volta do rádio na "hora do romance". Desse tempo, guardo a recordação de minha mãe nos vestir de igual - a mim e à irmã abaixo de mim - e do vestido me ficar sempre muito pior que o de minha irmã que toda a gente elogiava:).
EliminarNão tenho pena das histórias que minhas avós não contaram. Minha mãe e avô largamente as suplantaram, até por gostar bem mais de qualquer deles. E, se numa história é necessário saber contar, em mim eles eram exímios contadores. Mas, mais que isso, o laço afectivo que nos unia fazia-os a eles e ao tempo de contá-las, únicos e maravilhosos.
Crónicas de aldeia contadas pelas avós nunca se esquecem.
ResponderEliminarBfds
Não sei se isso é verdade, Pedro. Não tive tal experiência. Mas acredito no possível.
EliminarDetenho-me no início: "incongruência do tempo, ser imune ao que gera. Não se apressa nem retarda".
ResponderEliminarTodavia o tempo precisa de um objecto para se fazer sentir - as coisas, os factos, as pessoas.
O seu decurso na minha vida revestiu-se de várias medidas: a infância e início de juventude demoradas, quase eternas (o que ansiei chegar aos dezoito para poder ir ao cinema), mas com a dádiva de ter toda a família ainda (pais, avós e tia).
Depois o início da fase de jovem adulto, com os namoros mais a sério, o primeiro emprego, as férias por conta própria.
Quando se chega aos trinta, fica-se com a sensação que já basta de diversório e que se impõe mudar de direção; chegámos à idade de assentar, constituir família e assumir outras responsabilidades.
Entre os quarenta e cinquenta e muitos veio a realização de pequenas coisas várias, pequenas metas que tínhamos idealizado; outras falharam.
E depois começa-se a dobrar a montanha, ver partir familiares e amigos, aqui e ali faltam a energia, a disposição e o ânimo, surgem pequenos achaques e talvez o pior de tudo... a triste sucessão dos dias monótonos em face do "jamais plus" que rege a sucessão dos capítulos da nossa vida.
E a propósito de francesismos nunca tinha pensado que o nome Jaime encerrava o verbo "aimer" como bem aponta a Maria Dolores. Chapeau!
Um bom Dia de Reis, Bea.
Desenhou com esmero, certa "normalidade" que acompanha a vida da maioria de nós. Que noutros o caminho se faz diferente, as décadas que desenhou não lhes servem; ou não servem todas, só algumas. Muito do que somos hoje se foi fazendo e desfazendo ao longo da vida; não só pela idade. Mas é um facto, há inexplicáveis que nos surgem e vão ajudando ao caminho, alguns plantam-se tão a meio que nos mudam o trajecto. Não sei se estavam destinados e à nossa espera; se foi o tempo imponderável a trazê-los. Mas o próprio tempo, banho de história em que existimos, é indiferente ao que traz e à paisagem que deixa.
ResponderEliminarOs reis magos pouco me interessam (ao invés do que sucede com nuestros hermanos). São a data de a casa voltar a si. Amanhã terei de arrumar o Natal de vez; por esta vez.
Quanto à escolha do nome - foi escolha, sim- a resposta que dei a Maria Dolores é indicativa.
E que o fim de semana lhe sorria, Joaquim.
Bom fim de semana, Joaquim.
"Ignora-se a razão por que o corpo colabora com a tristeza e não exulta na previsão do benefício." Também me tenho interrogado sobre isso. A natureza humana é muito enigmática! E tem tendência a aceitar as coisas boas como se fossem devidas e a amplificar as más tornando-as mais pesadas ainda...Abraço!
ResponderEliminarTambém não sei responder com certeza; o que me parece é que em algumas pessoas - e é para isso que aponto no texto - o corpo dá sinais explícitos de desgraça iminente. Algumas vezes, de infortúnio próprio; noutras, alheio. É um sofrimento sem motivo, uma angústia indizível e a que só mais tarde o tempo dá resposta. Lembra-me, mal comparado, o sofrimento de Cristo no Monte das Oliveiras; mas ele antevia o sofrimento iminente; essas pessoas raramente sabem por que sofrem. Apenas sofrem. Como os cães em tempo de trovoada. Qual a razão do corpo não ter previsão de benefícios?...Talvez não interessem, não são danosos, nem lhe corrompem a integridade.
EliminarBom dia, Prosa
Se as aves sobrevoavam alguma habitação insistente, eram prenúncio de morte próxima. ... ainda hoje na minha aldeia se acredita que assim é! Bj
ResponderEliminarOlá Gracinha
ResponderEliminarna minha aldeia, e dado que já morreram quase todos os que eram jovens adultos na minha infância, a linguagem dos corvos está morta. Dos que restam, como eu, poucos se lembram de tal. E as novas gerações acreditam nos boletins meteorológicos e na medicina, são do tempo da ciência e dos factos. A crença, pensam eles, nada lhes diz. Mas a vida - ou a mente dos homens - mistura tudo. E um dia vão dar-se conta disso. Todos os elementos fazem falta, é por isso que existem.
Boa semana, Gracinha