Foi o Zé da adega, simples detentor de estábulo, quem, num dos acasos da vida, deu de caras com o insólito. Passavam ele, o cão e as ovelhas pelo monte ainda mal iluminado de Zefa do Prado e da vizinha, quando enxergou a figura masculina saindo de casa da filha do Pelinhos. Firmou a vista, não lhe parecera o recorte do Chico. E mal podia crer no que os olhos viam: em seu modo natural e aprumado, Jaime aproximava-se subindo a ladeira. Estacou num assombro. Mas Jaime cruzou-o com um sorriso; mãos nos bolsos e lesto cumprimento, afastou-se a caminho de casa. E ele, Zé, provavelmente esbugalhado, a chamar o cão só por disfarce do espanto, e acrescentando, sem competência, atabalhoada salvação. Em notável indiferença, retoiçando aqui e ali, as ovelhas eram gordos novelos espalhados pelo valado que, aos primeiros raios, verdejava levemente. E o Zé embuchado na surpresa, ainda não bem em si, “olha que ele há coisas…. quem havia de dizer”. Com gesto mecânico tocava o gado, mente centrada na descoberta, “o Jaime…um garoto ainda...o ai Jesus do Formosinho”. Chegou-lhe até um apetite de voltar ao estábulo, enfiar as ovelhas no redil e correr a casa, sacudir Virgínia, desentorpecê-la de sonhos até que os olhos lhe voltassem ao rosto e ganhasse vida. E, na interrogação estremunhada dos olhos dela, plantar o espanto, dar-lhe a nova. Mas aquietou. Ficavam os amantes com mais um dia de anonimato e respeitava o sono da mulher. Virgínia era moura de trabalho, viera para a sua cama a convite, alegre e de boa mente. Deixara a miséria e as sossegadas bebedeiras da mãe, viúva calma e trabalhadeira, senhora de grande mutismo que, verão ou inverno, se enfrascava pela noitinha, adentrada na chaminé, num ritual de tristura que ninguém entendia, a filha alertando mansamente, minha mãe, toca a deitar. E foi ponto assente para os dois: ficavam juntos. Não precisaram de papel passado senão quando nasceu o mais velho e o padre fez cara feia à mancebia. Para que contrariar o abade, não se lhes dava o papel, sentiam-se casados desde a descoberta comum da linguagem do corpo, pele na pele, ungidos de juventude saciada. Mas, a imagem de Virgínia logo lhe lembrou a filha do Pelinhos e se lhe pespegou a dúvida, que quereria ela com o garoto. Contas feitas por alto, ajuizou que a mulher quase dobrava a idade de Jaime. Seria desarvorada fome de fêmea o que assim a perdia. Estes e mais solilóquios empeçavam-lhe o caminho, dava por si parado, cajado na mão. O cão, desconfiado já do dono e intrigado com a demora, acercava-se numa corrida, a cauda balançando a um lado e a outro. Faltavam-lhe as ordens assobiadas para ser seta e, de orelha espetada, forçar ao trilho esta ou aquela ovelha que transviava.
Já em campo aberto, ovelhas no pasto, o Zé entregava-se a estender o problema, desdobrava-o em cuidados que se dispensam a coisa rara. E, a cada pedra levantada, lhe parecia maior o imbróglio. Os personagens cresciam-lhe no pensamento, o Chico, o Formosinho, a filha do Pelinhos, Jaime e mesmo a Zefa do Prado. E verificava que o mesmo problema se fazia outro em cada um. E isto até cair em si e reparar que a solução, se solução havia, não era coisa de sua lavra; e que, à data, só ele participava do segredo.
"Não precisaram de papel passado senão quando nasceu o mais velho e o padre fez cara feia à mancebia..." (outros tempos) 😉
ResponderEliminarBoa semana Bea
Os padres são outros e outras as mancebias. Mas o espírito repete-se.
ResponderEliminarBoa noite, Gracinha. E boa semana:)
Não se deve meter a foice em seara alheia. Para quê meter a boca no trombone se, apesar das diferenças de idade, estamos perante dois adultos.
ResponderEliminarAbraço amigo.
Juvenal Nunes
E quem cumpre com o ditado, Juvenal? Quem?!
EliminarÉ impressionante isto, as descrições são tão boas que eu imagino tudo. Bea, juro que isto é verdade. Até expressões faciais!
ResponderEliminarBeijocas
Sou eu, a Cláudia - eutambemtenhoumblog. Não consigo identificar-me não sei porquê
A Cláudia é uma querida, isso é que sim. Porque, se consegue imaginar tudo, digo-lhe que é uma boa leitora, aquela que todos desejamos. Quiçá seja também uma boa escriba; apesar de não ter dados, considero que os bons leitores são, em grande parte, pessoas com facilidade na escrita. Como vai o projecto de livro?
EliminarBoa semana, Cláudia
Bom dia :)
EliminarO livro está parado. A falta de tempo é gritante. Mas já vai com 150 páginas A4. Isso traduzido em páginas de livro normal já deve dar perto das 200. Pelo menos assim quero acreditar :P
Gostava de o terminar este ano. Mas ainda precisa de muitas revisões. Sinto que escrevo como falo.
Beijocas
Não sei como consegue que o tempo lhe estique. Quando um livro chega a essa dimensão, já não se pode desistir, está vivo. Vai haver um tempo para ele. Terá de haver, Cláudia.
EliminarO melhor é deixar que o chamamento do corpo se cumpra. E ninguém tem nada com isso. Mais uma vez, um gosto lê-la, minha Amiga Bea.
ResponderEliminarUma boa semana com muita saúde.
Um beijo.
Pois é, vamos ver o que acontece. Quanto ao chamamento do corpo, já é inegável, não é? Como afirmava um colega antigo, não se sabe se é o melhor porque só se experimenta uma das situações.
ResponderEliminarBoa semana. Com saúde, pois claro.