Num
repente, enviuvaste. Partilhaste o filho, ganhaste nora e netos, perdeste o
marido. Entregaste-te ao amor da família e não acautelaste nenhum dos avisos e
cuidados do companheiro de vida, o único capaz de fazer-te sair de casa para
visitas pontuais e nunca chorosas. Encontrei-te algumas vezes e passeavas
contente pelas ruas da vila. Jamais foste viúva inconsolável. Ias de visita a
alguém muito querido, movia-te a saudade. Coxeavas, mas sorrias bem disposta,
como se as pernas dolorosas fossem nada. O teu olhar, talvez por idade ou
condição de avó, ganhara ondas de ternura. Anotei a mudança, causa da minha aproximação. Convidei e aceitaste um lanche em minha casa. Doente, vivias sem
queixas. Então, já alienaras todos os bens em favor do núcleo familiar. Contrariaste
recomendações do companheiro que, à beira da partida, ainda zelava por
ti. O amor cega. Instada, fizeras-te pobre como Job. Despojada e já doente, a
visão a acompanhar a negação das pernas, tornaste-te depósito incómodo. O Lar
foi solução. Ninguém te perguntou o que desejavas, nada escolheste.
Quando
já te adaptavas à proximidade de estranhos - eram apenas cinco ou seis pensionistas
e os cuidadores faziam de família –, quando tinhas aprendido a gostar da
companhia, transferiram-te. Havia um Lar mais próximo e barato. Que era também uma
colmeia de utentes, com todas as decorrências da circunstância. Mais uma vez
não foste consultada. Contudo, os negócios familiares cresciam vigorosos, os
proventos floresciam. E tu, paulatina, ias cegando por via de cataratas que ninguém
pensou em tratar, uma visita de longe em longe. Até que, vislumbrando apenas
vultos, o Lar alertou a família. Depois, foi a morosidade de anos no SNS esperando
consulta. E eu a dar-te esperança, prometendo revistas sem fim. Quando, enfim, foste consultada, a
oftalmologista indispôs-se com os parentes. Estavas cega, era irreversível.
Tão pouco te vali. Mas, ansiando as visitas do núcleo familiar que te rareavam, aceitavas de boa mente a insuficiência da substituta. Falávamos deles todo o tempo e era como se voltasses atrás e vivesses ainda à sua beira. Gulosa, eras grata por miudezas e doces caseiros, mas, por mais instada, nunca sugerias. Alegre e com gulodice de menina, apetecias tudo que viesse. Mas já não te movias. Por vezes, deixavam-me ficar um pouco mais e empurrava-te a cadeira até à mesa do jantar.
E faltas-me, queres o quê.
Sabia-te perto do fim. Na última visita senti-te
a involução. Desprendias-te. Olhos semicerrados, não sorriste como de outras
vezes, a minha mão a descer levemente a
tua pele de cetim, tentativa de aquecer-te o rosto ora arrefecido. Fechaste os
olhos, mas ainda acenaste a um pudim e marcámos o dia. Na tarde do dia seguinte
adoeci de coisa nenhuma e piorei durante a noite. Progressiva, abatia-se sobre
mim uma inexplicável agonia do corpo. Supus-me à beira de doença grave e ainda
não identificada. Era manhã feita quando, breve e em pesadelo, adormeci. Acordei
cansada mas normal.
Após
os trâmites da morte, perguntei quando começaste em agonia, a que horas
morreste. A família ignorava. E eu para que quero saber o que
sei?!
Afinal era bem mais que a companheira do tio.
ResponderEliminarLamento a perda de quem tanto a marcou.
Dama reservada que só descobri na velhice; já descansa.
ResponderEliminarBem haja, Pedro.
Bom dia
História forte. Não tinha percebido que era real, mas agradeço a explicação.
ResponderEliminarMais um belo texto, Bea. Os meus parabéns pelos pormenores, a escrita, tudo.
Beijocas
Cláudia - eutambemtenhoumblog
É apenas a vida à boca de cena, Cláudia, que ela sim, é forte.
EliminarUm dia bom para si
A ternura da tia Lili que lhe chegou com a idade, enterneceu-me.
ResponderEliminarA vossa troca de energias à distância, ultrapassou e muito a simples transmissão de pensamento.
E aprendi que há de tratar das cataratas ainda em tempo útil.
Bom dia Bea.
PS: Gosto destes seus parênteses, infelizmente.
Não tenho essa pretensão, Joaquim. Na despedida, minha tia não pensou em mim. Sei em quem ela pensou em todas as horas de respiração. E também na última.
ResponderEliminarA vida tem inexplicáveis. Acontecem.
Cuide-se, Joaquim. O inverno vai áspero.
Já me mentalizei que "um lar" pode ser uma boa opção! A vida tem inexplicáveis 👏👏👏... Bj
ResponderEliminarPoder, pode. Mas quase nunca os respeita; não oferece opções, dentro das restrições e dos limites da idade, é regime militar. Pelo menos, os que conheço.
EliminarNa vida como na morte, vai ser igual: sofre mais quem tem menos. E, se não fora o pessoal que vem de fora (brasileiros, e gente de leste), não haveria quem para fazê-los funcionar. É trabalho mal pago e que requer certo ânimo de alma e forças de corpo.
Bom dia, Gracinha
Tão belo que dói como conhecimento ao pé da porta. E sim! "eu para que quero saber o que sei?" Tanto me pergunto. Abçs de bettips
ResponderEliminarSó se vê bem com o coração, não é mesmo bettips. Ainda que a paisagem não seja a sonhada, nada apaga a vida em que ele participa. A memória esquece o conhecimento e a trivialidade plural, companheiros de uma vida. Mas, continuando memória, deixa presente o que o coração abraçou. E nem era necessário o dizer de tanto escritor, no fim, só os afectos prevalecem e são aconchego.
ResponderEliminarBom dia, bettips. Bem haja pelo comment
Jorra por aqui sensibilidade a rodos, e eu gosto disso.
ResponderEliminarPrometo voltar para uma visita mais consentânea com aquilo que o blog merece.
Fique bem, Bea.
Ok. Volte quando e se lhe apeteça:).
ResponderEliminarBom dia