quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Lili

 

Num repente, enviuvaste. Partilhaste o filho, ganhaste nora e netos, perdeste o marido. Entregaste-te ao amor da família e não acautelaste nenhum dos avisos e cuidados do companheiro de vida, o único capaz de fazer-te sair de casa para visitas pontuais e nunca chorosas. Encontrei-te algumas vezes e passeavas contente pelas ruas da vila. Jamais foste viúva inconsolável. Ias de visita a alguém muito querido, movia-te a saudade. Coxeavas, mas sorrias bem disposta, como se as pernas dolorosas fossem nada. O teu olhar, talvez por idade ou condição de avó, ganhara ondas de ternura. Anotei a mudança, causa da minha aproximação. Convidei e aceitaste um lanche em minha casa. Doente, vivias sem queixas. Então, já alienaras todos os bens em favor do núcleo familiar. Contrariaste recomendações do companheiro que, à beira da partida, ainda zelava por ti. O amor cega. Instada, fizeras-te pobre como Job. Despojada e já doente, a visão a acompanhar a negação das pernas, tornaste-te depósito incómodo. O Lar foi solução. Ninguém te perguntou o que desejavas, nada escolheste.

Quando já te adaptavas à proximidade de estranhos - eram apenas cinco ou seis pensionistas e os cuidadores faziam de família –, quando tinhas aprendido a gostar da companhia, transferiram-te. Havia um Lar mais próximo e barato. Que era também uma colmeia de utentes, com todas as decorrências da circunstância. Mais uma vez não foste consultada. Contudo, os negócios familiares cresciam vigorosos, os proventos floresciam. E tu, paulatina,  ias cegando por via de cataratas que ninguém pensou em tratar, uma visita de longe em longe. Até que, vislumbrando apenas vultos, o Lar alertou a família. Depois, foi a morosidade de anos no SNS esperando consulta. E eu a dar-te esperança, prometendo revistas sem fim.  Quando, enfim, foste consultada, a oftalmologista indispôs-se com os parentes. Estavas cega, era irreversível.

Tão pouco te vali. Mas, ansiando as visitas do núcleo familiar que te rareavam, aceitavas de boa mente a insuficiência da substituta. Falávamos deles todo o tempo e era como se voltasses atrás e vivesses ainda à sua beira. Gulosa, eras grata por miudezas e doces caseiros, mas, por mais instada, nunca sugerias. Alegre e com gulodice de menina, apetecias tudo que viesse. Mas já não te movias.  Por vezes, deixavam-me ficar um pouco mais e empurrava-te a cadeira até à mesa do jantar.

E faltas-me, queres o quê. 

Sabia-te perto do fim. Na última visita senti-te a involução. Desprendias-te. Olhos semicerrados, não sorriste como de outras vezes, a minha mão a descer  levemente a tua pele de cetim, tentativa de aquecer-te o rosto ora arrefecido. Fechaste os olhos, mas ainda acenaste a um pudim e marcámos o dia. Na tarde do dia seguinte adoeci de coisa nenhuma e piorei durante a noite. Progressiva, abatia-se sobre mim uma inexplicável agonia do corpo. Supus-me à beira de doença grave e ainda não identificada. Era manhã feita quando, breve e em pesadelo, adormeci. Acordei cansada mas normal.

Após os trâmites da morte, perguntei quando começaste em agonia, a que horas morreste. A família ignorava. E eu para que quero saber o que sei?!

 

12 comentários:

  1. Afinal era bem mais que a companheira do tio.
    Lamento a perda de quem tanto a marcou.

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  2. Dama reservada que só descobri na velhice; já descansa.
    Bem haja, Pedro.
    Bom dia

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  3. História forte. Não tinha percebido que era real, mas agradeço a explicação.

    Mais um belo texto, Bea. Os meus parabéns pelos pormenores, a escrita, tudo.

    Beijocas

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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    1. É apenas a vida à boca de cena, Cláudia, que ela sim, é forte.
      Um dia bom para si

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  4. A ternura da tia Lili que lhe chegou com a idade, enterneceu-me.
    A vossa troca de energias à distância, ultrapassou e muito a simples transmissão de pensamento.
    E aprendi que há de tratar das cataratas ainda em tempo útil.
    Bom dia Bea.
    PS: Gosto destes seus parênteses, infelizmente.

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  5. Não tenho essa pretensão, Joaquim. Na despedida, minha tia não pensou em mim. Sei em quem ela pensou em todas as horas de respiração. E também na última.
    A vida tem inexplicáveis. Acontecem.
    Cuide-se, Joaquim. O inverno vai áspero.

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  6. Já me mentalizei que "um lar" pode ser uma boa opção! A vida tem inexplicáveis 👏👏👏... Bj

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    1. Poder, pode. Mas quase nunca os respeita; não oferece opções, dentro das restrições e dos limites da idade, é regime militar. Pelo menos, os que conheço.
      Na vida como na morte, vai ser igual: sofre mais quem tem menos. E, se não fora o pessoal que vem de fora (brasileiros, e gente de leste), não haveria quem para fazê-los funcionar. É trabalho mal pago e que requer certo ânimo de alma e forças de corpo.
      Bom dia, Gracinha

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  7. Tão belo que dói como conhecimento ao pé da porta. E sim! "eu para que quero saber o que sei?" Tanto me pergunto. Abçs de bettips

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  8. Só se vê bem com o coração, não é mesmo bettips. Ainda que a paisagem não seja a sonhada, nada apaga a vida em que ele participa. A memória esquece o conhecimento e a trivialidade plural, companheiros de uma vida. Mas, continuando memória, deixa presente o que o coração abraçou. E nem era necessário o dizer de tanto escritor, no fim, só os afectos prevalecem e são aconchego.
    Bom dia, bettips. Bem haja pelo comment

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  9. Jorra por aqui sensibilidade a rodos, e eu gosto disso.
    Prometo voltar para uma visita mais consentânea com aquilo que o blog merece.
    Fique bem, Bea.

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  10. Ok. Volte quando e se lhe apeteça:).
    Bom dia

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