quinta-feira, 26 de março de 2026

Ponto por Ponto

 

        Repito o que já frisei aqui, invejo as mentes que, quotidianas, escrevem sobre assuntos diversos, as que nunca se imiscuem neles particularmente e antes os tratam com a objectividade de observador. Invejo aqueles que postam quase com o calendário – e mesmo dia a dia –, conseguindo que nada lhes transpire da vida que vivem, de quem os rodeia, de como agem e pensam no particular de si mesmos. Ah!, podem dizer-me, mas todos nos revelamos no que escrevemos. Balelas. Não acontece a todos, não senhor. No mundo da blogosfera existem personagens impenetráveis, uns porque criam aqui uma personalidade diversa, são outros e exercem o seu direito a sê-lo; aqueles, porque sendo si mesmos, cortam com todo o particular que possa identificá-los – nunca saberemos das pequenas arrelias que os invadem, das tristezas casuais ou intrínsecas que os digladiam, dos desastres que o quotidiano despoleta; dos desgostos que sofrem. E estes personagens – que são mesmo personagens, ficção que outros vêem como realidade – fazem-me pensar que sou ovni e no que raio ando aqui a fazer. Cheguei por vontade mas desprotegida do eu fictício e, mau grado esforços porfiados, ainda vou deixando por cá a pele que me veste desde sempre, aquela que cresceu comigo e comigo envelhece, enruga e encobre todas as misérias que humanamente nos constituem. Esses outros, não! Deixam pele falsa, podem despi-la quando queiram, mudá-la; transformarem-se; cessar a existência se assim o entendam ou a sua necessidade de mudança tal lhes aponte. Tenho para mim que só eles são os verdadeiros bloguers, os escritores conhecidos ou sem nome. Bem sei que existem os influencers, mas a esses não os coloco dentro do grupo de bloguers habituais. São categoria que me desinteressa e a que nem atento.

        Reconheço-me muito sem assunto, tanta vez aqui chego de mãos e mente vazias. Alinhavo umas palavras quaisquer e depois ou me vem coisa que lhes pegue, ou apago esse começo e vou andando por outro que entretanto surge. E há também aquelas horas em que me parece haver um tema e mão e mente contrariam, seguem outro caminho; deixo ir, tanto dá passar por aqui ou por ali, é tudo muito irrisório e bastante igual a quase nada.

        Poderão pensar, e as histórias?! Bom, as histórias eram a construção da vida dos outros e o mundo que conheço visto por olhos meus. Tão expostos, santo Deus! Tanto de minha lavra que os próprios seriam incapazes de identificar-se nos personagens – alguns existiram ou existem ainda. É certo, amigos e amores permaneceram intocados. Nenhum dos meus personagens os copiou ou copiará. Eles são a sacralidade que guardei, guardo e defendo com unhas e dentes. Tudo o resto é dizível, verbalizável, volátil. Amores e amigos - que também são amores os meus amigos - permanecem, são a brevíssima eternidade que se me colou. Talvez sejam mais imaginários que reais, mas pensar desse modo desanima; portanto, não penso. Não quero nem posso dar-me ao luxo de perder companhia já de si exígua. Visitamo-nos a espaços para nos certificarmos uns dos outros, matarmos saudade e robustecermos, em horas sempre breves, o fio que nos une. Porque os olhos se precisam e é só neles que a falta sentida na alma se faz transmissível.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Manhã de Nevoeiro

 

        Lá fora, um nevoeiro cerrado. Silêncio. Já passou o autocarro escolar, os três garotos da paragem, encapuçados e de mochila nas costas, palração a cristalizar na nebulosa, subiram; e o clap automático da porta encerrou-lhes a vivacidade e andou. A rua quedou inerte e, despida de sons, abraça a neblina e amodorra – por onde andam os automóveis dos outros dias, santo Deus. É dos livros, para lá da densidade nebulosa, reluz o sol como em todas as manhãs. Mas quem consegue acreditar a pés juntos que, sem esforço próprio e antes em movimento lento e natural, que é da Terra e parece seu, ele surja ainda hoje, quando a malha do nevoeiro se contrai progressiva, cachecol ajustado ao pescoço das casas onde pedaços de telhado e chaminés são cabeças de habitação assomando por entre minúsculas lágrimas da névoa. Porém, enquanto isto escrevo, já uma claridade se insinua e a malha abre: as casas vão-se despindo do agasalho lacrimoso, assumem paredes, portas e janelas, um ar de jardim na frente de cada uma. Dado a meus olhos, o mar de telhas ergue-se na claridade, chaminés na sua inteireza inactiva e as ligações eléctricas, espectro terceiro mundista, passando-me ao nível do olhar, negra teia atmosférica. É ainda um mundo absorto e átono, repleto de orvalho, húmido, o humano a revelar-se por movimento de janelas preguiçosas, gestos que se adivinham a custo despegados dos lençóis. Uma ou outra persiana abre os olhos por medida, um guindaste de mãos e braços ainda entorpecidos, emergindo da noite em lentidão sonolenta.

        Quantos atravessaram já o algodão da névoa, eram as cinco e as seis da manhã. Quantos guiaram vagarosos, faróis de nevoeiro ligados, a protestar do atraso na ponte, ou no caminho do emprego onde quer que seja. Quantos são despejados nas gares quase de dez em dez minutos, imbuídos em pressas, sacudindo abordagens; caminham como autómatos, encerrados em si, não há conversas ou um olhar que os desvie da rota. São assim os dias de trabalho: fazem-se de rostos cansados e semi adormecidos nos transportes públicos que à noitinha os levarão de volta ainda mais emudecidos, um caminho de rugas exaustas que lhes rouba o riso, o saco do almoço já leve e a trouxe-mouxe, os olhos fechados nesse continuum de vida que dorme e recomeça, dorme e recomeça.

domingo, 8 de março de 2026

Lobo Antunes Morreu?!

 

        António Lobo Antunes passou a fazer parte de mim talvez desde os vinte e quatro- vinte seis anos, quando ouvi um colega a encomiar o primeiro livro: “Memória de elefante”. Então, rigorosamente, não tinha tempo para ler, não lia sequer os livros que o curso pedia, trabalhava demais nos feriados e à semana, era formiga afadigada - caía na cama como morta e levantava-me miserável, mercê de um despertador azul que me salvava das faltas ao trabalho. Bastas vezes, fins de semana e feriados me exauriam de corpo e alma e só a juventude me dava uma mão durante a semana que, impiedosa, se seguia. Numa dessas intuições que acontecem, e com a conversa na memória, comprei o livro na Papelaria Moderna - ficava-me em caminho - e, no antigo barco do Barreiro, comecei a lê-lo deixando para trás o tricot que carregava diariamente na pasta, a meias com lanches e livros. Li-o nos intervalos do curso, no atraso sistemático de professores e até durante inesgotáveis conversas de que pouco entendia e que alimentavam egos de professores e alunos durante as aulas - a maioria dos alunos saía discretamente para o bar enquanto eu aproveitava para ler Lobo Antunes. Acredito que me prendeu a novidade da escrita e o que detectei como uma nova maneira de pensar o mundo. Não li críticas, nem procurei saber mais acerca do escritor. Apenas soube que, continuando a escrever – e a idade indicava que sim -, lhe compraria os livros.

        Quando publicou o segundo, “Cus de Judas”, já uma amiga atenta comprava os livros e mos passava. Os amigos são pessoas únicas, conhecem-nos a vida e ajudam-nos. De modo que, graças aos empréstimos, ainda está por completar a colecção das suas obras. E que alegria encontrar-lhe o estilo inconfundível!

        Hoje sei da sua vida muito mais, sobretudo por lhe ter lido as crónicas. Ouvi todas as entrevistas que tem na net e ainda no tempo em que a TV me entretinha, vi-o ser entrevistado por Maria Flor Pedroso e outros jornalistas. Não me prendo à imagem física de escritores, mas sei reconhecer a beleza, foi um homem bonito. Porém, como um dia lhe disse cara a cara, o que dele me interessa está nos livros, é aí que gosto de vê-lo e a imagem me é mais nítida. Esse Lobo Antunes acompanha-me enquanto a memória dê licença. Gosto da dor quase carinhosa que imprime aos seus personagens: sejam quem forem, são tratados como seres humanos; encontramos nos seus livros pessoas terríveis, assassinos, violadores, drogados, predadores sexuais, mulheres solitárias, gente cheia de aleijões que disfarça como pode ou nem disfarça. E sempre presente uma doçura triste a dizê-los, uma compreensão dolorosa que tanta vez se continua na natureza ou no ambiente que os cerca. Amo-lhe as metáforas e o modo de dizer a vida, prefiro a escrita que só aparentemente parece desordenada e antes funciona ao ritmo do pensamento que, por associação, está sempre a intercalar elementos estranhos no pensado.

        O morgado de seu avô copiou-o e não foi fácil de morrer. E sim, pedi ao Deus que não me atende que o levasse rápido. Goste-se ou não de António Lobo Antunes, não é autor esquecível. Aos leitores deixou um mar de palavras e o amor indefectível e às vezes triste por Portugal e pelos portugueses.

    Bem Hajas, Lobo Antunes.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Genealogia Casual

 

        Não recordo o tema que me trouxe à escrita no post anterior e que, inadvertidamente, abandonei; portanto, vou deixar a mão e a mente divagarem. Sou pessoa muito sem ideias para postagem. Desagrada-me escrever sobre política e aos temas fracturantes só uma vez por outra sucumbo. Prefiro histórias, factos banais e quotidianos, pormenores que noto aqui e ali nas poucas vezes em que me dou ao luxo de sair da condição de eremita a que me dedico cada dia com mais afinco; falta-me viver, como certo tio-avô, numa cova isolada e silenciosa, longe de quaisquer laços humanos. Herdei de minha mãe uma foto de juventude desse tio, anterior à sua solidão monástica: surge já cabeludo e barbado até meio do peito, vestido de forma insólita, olhando a objectiva com naturalidade, em jeito puro de criança. Irmão de meu avô - senhor com aspecto geral de Charlot sério e bondoso, e alta tendência para o silêncio -, o tio foi cortando relações e palavras até ao afastamento total de ambas. Na minha mente infantil e pautada por essa foto única, assumiu a figura de homem das cavernas alimentado por raízes, frutos de plantas e árvores silvestres, imagem que minha mãe nunca desmentiu e até ajudou a construir, à vista insistente da minha estranheza inquiridora. Não soubemos nunca quando ou como morreu e as lembranças que deixou nos meus tios mais velhos, se bem que muito incipientes, pautavam-se pela afectividade: todos gostavam dele e, segundo confidências maternas, em quase silêncio, brincava com os sobrinhos, dava-lhes atenção, facto invulgar nesse tempo. Suponho que as gerações mais novas da família o ignoram. Por vezes quedo-me a esquadrinhar aquela foto amarelecida pelo tempo, de certeza a mais antiga que possuo. Que pensamentos povoavam a sua mente emudecida por vontade, estaria mesmo desligada de tudo e todos?! O que tinha aquele homem contra a espécie humana que tanto o foi afastando – desprezou herança, roupas, objectos pessoais, tudo. Ou seria antes uma espécie de chamamento ao silêncio e ao mundo natural. Minha mãe dizia dele, “não pertencia bem a este mundo” e meu pai tasquinava, “pois não, gostava mais de dormir numa cova com os lobos e as raposas, a cheirar mal e cheio de piolhos”. Jamais minha mãe, herdeira de silêncios ensurdecedores, retorquiu a tais dichotes. Desvaneço ao pensar que dos muitos netos que tem e não conheceu, legou a um dos meus filhos os silêncios prolongados e igual forma inteligente e ponderada de observar e analisar as situações, qualidade que é lança na aproximação à verdade.

        Atardo-me a pensar que talvez exista em cada família humana um ser que sai da série e destaca pela diferença do comum dos mortais. Serão anómalos?! No caso, é sintoma positivo; minha avó, professa de religião que rejeita a santidade, dizia do cunhado, “um santo”.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Tudo é Caminho

 

        Lembra-me muito certo poema que retive, ignoro se ipsis verbis, “Não sei viver, nunca soube viver/ sou um relógio que pára de quando em quando/ falta-me o ritmo, a continuidade(…)”. Talvez sejamos todos, mas uns mais que outros, esse relógio avariado que ora trabalha, ora não; ora cavalga rápido, ora se imobiliza sem motivo visível, para arrancar de novo também sem razão. Podia desculpar-me com o mundo e o descalabro a que assistimos; com o estado depauperado de Portugal e dos que no país tudo pagam e pouco recebem; com a educação que tanto falha nos seus princípios cada vez mais complexos e de menor exigência - a haver futuro, a factura vai pesar, já pesa; com a miséria que verificamos na saúde e são os mesmos que trabalham a vivê-la, que os restantes encontram outros meios que não o Serviço Nacional de Saúde; com tanto empréstimo que, de alguma forma, terá de ser pago pelos de sempre e, por regra, enriquece também uns certos mesmos.

        Preocupa-me, em democracia, o regresso da nomenclatura que denuncia a realidade social de ricos e pobres – os ricos amontoam na sua classe, enquanto os pobres se dividem entre os muito pobres, os miseráveis sem casa, alguns com um quartinho alugado e que não têm dinheiro que lhes aguente o mês inteiro. Depois vêm todos os empregados nisto e naquilo, os pequenos agricultores e outros; são a imensa maioria: com dobrado esforço, contenção e certa dose de empréstimos conseguem sobreviver e ir cumprindo a fracção das dívidas. Se um acaso os lança no desemprego, o passivo acumula e descem um degrau ou tornam-se dependentes da boa vontade de familiares, em regra os pais reformados e que lhes abrem portas ou a bolsa, ficando pais e filhos na corda bamba. Muitos, sobretudo casais jovens, após o dia quinze vivem da ajuda dos progenitores; pertencem à célebre geração mil euros. E são muitíssimos. Por último, dentro da classe dos pobres quase remediados, está a chamada classe média baixa que tem uma incomensurável distância da classe média alta; tão incomensurável que a classe média alta se inclui já no grupo dos ricos, é outra coisa. A classe média baixa não depende dos progenitores para se aguentar até final do mês desde que use de alguma contenção; em geral não se endivida senão por aquisição de casa própria ou compra de veículo e não cai em incumprimento nas prestações da dívida. A classe média baixa é hoje o que deveria ser a classe mais rasa de uma democracia, a pobreza miserável não é própria deste regime político e nem da dignidade humana que tanto se apregoa. Mas existe.

        Não sou da notícia, irritam-me tantos comentadores na política e ainda mais no futebol. Desgostam-me as guerras por capricho, a devastação como caminho do poder, o desrespeito pela dignidade de cada homem, as “amizades” políticas exclusivamente por interesse.

        Por cá, tornámo-nos democratas da palavra. Como se, por magia, ela se transforme em acção. Mais de cinquenta anos de democracia e estamos nisto.

        Desculpem, não era deste assunto que vinha falar. Faltam-me soluções para tamanha doença e nem sequer é tema do meu agrado. Deu-me para aqui.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Eternas Alegrias

 

        É verdade que envelheço como toda a gente: lembro melhor factos antigos (do meu tempo) que recentes. Mas a velhice da mente comporta nuances de ternura, apontamentos que nos comovem hoje na lembrança do que ontem foi e gera em nós perplexidade e incerteza: pessoas de antanho que não passaram, não nos morreram, talvez tenham, agilmente, saltado sobre a morte e pairem suspensos. Ou será apenas questão mais simples, como não soubemos da sua morte física, continuam vivos no nosso espírito. Tão vivos como os deixámos quando a vida assim exigiu.

        Vem este paleio a propósito da leitura que vou fazendo da Conta Corrente de Vergílio Ferreira. Leio o diário vagarosamente, como convém. Vergílio é mordaz, perpassa-lhe amiúde uma ironia fina e muito sua, mas, sobretudo, dá que pensar. Aprecio o escritor desde Aparição, o primeiro livro que li e julgo que por imposição escolar. Abençoada seja! Depois fui comprando outras obras aqui e ali, cada vez mais animada. Nunca a sua escrita me desanimou. Talvez as teorias existencialistas o tenham influenciado, mas o que encontro nele que me incentiva é o modo como escreve e imagina a dilaceração que se pressente nos personagens e suponho que sentia na vida – apesar de Vergílio sempre admitir a existência em si de dois seres distintos: o escritor e si mesmo. Em qualquer obra sua há o traço forte da realidade pensada, omnipresente, o vinco fundo da incompletude humana com todas as suas questões. Mais que resolvê-las o romance aponta-as no pleno de humanidade às vezes dolorosa, outras repugnante, outras quase terna na exposição de carências e estados que nos fazem o ser.

        Pois, mas o que me leva a postar sobre os diários é ter ontem encontrado, no ano de 1977, dia 10 de Agosto (suponho, tem várias entradas), um encontro em Galamares com os Serpa Branco que conhecera em Évora. E eu tão contente! Contente e orgulhosa. Foi como se o escritor dissesse que veio jantar a minha casa e gostou. Sabíamos tão pouco dos professores, nós. De Serpa Branco apenas corria que viera de Lisboa, era vegetariano e marido da professora mais querida do liceu, Beatriz Caroço. Galamares era-nos incógnita. Mas Vergílio escreve acerca da casa, “Em frente a serra de Sintra. Nítida, verdejante ao sol. De vez em quando, passavam nuvens em correria. Vindas do mar. A casa fica no meio de um pequeno jardim com uma pelouse de relva verde, aparada rente. Luz suave, e a cor, e uma flutuação aérea de tudo.” E quedei-me a imaginar o bem que o meu professor de psicologia ficava nessa casa por certo recatada e onde os filhos espraiavam (havia pelo menos um, Manuel Serpa Branco que testou a vocação religiosa numas férias exilando-se na Cartuxa). Desconheço Galamares, mas fiquei gostando do nome que já conhecia e me era tão indiferente como o trigo para a raposa do principezinho que Serpa Branco nos deu a conhecer.

        Que conforto saber que Serpa Branco e Vergílio foram amigos! Quase me senti íntima dos dois. E que sortilégio foi Évora na vida do escritor! Ali leccionou ao longo de catorze anos. Ali casou e voltou vezes sem conta em visita a amigos que fizera e foi deixando de encontrar, a cidade que conhecia a transformar-se. Não o conheci, não foi meu professor, mas Serpa Branco passou por mim e ficou. Ensinou-me a ensinar embora não tenha sido professor de didáctica. E, na hora certa, teve para mim as palavras, os gestos e as acções certas. Por mim, fica em Galamares até à eternidade que me pertence: não morre.



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Luz Que Alumia

 

        A memória é preciosa aliada de que pouco entendemos, quais formigas afanosas, passeamos-lhe a superfície no desejo contínuo de que nos não abandone. Atribuimos-lhe falhas de que ignoramos a proveniência, questionamos gestos e manias que se tornaram hábito, ou eventualidades que não imaginávamos guardadas e, a dado momento, nos relampejam fulgurantes.

        Hoje, agora mesmo quase, enquanto mastigava solenemente o pão – sou solone qb ao pequeno almoço -, pararam-se-me os gestos na lembrança do meu décimo oitavo aniversário. Costumo lembrá-lo sempre que alguém faz dezoito anos, hoje marca de maioridade. E desejo contínua e sinceramente que seja um ano melhor do que esse meu já tão longínquo. Mas os anos dão patine e tingem o acontecer, razão porque me aparece o despontar dos dezoito a outra luz.

        Alguém me disse que nos romances existe o que se chama “o ponto de viragem”, momento de mudança na sequência da história, motivado pela introdução de novo factor. Os dezoito anos trouxeram-me vários novos factores e as subsequentes alterações. Terá sido um dos meus pontos de viragem. Pondero que levei da melhor forma toda a transformação a que, então, me vi sujeita. Sem mérito pessoal, era jovem e a juventude comporta um optimismo raro que talvez entronque no facto do presente agigantar e o futuro ser em grande parte um possível que sujeito e vida podem alterar e logo, a premência não está a uso; e sofrer por antecipação também não é vulgar.

        Lembro-me do hospital e de as visitas me olharem através de um vidro. Nesse dia recebi exactamente quarenta postais ilustrados de gente da minha terra a felicitar-me. Foi uma das surpresas mais bonitas que já tive. Todos os amigos, familiares e jovens me enviaram um postal. Mesmo aquelas garotas que pouco conhecia. Mesmo os rapazes que agora só via de longe e com quem nem falava porque na minha terra as conversas mistas eram sinal de namoro. E talvez por tal motivo, o facto de me terem escrito, a maioria ainda com a letrinha da primária que eu tão bem conhecia, comoveu-me. Como é que nunca mais me lembrei disto?! Como é que esqueci aquele garoto que foi meu parceiro, que comprou para mim um postalinho e se suicidou após a morte da única filha também ela com dezoito; como é que não vi num desses postais o amor escondido sob a amizade de infância e como é que tantos anos mais tarde voltei a incorrer no mesmo erro?! O certo é que ainda hoje não sei de quem partiu ideia tão bonita e tenho até vergonha de tê-la esquecido por anos e anos.

        E depois houve a surpresa da visita (ao vidro) de minha irmã e prima, as duas com onze anos, vindas de cascos de rolha até ao hospital do distrito. E houve um postal surpresa de alguém que visitava uma colega e, talvez sem o saber, me fez presa de ciúme que não me recordo de ter merecido.

        A coroar o dia, mas não por esta ordem, que na verdade foi a primeira surpresa, o hospital ofereceu-me o melhor bolo de todos os aniversários, por certo feito na Violeta que inda hoje comanda a qualidade em pastelaria.

        O que devo aos muitos anónimos que a vida pôs no meu caminho e assim deixaram de sê-lo, pede-me que vá em frente. Sempre em frente. Para lugar nenhum.