Repito o que já frisei aqui, invejo as mentes que, quotidianas, escrevem sobre assuntos diversos, as que nunca se imiscuem neles particularmente e antes os tratam com a objectividade de observador. Invejo aqueles que postam quase com o calendário – e mesmo dia a dia –, conseguindo que nada lhes transpire da vida que vivem, de quem os rodeia, de como agem e pensam no particular de si mesmos. Ah!, podem dizer-me, mas todos nos revelamos no que escrevemos. Balelas. Não acontece a todos, não senhor. No mundo da blogosfera existem personagens impenetráveis, uns porque criam aqui uma personalidade diversa, são outros e exercem o seu direito a sê-lo; aqueles, porque sendo si mesmos, cortam com todo o particular que possa identificá-los – nunca saberemos das pequenas arrelias que os invadem, das tristezas casuais ou intrínsecas que os digladiam, dos desastres que o quotidiano despoleta; dos desgostos que sofrem. E estes personagens – que são mesmo personagens, ficção que outros vêem como realidade – fazem-me pensar que sou ovni e no que raio ando aqui a fazer. Cheguei por vontade mas desprotegida do eu fictício e, mau grado esforços porfiados, ainda vou deixando por cá a pele que me veste desde sempre, aquela que cresceu comigo e comigo envelhece, enruga e encobre todas as misérias que humanamente nos constituem. Esses outros, não! Deixam pele falsa, podem despi-la quando queiram, mudá-la; transformarem-se; cessar a existência se assim o entendam ou a sua necessidade de mudança tal lhes aponte. Tenho para mim que só eles são os verdadeiros bloguers, os escritores conhecidos ou sem nome. Bem sei que existem os influencers, mas a esses não os coloco dentro do grupo de bloguers habituais. São categoria que me desinteressa e a que nem atento.
Reconheço-me muito sem assunto, tanta vez aqui chego de mãos e mente vazias. Alinhavo umas palavras quaisquer e depois ou me vem coisa que lhes pegue, ou apago esse começo e vou andando por outro que entretanto surge. E há também aquelas horas em que me parece haver um tema e mão e mente contrariam, seguem outro caminho; deixo ir, tanto dá passar por aqui ou por ali, é tudo muito irrisório e bastante igual a quase nada.
Poderão pensar, e as histórias?! Bom, as histórias eram a construção da vida dos outros e o mundo que conheço visto por olhos meus. Tão expostos, santo Deus! Tanto de minha lavra que os próprios seriam incapazes de identificar-se nos personagens – alguns existiram ou existem ainda. É certo, amigos e amores permaneceram intocados. Nenhum dos meus personagens os copiou ou copiará. Eles são a sacralidade que guardei, guardo e defendo com unhas e dentes. Tudo o resto é dizível, verbalizável, volátil. Amores e amigos - que também são amores os meus amigos - permanecem, são a brevíssima eternidade que se me colou. Talvez sejam mais imaginários que reais, mas pensar desse modo desanima; portanto, não penso. Não quero nem posso dar-me ao luxo de perder companhia já de si exígua. Visitamo-nos a espaços para nos certificarmos uns dos outros, matarmos saudade e robustecermos, em horas sempre breves, o fio que nos une. Porque os olhos se precisam e é só neles que a falta sentida na alma se faz transmissível.