Na paleta dos sentimentos que são cola comum, nenhum iguala a compaixão. Só ela faz nascer
laços fraternos que derramam a piedade e igualam o vulgo aos sofredores. Um vento de mudança varreu a aldeia quando se soube da aventura de
Francisca e Nunes. E mesmo os mais desbocados, olvidando invejas e malquerenças,
se curvaram à desgraça e a tomaram um pouco à sua conta. Em uníssono, a aldeia
tornou-se compassiva. Ernesto vivia agora como herói, despido já de qualidades
corriqueiras: um rapaz inteligente que se perdia em conversas com os pé-rapado
e a todos saudava com simpatia. E até a inveja da boa estrela que bafejara os
progenitores foi recoberta pelo manto da desgraça, de que vale o dinheiro
nestes casos – e, benzendo-se, as mulheres rematavam de verbo na boca – quem não
queria estar na pele dela era eu. As que viviam próximo e lhe espreitavam a
figura que afilava, condoíam, é só pele e osso, coitadinha, elas não matam mas
moem.
E eis que, enquanto a aldeia aguardava a autorização para a ansiada visita
dos pais a Ernesto, Jaime se apresentou na casa paterna. Corriam os finais de
Março, a primavera crescia nos rebentos novos e as vinhas eram tenras e verdejavam.
Formosinho aclimatara o desgosto às videiras que a mulher
amara e perdia-se em tarefas que podia delegar. Abraçou o filho em silêncio
comovido. Celestina viu-os assim e desviou-se no de sempre, vou à cozinha ver das
panelas que estão ao lume. Mas, antes de se dissolver na penumbra do corredor,
ainda os notou, Formosinho abria a porta da casa da escrita e pagamentos e entraram
ambos. Por ordem do patrão, a mulher dobrou as horas de trabalho na casa que
sempre chamou de “a casa da Verdiana”, e excedia-se em mimos e cuidados com o rapaz que, dizia a quem a ouvisse, lhe
chegava magro e esfaimado. Na raiz das suas ternuras vivia a lembrança do que presenciara
entre mãe e filho, e o desejo de aliviar o reencontro com a casa. A natureza
feminina intuía que a ausência de Veridiana era tinta fresca e podia esborratar
ao menor toque.
Para surpresa da aldeia, findas as férias da Páscoa, Jaime permaneceu. À medida
dos dias que passavam, o que se pensara visita de férias adquiria outros
contornos. Uma insidiosa curiosidade, pouco a pouco, tomava conta dos
espíritos. Da casa de Veridiana nada transpirava. Instada, Celestina
encolhia os ombros, eu cá não sei nada, mas o Jaime parece que esqueceu os estudos; se
lhe pergunto, ri-se e só diz, queres-me daqui para fora? E eu, Jesus me
valha se estou a inventar, percebo nisso que não tem vontade de falar e
calo-me. E fechava o assunto, que eu não tenho nada com isso, estou ali para
servir.
Entretanto, Jaime era visto por todos deambulando por cantos e recantos, em
pequenos passeios de fim de tarde. Cumprimentava sem se alongar e, aos mirones
que o observavam, denotava o mesmo bom aspecto de sempre. Já não corria os sôfregos
campos pedalando em bicicleta fugitiva, antes os passeava lentamente, como que
imerso em intrincadas reflexões.