segunda-feira, 30 de setembro de 2019
O Coração do Coração
Um dos meus gostos menos secretos é a leitura de
António Lobo Antunes. Aturo-lhe tudo: as vaidades palermas, os propositados ditos a armar ao desconchavo, o mau ambiente
com Saramago, certo jeito de autismo que lhe existe e faz parte, as quintinhas
de Benfica, a saúde dos ares de Nelas, a família que ele não diz mas é muito
cheia de tiques, aquela mãe esplêndida e sucessiva que ensinou seis filhos a
ler aos quatro anos, a voz sensual de pai distante, os cancros que não o
derrotaram, o arreigado amor pelos irmãos. E etc. E não é isto difícil, boa
parte do que o caracteriza agrada-me, sobretudo por ser apenas leitora (afigura-se-me criatura de trato difícil). Mas
o que amo de paixão é a sua loucura por escrito. E, fã severa, aprecio
sobretudo os romances. Afirma que as crónicas são outra coisa. São mesmo.
Imagino sempre que as escreve para se distrair, embora vá dizendo que são as
moedinhas que dá às filhas. Ele mesmo,
no que tem de físico e situado, plasma-se nas crónicas. Crónicas são um
trivial. Os romances são outra coisa. Tratam a dor do mundo, revelam aquela
grande compreensão sobre o íntimo de cada personagem que nos permite a nós
privar com assassinos, drogados, violadores, mulheres estranhas, sequestradores
e o mais que se lembra, sem que nos provoquem asco, sentindo até empatia e
compaixão nascidas dessa compreensão expressa, desse sentir que, julgo eu,
afirma sempre o mesmo: que todos somos, em alguns aspectos, dignos de afecto;
há uma pessoa no fundo de cada monstro, ninguém nasce deformado nos interiores
e ainda que nascesse, seria um monstro humano.
Diz o escritor que a sua mão escreve sozinha. Digo
eu que a mente, quando lhe desengalga, vai por ali fora. E à tal mão que afirma
mecânica só lhe resta escrever.
Pardon, já escrevi trezentas palavras e
ainda não entrei no assunto. É que intentava palrar sobre a homenagem feita aos
40 anos das duas primeiras obras, “Memória de elefante” e “Os cus de Judas”. Que
foi linda e de qualidade. E houve nela o
Lobo Antunes das crónicas: um avô a contar histórias de família e suas. Como
António bem disse acerca da sua estranheza para com o espelho, “sou um miúdo
cujo envelope se gastou”.
E o mais que haja, só amanhã.
terça-feira, 24 de setembro de 2019
Carrossel
Tia
Emília foi velada em casa, sem cheiro de velas, presença de santos ou orações
de padre. A vizinhança e a prima. Poupado
a pormenores de exéquias, apenas fui levado a despedir-me. Tudo em casa que fora
minha me surgiu estranho. Cadeiras e bancos tinham sido arrastados para a sala
esvaziada do seu natural e encontravam-se perfilados contra as quatro paredes
de mistura com assentos desirmanados e artesanais, pertences desta e daquela
vizinha. A meio, sobre uma cama feita com os moxos em que nos sentávamos à
lareira, uma comprida caixa de madeira com duas portinhas a descair, toda
forrada a cetins de alvura e brilho convidativos. Mais próximo, entrevi as
rendas da almofada e tia Emília dentro da caixa. Muito bem posta e penteada. Era
como se dormisse mas toda bem vestida, a cabeça a repousar sobre aquela
brancura rendada. A palidez impressionava, um tom amarelado por toda a pele,
pescoço, mãos, rosto. Tanta vez a fora
espreitar tomada pelo mistério do sono, ressonando cadenciada e agora nem um
som além das fungadelas das mulheres num pico de comoção. Não entendi a razão,
mas pareciam desconhecer que a minha tia Emília já não morava ali.
Lamentavam-me. E eu sabia que a velhota partira levando com ela a nossa casa.
Só para me certificar, avancei a mão e aflorei o rosto com os dedos. Não estava
ali de certeza. A minha tia Emília falava, ria e não parava quieta, havia um
calor na sua presença que toda a gente notava.
Aquela dentro da caixa estava fria e dura como pedra. Retirei a mão numa
pressa e saí a correr, as fungadelas mais acesas, os lenços de assoar em
serviço e por certo que em tom condoído, coitadinho.
Depois,
quando o lugar se despovoou para o funeral e restavam apenas velhos
trôpegos e crianças, juntámo-nos em
bando triste e debandámos a barreira vazia; o pinhal quieto, uma pinha ou outra
a arreganhar, e nós sem trepar, adivinhando os pássaros pelo canto; o convite
das árvores do caminho desejando as nossas pernas a subi-las para depois nos lançarmos
de árvore em árvore como macacos; uma carroça ou outra que passava e
acompanhávamos numa corrida até à curva; o automóvel que nos desviava do
alcatrão e admirávamos em uníssono.
Fazia
calor e a aragem trazia-nos o cheiro misturado a mato, eucalipto e pinheiro. Que
entrava em nós como um bálsamo. Sem palavra, todos o sabíamos, cumpríamos um
ritual de separação, cortávamos com a infância. Ou talvez fosse cerimónia
pessoal que eles acompanhavam. O certo é que nenhum perguntou, o que fazemos à
tarde; ninguém sugeriu, e se formos espreitar as cegonhas ao moinho de vento;
não houve voz a inquirir, a que horas nos juntamos na barreira.
sexta-feira, 20 de setembro de 2019
Carrossel
No
regresso, avançávamos silenciosos, fechados em opacidade contrafeita, pés a arrastarem. Perto do local de partida e adivinhando propósitos, os meus guardiões atalharam-me o passo, não vás para lá, a mãe disse para não te deixarmos ir que os mortos não servem de companhia.
A ausência de tia Emília. O para sempre da morte. Tão débeis os nossos “para
sempre” vitais, tão pequenos todos. Mas não este. O para sempre da morte é o
único que dura e se mantém, mau grado toda e qualquer circunstância. Tanto
queríamos ser eternos e só nos eternizamos no não ser. Ironias e ideias que
então não me ocorriam; de dentro dos meus dez anos feitos mergulhava na falta e
no seu irremediável mas sem lhes atingir
dimensão. O nunca mais da morte, fui aprendendo depois, insinua-se pela
vida como lâmina de faca. Mas naquele momento, ante a concretude de certezas
tão desarmantes, os olhos marejavam. Logo o mais novo me aliciou a pretender
distrair-me, olha, fiz um carrinho. Anda vê-lo. Se quiseres, podes baptizá-lo. Segui-o até
casa a fungar, a cadelita a ensarilhar-se nas nossas pernas. Mas, quando me
passou o brinquedo para a mão, sem que eu percebesse porquê, que até me parecia
que me ia aguentar a seco, desatou-se o único pranto da minha vida.
Sentei-me
num caixote, pus a cabeça entre os braços apoiados em mesa de faz de conta e
deitei fora todas as lágrimas, expandi o desgosto, a cara a molhar o revestimento plástico. Naquela hora de eclipse, era eu e o desgosto soluçado em alta voz. À
medida que o choro se prolongava ia enrouquecendo e, quando estava reduzido a
espaçados frémitos soluçantes, sem que desse conta, o cansaço e o alívio
levaram-me de vencida. Adormeci.
Acordei à voz da prima farfalhuda, não sei que faça com o gaiato, ele não é da família e não o quero lá em casa. Sem bulir, ouvi a mãe dos meus amigos falando tão baixo que apenas entendia o sussurro. E ouvi espantado, não, não, a casa desmancha-se que não pago nem um mês de renda; e a ele ponho-o com dono. E depois, como quem matuta no assunto, tornou, há casas que recebem esta gente sem ninguém. Não me responsabilizo por ele. E depois é rapaz, nem pensar nisso.
Acordei à voz da prima farfalhuda, não sei que faça com o gaiato, ele não é da família e não o quero lá em casa. Sem bulir, ouvi a mãe dos meus amigos falando tão baixo que apenas entendia o sussurro. E ouvi espantado, não, não, a casa desmancha-se que não pago nem um mês de renda; e a ele ponho-o com dono. E depois, como quem matuta no assunto, tornou, há casas que recebem esta gente sem ninguém. Não me responsabilizo por ele. E depois é rapaz, nem pensar nisso.
quinta-feira, 19 de setembro de 2019
Carrossel
O
que tinha por certo era a incapacidade de viver sozinho. Porém, depois que me
despachei e me sentaram a mastigar um pão e beber uma caneca de café, achei a
vida melhor, que na noite anterior nem jantara. Ao longo do dia as crianças pertenciam
ao mundo da rua e não aqueciam lugar em casa. Portanto, ainda a mastigar, fomos
postos fora, enxotados do mundo caseiro que entrevíamos na doença e à hora das
refeições. Saí ladeado por dois garotos
da família e meus companheiros nas diurnas incursões da liberdade. Mal pusemos pé fora da porta, logo nos rodeou a curiosidade acesa de colegas de jogos e
brincadeiras que nos aguardavam em magote suspenso. Formaram círculo
compungido, a voz num baixo de seriedade por receio e respeito à morte. Queriam
saber tudo: como a encontrara, como tinha os olhos e as mãos, se estava ferida,
se espumava, se eu sentira medo, se a palpara e estava fria, se. Ali, a meio da
rua e à claridade matinal, a morte de tia Emília foi severa e quase
morbidamente escrutinada. Por momentos senti-me importante, a contar factos que
me pareciam história de livro, coisa que não se passara comigo mas de que eu era o
narrador. Entretanto, os dois que me ladeavam iam entremeando a elevar-se do
anonimato, ele dormiu na nossa casa e demos-lhe o café e tudo. Dúvidas
satisfeitas, olhámo-nos sem saber por onde continuar, a tristeza a aperrear-nos,
incómoda.
E veio a sugestão salvadora, se fôssemos a casa do Márinho ver os coelhos que
nasceram esta noite. Fomos. Ao pegar nos animais que nesse dia todos me passavam para as mãos, toma lá o peso
dele, olha este tão engraçado, sentia-lhes o coração assustado, os movimentos
do corpo pequeno e quente, e, involuntariamente, contrapunha essa vivacidade à quietude de tia
Emília. Era como palpar a diferença entre vida e morte. Mas, por outro lado, desejava iludir-me, prolongar
indefinidamente a visita à coelheira.
Ali, éramos os mesmos, tecíamos os comentários de sempre, brincávamos uns com
os outros, ocupavam-nos as mesmas funções. Ficando por lá, havia a
hipótese de a vida igual a antes. Era um pensamento pateta, mas acudiu-me.
Ao longo dos anos essa tendência para a pausa no meio dos atropelos trazia-me a
lembrança daquele montinho de crianças a braços com a ideia da morte e a noção clara
de me distraírem dela. A vida afastou-me deles, deu as suas voltas. Encontrei
outros amigos e colegas de caminho, e sempre insisti na repetição do mesmo
sentimento, experimentando guarida e o prazer da companhia e desejando sem
palavras o que o apóstolo exprimiu na transfiguração de Cristo “Mestre, é bom
estarmos aqui, façamos aqui três tendas”.
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Carrossel
Sentimentos
e emoções opostos são unicidade que dualiza na vida dos homens. Tia Emília estendeu a mão
e ganhou-me para a vida, mas foi também com ela que experimentei a perda. Estamos
destinados a perder tudo ou, como gostamos de pensar, a despojar-nos de
mundo. A verdade é que perdemos, é a vida quem
tira, subtrai, rouba. Vivemos a
aprender, de perda em perda. E mais se aprende com o sofrimento do que com as
alegrias, mas há aprendizagens desnecessárias por exorbitantes e demasiado intrusivas.
Pode a má sorte marcar-nos para elas. Ou não é mal universal e o que há é gente incapaz de finais felizes, que não
segura a sua gota de água, escorre antes de ser usada; gente que perde os
sapatos no caminho e faz muita vida descalça. Tem mais história, essa gente a que pertenço. Que em todos os caminhos
há troços simples, planos, lisos; e troços que se enchem de apertadas curvas e
contracurvas; caminhos existem que bifurcam e metem uns nos outros e os nós de
junção e separação pedem maior cuidado, atenção extra. Decerto me faltou essa
atenção cuidadosa e extraviei. Tia Emília, quando se desorientava e não acertava com o
lugar pretendido, dizia ter almariado; talvez eu tenha almariado na
vida. Mas não no troço que nos juntou. Vivíamos em linha recta, eu, na certeza
de que ela era eterna. Na época em que preparava as festas de casamento, atordoava-me
a sua ausência. E apesar de ter por certo o regresso, já esses três dias eram os maiores do ano.
Mal acordei no dia seguinte, os factos impuseram-se. Fixos. Definitivos. Encontrava-me deitado no chão de uma casa com cheiros desconhecidos e
nada da mesa quinane com o pequeno almoço. Não havia água aquecida para
abluções matinais, nem peças de roupa lavada a olharem-me da cadeira. Não havia
cadeira. Enovelado na lã de ovelha de um colchão velho, lembrei o dia anterior
e a ideia feriu-me de tão nua, estava sozinho. Sozinho a vestir, calçar, lavar. Sozinho era termo de que eu
nem atingia o tamanho, ultrapassava a minha debilitada compreensão e avivava tristeza e desconcerto.
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
Falta de Sentido
Gosto
de receber em casa, mas o correr dos anos aumentou a lavoura prévia. Estou mais
lenta; o vento descompõe em minutos os brunidos de rua; as horas na cozinha triplicam. Ele são
bolos, saladas, entradas, acompanhamentos, temperos de carne e peixe. E mais a
verificação de vinhos, pão, fruta... as visitas almoçam e perdem direito a sair
sem jantar. Outra exigência de mim para comigo é a execução atempada das
refeições. Recuso pressas e frenesim de nervos que aumentam na proporção de
horas em fuga esgalgada. Estas conquistas arranco-as às madrugadas e a um já célebre café. Sem tempo e cafeína vão-se-me boas
maneiras e acepipes. Se alguém pensa em visitas súbitas, desista. De duas uma:
ou entra de faxina, ou corre sério risco da simplicidade alimentar de uma açorda ou migas de azeite; que o pão, já se
sabe, é essência alentejana. Falam das carnes de porco, mas é tudo história. Pão
é o que sempre houve e há-de haver em qualquer montesinho de cacaracá. E
entende-se porquê.
Mas, quando a casa silencia, fica-me um vazio cansado, coisa que se não preenche de enfiada nem se pode saltar. Vivido a seco e sem abébias de cafeína, chega a durar dias.
Restolho onde nada medra, não há a teimosia verde de uma erva simples. Então,
ressaltam-me os oceanos profanados, os peixes em extinção, os equilíbrios
marítimos destruídos; as terras cansadas de produções intensivas e não
adequadas que as exaurem; a rebelião natural dos elementos que se repete cada
vez com mais frequência e destrói sem apelo. Vamos ainda a tempo, dizem os
cientistas. Clamam a necessidade de mudanças drásticas para salvarmos o planeta
que é dizer, salvarmo-nos a todos. Não sei ainda bem o que adiantou a João
Baptista pregar no deserto, sempre me pareceu desperdício de tempo. Pode ser
que me engane, que seja do tal vazio a perturbar-me as meninges, mas soa-me idêntica
a voz científica, andam a pregar no deserto. Insurgências feitas de palavras,
cingidas a esse reduto, esterilizam e são zero. Pois. Há os movimentos juvenis.
Há Gretta. E a esperança está no futuro. Malogradamente, a esperança tem que
estar no presente e não depende já da natureza. Depende de nós que somos a raiz
do mal; o poder de emendar está do lado dos homens. E o homem que existe, digo
eu, não leva a sério a ameaça, não está para isso de inverter a marcha
acelerada para o abismo. Não quer mudar.
De que serve o conhecimento...
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
Inúmera Necessidade
Dias
a começar com um café. Lá fora, o silêncio pousado sobre o mundo. Noto as casas
adormecidas na penumbra e parecem-me mais próximas, talvez se aconcheguem para
dormir. Quem dentro delas vigia como eu, quem dorme pesadamente, quem dormita
e, nos intervalos do sono, se apraz em silêncio saboreando hora a hora as
pequenas gotas do descanso. Quem sonha e se debate em pesadelos que manietam
braços e pernas, corpos desamparados a despenhar de alturas inconcebíveis, mortes anunciadas e temíveis de que se acorda transido. Quem sonha e
cria, quem tem alma jovem e inventa vida e vive nela o que a realidade subtrai.
O movimento dá mão à luz e, lá fora, a escuridão é imenso novelo.
Acordar. Encarar de frente horas e horas de atenção a pormenores que precisam de lugar. Arrumar é atribuir lugar ao que o não tem ou está fora de ordem. Limpeza. Antes da canícula, no exterior; depois, no interior. Limpeza. Metódica. Morosa. Num desenho animado bastaria uma cena e a jarra de flores murchas revivia, os papéis caminhavam sozinhos para o cesto, aranhas recolhiam as teias, o lixo ia despejar-se a si mesmo no contentor, o pó desaparecia de jacto e o chão rebrilhava enquanto inúmeras florinhas evolavam cantando hinos de aroma floral. No desenho animado a parafernália de detergentes e lixívias não entra, foi dispensada de serviço.
Acordar. Encarar de frente horas e horas de atenção a pormenores que precisam de lugar. Arrumar é atribuir lugar ao que o não tem ou está fora de ordem. Limpeza. Antes da canícula, no exterior; depois, no interior. Limpeza. Metódica. Morosa. Num desenho animado bastaria uma cena e a jarra de flores murchas revivia, os papéis caminhavam sozinhos para o cesto, aranhas recolhiam as teias, o lixo ia despejar-se a si mesmo no contentor, o pó desaparecia de jacto e o chão rebrilhava enquanto inúmeras florinhas evolavam cantando hinos de aroma floral. No desenho animado a parafernália de detergentes e lixívias não entra, foi dispensada de serviço.
Ora
acontece que um café reanima sem milagre. Portanto, temos de considerar o esforço de corpo e mente
presos à função. Quantas horas são necessárias para reaver a casa como ta
ensinei a conceber. Não o sei, é sempre variável. Sei que a noite se achega ao
cansaço que viajou desde antes da luz, estendeu-se de uma noite a outra noite. Mas tu
entras. Aproximas-te naturalmente, olá, mãe, tudo bem. Meu filho querido. E é isto. Um bem maior.
Subscrever:
Mensagens (Atom)