Os filósofos pensam o esqueleto das coisas, aquilo que nelas não se manifesta na aparência, mas as faz ser, que as segura no seu ser isto ou aquilo. Ou é isso que me impele, por vezes, a lê-los. Ignoro se são a candeia que ilumina e vai na frente, mas conferem sentido a algumas das minhas interrogações; não as resolvem, nem dão respostas cabais, mas estendem-nos a compreensão da questão. A resposta, se há resposta, dá-a cada homem que “Ousa pensar” (Kant).
Portanto, vou comprar, “Fragmentos de um discurso amoroso” de Roland Barthes. Porque foi recomendado, mas acima de tudo porque me interessou o “desejo de simetria” que existe no amor. Provavelmente porque sempre pensámos nele como retribuição, mas é, em termos de rigor, desejo de simetria. Falando num par amoroso, cada um pensa/deseja que a outra parte sinta e diga o equivalente do que ele mesmo pensa e deseja em relação ao amado. Se a simetria ameaça ruir e o não-simétrico acumula, surge a luz vermelha, sinal negativo para o amor. Digo eu que o livro é capaz de ser interessante.
Bom, a par destas questões puramente teóricas, as tais sem utilidade que se veja, dado que nem para responder servem e antes levantam novas interrogações, surgiram outras, não menos filosóficas, mas concretas e derivadas do trabalho que o escritor faz com doentes mentais, gente paralisada ou semi paralisada, com deficiência a vários níveis, mas sexualmente activa. E a questão é, que fazer nestes casos? Quem se dispõe ao sexo com eles? Ou decidimos privá-los, sabendo que seria um dos grandes prazeres de vidas tão limitadas? Não sei se alguém terá a resposta certa, mas a questão é pertinente.
Também é certo, que as mulheres adúlteras, eram apedrejadas antes e no tempo de Cristo; e mesmo agora, no nosso tempo. Uma adúltera não é prostituta, não se vende, entrega-se negando a convenção das duas metades e ela, só ela e nem ela, sabe os motivos. Pedras para cima! Como se a infracção não envolva duas pessoas. Mas quê, as mulheres são desde sempre a tentação, um diabo chamativo, a culpa é só sua. A prostituição, disse Gonçalo, na Grécia antiga era quase venerada, as prostitutas eram as deusas do amor, toda a sabedoria amorosa estava nelas condensada (tirariam curso?) E lembrou-me certa parte de um livro que li aos quinze anos e pode até ser Clarissa de Érico Veríssimo, mas não deve ter sido – havia no livro uma prostituta conhecida por D. Rosinha peito de pomba. D. Rosinha era uma prostituta (detesto este nome) necessária à vida da comunidade, acudia aos viúvos e suas necessidades, aos desquitados solitários, aos que tinham zangas com as respectivas consortes. Recebia-os em sua casa, servia um chá (ou talvez uma cachaça), ouvia todos com atenção querendo saber os motivos de procurá-la; e aos desavindos, os da guerra em casa, ensinava o como de restabelecer a paz e quantas vezes, a harmonia restaurada, as mulheres lha agradeciam. Gostei imenso desta senhora carinhosa que recebia todos muito bem, umas vezes com sexo e outras sem ele; umas vezes fazendo-se pagar e outras não. Penso que era, verdadeiramente, uma deusa grega do amor. O único que lamento nela é ser ficção.
Mau grado ter-se debruçado a maior parte do tempo sobre o amor convencional, de um para um, o conselho do Gonçalo foi muito a meu gosto: não nos deixarmos açambarcar pelo amor nominal que é sempre restritivo ( o meu pai, a minha família, a minha amada, os meus amigos) e antes cultivarmos essa forma de amor tão desusada que é o amor dos homens em geral, o amor colectivo que se está a perder e a que chamou “o amor sem nome” por não ser dirigido a alguém específico. E instigou-nos a sorrir e a falar com as pessoas que encontramos na rua e nos são desconhecidas; diz fazer isso amiúde, sai de casa sem propósito fixo, apenas para se dar a quem encontra. Descobri nele um ágil coração de poeta.
E agora, se me dão licença, vou sorrir para outro lado. Miopemente.