terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Perguntas da Vida

 

        Os filósofos pensam o esqueleto das coisas, aquilo que nelas não se manifesta na aparência, mas as faz ser, que as segura no seu ser isto ou aquilo. Ou é isso que me impele, por vezes, a lê-los. Ignoro se são a candeia que ilumina e vai na frente, mas conferem sentido a algumas das minhas interrogações; não as resolvem, nem dão respostas cabais, mas estendem-nos a compreensão da questão. A resposta, se há resposta, dá-a cada homem que “Ousa pensar” (Kant).

        Portanto, vou comprar, “Fragmentos de um discurso amoroso” de Roland Barthes. Porque foi recomendado, mas acima de tudo porque me interessou o “desejo de simetria” que existe no amor. Provavelmente porque sempre pensámos nele como retribuição, mas é, em termos de rigor, desejo de simetria. Falando num par amoroso, cada um pensa/deseja que a outra parte sinta e diga o equivalente do que ele mesmo pensa e deseja em relação ao amado. Se a simetria ameaça ruir e o não-simétrico acumula, surge a luz vermelha, sinal negativo para o amor. Digo eu que o livro é capaz de ser interessante.

        Bom, a par destas questões puramente teóricas, as tais sem utilidade que se veja, dado que nem para responder servem e antes levantam novas interrogações, surgiram outras, não menos filosóficas, mas concretas e derivadas do trabalho que o escritor faz com doentes mentais, gente paralisada ou semi paralisada, com deficiência a vários níveis, mas sexualmente activa. E a questão é, que fazer nestes casos? Quem se dispõe ao sexo com eles? Ou decidimos privá-los, sabendo que seria um dos grandes prazeres de vidas tão limitadas? Não sei se alguém terá a resposta certa, mas a questão é pertinente.

Também é certo, que as mulheres adúlteras, eram apedrejadas antes e no tempo de Cristo; e mesmo agora, no nosso tempo. Uma adúltera não é prostituta, não se vende, entrega-se negando a convenção das duas metades e ela, só ela e nem ela, sabe os motivos. Pedras para cima! Como se a infracção não envolva duas pessoas. Mas quê, as mulheres são desde sempre a tentação, um diabo chamativo, a culpa é só sua. A prostituição, disse Gonçalo, na Grécia antiga era quase venerada, as prostitutas eram as deusas do amor, toda a sabedoria amorosa estava nelas condensada (tirariam curso?) E lembrou-me certa parte de um livro que li aos quinze anos e pode até ser Clarissa de Érico Veríssimo, mas não deve ter sido – havia no livro uma prostituta conhecida por D. Rosinha peito de pomba. D. Rosinha era uma prostituta (detesto este nome) necessária à vida da comunidade, acudia aos viúvos e suas necessidades, aos desquitados solitários, aos que tinham zangas com as respectivas consortes. Recebia-os em sua casa, servia um chá (ou talvez uma cachaça), ouvia todos com atenção querendo saber os motivos de procurá-la; e aos desavindos, os da guerra em casa, ensinava o como de restabelecer a paz e quantas vezes, a harmonia restaurada, as mulheres lha agradeciam. Gostei imenso desta senhora carinhosa que recebia todos muito bem, umas vezes com sexo e outras sem ele; umas vezes fazendo-se pagar e outras não. Penso que era, verdadeiramente, uma deusa grega do amor. O único que lamento nela é ser ficção.

        Mau grado ter-se debruçado a maior parte do tempo sobre o amor convencional, de um para um, o conselho do Gonçalo foi muito a meu gosto: não nos deixarmos açambarcar pelo amor nominal que é sempre restritivo ( o meu pai, a minha família, a minha amada, os meus amigos) e antes cultivarmos essa forma de amor tão desusada que é o amor dos homens em geral, o amor colectivo que se está a perder e a que chamou “o amor sem nome” por não ser dirigido a alguém específico. E instigou-nos a sorrir e a falar com as pessoas que encontramos na rua e nos são desconhecidas; diz fazer isso amiúde, sai de casa sem propósito fixo, apenas para se dar a quem encontra. Descobri nele um ágil coração de poeta.

        E agora, se me dão licença, vou sorrir para outro lado. Miopemente.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Eros na Grécia Antiga

 


        Vamos assentar num princípio: não li a obra em causa e nem sei se vou ler. Para lá desta asserção, digo que prefiro conferências em que o autor não se socorre de power point ou, se o usa, é apenas esboço do que pretende, e muito será dito para além de. Quem não usa muleta pode correr em mais direcções, inverter a marcha e arrancar a galope sobre territórios incógnitos do ouvinte. É esse partir do discurso, essa quebra que permite a inserção de uma coisa outra que surge em relação, o que mais atrai; dá gosto assistir ao movimento da mente em directo. São ziguezagues, rectas paralelas, círculos concêntricos e excêntricos, sublinhados, exemplos fáceis para teorias difíceis.

        Gonçalo começou pelo livro, mas não para contá-lo, muito pouco ficámos a saber da história além de que tem, entre o muito que o percorre – é uma epopeia -, um par amoroso. E porque existe na obra uma Jocasta, legitimou-a com a herança pesada que temos da Grécia antiga e de como essas teorias devieram, com pouca mutação, teorias cristãs que mantemos. Porque a maioria de nós pensa platonicamente sem que o imagine.

        O que era para os gregos o amor? Parménides, um pré socrático, afirma nos seus fragmentos que o amor não é um estado, mas uma força que aproxima dois seres distantes ou mantém a proximidade entre dois seres próximos. Se a força existe, aproxima; cessando, os seres afastam-se. Entendido assim, o amor é uma espécie de força gravítica. Digo eu que Parménides supunha que o fim do sentimento levava necessariamente ao afastamento e que a dita força precisa de manutenção para fazer da proximidade uma constante. O amor exige.

        Ora o princípio amoroso de Parménides - amor tem raiz no termo grego phylos, abrangendo quer amor, quer amizade - opõe-se à paixão, termo que deriva de pathos (patológico, doentio, fora da razão). A paixão não se explica, nem depende do querer do sujeito, é algo que lhe acontece, o arrebata e modifica. Ninguém decide apaixonar-se por A ou B, apenas se apaixona. O princípio e o fim da paixão não são determináveis pelo homem, existem sem escolha. De um modo geral, os gregos não valoravam a paixão, situação que se verifica também nos romanos antigos que lhes herdaram a cultura. Por exemplo, vários séculos depois, Séneca admitia que o sábio era apathos (apático), incólume a paixões. Por outro lado, afirmou o desejo como sinal da incompletude humana, ligando-o à culpa tão nossa conhecida. No entanto, não excluindo a carga negativa que tem, é por desejo que nos movemos. Não há projecto sem desejo, o homem, convenço-me eu, é um ser desejante. Há que distinguir a natureza do desejo.

        Por outro lado, a teoria platónica sobre o amor, conhecida como o encontro de duas almas sem a mistura do que é corpo e matéria, inspirou a teoria católica do casamento. Em “O Banquete” o amor é proposto como o reencontro da unidade que os deuses tinham cindido inicialmente; duas peças que encaixam como num puzzle, uma só serve a uma; logo, a procura do amor é a busca da outra metade a fim de restaurar a unidade perdida e, nesse sentido, o amor é um destino: se se encontra a metade em falta, a unidade é poderosa. Adaptando o platonismo à circunstância católica: “não separe o homem o que Deus uniu”. Mas como pode a igreja saber que as duas metades encaixam perfeitamente?! Ou até elas mesmas, como o sabem?! A realidade veio mostrar que, ou as metades se desencontram e por isso não há o encaixe em puzzle, ou a unidade proposta é um inacessível ideal. O divórcio, digo eu, tirou o monopólio aos parâmetros platónicos, instaurando o amor seriado de que falou Gonçalo e de que fala e pratica mais gente: o direito ao amor desta, e desta, e desta mulher como supõe Kundera em “A Insustentável Leveza do Ser”. E o idêntico para o sujeito feminino que, como é sabido, não é bem idêntico.

                                       (cont.)


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Uma Flor à Janela

 

        Há na conversa de Gonçalo M. Tavares uma simplicidade florida que não faz adivinhar o hermetismo da sua escrita, a racionalidade extrema da tecitura, o seu existir para iniciados. Nas conversas sobre o que escreve, como que desvenda os intentos dos livros concebidos (ouvi e vi-o duas vezes) e apresenta as linhas mestras do que o levou à escrita dessa obra. Confere sentido. Explica. E vemos mais do que antes. Prevalece nele uma espécie de instinto pedagógico que o leva a descer até aos que, não entendendo muito bem a obra, passam a compreendê-la depois que o bisturi da sua inteligência puxa e mostra o menos visível. Mas não apenas explica, acrescenta. Um autor ou um conferencista só vale se acrescenta. Saio encantada das suas prelecções. Grata pelo que me deu a ver ou me fez descobrir; por ter na minha frente uma pessoa simples e arrisco que boa – quem quereria trabalhar pro bono com a trissomia 21, a paralesia total e parcial, e outras deficiências?! E ele fá-lo com gosto, há muito ano e di-lo num aparte que vem a propósito, sem alarde, como tarefa comum e  a que qualquer um se dispõe. Sou grata por levantar uma série de questões que também me preocupam ou preocuparam; grata pelo entusiasmo que põe no que diz e por aconselhar leituras que sempre me agradam; grata pelo entendimento da filosofia e a oportunidade da sua dimensão ética - deseja a atenção ao outro que não é exclusiva, que não se dirige apenas a um indivíduo determinado, mas se reparte o mais possível por todos os humanos que encontramos.

        Na última conferência falou-nos da epopeia, “A morte dos Estados Unidos da América”. Porém, aquilo de que verdadeiramente falou foi do amor. Mas essa conversa - bocadinhos dela - fica para outro dia.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Ternuras e Tagatés

 

        Uma vez por outra os meus gatos chegam até aqui. Julgo-os felizes. São mimados, têm o alimento a horas e podem dispôr da casa inteira – dormem e enfiam-se onde mais lhes apetece. E espairecem no quintal e arredores (arredores, lugar de morte para quase todos). Esta gata chegou adulta, muito magra e receosa: fugia ao toque, e virava-nos uns olhos amarelos de lince pouco agradáveis. Não a forçámos. Mas também não desistimos de a ameigar.

        A gata de hoje é quase outra da que nos chegou em Agosto. Tem os mesmos olhos marginais e parece estar sempre pronta a fincar o dente ou arranhar – defesas que não usa. Mas sobe-nos para o colo sem temor. No meu caso, acredito que toda a sua meiguice visa que me levante da cadeira onde me sabe sentada e vá dar-lhe a ração. Digo isto porque só me procura uma ou duas horas antes da refeição. Mas exerce a preceito. Pula e fica a mirar-me com olhos pedintes; como não resulta, enrosca-se tendo o cuidado de encostar a cabeça a uma das minhas mãos, enquanto estende as patas por cima da outra. Ficamos portanto de mão dada. E digo para dentro, bonito serviço(!), estou eu aqui de mão dada com uma gata adormecida. Se acaso mexo uma perna, mesmo sendo de leve, pula para o chão na esperança de que seja sinal de me levantar e senta-se implorativa. Digo-lhe, gata, ainda não são horas. E ela pula-me de novo para o colo, senta-se a olhar-me de frente e aproxima tanto o focinho que os bigodes me fazem cócegas. Por norma, e para os outros gatos, repetia inúmeras vezes, dá um beijinho à dona! Mas eles não me ligavam meia. E não é que esta, a quem nunca eu disse tal, parece mesmo querer beijar-me?! Depois enrosca-se de novo e, pressurosa, lambe-me a mão mais próxima enquanto me vai dando dentadinhas pequenas. Nada disto é novo para mim, já o vivi com outros gatos (excepção feita à sua atracção pelo meu rosto). Também sei que correm na nossa frente satisfeitíssimos, se acaso saímos ao quintal. Mas esta gata ultrapassa todos em velocidade, ela corre como se esteja a pretender ganhar uma prova nos jogos olímpicos. Endoidece, a bichana.

        E é isto.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Aprender a Respiração


        Gosto de andar pela cidade a sós no meio da gente, talvez alguma sofrendo ou beneficiando de igual condição. De onde terá saído tal gosto, pergunto-me umas vezes por outras. O mais certo é ter-me habituado - lembro o prazer de compras feitas com amigas, as sessões de cinema, os passeios, os lanches a meio da tarde num lugar a gosto se as visitava; também recordo que nunca gostei da série “O sexo e a cidade” (nem sei se série, se filme) por retratar o dia-a-dia de insólitas senhoras/jovens e que pouco têm em comum com gente da minha igualha que julgo ser a maior parte das mulheres. Pareceu-me na altura que elas representam o ideal da mulher moderna, bonita no corpo todo e bem lançada, independente qb. O sonho feminino em película. Mas continua a ser verdade que invejei um imenso a sua cumplicidade - as compras, os almoços, as confidências, a entreajuda. Era a amizade perfeita, próxima quanto baste. Ora, a amizade à portuguesa é outra coisa. Inclui confidências, tudo o resto é vivido diferentemente. Talvez seja a diferença de continentes. O certo é ter aspirado (no sentido de aspirador) esse ideário idílico. Nessa tarefa de limpeza, baniu-se-me o desejo de companhia, uma das coisas que mais me descontrai é sair sozinha, ter umas horas só minhas a deambular por onde me apeteça, precise ou dê mais jeito. Respiração prolongada, satisfação mais funda que todas as aulas de yoga juntas. E como estou só, vejo e oiço mais e melhor; sou mais atenta. 

        Numa destas manhãs de friúra, notei a jovem que atravessava a rua até à gare onde eu esperava um comboio; reparei nela por ser jovem, bonita e cuidada; também porque trazia atrelado um garoto de seis, sete anos e carregava uma garotinha no colo, facto pouco habitual. Seriam umas dez e trinta da manhã, mas o vento era cortante e eu estava abrigada – e gelada – num dos bancos interiores da gare; ela pediu licença e sentou-se a meu lado com o garoto. A mais nova era magrinha, uma haste fina do princípio ao fim, a cabecita enfeitada de trancinhas pequenas e mãozinhas minúsculas, polvos que tentavam levantar as blusas da mãe. E a jovem a puxar a roupa para baixo e desviando os inquietos polvos, olho no olho comigo, está tanto frio, não posso dar o que ela quer, não aguento. Mas os dois aninhos ressentidos olhavam-me pesarosos, o branco do olho a crescer, enquanto as mãos insistiam sôfregas e o nariz mergulhava de novo nos refegos da roupa materna. E foi mesmo de mãe: a jovem olhou a filha e, sem palavras, alçou a roupa e puxou da mama. A garota abocanhou-a no acto, como se fora caso de vida ou morte. E ela para o sorrir trocista do miúdo, o que é que pensa, foi assim com você também.

        Não creio que haja coisa mais bonita de se ver e ouvir num dia de frio.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Dos Propósitos


        Quando trabalhava - não é que hoje o não faça -, em cada início de ano eu e os alunos escrevíamos propósitos individuais para o ano que estreava; eu guardava-os para lermos quase no fim do ano e cada um avaliar acerca do cumprimento. Antes, aconselhava-os a proporem apenas um ou dois, possíveis de executar. Penso que tirei a ideia dos Diários de Adrian Mole escritos por Sue Townsend, obras que lhes recomendava mas eles pouco gostavam enquanto a mim ainda hoje divertem, facto que me deixa a duvidar ou de mim ou de Sue, mas não me incomoda e nem sequer tento esclarecer. O engraçado nisto tudo foi que o fiz em vários anos e com turmas diferentes, mas, sendo propósitos feitos na escola, era raro serem escolares. Os alunos visavam sobretudo hábitos que desejavam contrariar ou outros que desejavam adquirir, sem relação com a aprendizagem. No que respeita aos meus propósitos...creio que também eu tentava aperfeiçoar outros campos; julgo até que, se acaso os fizesse hoje, seriam os mesmos. Portanto, não sei bem para que serviram.

        Hoje proponho-me continuar, viver mais um ano aceitando o que me traga e tentar o que Pessoa cantou: “põe quanto és no mínimo que fazes”. Contrario o que dizia aos alunos, é propósito impossível de cumprir. Mas posso ir tentando ano a ano, fazê-lo vitalício:)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

No princípio, qual era o verbo?!

 

        Desejámos uns aos outros um bom ano 2026. Mas começou soturno, colado a uma tristeza húmida e persistente que não arredou pé. O primeiro dia do ano embrulhou-se em escuridão e mais parecia noite. Na manhã, instalou-se o ar mortiço que se foi arrastando pelo dia, num sem vontade agastado, de quem cumpre a contragosto e nos faz o favor de aparecer só para ter nome e se chamar alguma coisa. Nem uma fresta de sol, uma brevidade clara vencendo nuvens de aço. E o sossego da rua não sabia ao sono que sobrevém à consumação de madrugadas a festejar entradas e saídas que afinal são de todos os dias, mas só uma vez por ano são festa; sabia a desalento entrançado em invernia. Do céu não caiu uma lágrima, mas a espessura doente do dia, puxava pelo desencanto.

        Dia com tanta hora! Mais horas que em qualquer domingo. Vale-nos haver livros nos intervalos do dia que foi noite.