quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Eros na Grécia Antiga

 


        Vamos assentar num princípio: não li a obra em causa e nem sei se vou ler. Para lá desta asserção, digo que prefiro conferências em que o autor não se socorre de power point ou, se o usa, é apenas esboço do que pretende, e muito será dito para além de. Quem não usa muleta pode correr em mais direcções, inverter a marcha e arrancar a galope sobre territórios incógnitos do ouvinte. É esse partir do discurso, essa quebra que permite a inserção de uma coisa outra que surge em relação, o que mais atrai; dá gosto assistir ao movimento da mente em directo. São ziguezagues, rectas paralelas, círculos concêntricos e excêntricos, sublinhados, exemplos fáceis para teorias difíceis.

        Gonçalo começou pelo livro, mas não para contá-lo, muito pouco ficámos a saber da história além de que tem, entre o muito que o percorre – é uma epopeia -, um par amoroso. E porque existe na obra uma Jocasta, legitimou-a com a herança pesada que temos da Grécia antiga e de como essas teorias devieram, com pouca mutação, teorias cristãs que mantemos. Porque a maioria de nós pensa platonicamente sem que o imagine.

        O que era para os gregos o amor? Parménides, um pré socrático, afirma nos seus fragmentos que o amor não é um estado, mas uma força que aproxima dois seres distantes ou mantém a proximidade entre dois seres próximos. Se a força existe, aproxima; cessando, os seres afastam-se. Entendido assim, o amor é uma espécie de força gravítica. Digo eu que Parménides supunha que o fim do sentimento levava necessariamente ao afastamento e que a dita força precisa de manutenção para fazer da proximidade uma constante. O amor exige.

        Ora o princípio amoroso de Parménides - amor tem raiz no termo grego phylos, abrangendo quer amor, quer amizade - opõe-se à paixão, termo que deriva de pathos (patológico, doentio, fora da razão). A paixão não se explica, nem depende do querer do sujeito, é algo que lhe acontece, o arrebata e modifica. Ninguém decide apaixonar-se por A ou B, apenas se apaixona. O princípio e o fim da paixão não são determináveis pelo homem, existem sem escolha. De um modo geral, os gregos não valoravam a paixão, situação que se verifica também nos romanos antigos que lhes herdaram a cultura. Por exemplo, vários séculos depois, Séneca admitia que o sábio era apathos (apático), incólume a paixões. Por outro lado, afirmou o desejo como sinal da incompletude humana, ligando-o à culpa tão nossa conhecida. No entanto, não excluindo a carga negativa que tem, é por desejo que nos movemos. Não há projecto sem desejo, o homem, convenço-me eu, é um ser desejante. Há que distinguir a natureza do desejo.

        Por outro lado, a teoria platónica sobre o amor, conhecida como o encontro de duas almas sem a mistura do que é corpo e matéria, inspirou a teoria católica do casamento. Em “O Banquete” o amor é proposto como o reencontro da unidade que os deuses tinham cindido inicialmente; duas peças que encaixam como num puzzle, uma só serve a uma; logo, a procura do amor é a busca da outra metade a fim de restaurar a unidade perdida e, nesse sentido, o amor é um destino: se se encontra a metade em falta, a unidade é poderosa. Adaptando o platonismo à circunstância católica: “não separe o homem o que Deus uniu”. Mas como pode a igreja saber que as duas metades encaixam perfeitamente?! Ou até elas mesmas, como o sabem?! A realidade veio mostrar que, ou as metades se desencontram e por isso não há o encaixe em puzzle, ou a unidade proposta é um inacessível ideal. O divórcio, digo eu, tirou o monopólio aos parâmetros platónicos, instaurando o amor seriado de que falou Gonçalo e de que fala e pratica mais gente: o direito ao amor desta, e desta, e desta mulher como supõe Kundera em “A Insustentável Leveza do Ser”. E o idêntico para o sujeito feminino que, como é sabido, não é bem idêntico.

                                       (cont.)


13 comentários:

  1. :)) Bom fim de semana, Pedro.
    Gonçalo tem o tique da filosofia - não resolve problemas, suscita questões e novos problemas:). Como se antevê.

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  2. Penso exiguamente nos muitos ses. Pode ser uma questão de carácter e de reconhecer inútil lembrar hipóteses que não vingaram; ou é a realidade a impôr-se à força toda. Sigo Aristóteles, prefiro imaginar o que pode vir a ser possível. Em alguns campos deixei mesmo de imaginar, estreitou-se-me o horizonte. Talvez seja temperamento; ou porque as hipóteses fundamentais, para se realizarem, exigiram concurso de boas vontades de outrem e sem elas nunca eu as mudava em realidade. A vida de cada um é malha entrelaçada na vida dos outros e que desmancha de quando em quando nos embates do acaso. Na vida, é como dizia Parménides, os ses ao retardador não existem.
    Poderia rebater essa ideia de dualidade amor/paixão. Até com exemplos práticos. Mas não me apetece. O que não transgride o texto, era o pensamento antigo. Prende-me mais a ideia das duas metades, cuja, não sei se repara, faz cair, ou pelo menos tremer, a concepção comum de amor platónico.
    "Sou talvez a visão que Alguém sonhou, / Alguém que veio ao mundo pra me ver, / E que nunca na vida me encontrou!" Florbela Espanca. Um soneto que sempre me impressionou. Expressa o máximo desencontro possível, a falha inteira da teoria das duas metades. Mas há tantos desencontros mais, mesmo que não de tão completa desolação. As teorias sobre o amor são inesgotáveis. E dizem nada. Sobre Florbela tenho também a minha teoria. E vale tanto como as restantes - é mais um nada a somar a outros; ainda que o escreva, não dá conta do sofrimento de quem assim se sentiu.
    Que o fim de semana lhe sorria, Joaquim

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  3. Estou a apreciar esta sua crónica. Este espaço de publicação é uma revelação para mim.
    Um abraço.

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    1. Ainda que esse não seja o meu propósito, espero não desiludir a brancura das nuvens negras:).
      Bom dia!

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  4. Tudo depende da perspectiva, a Sociologia explica de uma forma, a Psicologia de outra, a Filosofia...para Darwin era só a reprodução das espécies...e depois há esta beleza dos Gregos e dos seus belíssimos Deuses...tudo a explicar o inexplicável, tanto quanto haver vida neste planeta do sistema solar. Insondáveis e inclássificaveis mistérios. Só sei dizer que já senti paixão que se tornou amor, amor que nunca foi paixão e paixão que nunca se tornou amor.

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  5. O pensamento dos gregos clássicos é de uma actualidade que exaspera de tão magnífica. Não há o que não toquem de fundamental. E depois a mistura dos deuses e seus mitos a consagrar o pensamento, é, no mínimo, cativante. Grandioso.
    Pertenço ao número de pessoas que são incapazes de paixão sem amor. Não sei o que isso seja quando falamos de relação entre dois seres humanos. Paixão por situações, por ideais ou o que deles resta, pela vida, pela profissão, conheço, mas julgo ser também um amor. Se nos segura por uma vida, é que não se chama apenas paixão.
    Falando do amor em geral, creio haver amor sem paixão. Entre duas pessoas o amor sem paixão talvez se chame amizade, ninguém se julga apaixonado por um amigo, mas os gregos tinham razão a raiz da palavra é a mesma, logo, a amizade é uma forma de amor.
    Acredito que a paixão devenha amor e até que nasçam e cresçam juntos.
    A vivência de sentimentos e emoções supera tudo que sobre eles se possa inventariar. Mas somos assim, pensar faz parte.
    Bom dia, CC

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  6. Gosto muito dele, do autor. E gosto do que me dá a conhecer. E lembro-me da época, bem cedo, em que conheci o amor platónico e o associei à beleza da filosofia grega. Parece-me que é dos poucos (amores) que não esqueço. Até já pensei passar as cartas trocadas, a maior parte sem nos conhecermos pessoalmente. Estão guardadas desde os anos 60. Abç Bettips

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  7. Procuramos sempre no outro alguma coisa de nós mesmos, quem sabe seja a humanidade. Sendo amor, não há esquecimentos.
    Boa semana, Bettips.
    Um abraço

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  8. Texto interessante e educativo. Já aprendi algumas coisas :)

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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  9. :)). Também acho que aprendi algumas coisas, Cláudia. A olhar de outro modo, acho que foi mais isso.
    Boa semana

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