domingo, 11 de janeiro de 2026

Ternuras e Tagatés

 

        Uma vez por outra os meus gatos chegam até aqui. Julgo-os felizes. São mimados, têm o alimento a horas e podem dispôr da casa inteira – dormem e enfiam-se onde mais lhes apetece. E espairecem no quintal e arredores (arredores, lugar de morte para quase todos). Esta gata chegou adulta, muito magra e receosa: fugia ao toque, e virava-nos uns olhos amarelos de lince pouco agradáveis. Não a forçámos. Mas também não desistimos de a ameigar.

        A gata de hoje é quase outra da que nos chegou em Agosto. Tem os mesmos olhos marginais e parece estar sempre pronta a fincar o dente ou arranhar – defesas que não usa. Mas sobe-nos para o colo sem temor. No meu caso, acredito que toda a sua meiguice visa que me levante da cadeira onde me sabe sentada e vá dar-lhe a ração. Digo isto porque só me procura uma ou duas horas antes da refeição. Mas exerce a preceito. Pula e fica a mirar-me com olhos pedintes; como não resulta, enrosca-se tendo o cuidado de encostar a cabeça a uma das minhas mãos, enquanto estende as patas por cima da outra. Ficamos portanto de mão dada. E digo para dentro, bonito serviço(!), estou eu aqui de mão dada com uma gata adormecida. Se acaso mexo uma perna, mesmo sendo de leve, pula para o chão na esperança de que seja sinal de me levantar e senta-se implorativa. Digo-lhe, gata, ainda não são horas. E ela pula-me de novo para o colo, senta-se a olhar-me de frente e aproxima tanto o focinho que os bigodes me fazem cócegas. Por norma, e para os outros gatos, repetia inúmeras vezes, dá um beijinho à dona! Mas eles não me ligavam meia. E não é que esta, a quem nunca eu disse tal, parece mesmo querer beijar-me?! Depois enrosca-se de novo e, pressurosa, lambe-me a mão mais próxima enquanto me vai dando dentadinhas pequenas. Nada disto é novo para mim, já o vivi com outros gatos (excepção feita à sua atracção pelo meu rosto). Também sei que correm na nossa frente satisfeitíssimos, se acaso saímos ao quintal. Mas esta gata ultrapassa todos em velocidade, ela corre como se esteja a pretender ganhar uma prova nos jogos olímpicos. Endoidece, a bichana.

        E é isto.

15 comentários:

  1. Quem lhes der comida, ganha um amigo para a vida. Infelizmente eu só passeio a cadela da minha filha, portanto as meiguices, lambidelas, encostos e outras ternuras do género, não me chegam. E tenho ciúmes sim senhora! Pois se eu, três vezes ao dia, faça sol, frio ou chuva, me sujeito a sair de casa para sua alteza fazer as necessidades e brincar, não devia também de ser contemplado? Há muita ingratidão neste mundo, até no reino animal!
    Enfim, adiante.

    Cada vez vejo mais pessoas com animais domésticos. Bem... queria dizer cães, porque dos gatos desconheço a verdadeira dimensão, pois não saem de casa. Falo do meu bairro, e vejo cada vez mais donos passeando os bichos no parque. Tenho um parque grande perto de casa, com relvados, máquinas para fitness, árvores e bancos, zona de picnics, mas é aproveitado essencialmente para os moradores das redondezas passearem os amigos de quatro patas.
    Como gosto de pensar nas coisas e tenho tempo para tal, acho que deve haver muita solidão na vida das pessoas. Pelo menos eu atribuo grande parte à solidão o facto de a comunidade canina estar a aumentar nos domicílios.
    Li num livro de Daphne du Maurier, que um homem solitário é contranatura, e não tarda a enfrentar a perplexidade. Da perplexidade passa à fantasia. Da fantasia à loucura.
    Não querendo rebater totalmente a autora, parece-me que isso tem muito a ver com a idade em que se fica só, e neste capítulo, quanto mais tarde, melhor. O ser humano, mesmo que goste de estar só, há um momento em que precisa de se ligar, de se relacionar, de se entregar. Se calhar, uma forma de contornar a loucura da solidão, a falta de companhia, é ter um animal em casa.
    Boa noite Bea.

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    1. Bom, eu pensava que os cães eram animais fiéis e dedicados a quem os alimenta e passeia. No lugar onde vive meu filho há várias pessoas a passear cães logo pela manhã; acho meio estranho ver senhoras de roupão e rolos na cabeça (sim, rolos, à antiga), descompostas e sem sinal de make up - acho até que talvez nem tenham lavado a cara, passeando os bichos com uma mão de saco plástico. São as mesmas que, passadas umas horas se embonecam e vão tomar o pe

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    2. Ora bolas, a resposta ganhou vida própria e postou-se. Mau Maria! Sorry.
      ...e vão tomar o pequeno almoço à pastelaria ou café mais próximos. Mas parecem já outras, convivendo irmanadas na hora e lugar habitual, arranjadas para o dia, um lenço de pescoço, batom, cabelo em simetria de ondulado suave, os sapatos ou botas de sair que substituem mal entram a porta de casa. Do pouco que me é dado observar, os cães, além darem o passeio higiénico e satisfazerem as necessidades, gostam delas.
      Cães são companhia fiel, como sabe, Joaquim. Há quem os tenha por gostar deles e não por solidão. Mas também avalio que, com a população envelhecida que temos, a solidão abunde. E não apenas porque um dos cônjuges, ou o equivalente tenha morrido. A independência que muitos desejaram para si noutras fases da vida tem preço na velhice. Há muito quem se tenha dado mal em companhia e pelas mais variadas razões. Por outro lado, existem muito mais divórcios e separações, desfeita a ideia de que o casamento era para a vida ainda que fosse um sofrimento para ambos ou apenas pata um dos elementos. Parece-me que estes factores aumentam o número de células unitárias e que estas buscam companhia, atenção, amor...nesse particular somos todos iguais. Ora, a dedicação canina é enternecedora e não desanima ninguém - os cães gostam dos donos, está-lhes na natureza específica. Enquanto os gatos pertencem sempre a si mesmos e transigem por vezes em mostrar dedicação aos donos, os cães vivem e morrem por eles - são fielmente amorosos. Dado o quadro que pintei, surge-me natural que existam mais cães.
      Depois, é claro que também existem motivos vários para o apego aos animais domésticos (ou que se domesticam). Há, como afirmei antes, o gosto simples por eles e pelo seu bem estar e a preferência por cães, gatos, etc. E julgo que também haja quem os prefira porque dão menos trabalho que os humanos, sejam quais forem os defeitos pessoais não precisam aperfeiçoá-los ou bani-los, os animais habituam-se sem queixas ao carácter dos donos. É amor que não requer esforço, atenção ao outro e aos seus humores, não exige restrições nem as "perdas" de tempo de que qualquer amor humano necessita. As pessoas são muito iguais a si mesmas e, ainda que em estádio diverso, projectam nos animais o mesmo amor incongruente de que são capazes pelos humanos. Os animais não se queixam, nem exigem. Sendo cães, nunca abandonam os donos e a dose de amor que lhes têm só pode aumentar com o correr do tempo. Que mais podem desejar?!
      Contudo, anualmente, há um ror de cães e gatos abandonados. E não me parece que sejam os velhos a abandoná-los. Pode a morte ter-lhes levado o dono, é verdade. Mas não creio que seja apenas isso. Parece-me antes que está um tanto na moda ter um cão. Ou um gato. Se for de estirpe, tanto melhor. Mas que os mesmos que seguem a moda, igualmente se fartam dela. Ter um animal em casa exige alguma responsabilidade. E que é dela?!
      Bom dia, Joaquim. E boa semana

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    3. O homem, como ser social, não nasceu para estar só.
      Ter um animal de companhia pode ser uma forma de contrabalançar essa situação.
      Abraço de amizade.
      Juvenal Nunes

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    4. Está coberto de razão, Juvenal. Mas também é verdade que há quem só seja aturável pelos animais:).
      Um abraço

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  2. Os dois lá em casa são verdadeiramente reis.
    Boa semana

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  3. Também julgo a minha gata uma rainha, embora eu seja fraca adepta de vassalagens e não lhe outorgue tal estatuto; mas tem em casa quem abdique do seu lugar para D. Gata se aninhar, quem a procure nas redondezas num cuidado extremo se acaso não aparece ao anoitecer, e mais um longo de eteceteras, um exagero. E um dos meus filhos vem de visita e não sei se mais para ela, tanto inquire sobre a bichana e pede fotos nos intervalos :). Considero-a um animal afortunado, mesmo que um dia destes a falta de cautela possa acabar-lhe com a raça.
    Bom dia, Pedro. Boa semana!

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  4. E nós agradecemos tanta dedicação!
    O nosso James acorda-me com o seu miar para sentir a brisa matinal na varanda do meu quarto! Mia para pedir alimento e gosta de esfregar a cabeça na minha mão! Gatices 🐱... Boa semana 😘

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    1. A minha gata faz o mesmo e dá uns pulinhos como se fora cavalo contente. Gosto-lhe das gatices.

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  5. Os gatos são animais muito inteligentes e adoram mimos.
    Que o seu novo ano seja cheio de coisas boas e lhe traga saúde e amor e paz no mundo.
    Um beijo minha Amiga Béa.

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    1. Viva, Graça! Já tinha espreitado a sua janela uma data de vezes.

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  6. Nunca fui de gatos. Acho-os falsos. Tenho igualmente medo deles, como de cães.

    Mas eu o cão, não deixo ir para onde quer. Camas, está proibido. Sofá, só se eu não o tiver limpo ainda.
    Mas quando chega da rua, leva sempre uma limpeza com toalhitas.

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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  7. Aminha gata anda por onde quer. Dorme mesmo grandes sestas na almofada sobre a minha cama:). E nunca lhe lavo as patitas. Acho que ela se lava qb.
    Boa noite, Cláudia

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  8. Também tenho gatos em casa.
    Sentem~se bem quando sabemque podem satisfazer as suas rotinas.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

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  9. É também o que verifico: gostam de manter as rotinas que criam.
    Bom dia, Juvenal. Um abraço

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