terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Uma Flor à Janela

 

        Há na conversa de Gonçalo M. Tavares uma simplicidade florida que não faz adivinhar o hermetismo da sua escrita, a racionalidade extrema da tecitura, o seu existir para iniciados. Nas conversas sobre o que escreve, como que desvenda os intentos dos livros concebidos (ouvi e vi-o duas vezes) e apresenta as linhas mestras do que o levou à escrita dessa obra. Confere sentido. Explica. E vemos mais do que antes. Prevalece nele uma espécie de instinto pedagógico que o leva a descer até aos que, não entendendo muito bem a obra, passam a compreendê-la depois que o bisturi da sua inteligência puxa e mostra o menos visível. Mas não apenas explica, acrescenta. Um autor ou um conferencista só vale se acrescenta. Saio encantada das suas prelecções. Grata pelo que me deu a ver ou me fez descobrir; por ter na minha frente uma pessoa simples e arrisco que boa – quem quereria trabalhar pro bono com a trissomia 21, a paralesia total e parcial, e outras deficiências?! E ele fá-lo com gosto, há muito ano e di-lo num aparte que vem a propósito, sem alarde, como tarefa comum e  a que qualquer um se dispõe. Sou grata por levantar uma série de questões que também me preocupam ou preocuparam; grata pelo entusiasmo que põe no que diz e por aconselhar leituras que sempre me agradam; grata pelo entendimento da filosofia e a oportunidade da sua dimensão ética - deseja a atenção ao outro que não é exclusiva, que não se dirige apenas a um indivíduo determinado, mas se reparte o mais possível por todos os humanos que encontramos.

        Na última conferência falou-nos da epopeia, “A morte dos Estados Unidos da América”. Porém, aquilo de que verdadeiramente falou foi do amor. Mas essa conversa - bocadinhos dela - fica para outro dia.

15 comentários:

  1. Gosto dele e das suas intervenções públicas, também me parece um ser humano encantador. Mas a escrita, aí na escrita esbarro, paro, abandono...talvez me falte então ouvi-lo falar sobre os seus livros...ouvi-o no canal 2 sobre este último livro e realmente apeteceu -me ler. Boa semana!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O livro é difícil, CC. Digo-o não porque o tenha lido, mas por ouvi-lo ler alguns trechos; e sóos entendi plenamente porque ele os explicou. Mas conheço gente que se apaixonou pela sua escrita, que não tem as minhas dúvidas, não perplexa perante tanta frase, e, suponho eu, entende a sua linguagem. Sinto-me um bocado burra, mas que hei-de fazer se não possuo a sabedoria e capacidade interpretativa exigidas?! E no entanto Lobo Antunes acertou quando disse dele que é de primeira água como escritor.
      Boa semana, CC.

      Eliminar
  2. Isso mesmo. Mas prefiro ouvi-lo porque extrapola os temas e é nessa altura que mais o admiro. Gostos!
    Bom Dia, Pedro. Hoje há futebol:)

    ResponderEliminar
  3. Conheço e admiro Gonçalo M. Tavares há já vários anos e gosto da pessoa e da escrita. É pessoa simples de grande humanidade e é exemplar na forma claríssima como explica os conceitos que trabalha. Concordo que é sempre um gosto ouvi-lo!

    ResponderEliminar
  4. Bom Dia, Joaquim
    devo acrescentar que não são bem esclarecimentos acerca da obra o que o autor traz; talvez seja mais uma questão de fundamentos, das ideias que tem e subjazem ao escrito, serão aquilo que justifica o livro.
    Também tenho sempre presente o princípio do prazer, excepto se leio por obrigação profissional - se bem que, de algum modo, aprender para ensinar não é destituído de prazer. O que penso é que esse prazer não tem em todos nós igual caminho. Pela vida que tivemos, por índole e gostos pessoais que fomos adquirindo e nos foram permitidos pelo meio social por onde nos desenvolvemos, temos preferências diversas: gostamos e até achamos fácil o que outros consideram difícil e aborrecido. Podemos começar um autor pela sua importância, reconhecer mesmo a sua qualidade, mas não gostarmos de lê-lo e ficarmo-nos por essa obra. Se existem tantos autores bons, o que justifica perdermos tempo com aqueles cuja leitura nos desinteressa?! Voltamos sempre ao desconcerto de Almada, "tem de haver outra maneira de se salvar uma pessoa". Julian Barnes é um dos meus autores favoritos, tenho várias obras suas e penso adquirir o resto. Também li "O papgaio de Flaubert" mas há outras que prefiro. Lobo Antunes e Eugénio têm lugar cativo, tenho muito livro de cada um. De Herberto tenho alguma coisa, mas gosto do que tenho, idem para Borges (reconheço em ambos certa dificuldade, mas a poesia de Herberto é uma coisa tão bonita e original). De Pamuk li apenas um livro sobre a Turquia e que é mais ou menos autobiográfico, gostei bastante.
    Depois de lhe conhecermos os proscritos, só lhe resta contar-nos os eleitos:). Tem de ser.
    Ora , ora, Joaquim, parece-me que só tenho esta janela por saber que já se não usam e passo despercebida. Mas é verdade que gosto de escrever e conversar. Faz de conta que converso. E é mesmo bondade sua; e exagero:).
    Bom dia de chuva - mais um -, Joaquim.

    ResponderEliminar
  5. Por vezes o melhor ensinamento não está no erudito. Mas no simples analfabeto. Isso de "descer" como quem está em cima... Inteligência...
    Fica mal. Soa a snobismo. Estamos todos neste plano chato de chão. Uns com mais, outros com menos, mas ninguém acima e outro em baixo. Muito menos alguém se "digna" em sair do topo para alcançar o de baixo é algo para louvar. Temos de parar de criar ídolos ou preferir o separatismo. Admiração é boa mas idolatragem e afins...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Se fala dos idólatras...terá a sua razão, mas por aqui, julgo eu, não os encontra.
      É verdade que todos pisamos o chão; mas não o mesmo chão. Nem, sendo o mesmo, é igual a circunstância. Negar isto é ser ser irrealista. O nível intelectual dos homens não é o mesmo em todos, felizmente. Somos assim, cada um é ele mesmo com suas particularidades. E a inteligência é gradativa, sim. Se a si não faz sentido, discorda e está no seu direito. Eu julgo-a errada neste ponto, mas pode continuar a discordar.
      E louvo sim a simplicidade da conversa. Acho-a mesmo admirável; sendo simples, não é nunca simplista.
      A sabedoria está nos que se reconhecem ignorantes, sejam eles quem forem, nos que tentam sempre aprender mais e com honestidade ensinam o que sabem. De pouco vale o saber se não for passado a outros.

      Eliminar
    2. Concordo com todas as suas palavras.

      Eliminar
  6. Acho que nunca li nada dele. Desconheço mesmo.

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não encontro que seja um autor fácil, mas é apenas a minha opinião, Cláudia. Experimente. Em leitura o melhor é experimentar. Eu gosto um imenso de Stefan Zweig e há quem não:).

      Eliminar
  7. Adenda: quis abordar o entrelinhas mas atenção: entendo a sua mensagem. Ou melhor: a minha interpretação da sua mensagem, porque nunca pode passar de uma interpretação. Apenas quis expressar a sua admiração pela forma inteligente como esta pessoa escreve e explica ideias que a desafiam intelectualmente.
    Algo normal. O estímulo psicológico é, para mim em particular, algo prazeroso. Mas nem tudo o que é colocado para nos fazer pensar atua igual para todos. E não tem só a ver com o nível de inteligencia per si. Tem mais a ver com a educação ser mais ou menos erudita. Embora não exclua a capacidade individual de cada qual, independente das origens e oportunidades que lhes surge ao nascer.

    Olhe, desejo que continue a ser maravilhada por ideias dessa forma! Sabe bem... ainda me lembro vagamente eheheh.

    Cumprimentos

    ResponderEliminar
  8. Também espero continuar a ser maravilhada desta forma:). É a afirmação de que algo do que fui se mantém e ainda não morri inteiramente.
    Fique bem

    ResponderEliminar
  9. Ainda não tive esse privilégio!
    Vou pesquisar! Bj Bea

    ResponderEliminar