terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Aprender a Respiração


        Gosto de andar pela cidade a sós no meio da gente, talvez alguma sofrendo ou beneficiando de igual condição. De onde terá saído tal gosto, pergunto-me umas vezes por outras. O mais certo é ter-me habituado - lembro o prazer de compras feitas com amigas, as sessões de cinema, os passeios, os lanches a meio da tarde num lugar a gosto se as visitava; também recordo que nunca gostei da série “O sexo e a cidade” (nem sei se série, se filme) por retratar o dia-a-dia de insólitas senhoras/jovens e que pouco têm em comum com gente da minha igualha que julgo ser a maior parte das mulheres. Pareceu-me na altura que elas representam o ideal da mulher moderna, bonita no corpo todo e bem lançada, independente qb. O sonho feminino em película. Mas continua a ser verdade que invejei um imenso a sua cumplicidade - as compras, os almoços, as confidências, a entreajuda. Era a amizade perfeita, próxima quanto baste. Ora, a amizade à portuguesa é outra coisa. Inclui confidências, tudo o resto é vivido diferentemente. Talvez seja a diferença de continentes. O certo é ter aspirado (no sentido de aspirador) esse ideário idílico. Nessa tarefa de limpeza, baniu-se-me o desejo de companhia, uma das coisas que mais me descontrai é sair sozinha, ter umas horas só minhas a deambular por onde me apeteça, precise ou dê mais jeito. Respiração prolongada, satisfação mais funda que todas as aulas de yoga juntas. E como estou só, vejo e oiço mais e melhor; sou mais atenta. 

        Numa destas manhãs de friúra, notei a jovem que atravessava a rua até à gare onde eu esperava um comboio; reparei nela por ser jovem, bonita e cuidada; também porque trazia atrelado um garoto de seis, sete anos e carregava uma garotinha no colo, facto pouco habitual. Seriam umas dez e trinta da manhã, mas o vento era cortante e eu estava abrigada – e gelada – num dos bancos interiores da gare; ela pediu licença e sentou-se a meu lado com o garoto. A mais nova era magrinha, uma haste fina do princípio ao fim, a cabecita enfeitada de trancinhas pequenas e mãozinhas minúsculas, polvos que tentavam levantar as blusas da mãe. E a jovem a puxar a roupa para baixo e desviando os inquietos polvos, olho no olho comigo, está tanto frio, não posso dar o que ela quer, não aguento. Mas os dois aninhos ressentidos olhavam-me pesarosos, o branco do olho a crescer, enquanto as mãos insistiam sôfregas e o nariz mergulhava de novo nos refegos da roupa materna. E foi mesmo de mãe: a jovem olhou a filha e, sem palavras, alçou a roupa e puxou da mama. A garota abocanhou-a no acto, como se fora caso de vida ou morte. E ela para o sorrir trocista do miúdo, o que é que pensa, foi assim com você também.

        Não creio que haja coisa mais bonita de se ver e ouvir num dia de frio.

14 comentários:

  1. Também adoro passear assim. A ser em Lisboa, prefiro acompanhada. Com frio ou com sol, venham de lá os passeios.
    Também gostava de ter oportunidade de fazer essas saídas com algumas amigas, mas isso já é raro.
    Mas de vez em quando lá vai.

    Gostei do texto, sério que sim.

    E realmente com este frio, é uma tortura dar leite ao pequeno, como essa menina... mas lá tem que ser :D

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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  2. Eu tinha o nariz a pingar. Mas julgo que a mãe nem se importou muito, nem uma vez se queixou:).
    Boa tarde, Cláudia

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  3. Momentos de introspecção, só nossos, quem não necessita??

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    1. Momentos só nossos; não dou pela introspecção:), talvez me ocupe só a vivê-los.
      Bom fim de semana, Pedro

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  4. Dizem-nos que a linguagem matemática nega a própria possibilidade de qualquer ponto de vista exterior, ou seja, o observador é parte do fenómeno, é um referencial simultâneo que afecta o resultado.
    Na fotografia, contudo, dá-se o oposto, o observador é por regra exterior ao objeto fotografado a menos que seja um autorretrato. Imagino o maravilhamento de Harrison Schmitt, astronauta da tripulação da Apollo 17 quando no ano de 1972 a caminho da Lua, tirou a primeira fotografia ao planeta Terra, que mostra o planeta inteiro iluminado pelo Sol.
    Também a literatura, como linguagem verbal, contém a presunção implícita de que podemos ficar de fora a observar o que se passa e depois registá-lo. Foi o que a Bea fez neste seu texto e no quadro singelo e amoroso que nos apresentou: estava presente e descreveu-o para nós.
    E eu, que não estava lá, sou duplamente feliz, porque na minha posição neste miradouro, consigo não só ver este seu quadro de fora, mas como se lá estivesse na gare a seu lado.

    Também gosto de deambular sozinho pela cidade. Não sei se as amizades portuguesas são diferentes das estrangeiras porque nunca se vivi, penso que alteram talvez mais em função dos sujeitos. Tive amigos que por um desgosto de amor, masculinidade ferida, se afastaram, não quiseram desabafar, se fecharam em casa, mais tarde foram para outro lugar e nunca mais soube deles. E outros que não. Mas as amizades masculinas ensinaram-me que estão mais prontas para aventuras e programas que para momentos de desabafo e confidências.
    Boa noite.

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    1. Se escrever fosse apenas descrever objectivamente, não havia tanto escritor, não é, Joaquim? E, de certeza, ainda menos leitores. O gosto do leitor tem atenção ao modo, a forma interessa-lhe. Quem escreve vai sempre no que escreve, quer pelo que viu, quer pela forma de vê-lo. Alegra-me que tenha gostado.
      O planeta que habitamos é lindo visto de fora. Cá dentro nem sempre mantém a beleza, mas ainda assim, a natureza compensa e desagrava. Desconhecia o nome Harrison Schmitt, obrigada pela informação. Aprendemos sempre - se quisermos.
      Os meus amigos masculinos também não desabafam e nem eu com eles, são mais de marcar almoços ou assim.
      Bom Dia

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  5. As mães dão-se em todos os aspectos, sendo um dos mais intensos e belos a amamentação. Com este frio, deve ser duro. Mas foi certamente com todo o amor.
    O meu bem haja a todas as mães (e a mim também) que, no geral e ao longo da vida, nunca deixamos de ser "alimento" para os nossos filhos.
    Obrigada por partilhar esse doce deambular!

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  6. Tive a sorte da jovem se sentar a meu lado, né? Mas acho no gesto de puxar da mama para alimentar o filho um sinal de pertença intrínseca. Acredito sinceramente que os filhos amamentados ao peito criam com a mãe um vínculo mais forte. Invejo-as imenso.

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  7. As necessidades humanas estão para lá das condições atmosféricas.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

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    1. Bom, eu não contei, mas a criança tinha uma necessidade outra que julgo ser o gosto por estar ligada à mãe; reparei que só o momento inicial foi de amamentação, o resto foi a garota a adormecer de mamilo na boca. Talvez também seja uma necessidade.
      Bom fim de semana, Juvenal

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  8. Tão corajosas e belas as mulheres...no frio, nos transportes públicos, se calhar no meio de uma jornada de trabalho e lá estão elas, a alimentar os seus meninos e meninas...admiração tão grande lhes tenho (e fiz o mesmo até aos 9 meses da minha mas compreendo que nem todas as mulheres usufruam dessa possibilidade). Obrigada por lhes dar visibilidade neste seu belo texto.

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  9. Não julgo que amamentar seja um acto de coragem, é amor puro. E ignoro se quis dar visibilidade a quem amamenta, se é a minha inveja a reter o que me foi impossível apesar da tentativa para contrariar o racional vaticínio médico. As nossas escolhas, mesmo inconscientes, são muito nossas.
    Bom fim de semana, CC

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  10. Também gosto de caminhar só e não só! Levo pensamentos... observo momentos e dou comigo a sorrir!
    Bom fim-de-semana Bea 👏😘

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  11. "põe quanto és no mínimo que fazes":))

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