Gosto
da escrita de Dulce Maria Cardoso e vou, medianamente, seguindo - que é como
quem diz, lendo - os seus romances. Portanto, também acompanho a Biografia não Autorizada
que vai cronicando na Visão. De quando em vez, acontece ficar a matutar no contraponto
pessoal do que leio na dita Biografia. Mas como a senhora escreve para uma revista e
eu escrevo para nada, como tem prazos a cumprir e eu estou dentro do mais rotundo
zero, raro é moldar palavras cantando a minha história. Que o meu contraponto
é, por comparação, sombreado sem força, não é nem deixa de ser. Desta vez,
por ser assunto até hoje de todo esquecido, junto a intenção à
acção.
Entre outras coisas, Dulce
descreve, como só ela sabe, uma foto da primeira comunhão. Foi aí que me
passou um relâmpago pela mente e que só não me cegou por não existir nela o que
cegar. A minha primeira comunhão…suponho tê-la feito na primeira ou segunda
classe, hoje primeiro e segundo anos do ensino básico. Ou, talvez, no uso tão
vezeiro de mudanças radicais só de nome, se chamem já outra coisa.
A foto da Dulce mostra-a junto ao pai com vestido alusivo ao dia e que a escritora descreve com os pormenores de quem, à mão, faz primorosas casas de botão. É trabalho todo artesanal, de pontas finamente rematadas. Nada a mais; e nem a menos. Mas eu, que, na metrópole, também vivia num deserto empoeirado, dito Areias Gordas pelos mais velhos, não tive direito a fotografia na comunhão. Não houve, ao longo dos quatro anos de ensino básico a que então chamávamos a escola primária, uma única foto. Nunca a sombra de um fotógrafo à porta da escola. A nossa pobreza afugentava-os. Porque, imaginando que por lá se perdessem, ninguém adquiria a chapa. Fotografias eram adereços de rico. Para mim, os fotógrafos eram senhores muito simpáticos e nossos amigos. Não me apercebi que, na primeira foto, tirada em estúdio e com pose, por necessidade do Bilhete de Identidade – uma garota de tranças bem presas com linha preta -, minha mãe lhe pagava. De modos que os pensava cheios de inéditas qualidades.
Portanto, comparar-me com a Dulce não é muito
assisado. Foto, nem pensar. Além do mais, meu pai nunca posaria comigo numa
foto de primeira comunhão. Aí concordávamos, era situação que não agradava a
nenhum dos dois. Também não sei se alguma vez me pôs a mão no ombro. Alguma vez
na vida, quero dizer.
E
o fato? Aqueles vestidos airosos de que fala a Dulce e de que se ufanavam as
garotas quando, nos intervalos da escola, empavoavam a esmiuçar feitios e adereços no vestido
branco a estrear. Eram pobres adereços, um folhinho na manga de balão e uma rendinha
a rematar, a fita de cetim na cintura, o esmero de um lacito de veludo branco preso
com alfinete sobre o coração. Coisas assim, de pouca monta e muita onda, que a costureira
ia avultando.
(cont.)