sábado, 2 de julho de 2022

Memórias da Foto Fantasma

 

Gosto da escrita de Dulce Maria Cardoso e vou, medianamente, seguindo - que é como quem diz, lendo - os seus romances. Portanto, também acompanho a Biografia não Autorizada que vai cronicando na Visão. De quando em  vez, acontece ficar a matutar no contraponto pessoal do que leio na dita Biografia. Mas como a senhora escreve para uma revista e eu escrevo para nada, como tem prazos a cumprir e eu estou dentro do mais rotundo zero, raro é moldar palavras cantando a minha história. Que o meu contraponto é, por comparação, sombreado sem força, não é nem deixa de ser.  Desta vez, por ser assunto até hoje de todo esquecido, junto a intenção à acção.

Entre outras coisas, Dulce descreve, como só ela sabe, uma foto da primeira comunhão. Foi aí que me passou um relâmpago pela mente e que só não me cegou por não existir nela o que cegar. A minha primeira comunhão…suponho tê-la feito na primeira ou segunda classe, hoje primeiro e segundo anos do ensino básico. Ou, talvez, no uso tão vezeiro de mudanças radicais só de nome, se chamem já outra coisa.

            A foto da Dulce mostra-a junto ao pai com vestido alusivo ao dia e que a escritora descreve com os pormenores de quem, à mão, faz primorosas casas de botão. É trabalho todo artesanal, de pontas finamente rematadas. Nada a mais; e nem a menos. Mas eu, que, na metrópole, também vivia num deserto empoeirado, dito Areias Gordas pelos mais velhos, não tive direito a fotografia na comunhão. Não houve, ao longo dos quatro anos de ensino básico a que então chamávamos a escola primária, uma única foto. Nunca a sombra de um fotógrafo à porta da escola. A nossa pobreza afugentava-os. Porque, imaginando que por lá se perdessem, ninguém adquiria a chapa. Fotografias eram adereços de rico. Para mim, os fotógrafos eram senhores muito simpáticos e nossos amigos. Não me apercebi que, na primeira foto, tirada em estúdio e com pose, por necessidade do Bilhete de Identidade  – uma garota de tranças bem presas com linha preta -, minha mãe lhe pagava. De modos que os pensava cheios de inéditas qualidades.

 Portanto, comparar-me com a Dulce não é muito assisado. Foto, nem pensar. Além do mais, meu pai nunca posaria comigo numa foto de primeira comunhão. Aí concordávamos, era situação que não agradava a nenhum dos dois. Também não sei se alguma vez me pôs a mão no ombro. Alguma vez na vida, quero dizer.

E o fato? Aqueles vestidos airosos de que fala a Dulce e de que se ufanavam as garotas quando, nos intervalos da escola,  empavoavam a esmiuçar feitios e adereços no vestido branco a estrear. Eram pobres adereços, um folhinho na manga de balão e uma rendinha a rematar, a fita de cetim na cintura, o esmero de um lacito de veludo branco preso com alfinete sobre o coração. Coisas assim, de pouca monta e muita onda, que a costureira ia avultando.

(cont.)

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Anéis de Saturno

 

Penso por vezes nas tuas mãos. Ontem, pensei nelas ao olhar os tugúrios caídos no Afeganistão, aqueles tijolos de adobe reduzido a pó, esqueletos de miséria purulenta. À vista deles, fez-se presente a barraca que meu avô construiu para arrumos e seus fazeres manuais, e que existia há já mil anos na casa da minha infância. Idêntica às imagens da Tv, depois das feridas do tempo que a envelheciam e retalhavam, os elementos a intrometerem-se com prejuízos de adaga, foi derrotada por uma tempestade. Morreu no tom cavo de quem não tem mais que a lama empapada em monte de adobe esventrado e  batido de chuva. E sobre esses recados da miséria, as tuas mãos numa elegância de asa, moldando gestos, falanges desenhando pesares, a meia lua das unhas a ressumar uma ternura triste. As tuas mãos ciganas. Pombas da paz adejando. Sobre a minha insónia. Ou no amontoado da pobreza nua dos afegãos. E o meu desalento choroso à vista dos destroços. Eu que não entendia a proibição de rondar o hermetismo da barraca, o zelo de minha mãe arredando-me do perigo, ali não.  Talvez que já as tuas mãos por lá a secar-me o desgosto dos olhos sem paisagem, a minha infância atida à permanência inexistente, e agora. Eu incólume e ainda desatendida de irresolúveis. Ou os afegãos a dizerem para a câmara: há muitos doentes a precisarem tratamento, mas não temos como levá-los ao hospital. E, nas suas costas, nuvens de pó e calamidade. Ao rés da pele, as tuas mãos conversam comigo, situam-me, eles não choram a paisagem perdida. Observa, perderam o seu tudo que era nada; o pó que os protegeu é-lhes mortalha, não te compares. Comprimo-te a mão contra a minha face e o morno da pele descansa-me, é gesto de pássaro que chegou ao ninho.

 

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Letra Morta

 

Recomecei a caminhar. Já recomecei várias vezes. E outras tantas desisti. Atravesso os mesmos lugares e tento recriar o hábito que não cola, continua a escorregar-me sobre os propósitos. Um dia vou conseguir, re-instituo os passeios matinais. E será como ir ao super, ao sapateiro, à padaria, um dever indolor a respirar facilidades.

Pergunto-me o que haverá na velhice que a faz tão desencantada. São os velhos que recusam a realidade onde pouco cabem, ou será ela – a realidade humana – que os exclui. Não me parece problema simples ou redutível ao progressivo fecho de portas do corpo. A espécie está preparada para essa mudança gradual. E ainda que o não esteja, vai acontecendo em obediência à natureza, é irrecusável. Mas há na velhice uma argúcia mental que diria quase desnecessária, um ver claro que é estorvo. Os anos despojam de ilusões que antes eram alimento e verdade. Os inabaláveis princípios, pilares em volta dos quais a vida lhes girou, são afinal mais sonho que realidade, mais desejo que existência. Fizeram caminho com o sonho: convictos que, no mundo, as pessoas são o determinativo, acreditaram nos sentimentos e pensaram reconhecer-se no outro. Contudo, espera-os a infatigável solidão e sofrem injustas ultrapassagens. O modelo em que apostaram soçobrou e princípios que julgavam eternos são hoje letra morta.

Nada deles ficará. Quebrada a aliança com o futuro, não há lição a tirar ou benefício a recolher. O único, o grande benefício, foi viver sem pensar nisso. No tempo em que eram incólumes.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Sombra Chinesa

 

Cabeceava por uns quilómetros que a madrugada fora severa e logo a memória, eterna guardiã do que queremos esquecer, lhe trazia farrapos de passado, fazia-os presentes no arrepiante realismo do entre sono e vigília. Vinha-lhe a luta insana contra a miséria de tudo; a pobreza nauseada do casinhoto; a indiferença dos irmãos que a abandonaram sem volta; as invejas de quem não fora bafejado pela beleza enquanto ela, só e sem escolha, se agarrava ao trabalho que viesse. De quando em  vez, passava-lhe uma impressão desbotada e doce da figura materna que pouco conhecera. Por acesso de motor, buzinadela ou curva mais acentuada, acordava em sobressalto, olhos estranhos, as costas do Nunes a sossegá-la.  Olhava-as com ternura de arrimo. Juntos, tinham lutado em mundo adverso contra a pobreza de berço. Um degrau que lhes saíra da pele, esforço de corpo inteiro. E agora, de rompante, o filho o descera de novo. O coração não lhe ditava orgulhos nem aplausos. O coração materno sofre e teme, não tem outro entendimento que o do amor estremecido. Nunca Francisca soube qual a altura precisa em que Nunes aceitou a ideia. Mas foi ali que ela a incorporou, a deglutiu sem a expulsar: O filho era preso político, um malquisto do governo. E ao governo não interessavam os Nunes e Franciscas. Os Nunes e Franciscas eram irrelevantes, não tinham nome nem amigos influentes, não eram nada. Foi naquele táxi lisboeta com cheiro a novo e estofos gloriosos que deitavam a perder o velho táxi da aldeia, miudezas intestinas - tão feio o interior das coisas - a esbeiçarem hérnias de espuma encardida e um cheiro de mofo e coisas velhas enleado em perfume barato, foi ali, em lugar sem pertença, que Francisca apercebeu a situação: o degrau subido era nulo e só importava no reduto familiar e na aldeia. Intuiu que o filho, estudante anónimo, fora neutralizado num rufo. Não havia complacências para com o povo que pensava, e perguntava, e ousava exigir. O povo queria-se manso, obediente. Ainda desconhecia uma condição que, por vezes, surtia efeito e continha atenuantes: a sorte de se pertencer a família letrada e de importância reconhecida favorecia a antecipação da notícia, permitia previsões que a si eram vedadas, propiciava chances que não tinha. A verdade é que o filho não era  menino de posses, um menino daqueles que, letrados quase por herança - o mundo não dá a todos iguais chances - , têm da realidade uma perspectiva diferente da do vulgo e são pelas revoluções, lutam contra o estado das coisas e, tendo sorte, serão líderes. A esses, os pais - ou eles mesmos – aconselham residência no estrangeiro se acaso o perigo se aproxima e a prisão pode surgir a qualquer momento; ou fazem-no por iniciativa própria, não concordam com a guerra das colónias e assim fogem à tropa obrigatória para a maioria, e de onde tantos regressam estropiados no corpo e na alma, ou em ataúde fechado que nem se sabe o que contém. O filho vinha de outra massa,  da que pouco sabe do que a espera, mas é cândida e acredita. E lembrou-se do que ouvira dizer em segredo acerca de insatisfeitos camponeses alentejanos que tinham sido retirados de casa e dos campos por influência da PIDE, sovados pela GNR e enviados para prisões longínquas, gente que sofria mal a canga era retirada da família sem mais e engavetada em prisão de alta segurança, deixava de sobressaltar os governantes. As sevícias que por lá sofriam, só eles podem contar. Mal vai um governo que não zela por seus obreiros. Mas, na altura, soava-lhe a histórias más - desconhecia alguém que sofresse tais descasos -, coisas incríveis que radicavam no imaginário de um povo miserável que mal ganhava para o sustento. Era então verdade. E esse peso tardio assentava-lhe em todo o corpo, a desalentá-lo. Eram verdade os alegados boatos, os sussurros secretos e até a existência de governos diferentes e melhores, em países que desconhecia. Que, quem sabe por ser estudante, o filho os conhecera. Mas a ela, Francisca, pesava-lhe o obstáculo. Queria que lhe devolvessem o que a si pertencia e não antevia como lutar contra a circunstância. Tudo agora lhe parecia estéril e o irmão da professora surgia-lhe quase como inimigo. Sem decisão explícita, cavava dentro de si dois campos: de um lado estava ela, o filho e todos os que sofriam como ele; do outro, o resto do mundo.

domingo, 5 de junho de 2022

Imprecisão

 

“A vida é feita de nadas/de grandes serras paradas”, como escreveu Torga. Nadas. Pequenos nadas que nos tecem, entremeados de pontuais formações rochosas que curvam a marcha e nos alteram a paisagem. No variegado percurso, complexificamos e divergimos. Mas o substracto que reverdece os homens e distende raízes chama-se sentimento e vive de emoções, às vezes de paixões, umas mais eternas que outras.

Talvez ela prezasse a amizade, aquele sentimento da fundura e não aqueloutros que abusam da palavra e são arremedo. Um amigo não habita a esfera de colegas e conhecidos, companheiros profissionais ou de viagem, gente com quem simpatizamos e já está. O amigo joga noutra liga, a nossa. Os amigos entendem-se como pertença natural. Usam de confiança e tentam por todos meios encontrar-se; e cada encontro cimenta a relação.  Os amigos têm-se mutuamente presentes - em corpo ou apenas em espírito - nas agruras e festejos; ajudam-se com a espontaneidade de erva primaveril brotando da terra; são sinceros e comunicam entre si, senão com palavras, no silêncio de quem as dispensa, dando graças por esse recatado remanso. Por vezes, são o norte uns dos outros.

O desnorte aconteceu-lhe via telefone. Uma colega ligara protestando acesa e palavrosa amizade. Conheciam-se havia alguns anos. Um encontro casual gerara simpatias de férias, facto muito vulgar.  Posteriormente, num momento difícil, dera-lhe uma ajuda.  Não se movera por amizade, apenas se predispôs e ajudou; poderia tê-lo feito por outra pessoa que assim a necessitasse. A exígua totalidade dos encontros - dois ou três almoços – permitia supor algumas afinidades. E, por força do papel de boa samaritana, conhecera-lhe a casa; voltaram a juntar-se brevemente mais duas ou três vezes. Não lobrigava, pois, qualquer razão para tais protestos de amizade. Se as tantas amigas que a outra proclamava fossem de igual teor, a compaixão assentava-lhe. Repassava os momentos vividos juntas e não a sentia próxima. Jamais a procurara nos apertos e confusões pessoais e nem tal lhe ocorreria. E, revisando a vida da outra e o longo tempo sem contacto, concluía que se pagavam na mesma moeda. O que surgia na esfera do inadmissível eram os seus protestos, o dizer-se a amiga profunda que nunca fora e talvez nem soubesse ser. Há quem se passeie pela superfície e ignore a seiva. Um logro emocional. Ora a amizade não se pode deslustrar com faz de conta. Protestos a apontá-la como melhor amiga?!  Homessa. É de quem não aprende.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

A Vida que Passa

Está na minha frente, ray ban genuínos, fato preto vincado em harmonia com irrepreensível camisa branca. No rosto fino e menineiro, a barba aparada assenta de forma agradável e confere a gravidade que, palpita-me, não lhe habita o rosto limpo e miúdo. Tem as duas mãos enlaçadas à frente, descidas ao comprimento dos braços como compete a um mestre de cerimónias fúnebres.  Será mais de metro e oitenta de elegância retro. Enquanto o miro e me distraio, empenha-se no papel. Sabe o que responder na cerimónia religiosa, age como crente.  A seu lado e um pouco atrás, a jovenzita que julgo ser a sua menina. Não lhe chega ao ombro. Veste como ele, cabelo longo e liso, rosto lavado e sem óculos. Percebo ao longo da cerimónia que começou a treinar e ainda não está segura no desempenho. Do outro lado, a avó, cérebro do negócio, pragmatismo em forma de gente no trato da morte dos outros. Sustenta-se nela. Miro-a longamente, recordando o que conheci há muito tempo quando, na minha vida nómada, aportei a este lugar por uns anos. Nesse tempo, Conceição tinha um marido carrancudo que lhe arreava como a qualquer animal, nas vezes em que levantava cabelo – era respingona -, ou apenas porque a dispepsia lho pedia, a pancada um descarrego de humores. Viviam na minha rua e era frequente a noite ser assombrada pela voz colérica do homem que levava de vencida a resistência das paredes. O festival de gritaria antecipava o que conhecíamos: no dia seguinte, a mulher aparecia a coxear, protegia-se com óculos escuros e tinha negras pelo corpo.  Era um sujeito temível, sem amigos e que só não assustava os mortos. Tinha, pois, a profissão que convinha. Eu, adulta certificada e com prática, fugia de ser atendida por ele na loja de flores que possuíam. Nos olhos de Conceição lia eu – talvez mesmo só eu – os desastres e naufrágios do casamento, em bolandas com submissão falsa e um excesso de desesperança posta  em fundura de poço.

 Envelheceu e engordou. É hoje uma avó de duplo e farto queixo adiposo e mudou-se-lhe o olhar.  A escuridão de poço sumiu. Ao invés, noto-lhe a vaidade orgulhosa de quem subiu e está bem de vida. Também recordo o garoto de então, três ou quatro anos de gente que entregava no jardim de infância. E a educadora a receber a encomenda e entrando com ele pela mão, Hem, Ricardo, uma boleia no carro funerário, olha que não é para todos. E ele tão magrito e pequenino como impante, a minha avó trouxe-me.

Observo-os a trabalhar, consonantes e comedidos. Apenas a garota, talvez por esquecimento, mastiga pastilha elástica, facto que muitos lastimam para dentro e a avó vai reverberar em casa. Mas ele é um craque. Discreto. Silencioso. Eficaz. Simpático na medida justa.

Depois…bom, depois a avó leva-os no carro funerário até ao descapotável de último grito. Entram e recuperam-se. Partem para onde, cabelo de champô em rodopio. Dois jovens a quem a pandemia trouxe benefício. E a Conceição? Ora, a Conceição está sozinha há muito ano e do defunto não há em casa um sinal. Homens, só o neto. Um dia destes, quem sabe, lá volta o carro funerário ao jardim de infância. E ela a repetir-se, desfeita em ternura.


quinta-feira, 2 de junho de 2022

Sombra Chinesa

 

Recobrando ânimo, a mãe decidiu, Já pagámos o quarto e estamos só a empatar. Vamos, quero conhecer o lugar onde está o nosso Ernesto.  E para a admiração do marido, pois que esperavas, então eu estava perto e ia daqui sem mais?  

Na romagem para o forte-prisão D. Luís, passaram junto ao estuário do rio e Francisca afundava-se na paisagem, tudo tão bonito aqui à beira d’água e sabe Deus para onde o empontaram. E quando o táxi se internou por Caxias pondo à vista a prisão fortificada, veio-lhe de novo o choro e murmurava, lágrimas em borbotão, o meu menino, fechado dentro daqueles muros como um criminoso, logo ele que não faz mal a uma mosca. Mói-me não saber o que sucede lá dentro. E entrecortava, e eu aqui tão perto e sem poder vê-lo. O Nunes, lado a lado com o taxista, emudecera e apenas o denunciava a inquietude das mãos em desespero activo. O do táxi deitava soslaios compassivos ao retrovisor e, sem palavra, que o bom taxista sabe quando deve calar, parou o carro perto do edifício, olhos vagueando pela altura dos muros, a mente em recomendações, cala-te boca, não digas o que sabes sobre o sofrimento dos presos políticos, não contes; estes dois têm o Estado contra o filho e já lhes basta sabê-lo.

Poderíamos até pensar que, se alguém passasse perto, sentiria a opressão desolada que emanava do veículo. Mas a tristeza não pesa em outrem e, pesando em cada um, só ele a vive, alquebrado por dentro. O mais provável seria que o passante nem reparasse no automóvel; ou, olhando, se compadecesse dos dois penitentes e seguisse adivinhando as penas.

O regresso foi dolorido e nem a paisagem serviu de distracção. No banco traseiro, Francisca abandonou-se a reverberações próprias e rememorava a crueza da prisão. Na sua frente, como em écran, via a desmesura dos muros, vinco de separação entre interior e exterior do medonho edifício. Pensamentos maternos invadiam-lhe o desespero preocupado, nós ali tão perto e ele com fome ou frio. A espaços, emergia da cisma e perguntava para ninguém, terá frio de noite? Se calha, nem mantas têm. E se adoece. Fechava os olhos num suspiro e voltava à estupefacção, que é comunista, mas isso que tem, Nunes.  É coisa má, para o prenderem assim, sem visitas. Vão-lhe dar conta dos estudos. E, enquanto o carro de praça devorava quilómetros de planura ela alinhavava ideias, tecia elucubrações, tu achas que foi queixa feita à Guarda? Ou terá dado em poeta. Não vejo chão a que me agarre para o terem preso. Lia demais é o que é, aventava. Em seguida, pousava a cabeça no estofo do banco e regougava outros motivos, não foi ele, fomos nós, nós é que lhe falhámos. Mas como e de onde nos veio este filho revoltoso. Terá sido das amizades com a miséria?!