quinta-feira, 16 de junho de 2022

Letra Morta

 

Recomecei a caminhar. Já recomecei várias vezes. E outras tantas desisti. Atravesso os mesmos lugares e tento recriar o hábito que não cola, continua a escorregar-me sobre os propósitos. Um dia vou conseguir, re-instituo os passeios matinais. E será como ir ao super, ao sapateiro, à padaria, um dever indolor a respirar facilidades.

Pergunto-me o que haverá na velhice que a faz tão desencantada. São os velhos que recusam a realidade onde pouco cabem, ou será ela – a realidade humana – que os exclui. Não me parece problema simples ou redutível ao progressivo fecho de portas do corpo. A espécie está preparada para essa mudança gradual. E ainda que o não esteja, vai acontecendo em obediência à natureza, é irrecusável. Mas há na velhice uma argúcia mental que diria quase desnecessária, um ver claro que é estorvo. Os anos despojam de ilusões que antes eram alimento e verdade. Os inabaláveis princípios, pilares em volta dos quais a vida lhes girou, são afinal mais sonho que realidade, mais desejo que existência. Fizeram caminho com o sonho: convictos que, no mundo, as pessoas são o determinativo, acreditaram nos sentimentos e pensaram reconhecer-se no outro. Contudo, espera-os a infatigável solidão e sofrem injustas ultrapassagens. O modelo em que apostaram soçobrou e princípios que julgavam eternos são hoje letra morta.

Nada deles ficará. Quebrada a aliança com o futuro, não há lição a tirar ou benefício a recolher. O único, o grande benefício, foi viver sem pensar nisso. No tempo em que eram incólumes.

18 comentários:

  1. O envelhecer tem esse problema - ficamos mais e mais sábios.
    E isso é uma grande chatice.
    A inconsciência é bem mais simples e confortável.
    Bfds

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    1. A inconsciência é o existir do animal puro e nós somos de mistura, Pedro, a pureza em nada nos pertence.
      A vida humana não decorre na inconsciência mas, como afirmo no texto, caminha pelo interior de certo sonho sobre a realidade e que o implacável tempo vai desfazendo. Uma vez confirmado como ilusão, o véu diáfano da fantasia esboroa desde o interior da sua inutilidade. Mas, se termina nuns, noutros renasce. Enquanto haja homens.

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  2. Eu só não queria ficar mais triste e mais azeda...a ver vamos se o consigo.

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  3. Julgo que é de si para consigo que terá de resolver-se, CC. Os mais velhos, em geral, e apesar de serem cada vez em maior número, interessam muito pouco ao mundo solvente.

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  4. Estou tentando lidar com isso 😉
    Também estou sempre a recomeçar 🙂... desta vez a natação depois de 2 anos parada!
    Bom domingo 😘

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    1. A Gracinha tem um encanto de neta, a filha, o filho e mais o neto do coração. E os passeios aqui e ali com a mana, a distracção de coisas novas, a beleza que aprecia e a vida lhe permite apreciar. Cada um terá seus deleites. Mas nuns são mais e melhores deleites que noutros.
      Na verdade, pouco acredito em recomeços, parece-me tudo continuação e que nada se recomeça. A natação é bem que cultivo, mas pára em finais de Maio e só continua em Outubro. Contingências.
      Boa semana, Gracinha.

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  5. Sobre recomeços...gosto desta frase:
    "O insucesso é apenas uma oportunidade para recomeçar com mais inteligência." - Henry Ford
    Se à medida que os anos passam estamos cada vez mais perspicazes e inteligentes...então recomecemos sempre!

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    1. Também gostei da frase de Henry Ford, mas não encontro maior perspicácia e inteligência prática nos velhos (em mim, por exemplo), eles não falham melhor. Parece-me problema de outra ordem, Dulce.
      Ao invés da maioria, penso com frequência que o suicídio é acto de grande coragem e que, em geral, não temos (em parte também me parece contrasenso apressar o que sabemos que virá). Portanto, estamos todos no caminho e, querendo ou não, continuamos, continuamos sempre. Até ao fim.

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  6. No meu entender, é agora a realidade humana que os exclui. Não se estima a experiência, não se valoriza o esforço despendido. Essa é uma falta grave da sociedade. Contra isso, a humildade do silêncio e das forças quebradas, numa solidão inimaginável.

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  7. Para além do sentimento do mundo em relação aos velhos, há o dos velhos em relação a si mesmos, não é, bettips. Talvez sejam influenciados por essa displicência geral que os dispensaria de bom grado e a quem só o dever prende (quando prende). Não é fácil aprender a dar lugar, a ocupar cada vez menos espaço, a não contar. O despojamento é um caminho de pedras que exige demais do coração.
    E que a semana lhe sorria.

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  8. Posso deixar-lhe um poema sobre este tema?
    "Não é simples envelhecer.
    Já um poeta o disse.
    Peregrinos do tempo,
    aprenderam, pelo olhar,
    o caminho do trigo maduro,
    o perfil dos navios
    que partem sem regresso,
    a mudança das estações do ano,
    a curta duração das emoções.
    Mas, quem se lembra da fadiga
    dos seus braços, agora,
    que é outono em suas mãos?
    Quem fez do banco do jardim
    um referente da morte,
    o lugar onde a sua solidão se acoita?
    Quem esqueceu, nas suas rugas,
    a sábia maturidade da vida,
    ou antes, um modo diverso
    de olhar na direcção da noite?"

    Gosto imenso do que escreve.
    Tudo de bom para si.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  9. Graça
    comoveu-me. Tão bonito o poema que deixou na minha casa simples. É pintura de autor em casa de pobre. Bem haja.
    Eu queria ter esse modo diverso de olhar na direcção da noite. Quero ainda.
    Boa semana, Graça.

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  10. Eu achava que tinha comentado este texto ontem.... mas agora fiquei na dúvida. Aliás, eu sei que o comentei, agora já não me lembro do que escrevi :P

    Beijocas

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  11. :). Cláudia, também já me tem acontecido. Dissabores da sabedoria digital.
    Desejos de um dia bom.

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  12. Bea, quantas palavras que parecem escritas para mim, para o meu momento atual. Gostei muito, meio triste, mas muito real. Beijos ;)
    https://botecodasletras2.blogspot.com/

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  13. Bom dia, Jeanne e obrigada pela visita. Os sentimentos humanos, por serem tal, pertencem a muita gente. Como digo, apesar de tão comuns, vivem-se na subjectividade muito única de cada um.
    Tenha um dia bom

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  14. Gosto de recordar as palavras de um velho especialista do coração que já com mais de 90 anos dizia que "velho é só quem tem mais 10 anos do que nós".
    Também gostei do teu texto e do poema da Graça.Boa semana!

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  15. Jamais senti essa afirmação do especialista do coração como verdade. Os velhos existem e têm que se assumir como tal. Discordo em absoluto de quem se afirma jovem sendo velho; ou diz que a idade do espírito é que conta. Porque, em meu entender, o espírito, tal como o corpo, só é jovem uma vez. Encarar a idade que se tem parece-me meio caminho andado para viver melhor. Por ser com essa idade do todo de cada um que se vive. As limitações chegam ao espírito como ao corpo e parece-me danoso para ambos iludir isso. A honestidade dos velhos torna a velhice mais aprazível e transitável. Ter uma mente aberta não faz dela uma mente jovem.

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