Recomecei
a caminhar. Já recomecei várias vezes. E outras tantas desisti. Atravesso os
mesmos lugares e tento recriar o hábito que não cola, continua a escorregar-me
sobre os propósitos. Um dia vou conseguir, re-instituo os passeios matinais. E
será como ir ao super, ao sapateiro, à padaria, um dever indolor a respirar
facilidades.
Pergunto-me
o que haverá na velhice que a faz tão desencantada. São os velhos que recusam a
realidade onde pouco cabem, ou será ela – a realidade humana – que os exclui.
Não me parece problema simples ou redutível ao progressivo fecho de portas do
corpo. A espécie está preparada para essa mudança gradual. E ainda que o não
esteja, vai acontecendo em obediência à natureza, é irrecusável. Mas há na
velhice uma argúcia mental que diria quase desnecessária, um ver claro que é estorvo.
Os anos despojam de ilusões que antes eram alimento e verdade. Os inabaláveis
princípios, pilares em volta dos quais a vida lhes girou, são afinal mais sonho
que realidade, mais desejo que existência. Fizeram caminho com o sonho: convictos
que, no mundo, as pessoas são o determinativo, acreditaram nos sentimentos e pensaram reconhecer-se no outro. Contudo, espera-os a infatigável solidão e
sofrem injustas ultrapassagens. O modelo em que apostaram soçobrou e princípios
que julgavam eternos são hoje letra morta.
Nada
deles ficará. Quebrada a aliança com o futuro, não há lição a tirar ou benefício a recolher. O único, o grande
benefício, foi viver sem pensar nisso. No tempo em que eram incólumes.
O envelhecer tem esse problema - ficamos mais e mais sábios.
ResponderEliminarE isso é uma grande chatice.
A inconsciência é bem mais simples e confortável.
Bfds
A inconsciência é o existir do animal puro e nós somos de mistura, Pedro, a pureza em nada nos pertence.
EliminarA vida humana não decorre na inconsciência mas, como afirmo no texto, caminha pelo interior de certo sonho sobre a realidade e que o implacável tempo vai desfazendo. Uma vez confirmado como ilusão, o véu diáfano da fantasia esboroa desde o interior da sua inutilidade. Mas, se termina nuns, noutros renasce. Enquanto haja homens.
Eu só não queria ficar mais triste e mais azeda...a ver vamos se o consigo.
ResponderEliminarJulgo que é de si para consigo que terá de resolver-se, CC. Os mais velhos, em geral, e apesar de serem cada vez em maior número, interessam muito pouco ao mundo solvente.
ResponderEliminarEstou tentando lidar com isso 😉
ResponderEliminarTambém estou sempre a recomeçar 🙂... desta vez a natação depois de 2 anos parada!
Bom domingo 😘
A Gracinha tem um encanto de neta, a filha, o filho e mais o neto do coração. E os passeios aqui e ali com a mana, a distracção de coisas novas, a beleza que aprecia e a vida lhe permite apreciar. Cada um terá seus deleites. Mas nuns são mais e melhores deleites que noutros.
EliminarNa verdade, pouco acredito em recomeços, parece-me tudo continuação e que nada se recomeça. A natação é bem que cultivo, mas pára em finais de Maio e só continua em Outubro. Contingências.
Boa semana, Gracinha.
Sobre recomeços...gosto desta frase:
ResponderEliminar"O insucesso é apenas uma oportunidade para recomeçar com mais inteligência." - Henry Ford
Se à medida que os anos passam estamos cada vez mais perspicazes e inteligentes...então recomecemos sempre!
Também gostei da frase de Henry Ford, mas não encontro maior perspicácia e inteligência prática nos velhos (em mim, por exemplo), eles não falham melhor. Parece-me problema de outra ordem, Dulce.
EliminarAo invés da maioria, penso com frequência que o suicídio é acto de grande coragem e que, em geral, não temos (em parte também me parece contrasenso apressar o que sabemos que virá). Portanto, estamos todos no caminho e, querendo ou não, continuamos, continuamos sempre. Até ao fim.
No meu entender, é agora a realidade humana que os exclui. Não se estima a experiência, não se valoriza o esforço despendido. Essa é uma falta grave da sociedade. Contra isso, a humildade do silêncio e das forças quebradas, numa solidão inimaginável.
ResponderEliminarPara além do sentimento do mundo em relação aos velhos, há o dos velhos em relação a si mesmos, não é, bettips. Talvez sejam influenciados por essa displicência geral que os dispensaria de bom grado e a quem só o dever prende (quando prende). Não é fácil aprender a dar lugar, a ocupar cada vez menos espaço, a não contar. O despojamento é um caminho de pedras que exige demais do coração.
ResponderEliminarE que a semana lhe sorria.
Posso deixar-lhe um poema sobre este tema?
ResponderEliminar"Não é simples envelhecer.
Já um poeta o disse.
Peregrinos do tempo,
aprenderam, pelo olhar,
o caminho do trigo maduro,
o perfil dos navios
que partem sem regresso,
a mudança das estações do ano,
a curta duração das emoções.
Mas, quem se lembra da fadiga
dos seus braços, agora,
que é outono em suas mãos?
Quem fez do banco do jardim
um referente da morte,
o lugar onde a sua solidão se acoita?
Quem esqueceu, nas suas rugas,
a sábia maturidade da vida,
ou antes, um modo diverso
de olhar na direcção da noite?"
Gosto imenso do que escreve.
Tudo de bom para si.
Uma boa semana.
Um beijo.
Graça
ResponderEliminarcomoveu-me. Tão bonito o poema que deixou na minha casa simples. É pintura de autor em casa de pobre. Bem haja.
Eu queria ter esse modo diverso de olhar na direcção da noite. Quero ainda.
Boa semana, Graça.
Eu achava que tinha comentado este texto ontem.... mas agora fiquei na dúvida. Aliás, eu sei que o comentei, agora já não me lembro do que escrevi :P
ResponderEliminarBeijocas
:). Cláudia, também já me tem acontecido. Dissabores da sabedoria digital.
ResponderEliminarDesejos de um dia bom.
Bea, quantas palavras que parecem escritas para mim, para o meu momento atual. Gostei muito, meio triste, mas muito real. Beijos ;)
ResponderEliminarhttps://botecodasletras2.blogspot.com/
Bom dia, Jeanne e obrigada pela visita. Os sentimentos humanos, por serem tal, pertencem a muita gente. Como digo, apesar de tão comuns, vivem-se na subjectividade muito única de cada um.
ResponderEliminarTenha um dia bom
Gosto de recordar as palavras de um velho especialista do coração que já com mais de 90 anos dizia que "velho é só quem tem mais 10 anos do que nós".
ResponderEliminarTambém gostei do teu texto e do poema da Graça.Boa semana!
Jamais senti essa afirmação do especialista do coração como verdade. Os velhos existem e têm que se assumir como tal. Discordo em absoluto de quem se afirma jovem sendo velho; ou diz que a idade do espírito é que conta. Porque, em meu entender, o espírito, tal como o corpo, só é jovem uma vez. Encarar a idade que se tem parece-me meio caminho andado para viver melhor. Por ser com essa idade do todo de cada um que se vive. As limitações chegam ao espírito como ao corpo e parece-me danoso para ambos iludir isso. A honestidade dos velhos torna a velhice mais aprazível e transitável. Ter uma mente aberta não faz dela uma mente jovem.
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