quinta-feira, 21 de agosto de 2025

À Beira da Cal

 

        Estudei que a memória nos carimba a identidade, possibilita o conhecimento qualquer que ele seja, permite recordar voluntária ou involuntariamente episódios, pessoas, o que ouvimos ou vimos, reconhecer cheiros, paladares, enfim, satisfaz um inumerável de necessidades humanas. E eu que retomo lentamente - muuuuiiito lenta e com vastas falhas – o hábito antigo de caminhar um pouco no fresco da manhã, sigo ainda em peregrinação. Sei o lugar de onde avistava o velhote e os dois sítios onde nos encostávamos ou sentávamos falando de nada. Passo onde o vi pela última vez, admirada do incomum onde se sentara extenuado. Atravessei a estrada e sentei-me a seu lado. E ele, é o coração, vim mais cedo, pela fresca, e deixei a cadela em casa; mas isto cansa-me, tive de parar aqui. E eu que já não o via desde o acidente e soubera que uma filha o levara consigo para outra cidade, eu que nem julgava voltar a vê-lo por ali, não perguntei se estava melhor, disse parvamente que já tinha saudade dos nossos encontros. E ele virou-me olhos de impotência onde li também saudade. Perguntei se queria ajuda para chegar a casa e abanou a cabeça, isto vai. Ficámos um bocadinho a olhar o silêncio da manhã com ovelhas ao fundo. Quando lhe notei intenções de partir, pus-lhe a mão no ombro e saiu-me uma mentira sem graça, tem de descansar o resto do dia e amanhã cá estamos. Ele, olhinhos mirrados no fundo de um poço de rugas, pele baça e amarelada, levantou-se trôpego e descrente de todo, e silabou, pois, amanhã. E eu colaborando, até amanhã. Atravessei a estrada e virei-me a olhá-lo na subida, passinho de bebé. Para nós dois não havia outro dia. Isso sabíamos.

        Entretanto, faço caminho. Passo pelo gato preto adormecido ao sol ligeiro, o cão que me refila possivelmente do outro lado da casa. Na beira de estrada ressalta a brancura cuidada dos muros caiados no estio, e na zona de vivendas há mudanças, os novos proprietários têm outra concepção de casa. Numa delas há um letreiro “vendem-se ovos”. É uma vivenda em tons laranja, barras brancas e várias paredes de vidro. Apesar do muro, vislumbro o conforto e até bom gosto de uma das salas. Um dia destes vou saber a razão de a senhora vender ovos. Talvez comprar alguns.

        À esquina do caminho de terra batida, um campo de ovelhas. São muitas e de idade diversa: carneiros velhos e gordos que se deslocam como reis, a passo, e ovelhas de igual porte; mas a maior parte do rebanho é constituído por animais jovens correndo lestos, aqui e ali; e há a ternura saltitante dos cordeiros novos, contentes da vida. Digo-lhes olá da estrada e eles, cada um em seu passo, aproximam-se a balir, e chegam à rede de arame que nos separa. Ficam ali balindo e faz de conta que somos velhos amigos que se reencontram depois de longa ausência. A quem os oiça e não conheça a espécie, não parecerá que acabámos de travar conhecimento. Dou-lhes as costas e eles com o focinho meio fora da rede, em cacho cerrado, mééé, mééé, mééé. E logo me vem à memória meu pai. Mal ouvia o nome de x, cuja incompetência detestava, saía-lhe escarninho, é uma ovelha, uma ovelha é o que ele é. E se nós, ó pai deixe lá isso, ele mastigava convicto e vingativo, uma ovelha, mais burro que uma ovelha.

        Dado o que me foi presente, meu pai tem razão acerca da inteligência dos ovinos. Mas que querem! Soube-me bem a corrida à rede apenas por cumprimentar. O que quer que lhes diga, acorrerão. E depois?!

10 comentários:

  1. Curiosamente o maior elogio que um amigo de infância podia fazer a alguém era - "és um ganda carneiro".
    Quem ouvisse pensava que era um insulto.
    Era o oposto.
    Bfds

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  2. Meu pai insultava mais violentamente:). O escárnio que guardava para x, não sendo insulto, era incisiva caracterização; saía-lhe do âmago. Bastava o nome e disparava:). Hoje, se entre nós referimos x, dizemos "a ovelha".
    O seu amigo, provavelmente, apelava a qualidades do carneiro.
    Bom Dia, Pedro. E óptimo fim de semana

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  3. Bonito o encontro com o velho amigo. E sim, compre ovos, sempre que estou numa aldeia e é possível faço-o, sempre nos livramos da sombra que é o seu comércio industrial. Bom fds

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  4. Os encontros de memória são como o símbolo da aple, falta-lhes um bocado, a vida/morte deu-nos uma dentada.
    Pois é, já vi a senhora que é simpática e cumprimenta; penso que não será portuguesa. O que me pergunto é se não terá um aviário:). Oxalá não.
    Bom fim de semana, CC.

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  5. Quando caminhava na aldeia tinha encontro desses que nos fazem parar e deixar que a palavra não se perca no tempo!
    Por aqui, não tenho esses encontros mas gosto quando o meu sorriso se cruza com outro!
    Bom fim-de-semana Bea

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  6. Quem passeia de manhã cedo encontra pouca gente, ninguém. Faz parte e agrada-me. Cruzam-me outros poucos como eu, por vezes. Como alguém que foi meu aluno e luta há anos com doença degenerativa que cada vez o vai tornando menos si mesmo. É exemplar.

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  7. Que bom vir aqui! É raiz e permanência Bea, como dantes se dizia da rainha de Inglaterra. No profundo e recôndito do nosso Portugal, as memórias que traz dão conforto à minha alma em tempos breves e errantes, porque, cada vez mais ensimesmado, vivo em plano inclinado em direção ao isolamento precoce.
    Também eu, in illo tempore, assisti às suas deambulação e falas com o senhor velhote.
    Grato por evocar. Já li o dos gatos dos quais não aprecio por serem ariscos - prefiro cães.
    Sobre Rabugem, ui, ui, como me identifico com os seus queixumes, história sobre a sua história é admirável em sinceridade como todas as crónicas autobiográficas com mais ou menos imaginação. Sei bem demais, infelizmente, o que são quezílias familiares, percepções diferentes que, com a idade, todos se julgam poder dizer tudo, sem travões, tudo é permitido, o respeito torna-se uma palavra vã e quem tiver mais língua, ganha. E é assim, para evitar males maiores, que as pessoas cada vez se visitam menos, falam menos e caminhamos para a solidão. Como alguém dizia, a velhice é tramada.
    Foi um gosto... como sempre.

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  8. É mesmo tramada a velhice. Mas eu rabujo e volto, ainda esta semana levei as minhas irmãs à praia:). A vida também foi e ainda é difícil para as duas, não posso dar-nos o luxo de um mal estar a comprometer a nossa relação. Se esqueci? Não consigo.
    Os velhos estão, a maior parte, nesse plano inclinado de isolamento precoce. Também o sinto, sobretudo por me estarem vedadas actividades que me agradavam e me faziam de companhia aos bocadinhos. Mas adiante.
    A minha gata é mesmo arisca, sim. Mas todos os outros gatos eram uma ternurenta mansidão. Acompanhavam-me; não acontece com ela.
    Não entendo esse visitarmo-nos menos. Nunca demoro muito a retribuir visitas. O contrário é menos verdade; fazer o quê?!
    Penso, sinceramente, que, por razões várias, fazemos cada vez menos falta aos outros:).
    Há solidões muito robustas. Bem perto de mim tenho assim uma. Grande, grande. Como hei-de dizer...o remédio, neste caso, é pior que a doença. Dá-me que pensar.
    Foi um prazer, Joaquim

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  9. A bela frase do recordar é viver, encaixa aqui na perfeição :)

    O meu avô era da Aldeia, mas nunca gostei muito de lá ir.

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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  10. Quem nos dera que recordar fosse viver, Cláudia:)). Por outro lado temos de concordar: é tempo gasto, portanto, vida.
    Beijinho

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