quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

                 Minha mãe quis saber o que me passara pela cabeça para fazer tal avaria. Respondi contristada com a obra, pensava que vocês iam gostar; e depois a franja nunca mais ficava certa e fui cortando para acertar, de um lado, do outro, até que desisti porque já se via a testa quase toda.  A mãe zangou-se um bocadão e explicou-me por que não devia repetir a façanha. Tive de pedir desculpa. Cabisbaixa e arrependida do mal feito, lá fui. Desculpas aceites, ela sorriu e animou, deixa, logo cresce, não fiques triste. E avisou, não voltes a experimentar.

Hoje, eu e a garotinha da franja assassinada, somos boas amigas e também de muitos anos. E a amizade que tinha pela minha amiga mais velha não esmoreceu. Se passo em sua casa só para a ver e saber de como leva as maleitas da idade, logo me enche de presentes. Sabendo do meu gosto, guarda-me os dióspiros, dispõe-me flores em vaso e dá-mas já floridas, oferece-me anualmente os marmelos para a marmelada caseira. É um coração de ouro a que não sei como agradecer. Toca-me o seu desvelo, porque envelhecemos feitos criança que precisa de ternura e sou profundamente grata aos seus gestos protectores.

As filhas são umas sortudas.  Mas ela também. A mais velha emigrou há muito ano para o Reino Unido; por lá casou e gerou descendência. A dada altura, teve cancro. A mãe, mal soube, não perguntou nada, não foi ouvir este ou aquele que já tinha voado. Arranjou-se e foi para o aeroporto, comprou um bilhete e meteu-se num avião pela primeira vez. Não sabia uma palavra de inglês, desconhecia aeroportos e de bilhetes de avião. Mas chegou lá. E só voltou quando a filha restabeleceu da cirurgia. O amor maternal pode muito. Mas o amor dela era desesperado; tinha o desespero da lonjura e da doença, o desespero da filha sozinha num país diferente. Nada a impediria de ir. Em contrapartida, certa vez em que a filha me mostrava as peónias do quintal (era um ramo lindo), reparei que a jarra de peónias estava sobre uma mesinha e acompanhava uma foto de bom tamanho: a mãe jovem, sorrindo eterna na moldura. Uma rapariga graciosa, igual à que existe na minha memória e talvez ela nem tenha conhecido.

Que beleza e sorte temos, se nos é dado deparar com gestos de amor profundo.

                                                                FIM

 

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

Mau grado os avisos de minha mãe “tens de bater à porta, a casa não é tua”, continuava a entrar como um pé de vento, sem bater, puxando o atilho ligado ao trinco. Por tal desmando, observei pela primeira vez um homem nu. A surpresa atrapalhada de quem se banhava na cozinha e quedou de olhos arregalados, deu-me asas para a volta. Minha mãe numa estranheza, “não estavam em casa?”. E eu aldrabando - a verdade chamava a zanga materna -, tinham o postigo fechado, não devem estar em casa. E sentei-me a pensar em tamanha atrapalhação a que não via causa e a constatar mentalmente quanto aquele apêndice de nada crescia nos homens. Fiquei bastante contente por ser diferente deles.

Certo é que aprendi de uma vez a bater antes de franquear a porta. Para o que também serviu a minha vizinha, no seu meio sorriso habitual, ter contado a verdade a minha mãe.  

Entretanto, os nossos pais compraram terrenos contíguos e bravios que desmatavam aos fins de semana. Meus pais arrancavam e eu carregava estevas,  mato e demais arbustos para um montão a que pegavam fogo e vigiavam; muita vez me deixaram por casa com a mana e chegavam já a lua subia no céu. Ao tanque da roupa, em tarde de sábado ou nos domingos, ouvia-lhes os projectos – as duas sonhando abrir um poço e ter um laranjal erguido a pulso, um tanque de rega perto da casa a haver. Era um sonho bonito, esperança futura tecida com fadiga e sons de enxada.  Eu sonhava distinto. Por esse tempo, escrevia ingénuas cartas a Salazar pedindo uma bolsa de estudo – ainda que não soubesse o que era, repetiam-me a condicionante: se queria estudar, havia que tê-la. Fez-se definitiva a evidência - habitávamos mundos distintos. A minha amiga transitara para o planeta de minha mãe e eu vagava num limbo, poeira cósmica ainda sem lugar. Aquela que eu encontrara desde sempre, existia num fundo muito fundo; casamento, maternidade e problemas de mulher casada tinham-me posto entre parêntesis.

       Numa tarde em que ficara de vigia às duas garotas, daí a um nadinha de chegarem cansados e suados "da fazenda", horas extraordinárias depois de um dia de trabalho, a minha amiga entrou com a filha pela mão e logo o meu lugar um foco; podendo, eu desaparecia. Meio a rir para minha mãe, ela pediu: olha bem a minha filha, não lhe notas nada? E nem um soslaio para o lado onde eu minguava quanto podia. Enquanto minha mãe esquadrinhava o rosto da criança, enchi-me de apetites de invisibilidade, de haver uma magia de história encantada que me fizesse desaparecer. Mas o tempo desapiedado e a encolher ombros, seguia a passo de caracol. Não houve milagre nem varinha de condão, só a voz de minha mãe: é a franja. Ai coitadinha da menina, quem é que lhe fez isto? E foi quando ela, meio desencantada, desatou o saco,  foi a tua Bea – aí olhou para mim –; cheguei a casa e disse ao marido, tu não achas a menina esquisita hoje? E ficámos os dois a atentar nela; quando descobrimos, perguntei e ela anunciou que a Bea a cortou porque o cabelo já lhe entrava nos olhos; mas já viste bem este trabalho, deixou-ma quase sem franja. Agarrou a mão da filha e saiu.

domingo, 19 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

                 Os bebés devem ter chegado na ordem certa e não tenho memória de sofrer de ciumeira por ter em casa uma irmã que os vizinhos espreitavam.  Passados meses, chegou a vez da minha vizinha e eu, tal como eles, corri a ver a criança. Sabia ser uma menina e verifiquei que a minha amiga estava contente e "babosa" com a criatura, mas cheia de mil cuidados levou-me até ela. Mirei e remirei a bebé e não encontrei causa para tanto interesse. Era uma carequinha de penugem loira e olhos claros que, na minha vaidade e orgulhoso entendimento, tinha menos graça que a morenita de olho e cabelo negro que me sorria no berço lá de casa. Entretanto, o lar da minha amiga sofrera enorme reviravolta. Não me parecia a mesma casa de tudo no lugar certo, folhos abertos a golpe de ferro de brasas e mobília de brilhos. Além disso, as duas mães levavam o tempo a puxar da mama ou no tanque lavando fraldas. Durante a lavagem, conversavam sobre leite materno e davam-se receitas para o aumentarem, assunto que, de tão incompreensível, me desinteressava. Recordo que mastigavam bacalhau cru e bebiam muita água por via de ser salgado. Por certo, o "fiel amigo" era a receita caseira menos dispendiosa. O maior dano, sofri-o em casa da minha amiga. Havia fraldas por todo o lado e todas as cadeiras estavam ocupadas com artigos da rainha do lar; tempo para mim era sonho puro: a bebé chorava bastante e o rosto da mãe afiançava noites mal dormidas. Em tal ambiente, fomo-nos distanciando. No final do verão, entrei para a escola e apeguei-me à professora com a força de raiz aprumada. A mestra, dama paciente e voz doce, maravilhava-nos por ter marido. Era um senhor jovem e de gravata, que nos surgia ao volante de um carro preto. Espreitávamos ao descaro a despedida dos dois. Não tínhamos tv, não conhecíamos cinema, os nossos pais não se beijavam assim e nem de outro modo. Descobrir o beijo na boca foi uma das grandes novidades que a professora nos trouxe. Foram aqueles dois seres amoráveis e amorosos, os nossos actores particulares. Era um simples tocar de lábios muito terno e cheiinho de contempladores - o senhor já sorria ligeiramente antes do beijo. A novidade foi rastilho universal, assistíamos encantados à anomalia prazenteira que cumpriam religiosamente. Muitos anos depois, soube que eram recém-casados.  

Quando a minha amiga recuperou de ser mãe e retomou o trabalho no campo, já às nossas vidas faltava a proximidade que eu cultivara com desvelo. Não sei o destino da máquina de bordar, mas a filha dela não teve bibes com a história da carochinha bordada em despiques de agulha e agruras de pano. Entretanto, as duas garotas cresciam: aprenderam a falar e a andar e era frequente brincarem juntas. Por vezes, tomava conta delas um bocadinho e logo me fartava, tal a atenção que exigiam; a filha da minha amiga era birrenta e, se chorava, abria um túnel de berraria e língua em concha, deduzindo eu ser sinal de mázura. E ficava grata por minha irmãzita ser menos expansiva nas suas cóleras: de tão mansas, e por comparação com a guincharia irada da outra, mais pareciam rastos de queixume.


domingo, 12 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

A vida corria devagar, eu saltitando entre a minha casa e a dela. Não senti muita saudade do tio que me sentava nos joelhos e que construíra casa e se mudara cedendo o espaço à filha. E o novo lar era-me muito mais agradável. Podia, por exemplo, mirar-me no tampo espelhado da mesa. E nas janelas havia cortinas de florinhas em tons de claridade; enfim, sendo a mesma casa, parecia-me outra e, mal ela chegava do trabalho, escapava-me até lá. Tinha perdido o companheiro das torradas, mas encontrara onde espraiar a minha vaidade e debruçava-me sobre a mesa, qual narciso.   

Ora o que caracteriza a novidade é surgir súbita e filar-nos pelo inesperado.   Foi assim que ela veio agitar-me as meninges: minha mãe, que engordava a olhos vistos, disse-me que ia ter um(a) mano(a). Os meus seis anos acreditavam que os bebés vinham de França no bico de uma cegonha – tinha-mo garantido o senhor farmacêutico, cara séria, bata branca e óculos de respeito; portanto, era por força verdade. O dito senhor, ouvira o meu perguntar sobre aquela cegonha bem à vista de todos, no interior da farmácia.   O animal – em relevo e de perfil - tinha suspensos no bico uma fralda com um bebé dentro; encontrava-se em posição de vôo, patas para trás e asa alçada. Devo dizer que, até à intervenção do farmacêutico, desconfiava bastante da cegonha da farmácia, o que me levava a perguntar e perguntar, preocupada com o facto de ela poder deixar cair a criança quando, por certo distraída, abrisse o bico.  Além disso, as cegonhas que eu conhecia, de certeza que não tinham força para transportar um bebé. Portanto, dúvidas sanadas, não estranhei minha mãe ter encomendado um bebé à cegonha (não que ela alguma vez mo tenha dito nesses termos). Enchi-a de perguntas até ao exagero sobre a lonjura de França, se a cegonha comia ou não comia no caminho, se dormia, onde depunha o bebé durante o sono, coisas destas. Hoje penso que, estranhamente, nunca perguntei como fizera a encomenda. Desde a conversa do farmacêutico, se acaso passava uma cegonha, eu olhava-lhe o bico e a parte inferior ainda assim não fosse uma das que traziam bebés. Não consegui ver nenhuma dessa qualidade. E, para minha alegria, daí a um mês ou dois, a minha amiga e vizinha, num dos dias em que me mirava no seu espelho de verdade (viva o luxo!), disse-me que também encomendara um bebé e a cegonha havia de trazê-lo daí a uns meses. O esquisito era que também ela engordava. Receios dobrados. Eram duas casas tão próximas, e se a cegonha se enganasse na encomenda?! Mas ambas me garantiram que a ave transportadora chegava em tempos diferentes e podia descansar, não havia hipótese de trocar os bebés. Quando minha mãe tinha um barrigão que se agitava ao toque e mesmo sem ele, compreendi que o farmacêutico era um mentiroso. A mãe afirmou que ele gostava de contar histórias, não era bem um mentiroso. Mas não me convenceu, um senhor tão senhor, bata, gravata de nó, óculos... e a mentir-me. Foi assim que soube/adivinhei que o bebé estava dentro dela e me contou que precisava ir para o hospital para o porem cá fora. Fui logo contar à minha amiga, não andasse ela a pensar na história da cegonha. Ela num sorriso, põe aqui a mão; senti a barriga dela a mexer de leve, havia um bebé lá dentro. Não pensei em como lá tinha ido parar. Esse esclarecimento veio-me de colegas de escola. Pareceu-me natural ainda que, dormindo no quarto de meus pais, não tivesse dado por nada. À infância interessa a resposta ao que foi perguntado; o resto é apenas curiosidade leve, passa sem mais.

(cont.)

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Aqui entre Nós

          Foi um ano escolar trabalhoso e gratificante. Houve gente que passou do não conhecer as letras à leitura fluente. Tu foste, sem dúvida, quem mais alegremente correu  na aprendizagem, sinto grande orgulho por ter despertado em ti uma centelha adormecida, tornaste-te um garoto interessado nas "coisas da escola". Trazias quase sempre os trabalhos de casa feitos e enrubescias até às orelhas quando te perguntava muito séria, olho no olho, "por que não os fizeste?" Mas eras sincero, dizias por exemplo, "ontem não me apeteceu". E toda a gente tem direito, uma vez ou outra, à falta de apetite. Eras pontual e alegre como só a infância sabe ser; um miúdo vivaço e buliçoso, isento de maldades fundas.

No fim do ano, não sei se para bem ou para mal, mas de certeza na minha vontade de permanecer, deixei-vos o palhaço que adoravam porque mexia braços e pernas e a meio tinha um relógio onde todos aprenderam a marcar e ver horas, e que suponho ter aprimorado ainda no Magistério Primário. Ficaram também os bonecos do livro de leitura do primeiro ano. Não consigo recordar com precisão o nome do livro, mas nisso podes ajudar, talvez se chamasse Papu. Mas lembro-me de quanto chateava minha irmã para me desenhar os bonecos que eu recortava e pintava, copiando o modelo do livro. Uma nova letra era sempre uma festa para vocês, havia a curiosidade sobre o boneco novo, quase em tamanho natural,   o nome em baixo manuscrito e a bold. E, a amortizar os afectos, propus o desafio: estudem muito para nos encontrarmos na Escola Secundária onde hei-de estar a ensinar quando forem já crescidos. 

          A vida levou-me por outros caminhos, mas fui sempre contando os anos. Quando previa que pudessem estar por lá, esmiuçava as listas de décimo ano.  Encontrei uma aluna, a única previsível do seu ano. Sei-lhe ainda nome e apelido (MP),  mas não me calhou a sua turma e nunca se me dirigiu. Talvez a infância fosse nela um tempo desaparecido que me levou na correnteza dos dias. Ou, quem sabe, me reconheceu e, como acontece a alguns, faltou-lhe coragem para. De ti só encontrei o nome, porque, e eu contei,  também lá chegaste dois anos depois. Não foste meu aluno. Procurei-te várias vezes e faltavas muito às aulas. Chumbaste por faltas muito antes do fim do ano. Não deste ensejo ao puxão de orelhas verbal:).

Vários anos passados, numa manhã fria e soalheira de sábado, andava eu  em atarefadas compras, um matulão - para aí metro e oitenta ou mais - planta-se na minha frente, fardado, e pergunta sorridente "Já não me conhece?" E eu a esquadrinhar-lhe os traços, naquela de atirar moeda ao ar,  "Foi meu aluno na secundária?", E ele rindo e tirando o boné da fardamenta, "e agora?" E eu a olhá-lo nos olhos que a pala ocultara parcialmente, "Paulo Jorge!!!" E demos um abraço esquisito, ele a baixar-se todo, corpo em arco, como fazemos com algumas crianças e velhos. E perguntámos e respondemos mutuamente. Senti de novo o calor de estarmos juntos. Foram alguns minutos, mas apagámos o mundo (estávamos na frialdade da rua) e ali permanecemos intocados, imersos na agradável realidade de encontro tão bom como inesperado. 

Não voltámos a ver-nos. Entretanto, o amor aconteceu-te e arranjaste companheira. Eras bem disposto e  os camaradas de profissão estimavam-te.  No jogo fátuo que a vida é, a leucemia ganhou. Ordem do coração: tinha de ir despedir-me. De ti. Tenho ainda de despedir-me. Estou a fazê-lo. Quando o padre perguntou quem queria fazer a leitura, ninguém se ofereceu. Tua irmã, minha aluna na secundária, olhava em volta desamparada. E fiz o que faço sempre que alguém espera e ninguém se oferece, fui ler. Estou ciente que ninguém compreendeu metade do que disse. A minha voz tremia imenso e tive de parar;  o padre pôs a mão sobre a minha e disse baixinho, "calma, vai conseguir". Antevi-me despenhada em soluços no altar e pensei em ti,  vi o teu sorriso confiante de criança. Foi por tua invisível mão que retomei a leitura. Merecias que lesse melhor. Desculpa, mas há momentos em que a tempestade nos atinge mais fundo. Eu que te ensinei a ler não consegui fazê-lo. 

Até sempre, Paulo Jorge

PS: quem sabe se um dia não nos encontramos de novo. Tu irás reconhecer-me como eu te reconheço. E abrimos um parêntesis na outra vida se ela houver. 


terça-feira, 7 de novembro de 2023

Aqui entre Nós

 Convivemos durante um ano escolar - o meu último no ensino primário. Eu ensinando  - e pomos gerúndio nisso -, tu aprendendo. Sintonizámos desde o primeiro dia; eras pequenino, despachado e sorridente, cabelo e olhos castanhos, a mochila nas costas. 

Eu vinha de uma escola alegre, cheia de gente, funcionários, professores e um montão de crianças. Dessa vez última, como da primeira, tinha um edifício de sala única, sem outra companhia que a vossa.  Abri a porta e o interior da escola era tristonho, o desmazelo do chão sujo, da acumulação de pó  e o rendado das teias de aranha foram as boas vindas que tivemos; ao único armário, logo à esquerda de quem entrava a porta da frente,  faltava meia porta. Foi perante aquela desolação escancarada e deserta de tudo que entrei na que seria a minha escola ao longo do ano. Assim a nú, não parecia uma escola - não havia um livro onde quer que fosse, cortinas ou persianas nas janelas, mas o sol jorrava a horas certas. Os alunos eram poucos e as quatro classes trabalhavam em mesas redondas, o que não era propriamente mau - nas horas de sol, pegávamos nas mesas em busca de zona mais sombria. Nesse primeiro dia, depois de entrarmos, entre todos, limpámos as teias de aranha e varremos a escola. Suponho que os alunos que viviam mais próximo foram pedir o material a casa; eu não conhecia vivalma no lugar. Pensei em Matilde Rosa Araújo e na sua experiência de primeira vez num bairro pobre de Lisboa. Seria bem mais poético e pedagógico se, como ela, eu tivesse pegado na régua e dissesse a um garoto, "vai atirar fora". Mas nós só varremos, limpámos pó e etc. Cada um tem a poesia e a pedagogia que tem.

Pela primeira vez trabalhava em regime normal, com pausa para almoço; o hábito das lancheiras no trabalho não é assim tão moderno. Tu oferecias-te para tudo. Frequentavas o então chamado segundo ano da primeira fase e, como todos os outros da tua classe, não conhecias ainda todo o alfabeto e mal sabias contar, as quatro operações não te diziam nada. Analisei-vos um a um e verifiquei que o atraso era geral. Perguntei como se chamava a professora do ano anterior. Não sabiam, faltava muito e não criara simpatias. 

No dia seguinte, após as aulas, fui à cidade informar-me na Delegação Escolar sobre o assunto da limpeza escolar, fornecimento de caixas de giz, apagadores... miudezas. Consegui uma verba mínima mensal. E que a usasse como entendesse (tinha de prestar contas).  Entre todos resolvermos quem limpava a escola nos fins de semana e contratámos uma jovem para o trabalho. Nesse mês, lembras-te, gastámos tudo na compra de material escolar. Nunca eu vira um garoto apagar o quadro com tanta afeição pelo apagador. E o giz de cor era  a curiosidade geral; se acontecia passarem pelo quadro  estando algum disponível, riscavam um nadinha com ele, um número, uma vírgula, um pontinho pequeno. E eu fazendo que não via. Vocês ficavam duplamente contentes, tinham feito o que queriam e a professora nem tinha visto.

  No mês seguinte, comprei uma chita vermelha com pintas brancas e fiz uma cortina para a meia porta do armário que não havia e onde os que traziam almoço deixavam a marmita sem que fosse visível da entrada. E no outro mês vieram anilinas para a porta que restava do mesmo armário e onde eles e eu pintámos cogumelos vermelhos com bolas brancas e florinhas à moda de cada um. Vocês orgulhavam-se do que tinham feito; entravam e ficavam embevecidos na vossa arte "eu fiz esta aqui" Além disso, nas horas de trabalhos manuais, dedicámo-nos a enfeitar com as quatro estações,  a parte superior da sala. Havia uma árvore de tronco sempre igual e que acrescentávamos em cada estação; no final, já tinhamos quatro árvores muito sazonais - a sala tinha um friso de madeira que dividia a meio todas as paredes. Em geral pareciam contentes com a obra, mas tu eras dos mais entusiastas e querias por força que  tua mãe visse a sala onde aprendias, como ela estava bonita. Mas ela resistia. Talvez por vergonha, não sei.

(cont.)

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Senhora Minha

  Pouco me entretive a vê-la bordar e cedo aborreci aquele mundo: queria levantar a patilha da máquina quando não devia, ou pedia para ser eu a pôr o pé no pedal supondo - ó pobreza de espírito - que a máquina trabalhava sozinha e os pés ao pousar no pedal iniciavam o movimento. Por outro lado, desorientava-me tanto o frenesim da linha no carrinho que rodava continuamente, como a fria determinação da agulha que espetava no tecido esticado num implacável som de vingança. Saía para minha casa receando os malefícios da agulha e revendo a proximidade atenta das mãos dela que esticavam e ajeitavam o tecido junto à desalmada perfuradora. 

Talvez para ajudar no pagamento da máquina, cujo milagre se chamava prestações mensais, minha mãe decidiu  que me faria um bibe branco onde ela ia bordar a história da carochinha. Fiz um autêntico arraial. Não estava em mim de contente. Na altura, ela, muito paciente, mostrou-me a revista com os desenhos da história: lembro vagamente as antenas e sapatos da carochinha, as orelhas e bigodes de João Ratão, a igreja com uma cruz e as lágrimas saltitantes da carochinha-noiva, horrorizada perante o caldeirão aberto e fumarento. A história dava a volta completa ao bibe e dela constavam pormenores que o tempo levou.  Sobrou-me a vaidade de usá-lo e a confusão de ser tão rodado que parte do conto se perdia nos canudos do tecido. Relevo a sua arte no bordado e a boa e paciente recepção com que aturava as minhas repetidas inconveniências, ainda fizeste só isso?, hoje não fizeste nada, quando é que tu acabas. 

Entretanto, não sei como, ela arranjou um namorado. Eu não conhecia nenhum namorado e chaguei a paciência dela e de minha mãe sobre o espécime. Quando o rapaz tornou o caso mais sério e foi a sua casa, tive basta decepção, era um homem igualinho aos outros. Breve concluí que também eu precisava de encontrar um namorado. E já que tinha de ser um homem podia ser o rapaz que visitava outra vizinha e me pegava ao colo sorridente. A partir dessa altura a minha amiga crescida tinha um namorado; e eu outro. Nos domingos à tarde ela empapoilava: penteava-se com esmero, punha pó de arroz.  Eu surripiava-lhe o pente e dava um jeito na franja, já que ela nem me deixava tocar na caixinha do pó de arroz. E ficávamos as duas esperando os nossos namorados que não tardavam. Eu ia até à beira da estrada e gritava-lhe se o dela aparecia. Se o meu surgia primeiro, dizia a minha mãe, vem ali o meu namorado e desatava numa corrida, saltando o valado que separava os terrenos, a fim de chegar antes dele a casa da vizinha. Apesar da explicação que me chegou, e a que fiz orelhas moucas, fui proibida de incomodar a vizinha e de chamar namorado ao rapaz. Quanto ao namoro da minha amiga, a ordem era não me intrometer, minha mãe sabia zelar pela intimidade dos dois. 

         No que me pareceu pouco tempo, mas pode ter sido um ano ou dois, ela anunciou o casamento e convidou-me para "menina das alianças". Não fazia ideia do que fosse, mas achei extraordinário. Foi boda de pobre, caseira e sem esplendor. Mas a visão da minha amiga vestida de noiva foi uma das maravilhas da minha infância. Curiosamente, nada recordo do momento das alianças. Mas não esqueço - tenho uma foto  - que calcei luvas pela primeira vez e, na tal fotografia, tenho as mãos bem na minha frente, qual cãozinho amestrado que se põe de pé. 

(cont.)