Minha mãe quis saber o que me passara pela
cabeça para fazer tal avaria. Respondi contristada com a obra, pensava que vocês
iam gostar; e depois a franja nunca mais ficava certa e fui cortando para
acertar, de um lado, do outro, até que desisti porque já se via a testa quase
toda. A mãe zangou-se um bocadão e explicou-me
por que não devia repetir a façanha. Tive de pedir desculpa. Cabisbaixa e
arrependida do mal feito, lá fui. Desculpas aceites, ela sorriu e animou, deixa,
logo cresce, não fiques triste. E avisou, não voltes a experimentar.
Hoje,
eu e a garotinha da franja assassinada, somos boas amigas e também de muitos
anos. E a amizade que tinha pela minha amiga mais velha não esmoreceu. Se passo
em sua casa só para a ver e saber de como leva as maleitas da idade, logo me
enche de presentes. Sabendo do meu gosto, guarda-me os dióspiros, dispõe-me
flores em vaso e dá-mas já floridas, oferece-me anualmente os marmelos para a
marmelada caseira. É um coração de ouro a que não sei como agradecer. Toca-me o
seu desvelo, porque envelhecemos feitos criança que precisa de ternura e sou
profundamente grata aos seus gestos protectores.
As
filhas são umas sortudas. Mas ela
também. A mais velha emigrou há muito ano para o Reino Unido; por lá casou e
gerou descendência. A dada altura, teve cancro. A mãe, mal soube, não perguntou
nada, não foi ouvir este ou aquele que já tinha voado. Arranjou-se e foi para o
aeroporto, comprou um bilhete e meteu-se num avião pela primeira vez. Não sabia
uma palavra de inglês, desconhecia aeroportos e de bilhetes de avião. Mas
chegou lá. E só voltou quando a filha restabeleceu da cirurgia. O amor maternal
pode muito. Mas o amor dela era desesperado; tinha o desespero da lonjura e da doença,
o desespero da filha sozinha num país diferente. Nada a impediria de ir. Em
contrapartida, certa vez em que a filha me mostrava as peónias do quintal (era
um ramo lindo), reparei que a jarra de peónias estava sobre uma mesinha e
acompanhava uma foto de bom tamanho: a mãe jovem, sorrindo eterna na moldura.
Uma rapariga graciosa, igual à que existe na minha memória e talvez ela nem
tenha conhecido.
Que
beleza e sorte temos, se nos é dado deparar com gestos de amor profundo.
FIM