domingo, 12 de dezembro de 2021

Melíflua

 

Há gente como ela. Que se move para ajudar os filhos da má sorte, não por altruísmo ou verdadeira amizade, mas porque o mal dos outros lhe  empresta vigor. É uma fome que a move e atrai para a desgraça, debitando conselhos que ninguém quer e nem pediu, servidos com o molho de exemplos práticos que os certificam.

Estava eu na farmácia, sentada no banquinho dos velhos que enfileiram para o balcão, quando ela entrou. Espreitou com olho crítico o interior. Inquisitiva, observou cada elemento da fila e percorreu os clientes no balcão.  Uns segundos e já ela avançava justificando, não tiro a vez a ninguém, sou atrás daquele senhor lá fora. E veio sentar-se na outra ponta do banco a remexer dentro da mala. Quase de seguida, lhe ouvimos, então, comadre, já soube que estão todos infectados; olha o azar. Do outro lado, resposta curta. E ela contrariada, não estão? Ora essa, pois se está tudo cheio que agora nem podem sair de casa… e a comadre não se acanhe, o que precise, eu compro. Novo silêncio de escuta e a voz a perder entusiasmo, é só o mais novo… e está isolado... E após duas ou três interjeições, desligou meio enxofrada de dedos.  Desgostosa da novidade, deixou escapar o solilóquio, afinal é só um. Já a correr o fecho da mala de mão, notando alguns pares de olhos a fixá-la, suavizou contrafeita, ainda bem, não é.

 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

Hoje ganhei coragem e revirei duas caixas com adereços de Natal. Devia pô-los a arejar, mas a cor do céu esmoreceu-me.  Também cortei em rectangulos as folhas de um bloco para tintas a óleo. Já desisti de me entender, não sei pintar a óleo, não tenho óleos e ainda menos quem me ensine. Mas pronto, já não me falta tudo; descobri não um, mas dois blocos. Em compensação, não encontrei os lápis habituais nem o bloco de ano passado. Coisas. Note-se que, na conjuntura actual - eu mesma e mais os meus lapsos e esquecimentos -,   recuso buscas insanas. Não sei, não acho? Governo-me com o que há. Os objectos sabem ser muito castradores, não lhes podemos dar confiança. Não há como provar-lhes que passamos bem sem eles. Ora essa.

Pois a verdade é que essa espécie de papel destinado a tinta a óleo não é muito salutar como cartão de boas festas. Não é, mas não existe outro (fujo à verdade, bem entendido).  É mole, dobra-se sobre si e encaracola feito lesma destrambelhada, e o meu pincel diz que bla, bla bla, mas não lhe faço caso. Resumindo, está tudo uma burrada em ponto pequeno. Paciência.

Bom, para facilitar o espírito natalício, nada como ouvir canções de natal. Foi agradável, as agulhas de tricot, habituadas a conversa e mais conversa, arrebitaram as orelhas, que é lá isso, missa cantada? Peço desculpa por elas,  estão velhas e não sabem modernices de coros da estranja a cantar para nós a qualquer hora que se deseje. Depois de ouvir os arcanjos, cumpre-me informar que me ficou a apetecer algo. Portanto, algo, foi ver um filme de Natal. Mas era dobrado em brasileiro e se nos desenhos animados gosto das suas vozinhas, nos filmes com gente dentro, desafinam. Entretanto, lembrei Shirley Temple que foi garota muito mais tempo que eu ou qualquer mulher. Ainda é garota a Shirley Temple. Apeteceu-me revê-la. Lancei-me pois num dos seus filmes. E banzei com as traduções. Nem é questão de concordâncias ou assim. Passo a contar. O meu inglês não dá para os gastos, mas ainda assim não necessito estar sempre de olho no écran. Basicamente, o filme trata do amor entre pai e filha, o pai militar e ela num colégio por via da guerra que chama o soldado. Entretanto, o pai morre. E quando a professora preferida  vai dar  a notícia à garota (aí levantei a cabeça para olhar o écran, era importante) li a legenda, “você é uma puta”. Fiquei parva a soletrar julgando meu o engano. Mas não. Está lá.

Dado que no you tube também mostrava O Pequeno Lorde e não o recordo, decidi apreciar um niquinho do filme. Ah, pois é, mas a qualidade da tradução mantém-se. A afirmação, “O Dick ainda não chegou”  está traduzida por “A pila ainda não chegou”. Ai, valha-me Deus. Tenho esperança que as crianças não vejam isto, que só gostem daqueles filmes animados com bonecos horríveis e menos horríveis, que achem a Shirley Temple uma coisa que não lhes serve para nada. Mas, mesmo sem crianças, a quem é que a gente se queixa deste despautério, deste assassinato a frio da nossa língua e à disposição de qualquer. Deve ser coisa automática, só pode. Mas por que razão temos nós que aguentar tanta ofensa por escrito. E por que razão está acessível e é conservado num media. Palavra que não entendo.

Fiquei escandalizada e sem apetite ao Natal.

 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

O chão do Natal

 

         Logo ao segundo dia, falho o calendário de Natal. Ora bolas. Mas quem ia prever que a parva da vacina assim me tolhia. Bem quis colaborar com a quadra. Ainda andei a esgravelhar no sótão em demanda dos lápis e das folhas que não se deixaram ver. Portanto, este ano vai ser o bom e o bonito, só tenho folhas para pintura a óleo – não que tenha óleos ou saiba pintar – e guache. Mas pronto, trouxe tudo para baixo e ainda cortei três cartões. E foi tudo. De resto, a dar-me ânimo, chegou, com toque de campainha (o meu carteiro é mesmo um querido), a primeira prenda de Natal😊. Primeira, quer dizer, já me tinham dado um pano de cozinha, mas não conto utensílios que me lembram trabalho e me parece sempre serem dados à dona de casa que sou mas não sou. Pois foi imediato, comecei logo a leitura. Esta encomenda veio de uma amiga que bem conhece o meu amor a viagens e que, sensatamente, me enviou as viagens de Miguel Cadilhe (já tinha lido várias porque reúne as crónicas que escrevia para a Visão). É uma leitura fácil e que não farta mesmo se repetida, nem se incomoda com a lentidão do meu eu doente. Ideal para o efeito. Portanto, já li quase metade do livro. A prenda está meio comida. É claro que liguei à minha amiga. E, como sempre, não atendeu. Enviei carta em versão triplicada de sms. Voltei a olhar os cartões e as tintas. Pensei que era a minha vez de enviar o pacote que já tenho feito  para ela e a que falta apenas uma carta a sério e o cartão. Mas ela precisa de uma carta bem disposta (tem aquela mania parva da angústia) e não estava para aí virada. Adiei. E li mais um bocadinho.

         Portanto. Na sala, sobre os sofás, estão há que tempos, engomados e prontos, os enfeites de Natal. Acho que vão continuar meio mortos porque ainda não me apetecem escadotes. Isto de apetites a um escadote não é fácil de conseguir. A ver vamos.

 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

O Natal. Ah, o Natal da nossa infância. Chegava já os frios transiam e dava sinal no ramo de pinheiro armado fora do nosso alcance, onde o merceeiro suspendia, com cordel de embrulho, os pequenos chocolates do nosso encanto: peixinhos que oscilavam as escamas desenhadas na prata; rebuçados com recheio liquido e aparato farfalhudo no papel; pequenas tabletes da Regina, os nossos dedos imaginando o relevo sob a prata amarela e vermelha e a que os garotos garantiam queda certa (nunca aconteceu); um maço de cigarros de chocolate; um saquinho de rebuçados de meio tostão ou paladares; e uma prolífica quantidade de tabletes de cinco tostões, delgadas como dedos e de recheio execrável.  Na nossa ilha de pobreza,  não sabíamos de lugares com outros doces, de ruas feéricas, de gente enluvada e toda conforto a passear por elas, de pastelarias com toda a espécie de doçaria e pessoas que a adquiriam calmamente, sem um bater de pestana.

Nada nestes natais me faz saudosa deles. Não foram bons tempos. Mas a saudade é sentimento que isola os factores que  deseja. Natal era o amor de minha mãe pelos filhos e a sua tentativa de agradá-los fazendo mais doce o dia. E era tamanha a ternura que nenhum de nós o esquece e perpetua a tradição em sua casa. Ora vem isto a propósito de um programa de rádio, “A páginas tantas” (parece que não tem a ver, mas tem). Com grande pena da minha parte, o programa termina no final de Dezembro. Gosto da junção das três a falar de livros. Apesar das picuinhices birrentas de Rita Ferro a fugir para o lado de menina bem; das vezes que Patrícia Reis diz “amor” e “ó amor” referindo-se às duas colegas; da prontidão sem tréguas da Inês, investindo com a lança feminismo. Mas fazem o trabalho de casa, são fluentes e desinibidas e cada uma tem vida e sensibilidade próprias. E verifico mais uma vez que só sabemos falar do que se passa connosco (eu incluída), no nosso meio. Pois aquele trio denota alguma alergia ao natal. Por exemplo, são contra os presentes. Dizem elas que o ónus do trabalho recai sobre a mulher (Inês, claro), que só dão livros (Patrícia), mas sabem que os recebedores (a maioria) está já a pensar a quem irá dá-los. E fico a matutar, habitaremos o meu planeta? No meu planeta todas as prendas são bem vindas. Todas. E, por essa razão, não matamos a cabeça a pensar no que dar. Vamos comprar com muita alegria uma coisa que julgamos – temos quase a certeza – que agrada. No meu planeta, não há gente que já tem tudo e os outros cumulam de prendas. Também não concordo em dar livros a quem não os lê; quando muito, que se ofereça um livro e mais alguma coisa que a pessoa prefira mesmo, goste. Os presentes só os damos porque gostamos da outra pessoa, temos, também, de respeitar as suas preferências; ou não resulta. Do que tenho a certeza é que a maioria dos portugueses me faz companhia. E que o barco das três senhoras tem menos gente que o meu. Sendo também verdade que quem viaja no meu barco ouve pouco os programas de rádio sobre livros. E portanto, talvez elas tenham razão, falam para os seus ouvintes. Ali, sou apenas ave rara, coisa que não pertence. Gosto de comprar e oferecer presentes. Amo de paixão. Sei que os apreciam, usam, gostam, agradecem. E nunca será uma estopada. O Natal é a festa onde o meu coração se espraia.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Pé ante Pé

 

Se haja regresso da morte, se, promete que não me segues. Promete que não serás sombra nem luz, que não cristalizas na espera dos meus passos e não farás sobre eles o teu caminho. Promete que no impossível me dás a mão e ficamos lado a lado. 

Higiene Dentária

 

No cinema actual, muitas conversas ocorrem enquanto os protagonistas escovam os dentes. Bem sei que o cinema imita a vida, que é sintoma de quotidiano (os filmes antigos não tinham destas madurezas), mas que raio se conversa de escova na boca é coisa que não entendo; já me deitei a experimentar e não é discurso que se apresente, é que, se tal sucede, realmente, a uma pessoa, adia-se a conversa por uns minutos. A gente tira por segundos a escova e diz qualquer coisa como, um momento, estou a acabar de lavar os dentes. Mas eles não, eles vêm até onde está a outra pessoa, escovando sempre e mantendo o diálogo; ou vão dialogando enquanto se olham no espelho, a escova sempre a fazer o seu trabalho. A agravante é que dou em reparar que aquela gente não deve usar pasta dentífrica, vão mexendo, viram e reviram a escova dentro da boca e nada de pasta, nem um fio branco lhes espreita ou escorre. De saliente, só os altos da escova na bochecha, para cá, para lá. Pronto, é verdade que às vezes param só para dar a entender que a outra pessoa tocou com as suas palavras um ponto nevrálgico, pôs dedo em ferida. E fica aquele alto na bochecha, a mão parada no cabo da escova. Hão-de reparar, eles bochecham, bochecham, e sai só água. Oa isto dá que pensar. Será que ensinei mal os meus filhos, que aprendi errada a lição de escovar os dentes e sou só eu a olhar o espelho e achar-me apalhaçada, boca de bolhas e brancura de sabão em debrum. 

Ná, não me convencem.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Sombra Chinesa

 

                Quando corpo e mente entranharam o irremediável e a morte lhe foi real, Jaime desapareceu da aldeia por via de não perder os estudos, assim o apregoou Celestina. Grato pela dedicação da mulher e a pedido de Veridiana, Formosinho conservou-a no serviço doméstico. Que ele, bem se via, não dava para as coisas da casa; respeitador e bom patrão como não há, dizia ela a procurar salvar-se da má língua.   Ora, língua afiada em meio pequeno é coisa natural, mal que não cura. E logo, logo, surgiu o burburinho: que era mulher casada em casa de homem sozinho; que o marido tinha de pôr mão naquilo e nada; que quem sabe ele gostava do que, pela certa, lhe entrava em casa por portas travessas; que há muito corno manso; que coitadinho do Jaime; e havia até língua suja que aventava a anterioridade da relação, tudo vinha de há muito e a doença de Veridiana viera a calhar, o diabo tem sempre sorte. E mais. Havendo hipótese de costurar defeito, num ai os homens esquecem qualidades e vida provada. Mas, tal como nascem, se levantam e voam de uma boca a outra, assim, na ausência de provas a engordá-los, e por força da inteireza do tractorista, os boatos estiolaram. Celestina fazia o seu trabalho e raro via o patrão; o marido, mesmo fazendo cara feia ao diz que diz, não pôs prego nem estopa no assunto e, à parte ter-se travado de razões com o Dionísio da Brazilízia e lhe ter enfiado uns murros no focinho que foram aviso para os mais, era homem de respeito e pouca fala. Para mais, , dizia-se à boca pequena que só ele podia ter encomendado as duas comadres calhandreiras e maldizentes ao cabo da guarda. Não era segredo  que caçavam juntos, os cães à ilharga e arma pronta; à vista de todos atravessavam matos e planícies,  lebres e perdizes penduradas na cinta.  Embora ninguém os visse de amizade noutros lugares, a aldeia regozijou  com o castigo das linguarudas, para mais, sentindo-se cada um livre da acusação. Era tácito, havia ali a mão do tractorista. Chamadas ao posto da GNR, o carro dos cadastrados a buscá-las, ninguém soube o que aconteceu lá dentro. Passados dias, regressaram envergonhadas e mansas como cordeiros, não se sabe se arrependidas. O certo é que, por longo tempo, a viola ficou no saco e não houve boatos.   Formosinho, esse, talvez nem tenha dado conta do falatório. Ninguém soube onde o homem guardou os apetites, mas, perdida a mulher, jamais o viram de olhos cobiçosos para o outro sexo.  Na falta de quem o chamava por nome próprio, virou-se às vinhas, apostado em fazê-las crescer. O filho, entregara-o ao zelo materno e sentia-se estranho a cuidá-lo, para mais que já era rapaz e estudava longe. Mas as vinhas eram suas de nascença, corria-lhes a seiva  de mistura com suor e cada cepa era uma vitória . E depois, fora projecto seu e de Veridiana, era mister honrá-lo e dar-lhe seguimento. Lembrava-a debruçada sobre os bacelos novos, receosa de que não pegassem; as primeiras uvas e o cacho que comera logo ali sem atender ao pó do caminho, o trejeito entre o medo e desagrado, não prestam, e ele, sorriso confiante e a dar uma trinca, ainda não estão maduras; a  alegria de ambos na vindima a estrear, e o pisoteio das uvas no tanque, ela de saia regaçada e pernas contentes e tintas, uma cinta colorida até perto do joelho, as pontas da saia pejadas de respingo. Emudecia de ternura à vista das pernas dela  tão diversas por entre as masculinas, cabeludas e musculadas; e o seu orgulho na força de viver da mulher, no íntegro entusiasmo que era viço a percorrê-la. Enchia-se de uma saudade que lhe remexia as vísceras e era garrote a desarranjar-lhe os interiores se recordava o jeito morno de ajudá-la a deitar, aconchegando a roupa  ao corpo que sempre o surpreendia nos lampejos do amor. A fortuna que era tê-la a seu lado. Pensativo, revivia a solenidade da primeira garrafa de vinho a destacar na alvura da toalha, a mesa em festa.