Eu
queria dar-te a flor que nasce nos cumes azuis das altas montanhas. E sou rasa,
plana e densa como mó de moinho. Queria erguer para ti uma catedral burilada e
rútila, mas o desastre das minhas mãos enfermas não suscita beleza. Queria ser
tapete de passos teus e sou desencontro e pó de estrada. Mas, quem sabe, um dia
te debruças rente à terra, ao rés do pó. E então nos acharemos, filhos pródigos
de excelso acaso.
terça-feira, 15 de outubro de 2019
Carrossel
A
mulher fitou-nos por intrigados segundos, a mente em busca de razões. E logo
relampejou, és tu que vens de novo, não é?
Pois vão lá andando para a saleta. É a segunda porta à esquerda, já lá
vou ter. Desculpem, mas os canos
entupiram e a água do tanque não escoa. E a recuperar velocidade na
escova, justificando-se, temos de lavar na mesma, a roupa já começa a faltar. E
foi como se entre nós e ela uma parede.
Saímos
e, mau grado o feltro da entrada onde limpámos os pés, a prima enfastiada e a
inclinar os sapatos ora à esquerda ora à direita, o rasto húmido seguia-nos corredor fora.
Quando empurrou a porta indicada, deparámos com três mulheres de meia idade sentadas
em cadeiras baixas, óculos quase na ponta do nariz. Cosiam e remendavam. Ao
fundo, outra mulher afadigava-se na tábua de passar a ferro. Parámos na
soleira. No súbito silêncio, só os olhos
trabalharam. Mãos quietas, as mulheres ergueram a cabeça. Eugénia
aventou confusa, desculpem, procuramos a saleta. Elas esclarecidas e logo afáveis,
agulhas e ferro a acordarem, entrem, entrem, é aqui mesmo. A prima reforçou
dedos em volta da malinha de mão e entrou comigo a tiracolo. E logo uma se
afadigou a aliviar dois bancos sepultados em roupa dobrada e, sentem-se que a
Maria não tarda. Ao silêncio desanimado da prima a do ferro adendou, isto há-de
ser uma saleta, há-de, mas agora é o sítio onde vimos coser a roupa dos
catraios. E a apontar o bico do ferro ao vinco de uma manga, somos da aldeia e
estamos cá todas as quintas de tarde para coser e passar. É uma caridade que
fazemos, a Maria e o marido não dão conta do serviço. Eles têm uma mulher na
cozinha, mas então e o resto. E sacudindo nova peça antes de a ajeitar à tábua, ajudamos como podemos. Viradas à costura, as três da agulha
assentiram filosóficas.
Entretanto, uma das mulheres esvaziou um carro de linhas e passou-mo para a mão, toma. Rolei-o na mão aberta. O que teria valido esta prenda no Bairro da Venezuela. Seria bom eixo para qualquer caixa de fósforos, rodado de madeira polida a garantir carga. Mas bem sabia que tinha morrido para o bairro, nada de meu por lá ficara. Faltava deixá-lo afastar-se dentro de mim até ser apenas memória boa. Mas, e isto sei hoje, lugares e pessoas desaparecem mais devagar se, como é o caso, nunca chegam a desaparecer e volta e meia nos estão azucrinando o espírito. Como tu, tão próxima sempre, tão o teu cheiro no meu olfacto. Tu, de difícil arredo.
Entretanto, uma das mulheres esvaziou um carro de linhas e passou-mo para a mão, toma. Rolei-o na mão aberta. O que teria valido esta prenda no Bairro da Venezuela. Seria bom eixo para qualquer caixa de fósforos, rodado de madeira polida a garantir carga. Mas bem sabia que tinha morrido para o bairro, nada de meu por lá ficara. Faltava deixá-lo afastar-se dentro de mim até ser apenas memória boa. Mas, e isto sei hoje, lugares e pessoas desaparecem mais devagar se, como é o caso, nunca chegam a desaparecer e volta e meia nos estão azucrinando o espírito. Como tu, tão próxima sempre, tão o teu cheiro no meu olfacto. Tu, de difícil arredo.
A
dada altura a mesma mulher apontou a trouxa que eu segurava no colo, é a tua
roupa?. Assenti. Tirou-ma suavemente, dá cá, temos de a marcar. E ao desfazer
do nó, olhando os meus remendos e cerziduras, tenho um neto que há-de ser pouco
mais velho que tu, para a semana vejo o que há por lá que te sirva e trago,
queres?. Fiz novo aceno e a prima Gena corando sob os lutos, um embaraço de dedos
no fecho da malinha, clic a abrir, clic a fechar, clic a abrir de novo. E do
meio dos cliques saltou-lhe um muito
obrigada moldado em boca pequena.
sexta-feira, 11 de outubro de 2019
Carrossel
O
meu treino na amizade começou no desamparo daquela casa grande plantada a meio do campo. Éramos para cima de quinze rapazes de idades
variáveis, talvez entre os três ou quatro anos, e os quinze a dezasseis. De
trouxa na mão e coração apertado, mergulhado em desorientação temerosa de novidade, nada apercebi. A prima tocou um sininho na
entrada e esperámos. Para além do desconcerto, fiquei vivamente interessado no
sino. Depois de uns momentos em que mirámos o sossego do taxista refastelado no dever cumprido e o assomo de irrequieta bisbilhotice num garoto ou outro delatado por perrice de janela, um sussurro de passos ligou-nos à porta que entreabriu. Na soleira, um miúdo franzino, mais ou menos da minha
idade, olhou-me com interesse e afastou-se a dar passagem. Não sei porquê, aliviou-me vê-lo. E sem remorso disse adeus ao sino.
A
prima debitou umas palavras ininteligíveis e ele apontou um corredor
comprido e desapareceu em corrida como se algo urgente em espera, uma torneira
aberta ou assim. Pensei se seria mudo. Eugénia olhou-me sem expressão e atacou
o corredor. Segui no encalço assombrado da minha parente de empréstimo que
arregalava e fazia ruguinhas de gordura a corredores sebentos e despidos. Oscilava desventuras nos sapatos de salto e, à medida que em sofrimento de passinhos indecisos espreitava salas a um lado e a outro, ia abanando a cabeça contrafeita.
Por mim, fiquei impressionado com as
mesas do refeitório. Habituado a
canastros e caixotes em cubículos mal iluminados e de função múltipla, pasmava
àquela sala de tamanho inusitado, ocupada por mesas e cadeiras. Ao invés, a prima
imobilizava em observação e ia resmungando entrecortada, olhem para isto, nem
toalhas têm, as mesas com restos, bancos e cadeiras desirmanadas, tudo tão velho.
E eu atrás dela, o velório de tia Emília a espreitar-me das cadeiras sem pedegree e a tristeza uma água a sumir no desalinho de descaradas cabeças que nos espreitavam. Entretanto, passámos a camarata, uma extensão de camas sem colcha, deserta de tudo.
Finalmente,
depois de uma cozinha toda tachos, panelas e frigideiras, mais uma data de
utilidades dependuradas em grade que a prima desdenhou, encontrámos a responsável
do lar. Parecia uma mulher da aldeia, facto que me retirou um oceano de
medo. De costas para nós, devorada pelo calor, botas de borracha enfiadas, debruçava sobre o tanque o avental impermeável. Afadigava-se a esfregar à escova roupas
encardidas, prováveis vestes dos meus companheiros, facto que na altura não
interpretei. Atordoado, avancei e
encharquei pés e canelas. Confrangido, parei o olhar na Gena. E já ela erguera as banhas periclitantes sobre tijolo providencial,
um mar de gordura cinzenta a debruar-lhe as solas. Em redor, no lago onde
mergulhara as minhas extremidades, boiando na crosta escurecida, uma ou outra
peça de roupa indistinta, excrescências da laranjeira próxima, folhas envelhecidas a vogar
mansas. Do seu pedestal de argila, a prima soltou um bom dia envergonhado e a
mulher virou meio tronco rápido, a mão da escova a abrandar sobre o tecido.
segunda-feira, 7 de outubro de 2019
Carrossel
Quando
a paisagem se encheu de novidade começou a desinteressar-me. A espaços, nasciam casas grandes e bonitas,
mas o mais eram sobreiros uns a seguir aos outros, campos e campos cheios deles.
Rodávamos fora do meu mundo. Desanimado, encostei a cabeça no vidro e, tão bem
sentado como nunca estivera, fosse por
cansaço triste ou saturação de novidade, adormeci no embalo do motor. No meu
sonho, a prima desvelada, vens viver comigo, a partir de hoje chamas-me prima
Felicidade.
Acordei
com a cabeça recostada no assento, a prima fixando-me compassiva, ó filho tive
de te puxar para aqui, ias só aos pendões contra o vidro. Eu ainda sob a
influência do sonho, a prima chama-se Felicidade?, mas ela numa estranheza
balofa, a verruga a aproximar, pois tu nunca ouviste a Emília chamar-me? Chamo-me
Eugénia, sou a prima Gena. Emudeci, os
meus sonhos um conforto de miséria.
Lá
fora, no aperto de luz e calor, a brancura de casas aconchegadas umas nas outras, prédios, uma
praça comprida com igreja ao fundo, um sino desmedido de vigia na torre. O
automóvel vagaroso e encalorado passando no largo. A meio, uma estátua de brilhos
suados, árvores tolhidas de esparavelas de sol e gelo, bancos de madeira
descorada a toda a volta, gente que não tinha onde ir conversando nas fitas de
sombra - se calha, ainda hoje a conversar naquela praça à soalheira -, e nós
mirones com destino, rolando devagar. O taxista para a prima, é preciso cuidado
dentro das localidades, ou ainda passamos alguém a ferro, o pessoal tem pouco
hábito de automóveis e atravessa sem cautelas. E logo mudou de assunto, que isto
é assim, se é para multar, a GNR só vê táxis e camiões. Não fazem pêva e ainda
prejudicam quem trabalha. E de dedo em riste, apontando a autoridade que
flanava ao fundo da praça, olhe para aquilo, levam a vida ao alto, o trabalho
não os faz dobrar a espinha; por isso estão gordos, já viu algum GNR magro. A
prima olhava e, isenta de rancores à força da lei, assentia em silêncio brando, talvez a comparar-se,
não sou tão gorda, uma dietazinha e fico igual aos mais.
E
de novo um raro de casas, uma criança num quintal a olhar-nos de pés esquecidos
nos pedais da bicicleta nova, um tractor que lavrava transportado por uma nuvem de
poeira, uma carroça de ciganos de certeza a tilintar que os ciganos gostam de
guizos; os pais à frente na condução das bestas e as crianças atrás, taipais descidos e pernas
penduradas a desafiar perigos. E nós a ultrapassá-los. O taxista num murmúrio
concentrado, é passá-los minha senhora, livre-nos Deus de desastres com ciganos, cai-nos a
família toda em cima. E deitando-me um olho fatalista, já falta pouco, a casa
fica no campo, já cá vim uma vez ou duas. Pode ser que gostes, há lá muitos
como tu, isso é verdade.
domingo, 6 de outubro de 2019
Carrossel
A
vida corre mansa durante anos mas, num arremesso, pode mudar-nos a
circunstância. Bastam umas horas, um dia, a ligeireza de segundos. Talvez o
imprevisto seja o ponto de viragem na história, um rápido no leito do rio, tumulto de velocidade que altera o curso
e nos cavalga em atropelos de novidade. Dei por mim no banco traseiro de um
táxi, a prima anafada a convencer-se, vais ver que gostas. E enquanto ela
cismava, eu despedia-me de todas as árvores. E do caminho.
Logo
após o arranque passaram, bem devagar, as brincadeiras de Tarzan. Eram árvores
folhudas e cheias de riso e apostas, via-lhes da janela as lianas despidas,
oscilando vagares; em espera de braços e mãos. Agarrávamos firme e, num golpe de
pernas e impulso de corpo inteiro, transportavam-nos à árvore seguinte. Depois,
na trepidação de motor regulado, o pinheiro manso à curva, sombra debruçada
sobre a estrada, a largar pinhões aqui e ali e nós à coca de pinhas arreganhadas
de calor e em cálculo do lugar de queda da semente; na aspereza do tronco, dois corações entrelaçados, a força de
prego ou canivete a entortar nas rugas de pinho. Dois corações solitários, sem
nomes ou seta a trespassá-los, unidos na carne viva da árvore e que os nossos intrigados
dedos percorriam amiúde. Mas já a lonjura dos eucaliptos se sobrepunha. Gigantes
de beira de estrada, ofereciam-nos aroma de saúde que mais tarde configurei
ser de farmácia. Na sua sombra havia um cepo decepado a meia altura que eu
promovera, era “a minha cadeira”. Largava a mão de tia Emília e corria
desalmado a sentar-me. Ficava ali no gozo de merecido repouso enquanto ela se
aproximava a passo certo, carrego de compras à cabeça. Quando passámos e o
olhei, uns passaritos debicavam-no e enchiam-no de passinhos saltitantes.
Leguei aos pássaros o meu trono. E no fim da subida, o táxi a arfar de cansaço,
surgiu a última casa, a barraca de tia Maria dos tremoços, tábuas encostadas
umas nas outras e que tanto espreitávamos na curiosidade da velha a enxotar-nos
como a cães, proibindo assomos. Portanto, era bruxa indiscutível, tinha
seguramente um caldeirão onde mexia orelhas de morcego, mais as ervas que a víamos
apanhar nos baldios e, estávamos certos, sacrificava junto um dos gatos vadios
que sempre a acompanhavam; é sabido que as bruxas precisam de sangue nas poções
mágicas. Neste entrementes, o táxi deixou de soluçar e o motor engrenou a
ronronar fácil. Mas ainda vi tia Maria a espreitar o automóvel. Ao reconhecer-nos,
fixou-me. Os nossos olhos encontraram-se e aconteceu o impossível, espalhou-se por entre as rugas
um sorriso triste, amarelo do sol antes de chuva, e levantou a mão num aceno.
terça-feira, 1 de outubro de 2019
O Coração do Coração
De
tarde, Maria Alzira Seixo e os tradutores a afirmarem, cada um a seu modo, a
dificuldade, o desafio de traduzir autor tão complexo e intraduzível. E um
deles num português curiosíssimo: Lobo Antunes diz-me, “na impossibilidade de
tradução, sê criativo”.
A
finalizar, o autor. A sua estranheza perante a própria velhice e o efeito que a
imagem tem nele. O reconhecimento de que viveu a escrever. As lembranças e a
memória que não sossega, não dá tréguas, mas também é refrigério. A memória de
elefante que, digo eu, lhe dura a vida toda e oxalá se mantenha. A memória da
mercearia do careca onde o Nuno, e por certo ele mesmo, comprava os cigarros
que fumava enquanto escrevia; o irmão João e o último encontro que narrou
emocionado tal qual a crónica que escreveu; o avô visconde que o levou a Pádua
a fazer a primeira comunhão (outra crónica); o mesmo avô que era militar e
tinha uma veia humorística de onde virá o seu próprio humor tão fino como
cáustico, e de que contou peripécias engraçadas; O seu agradecimento ao
contacto a que chamou toque, dos homens da sua vida e dos que, não o sendo, o marcaram - o abraço de despedida do
João, o do avô, o de Paulo Portas (crónica). O seu encanto pelo dizer-se da
ternura masculina, a amizade entre homens. O imenso amor a Portugal e a saudade que traz quando regressa "apetece beijar o ar, os cheiros, a luz, a cor do céu que é única..."
E
depois, a imposição da Ordem da Liberdade pela mão do Presidente Marcelo. E Lobo
Antunes meio atarantado, sem palavra. Sob o benévolo olhar de três presidentes
da república. Mas sobretudo, valha-nos isso, sob o nosso olhar. Comovido. Grato
até ao infinito de cada um. Tudo dito em palmas sem fim.
Fiz
não sei quantas bolhas nos pés, esqueci o almoço em casa, o cinema falhou-me e
não me deixou vê-lo. Mas Lobo Antunes foi o máximo. Creio bem que tudo aconteceu assim por
ter de ser: era o seu dia.
E
aposto que no curso das horas desligou o aparelho algumas vezes. Ou, como meu
pai, nem precisou fazê-lo. Ficou-me a última frase, “O afecto é a forma suprema
de elegância”.
O Coração do Coração
Começo
a habituar-me à ideia, os velhos dormem pouco e chegam cedo a todo o lado. Era
sábado. No auditório da Gulbenkian, um mar de cabelos brancos e grisalhos,
semeado de onde a onde por caravelas escuras ou loiras, quiçá tingidas, viu
chegar a horas o sujeito da homenagem: pesado, lento, andar dificultoso a socorrer-se de ombro familiar,
aparelho auditivo no ouvido. Não havia como negar carinho a quem nos deleitou durante quarenta longos
anos com o seu trabalho. A sessão abriu com o testemunho de Henri Lévy,
escritor e ferveroso admirador da prosa de Lobo Antunes. E foi abertura
digna de ambos os autores. Um Henri Lévy muito francês, alto, flexível,
aprumado e penteado a preceito, boa voz e inteligência discursiva de fazer
inveja aos melhores; dissecou de forma original e profundamente conhecedora a
obra de Lobo Antunes. Um primor. E foi tanto assim que Nuno Lobo Antunes
iniciou a sua homenagem dizendo, vou citar as palavras de minha mulher ao
intervalo, “filho, depois do Henri, o melhor é dar-te uma embolia e ires de
urgência para Santa Maria”. Mas Nuno Lobo Antunes deu um testemunho emocionado
e muito vivo acerca da sombra que o primogénito lançou sobre o quinto filho que
ele é. Começou por reconhecer que o irmão lhe roubou todas as imagens e
histórias da família e o deixou sem circunstância familiar que possa lembrar
por escrito. E terminou dizendo, “meu bebé, amo-te muito”. Pelo meio ficaram
pactos de adolescente que mandava comprar cigarros, promessas, pequenos nadas
de vida familiar tão diversa do comum de quem ouvia. E o testemunho de Daniel
Sampaio, embrenhado em recordações, esquecido daquele olho clínico e meio
tétrico que lhe surge quando fala como psiquiatra. Eram as memórias do colega
de trabalho e amigo já com obra publicada, incentivando a escrita do jovem António.
Convicto do seu valor, levou às editoras o manuscrito de Memória de elefante.
Um êxito apesar da pancada dos críticos portugueses. Que só Agustina e uma
personagem que já esqueci louvaram a obra. Recusada por duas editoras. A
terceira, uma editora pequena, aceitou publicar. E,naquele verão, toda a gente
leu “Memória de elefante”, eu incluída.
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