quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Um Mar de Sargaços

 

        Na minha aldeia que não chega a sê-lo - é um lugar -, segmento balizado na beira da Nacional por duas placas, existem algumas singularidades das que caracterizam lugarejos breves e tão sem importância que nem constam dos mapas. Teve um nome antigo que poucos conhecem: era feminino e aludia à natureza do solo - inda hoje não consigo entender se aquela designação da Nacional, que lhe assinala princípio e fim, é masculina ou feminina. Quem a terá inventado?! Preferia esse nome que lhe delatava a natureza do solo e tinha género. O actual, definitivo e andrógino, pende para o masculino.

        Pois neste lugar de abundante pobreza, tudo foi difícil; não chegava a electricidade e a água vinha dos poços e era emprestada ou vendida a terceiros – nem todos tinham a benesse de poço próprio e a situação mais comum era a da partilha, o poço era aberto pelo esforço dos homens interessados em ter água sua e situava-se no limite dos terrenos, metade para cá metade para lá. Que me lembre, a partilha da água era pacífica. É verdade que abundavam brigas de taberna e sovas nas mulheres com maridos de mau vinho ou pior carácter. Em compensação, muito ali aportava e havia indulgência geral para casos escabrosos: homens com duas e três mulheres, todos cohabitando a mesma casa em preclara harmonia, sem gritos ou ciúme que se notasse; irmãos que viviam maritalmente como coisa natural; gigantes descalços e brutos de feição, com alma de infância que as crianças não reconheciam fugindo deles a sete pés; mulheres asseadas e trabalhadoras, cheias de filhos, cada um de seu pai, mas que conservavam o marido primeiro que todos conheciam por "corno manso", um senhor bem apessoado que não trabalhava ao campo, usava gravata e fora adoptado pelos autóctones; amantes de só de noite e muito sui géneris por serem ambos livres e muito se esconderem com pontinhas de rabo à vista; senhores importantes que ali depunham as suas meninas que os nativos mal tinham ensejo de espreitar porque viviam na clausura de  casas-castelo, uma formosura de sebe-soldado a defendê-las. Tinham estatuto e modo de vida acima da populaça, não se misturavam e saíam de automóvel apenas com os protectores. Eram supremamente admiradas pela condição de saberem prender a si gente graúda.Os filhos dessas relações frequentavam a escola de todos e eram admirados por qualquer: vestiam bem, comiam lanches invejados até ao anátema do sonho, usavam material escolar diferente e muito mais bonito e tinham todo ar citadino que nos faltava. Enfastiados, bebiam sumos de laranja em frasco,  que levávamos ao limite da inveja.

        É evidente que, como em lugares semelhantes, havia e inda há algum vocabulário próprio e de uso corrente a acompanhar costumes e hábitos: Limitamos o termo “aventar” a “deitar fora”; não se diz “vou a casa de”... mas: “vou à da/do”; e dizemos, “estou desasada” querendo referir-nos a um cansaço extremo provocado por trabalho extenuante. 

    Também eu, se partes, quando partes, fico “desasada” no sentido mais estrito e não usado por cá: levas contigo as minhas asas, fico na terra, focinho rente ao chão, olhos de cão mal morto. Contudo, o amor tem de ser leve ao outro, não posso e nem quero deixar-te perceber o peso da tua ausência. Podia utilizar termo mais bonito, mas somos de onde somos, "desasada" é a a forma que me pertence. E que a vida te não pese e sejas feliz.

domingo, 2 de agosto de 2026

O Copo Meio Cheio

 

        Hoje prometo festejar-te. Vieste. Por mim. Não interessa que seja um dia de trabalho e tenhas reuniões umas atrás das outras. Por mim te levantas cedo e almoças em minutos. Sei que esses minutos de descanso existem por um motivo: ganhares tempo ao fim do dia. E prometo dar-te do que preferes: vou cuidar que o vinho esteja bem gelado e o petisco saia a preceito.

        Prometo não lanchar de avental e usar um vestido que achas bonito. Prometo que chego a beber um nadinha de vinho que adultero para um brinde enquanto tu, em ritual de desaprovação, franzes o rosto sorridente.

        Mais tarde, prometo uns doces e uma sangria de champanhe para as tias e não te forçar a estar presente. E prometo o que nem é de prometer: gostar sempre de ti e ser grata à vida e ao Deus que te trouxe até mim. Porque és um dos meus doces enlevos, filho. Ter-te hoje por perto, significa.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

Esta Lisboa que Amo

 

         E logo uma viagem embebida em saudade na linha de Cascais a que chamo linha do Estoril e, no presente, só acontece por ter de ser, em nome de uma amizade outra e antiga. Entro no comboio com a sensação de que maculo o passado. Sei que a sacralidade se evolou: não sinto a ansiedade antiga que me precipitava o coração mal punha o pé na gare do Cais do Sodré e me deixava embasbacada no destino, olhos parvos virados ao mar, pensando que ela o via todos os dias lá de cima e que, porventura, uma vez ou outra, frequentasse o comboio. É assim o amor, quer pisar onde pisam os pés de quem gostamos, ter o gosto de olhar o que vêem os olhos do outro, imaginando o que sentiu ou sente quando abre a janela ou apenas corre a mão de habitual delicadeza no étamine simples que conheci nas janelas e tão adequado ao despojamento próprio. Quanto eu gostei e gosto dessa filha do Douro e de Poiares da Régua que como tantos dedicaram a vida ao vinho do Porto que inda provei por bondade sua. Depois saía do impasse comovido e começava a subir até ao destino. Na escadaria até à porta principal, o meu coração entontecido transbordava. Tocava a campainha, entrava e aguardava na sala de visitas o suave roçagar da roupa, já que os passos eram silentes. Ela entrava e trazia consigo o odor a lavanda. Em sua homenagem (alguns lhe ofereci), mora no meu quarto um Ach Brito que gosto de aspirar. É um bocadinho da minha força diária.

        Desta vez, rodeada por bandos de garotos destinados à praia e turistas que rumavam a Cascais e Belém, toda eu era olhares ao relógio do telemóvel. Não sei porquê, mas deparar com o forte onde permaneceram os presos políticos e admirar os longes do Bugio, emociona-me. Nada na beleza daquele mar me afecta tanto como a imensa solidão do farol e mais as histórias que deve guardar, ou a prisão onde vi a firmeza delicada de Sophia segurando uma flor, enquanto nascia a liberdade dos presos políticos nesse imortal Abril de setenta e quatro. Vou contando as estações e, por fim, saio, subo até à paragem de novo autocarro e entro grata à boa vontade do motorista que já partia.

        À medida que nos afastamos, surgem moradias desarrumadas e rotundas novas e espaçosas. De quando em vez, um aglomerado de casas antigas, ruas estreitas, velhos amarelentos nas portas de café, o ar pesado de barbas por fazer e mulheres guardadas não sei onde, a contrastar com o panorama do primeiro autocarro, turistas leves e felizes embora um pouco desorientados na balbúrdia, a patine de Lisboa antiga percorrida por solta garridice juvenil em roupas claras ou alegremente coloridas, pernas e braços ao léu, chapéus e bonés a salvar alguns turistas pouco habituados ao calor do sul europeu. Uma chusma de automóveis estacionados causa os malabarismos do trânsito e, de onde em onde, na vez das rotundas desafogadas, um edifício com pergaminhos e história, imagino que lar possível de grandes senhores de antanho. No subúrbio, os ossos do autocarro chocalham a amargura sofrida em anos e anos de trabalho e maus tratos. É outro país. Passei Tires e, por mais olhares, não descortinei a prisão. Enfim, chego e cumpro a visita que me propus.

        O tempo corre a maratona quando conversamos com quem vive intramuros e tudo pergunta do mundo conhecido. Saio para o transporte, mas a tecnologia barra-me a saída. Corro abaixo e acima a queixar-me que estou presa e que e que… a porteira, velha e coxa, acompanha-me de comando na mão a resmungar, “mas eles vieram arranjar o portão hoje mesmo”; e vai descendo e carregando no botão do comando. A meio do percurso, o portão começa a deslocar-se e corro desentraitada até à paragem gritando obrigados enquanto atravesso a estrada. E o autocarro já lá, no seu posto. A bondade dos dois motoristas de autocarro é directamente proporcional à velhice e achaques dos mesmos. São dois bons homens guiando viaturas em mau estado. Também este motorista esperou por mim. Se não fora a simpatia de ambos teria perdido o comboio para casa.

        No regresso, continuamos a chocalhar. Quão diversos são estes passageiros. Quase todos negros. Verifico a presença de gente nova, sobretudo raparigas. São lindas, quase todas de cabelo natural e apanhado (o dia está quente) aqueles olhos grandes e negros com a expressão que me parece sempre a do bambi dos desenhos animados: têm qualquer coisa de líquido, digo que relampejam ternura dos trópicos. Estas garotas não são alegres e barulhentas como os garotos da praia, mas terão a mesma idade. Todas vestem calça de ganga azul clara ou branca, cintura alta de vespa (vespíssima, diria Pessoa), esguias de não destoar de qualquer modelo de passerelle. Seguem sérias e sem conversa. Não parecem ir de passeio. Talvez se destinem ao turno das dezasseis à meia noite. Ali, toda a gente parece ganhar o pão com a força dos braços e não em trabalhos “limpos” como diziam os mais antigos que eu. Talvez sirvam à mesa, sejam cozinheiras e ajudantes de cozinha, façam o serviço doméstico em algumas casas, vão buscar os meninos de boas famílias à escola.

        Sentadas defronte, duas loiras postiças falam de unhas de gel, uma delas mostra as mãos acabadas de retocar, talvez para convencer a parceira que tem o verniz em decadência, duas ou três unhas descascadas por inteiro. Saem ambas de braço dado, facto tão bonito quanto em desuso. Vi-as dobrar uma esquina, decerto em busca de destino comum.

        No comboio de regresso, a viagem de pé fazia-nos olhar (e invejar) quem vinha da praia e conseguira sentar-se. Os sentados dormiam a sono solto, pendendo a um lado e a outro, eu temendo pela cabecita suada da criança que tombava dos braços da mãe, ela mesma em crise de sonolência. O poder do ar condicionado, perante a multidão invasora e estoirando de calor, era nulo. E nós de estátua, à mistura com cadeiras de praia, chapéus de sol, colchões enrolados e esteiras, crianças quase submersas mas ainda assim agarradas a sacos de baldes e pá, mochilas de campismo, canas de pesca e sei lá que mais. Enfim, um mar de gente e de artigos de praia e mar que não nos davam espaço para cair e que, com grande esforço e muito empurrão simultâneo ao consciencioso, “com licença, com licença, é para sair, com licença”, se apertava a dar passagem aos felizes contemplados.

        Promessa: não repetir a viagem em tal horário.

domingo, 19 de julho de 2026

Esta Lisboa que Amo

 

        Ir a Lisboa faz-me bem à alma. Desencrava-me, vejo gente, entro em lojas, corro de um lado a outro porque tenho poucas horas para muita função. E apesar disso, gosto.

        Viajando de carro, vou pensando pelo caminho no que esqueço em outras horas. O quotidiano encarreira para o comezinho, espapaça-nos o tempo em mesquinhices tão necessárias como “aborrecentes”, para citar uma das filhas de Lobo Antunes na sua contundente linguagem de infância. Portanto, em viagem ganho espaço mental: penso nos meus amigos, no quanto os gosto e no desejo de visitá-los; e penso nesses que nunca vejo e de quem tenho inexplicáveis saudades, quem sabe me esqueceram e nem merecem o pensamento; nesta pausa, erguem-se as coisas que gostaria de fazer e sei impossíveis, as que ainda posso fazer acontecer, etc. 

        Se vou de comboio - acontece menos vezes mas prefiro, leio um livro ou medito levemente na companhia -,  escolho sempre um dos dois bancos virados um ao outro e com mesa a meio. Não que precise da mesa, apenas fico de frente para duas pessoas e com outra ao lado. As “pessoas de idade” têm a vantagem de não serem notadas e poderem observar, facto hoje muito facilitado pelo uso de tablets e telemóveis. Os meus vizinhos estão mergulhados na sua pequena bolha. É raríssimo encontrar alguém com quem se possa entabular uma conversa, mas é vulgar ouvir as conversas mais ou menos longas dos meus vizinhos de viagem ao telemóvel – será porque aproveitam o tempo e súbita lhes surge a necessidade de ouvir uma certa voz (invejo-os). Quando os lugares não eram marcados, entrava atrelada a uma colega ou alguém conhecido e conversávamos a viagem toda. Hoje, viajar de comboio assemelha-se ao ovo Kinder, traz uma surpresa. Não acho mau. Gosto de surpresas (boas).

    Numa destas visitas, e já na capital, meti-me num autocarro julgando-o a via de maior prontidão. Grande lorpa! O transporte devia estar em início de viagem e deu voltas e mais voltas (apesar do google maps me dar o percurso, o autocarro chegou e atirei-me lá para dentro sem consulta prévia, olhei apenas ao destino). E só não apreciei mais a paisagem por ter hora marcada no dito destino e ver os minutos “correndo correndo sem nunca parar/caminho do rio em busca do mar” (parafraseando versos de um livro de leitura da antiga primária, acerca da água; creio). Mesmo dentro da pressa, deu para ver edifícios que devem ser soberbos, alguns dos quais não faço ideia do que sejam porque não consegui ler as inscrições que ladeavam a porta principal; mas passei por um miradouro cheio de gente e de onde Lisboa aparecia linda, vestida de telhados e folhos de brancura bordada a gosto, mais aqui e mais ali; Entrevi a entrada do Jardim Botânico e ignoro se sabia da sua existência; reparei num polo universitário mesmo ao lado e de que não fazia ideia; o Príncipe Real que nem sabia onde ficava (ainda não devo saber) e estava muito cheio de gente nova e acalorada; alguns edifícios retocados e luzindo a sua época - ignoro se apenas no exterior; outros quase em queda livre, facto que me penalizou em extremo. E os semáforos apostados no vermelho e que, se por um lado me permitiam tempo extra para os olhos, por outro, atrasavam-me ainda mais.

      (cont.)

domingo, 12 de julho de 2026

Pirilampos na Noite Escura

 

        Apazigua-nos, é dever cumprido deslocarmo-nos a lugares onde alguém discorre sobre gente das letras que admiramos. Vale em dobro se se evolou a presença física do homenageado e só na obra está presente. Que ao leitor apenas a obra interessa; a relação entre ele e o escritor é o livro. Segui a regra: vivi uma relação feliz com Lobo Antunes por mais de quarenta anos; guardo de todas as obras a boa lembrança de encontrar alguém que entende a dor, que sabe da amálgama de que somos feitos e a entende sem julgar. Guardo alguns episódios comuns que ele esqueceu e em mim foram importantes: o que marca o leitor, não tem de deixar vinco no escritor - no leitor a relação é de um para um; no escritor de um para inúmeros. Portanto, compareci numa das sessões de poesia a que José Anjos preside anualmente no Âmbito Cultural do El Corte Inglês. Receava não poder comparecer, a selecção da assistência, cada vez mais apertada, impediu-me a frequência de várias conferências e cursos no presente ano. Quis a boa sorte que, ora, estivesse presente.

        Durante a sessão ouvi ler crónicas que conheço e tenho em casa; versos de fados; poemas breves e mais longos, alguns com a verve satírica que lhe vivia na mente; entrevistas sérias e contundentes ou quase em carne viva. A meu lado uma jovem senhora bebia tudo de enfiada, o corpo inclinado para a frente; não me olhou uma única vez, não contemplou a ampla assistência; mãos no colo apertando uma malinha jovem, esguia, cabelo liso, fino e castanho a bater nos ombros, tez pálida, boca pequena e delgada que se não descerrou. Uma Nossa Senhora dos tempos modernos. Seria uma leitora voraz do autor, tanto parecia beber as palavras que escreveu. Desejei que não lhe esteja a fazer falta vê-lo, ou que apenas queira vê-lo ali, no que escreveu. Mais que ouvir o conhecido, foi ela a comover-me. Contudo, não foi sentimento geral. Quando algum público se compenetrou do “em que consistia a homenagem”, foi saindo. Há factos que me fogem ao entendimento. O que esperavam?! Uma reencarnação? Os irmãos que restam e nem sei quem sejam? A mulher se a tinha? Pelos vistos não lhes bastava a apresentação que foi fiel ao próprio Lobo Antunes “ a melhor biografia de um escritor são os seus livros”.

        E lembrei-te no confinamento a que te obrigou a doença, a cama de onde saíste para a morte, uma visita ou duas por semana. E isto durante mais de cinco anos. Vizinhas que nunca te visitaram e lá estavam no funeral, amigos impressionáveis que não puseram pé em tua casa, querendo ignorar a alegria que sentias quando e se o fizessem; família que ia ver-te uma vez no ano ou nem sequer isso, primas que nunca pisaram o teu chão. Parentes que vieram para assistir ao transporte do teu corpo sem vida. Vieram a quê?! Talvez a seres filha única e herdada. Não escreveste nada, apenas viveste. Não casaste. Não tiveste filhos. Escolheste por tutor um amigo de infância.

        É isto a vida. Também.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Requiem

 

        Pouco sabia de ti antes da doença. Foi o teu olhar meio perdido que me fez aproximar. Pedi o teu número, liguei. Aceitaste um chá. Encontrámo-nos algumas vezes. E depois sumiste. Não insisti, era a tua vida, tinhas os teus amigos de sempre. Passou talvez um ano e alguém me falou de ti, que entraras num processo de consulta atrás de consulta sem diagnóstico preciso. Ainda assim limitei-me a alguns sms a que respondias sem outra proximidade. Enviei-te um sms de Natal e respondeste com o nome da doença -PSP, filhos e sobrinhos (dois foram teus alunos) rapidamente procuraram na net, todos desconhecíamos o que fosse. Visitei-te no pós Natal e passei a fazê-lo semanalmente. Assisti às perdas de equilíbrio, às quedas, ao partir de alguns ossos, às nódoas negras. Mas nesse tempo ainda te deslocavas pela casa. Breve passaste ao andarilho e logo acamaste numa dificuldade progressiva de tudo, que desembocou na incapacidade: deixaste o telemóvel, a escrita, a leitura, a TV; tudo se foi tornando impossível: falar, deglutir, mexeres-te na cama sem cair. E sempre consciente da degradação. Tiveste uma cuidadora ímpar e com a força suficiente para te carregar em peso quando necessário. No último ano, a degradação era tão forte que as visitas me faziam sofrer antecipada e posteriormente. Por vezes adiava um dia ou dois, atardava-me cobardemente juntando coragem para ser bem disposta e te fazer rir; no íntimo, sabia que ia ver-te pior, em cada semana perdias alguma capacidade. Na passada semana desejei que morresses, te libertasses dessa amarra que te tolhia dos pés à cabeça. Tempos houve em que o suicídio te parecia a melhor solução, discutimos muito tema, esse foi um deles. Mas nada podias, perderas toda a autonomia. 

        Morreste por erro médico. Diz o ditado que Deus escreve direito por linhas tortas: foi o momento da libertação. Voaste.

sábado, 4 de julho de 2026

A Leveza da Vida

 

        Cheguei de férias e pensei postar sobre esse tempo que é inteiro lazer. Esqueço a casa e suas represálias, o portátil faz retiro espiritual e o tlm cinge-se ao uso mínimo, que é como quem diz, só para filhos. Saiu um post diferente. Parece-me que o motivo é má consciência – tanta guerra inútil, mas que mata, derruba casas, destrói vidas e haveres. Tanto mal reunido na mente dos homens com poder, esses que deviam ser exemplo; e a voracidade do fogo a ajudar, comendo hectares de vida. Dói abrir a TV e assistir a tanta chama enraivecida, verificar ao minuto a violência progressiva desta máquina de destruição natural durante estes dias de sobreaquecimento. Portanto, não apetece contar de quartos limpos, varandas arejadas e viradas ao verde bem tratado onde quase ninguém passa e eu em leitura remansosa com paisagem ao fundo; e quase me envergonha descansar os olhos na horta cuidada e prolífica, antecipando o mar e uma praia em tudo semelhantes ao que considero minha pertença não exclusiva, excepto na tepidez da água que nos abraça íntima, gesto que repetimos a gosto.

        É verdade que não existem cardos do mar azulando pelas dunas, nem aquelas espantosas flores brancas que parecem açucenas e me sideram em cada vez que as contemplo enraizadas na areia, digo com os meus botões que quase flutuam por entre os grãos, sem água doce que lhes valha. Acredito que sejam tão lindas como as flores do deserto. Abismo nestas maravilhas improváveis da minha praia. Que ora nem vejo por ter encontrado caminho mais fácil e que não danifica a duna.

        Mas também é certo que me antecipo à multidão turística, e nas horas de calor intenso descanso no quarto e volto mais tarde para a encontrar igual, salvo a água mais longe ou mais perto, segundo o que a maré determina. É um lugar como tantos: vive da animação turística em época balnear. Tem bairros senhoriais que são casas de praia e ficam na sua maioria fechadas durante parte do ano. Uma pena! As ruas, a fachada e a pintura são iguais e com barras: brancas com barra azul, azul com barra branca, amarelas com barra branca e o inverso. Existe um passeio junto à linha da costa bordado pelo verde das árvores e onde passa o que suponho seja um riacho atravessado por várias pontes pequenas. Mais à frente, um enorme quadrado de água por certo marítima, surpreende. Apetece andar de bicicleta; neste lugar encontrei jovens e menos jovens pedalando.

        Talvez por ser madrugadora, em qualquer hotel, entro na sala de pequeno almoço no primeiro quarto de hora de abertura. Ali, os ingredientes apresentavam extensa variedade, possibilitando pequenos-almoços de natureza diversa: do muito frugal ao mais pesado, com bife, feijões, ovos com bacon e sem, ovos estrelados na hora, etc, etc. Havia pouca gente, quase toda portuguesa, e demorava-me a olhar os comensais ocupados a encher pratos sobre pratos e a digeri-los com afã digno de nota. Havia neles um isolamento de tudo, eram eles e o alimento; não levantavam os olhos dos pratos e, pressurosos, devoravam-lhes o conteúdo como se disso lhes dependesse a vida (em parte dependia). Eram tão velhos como eu, alguns um bocadinho mais. O que leva alguém a alimentar-se com tamanha sofreguidão?! Não é nada poética a imagem mais nítida que me ficou das férias, mas gravou-se-me aquela pressa na mastigação e o vaivém de pratos que os funcionários iam retirando e eles repondo. Encerrado o expediente, levantavam-se prestes e abandonavam o que me convenço hoje ser o seu santuário. Isto porque, logo que a sala de almoço abria portas, era vê-los, formiguinhas afadigadas. E eu que me considero pessoa de “boa boca” e não debico, pergunto-me como e onde encontravam o apetite para almoçar. Era refeição em que não os seguia, estava acompanhada e o restaurante repleto. Quem sabe comiam apenas uma saladinha e estou eu aqui numa de má língua...

domingo, 28 de junho de 2026

Necessário e Suficiente

         Hoje somos diferentes: Gozamos períodos de férias, quase não há as tabernas de antigamente e o mundo português encheu-se de cafés - é de bom tom haver uma taberna de degustação cuja não é sequer parente afastada das tais alumiadas a petromax, com as pipas à vista e um cheiro a vinho tinto que se incrustava nas paredes e revolvia o estômago, de mistura com a saturação de suores múltiplos e de vários dias, que o banho era graça de dia santo. Hoje, tomam-se os banhos que cada um entenda, escolhemos a bebida, petiscamos ou fazemos refeições completas. A vida quotidiana mudou. As mulheres e alguns homens sentem-se gratos às máquinas que lhes poupam trabalho, saem a sós se assim o entenderem, ganham a sua subsistência, caminho de cada um para ser dono de si. Que bom podermos escolher o que desejamos para o almoço ou o jantar. Que gosto ter profissão que assegure cuidados que antes nem havia. E que supremacia se, profissionalmente, fizermos o que gostamos.

        A escolaridade obrigatória foi prolongada, portanto, a dependência dos pais existe até mais tarde, a juventude começa cedo a sair à noite e prolonga manhãs na cama quando as noites esticaram ao extremo. Aos fins-de-semana e noites de festa, distribuídos democraticamente entre os dois sexos, os cômas alcoólicos tornam-se corriqueiros em hospitais e centros de saúde. E apesar dos preservativos e da pílula do dia seguinte, continuam a surgir mães adolescentes. São em menor número e, na maioria dos casos, os motivos da gravidez diferem dos antigos. A solução também pode diferir, o aborto foi legalizado. Não há dúvida que as mulheres são quem mais beneficiou do regime democrático. Contudo, a morte por violência doméstica continua a aumentar. Pergunto-me se o álcool anda metido nas brigas entre pares; se será por ausência de barreiras no respeito que é devido ao outro seja ele quem for; se são mentes frágeis que se deixam contagiar por filmes e redes sociais; se há muita energia que não se liberta por uso excessivo de telemóveis e outras conexões nas quais se gastam horas e horas; depois falta paciência para os da casa e o disparate sai agressivo à menor contrariedade.

        O que mais se verifica é que, antigamente, no tempo das tabernas, o mal era quase sempre de raiz exterior: a miséria, a falta de instrução, a falta de cuidados de saúde… a taberna era o limbo dos homens e o castigo de muita mulher. Hoje o mal vem de dentro, é individual e comum de muitos. Somos mais instruídos, mas nem por isso melhor formados; temos excesso de informação e raro sabemos distingui-la ou sequer pô-la de lado. Todos sabemos ler, mas interpretar continua a ser função de alguns.

        E eu que vinha para contar do mar e das férias, dou por mim neste atoleiro tão questionante como questionável. Fica para uma próxima.

        Divirtam-se.


quinta-feira, 25 de junho de 2026

Necessário e Suficiente

 

        O povo de que nasci não conhecia férias, nesse tempo não havia pausas. Entristece-me saber isto e mais que sabê-lo, ter assistido a essas vidas de trabalho que, sobretudo nas mulheres, era por demais intenso. A pausa, a existir, denominava-se mudança de uma função a outra. Alguns homens também entravam neste rol; chegavam a casa, comiam uma bucha e iam semear e vigiar o crescimento do plantio e, se necessário, regavam a horta que ajudava a sustentar a família. A horta era o lugar sagrado onde à força dos braços juntavam a fé cega na terra; iam buscá-la não se sabe onde, que ela, pobre e esfarelada, parecia ingrata aos que a não conhecessem, não a eles que lhe sentiam a miséria dos nutrientes e a vontade de germinação. Desconheciam o termo resiliência, mas tentavam sempre, puxavam por ela com carinho e velavam o canteiro de nabiça ou a couve tronchuda quase com o mesmo empenho com que ensinavam os filhos pequenos a dar os primeiros passos. Era admirável vê-los debruçados sobre a terra, aqui um montinho de hortelã, ali um rego de cenouras, uma correnteza de cebolo e outra de alhos; além, salsa e coentro a vicejar. E punham canas no feijão de trepar e sacudiam caracóis e outra bicheza, as galinhas de olho no verde hortícola e enxotadas na tardinha quando enfim o galinheiro se abria à liberdade breve de ciscar no lusco-fusco. Passava-se isto um nadinha antes de engolfarem no poleiro onde, por misericórdia divina, se equilibravam até o dia clarear e  haver os gritos de um galo esparvoado; mal soava o clarinete do macho sobranceiro, surgiam estremunhadas e prestes, pata aqui, pata acolá, sacudindo o sono, carraça pegadiça que se escondera nas asas. 

        Contudo, a maioria masculina, suada e suja, barba a sombrear empoeirados vincos do rosto, negava-se ao lar e parava na taberna em busca de alegrias avinhadas que caíam mal na carteira e não poucas vezes eram rastilho traiçoeiro em família. Ser taberneiro era um posto: atrás do balcão, o taberneiro sentia-se alguém, aviava copos de cinco e de dez, uma aguardente ou outra em copinhos pequenos e ia limpando com um trapo descolorido de tão surrado, os círculos arroxeados do fundo dos copos. Torneiras de água corrente não havia. Atrás do taberneiro, ao lado das pipas de vinho, um alguidar cheio de água que manhãzinha era limpa e à noite tinha a cor do vinho tinto, era serventia da casa. Havia muito menos higiene, lavar os copos era "passar por água". Os mais inveterados iam ficando e só desencostavam do balcão renitente à invectiva do taberneiro, “ já não avio mais nada, tudo p’ra casa, já passa das dez, passa aí a Guarda e ainda levo com uma multa”.  E havia quem, para desanuviar, jogasse o chinquilho e o dominó entre rodadas pagas à vez. Com a TV ninguém sonhava; lá bem no alto, o som do rádio abafava na algazarra. Fazia-se um silêncio de respeito para ouvir Amália, o conjunto Maria Albertina e a acordeonista Eugénia Lima, que se apanhavam já a meio por via da desatenção geral e mercê de alguém que conseguia destrinçá-los e gritava, “deixem ouvir, porra!”.  E então ia-se fazendo um silêncio geral e só faltava que os homens tirassem o boné como à passagem dos funerais. Em vez disso ouvia-se uma voz ou outra a traduzir a unanimidade, "é uma artista!". Ou, "sim senhor, isto é que é cantar/tocar!". E mal cessava a função retomavam o chinquilho, colocava-se outra pedra no jogo do dominó, pedia-se ou escorropichava-se a bebida. Era um mundo de homens onde o mulherio não tinha cabimento . Havendo novidade séria, as mulheres enviavam os filhos e esperavam fora que os seus homens viessem para lhes dar a má nova - morrera a mãe, o pai, um irmão, sabe Deus quem; um filho fora hospitalizado; a filha fugira de casa com o namorico; regressara o filho emigrante; a mulher morrera num repente, de um ar que passou por ela; o filho mais novo, gatinhara e fora encontrado a boiar na presa de regar a horta. Era quase sempre fatídico sinal um homem ser retirado às pressas desse mundo macho. Com as devidas diferenças, a taberna figurava  na miséria portuguesa o que os clubes ingleses representavam na classe superior: um apharteid masculino.

                                      (cont.)


domingo, 14 de junho de 2026

História de Verão

         Uma abelha, dessas que dizem ser italianas, entrou pela janela, obstinou-se em escolher-me, pousa-me no ombro, descansa de seus trabalhos. Lisonjeado com aquela preferência, comecei a amá-la devagar, retendo a respiração, com receio de que não tardasse a dar pelo seu engano, que cedo viesse a descobrir que não era eu a haste de onde se avistam as dunas. Mas o seu olhar tranquilizava, era calma ondulação do trigo. Agora só uma interrogação perturbava a minha alegria - comigo, como é que faria o seu mel?

                                                                                      Eugénio de Andrade


Nota: este blogue regressa ao activo depois de dia 23. Entretanto, tenham uma óptima semana.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Voltas do Bem-Me-Quer

 

        Lisboa está repleta de jacarandás. Mas são os do Parque Eduardo VII que mais me encantam. Vejo-os apenas de ano em ano, na Feira do Livro, e sinto por eles um carinho inexplicável. Se um dia mudam a Feira não sei que faça, talvez viaje até ao parque só para fruir a visão de uma rua atapetada em lilás e onde caminho sentindo-me a herege que pisa território sagrado. E que vai ser do prazer que me agarra nos semáforos da Rotunda do Marquês, eu desvanecendo nesciamente à visão daquelas nuvens azuladas em que os meus olhos batem até sem propósito?! Não. A Feira tem de conservar o endereço. Além do mais, os livros condizem com os jacarandás, têm tudo a ver, mesmo sendo relação que não sei explanar.

        Portanto, mais uma vez por lá andei no encantamento do costume.

        Mas estou de mal com os livreiros que na Hora H faziam 50% de desconto em livros com mais de três anos de edição. Este ano, pelo menos na Relógio d’Água, tudo mudou: só alguns livros assinalados - e eram relativamente poucos – beneficiavam de desconto de 30%. De modos que foi a última vez que comprei na dita editora; exceptuo o livro do dia caso me interesse, e se continuar com boa promoção. Mas enchi-me de livros na mesma porque fui cedo e comecei pelos alfarrabistas onde li praticamente todos os títulos expostos nos primeiros quatro postos de venda. E comprei vários. E desisti de outros tantos.

        No dia seguinte saio cedo, o Metro vem à cunha, o rosto dos lisboetas é triste e amarfanhado. A maioria viaja no desencanto de um trabalho onde. Alguns já apanharam dois transportes até ali; outros terão ainda de chegar à outra margem; muitos descem na estação de Entrecampos, Sete Rios, Restauradores e correm para comboios e autocarros. A garota a meu lado puxa de um estojo de maquilhagem e, dois dedos enfiados no cetim da esponja, vai pondo no rosto alguma coisa que não identifico. É jovem e de boa pele, mas, paulatina, passa a esponjinha por todo o rosto, embebendo-a no redondo do estojo a cada retoque. Terminada a operação, puxa de um espelhinho que abre com um clique e mira-se em ângulo de cento e oitenta graus; após novo clique, desaparece tudo no interior da mala de mão, corre o fecho e sai aprumada e altaneira que nem juíza em tribunal. Não me deitou um soslaio, estava só, concentrada em si. Era uma manhã friorenta e um ar de tristeza emanava da carruagem: ombros descaídos, semblantes neutros, mãos ao telemóvel mais hábito que interesse. Nas horas matutinas manda o egoísmo sonâmbulo: ninguém dá lugar a ninguém, não se olha o vizinho. Mas já ali estive noutras manhãs e havia sempre alguém contente e conversando com entusiasmo. Lembro a jovenzinha de cabelo azul, uma Menina do Mar em tamanho natural que deixou o interlocutor - e até quem os olhou – bem disposto e agradado.

         Pergunto-me agora se teria sido defeito dos meus olhos; se eu mesma teria aquele ar de frete, do que se faz por dever e não por gosto. O que é que os portugueses perdem que assim os desalenta. Ou terei sido eu que perdi a capacidade de vê-los realmente. 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O Tempo que nos Falta

 

        O polícia olhava seriamente na minha direcção (sendo benévola comigo, estaria a verificar se eu era um dos residentes). Portanto, guiei até ele, encostei, abri o vidro e perguntei, estou mal aqui? Não vejo outros carros a circular... A resposta veio em gume, a senhora não viu os pinos? Não pode circular. E eu, mas só sei este caminho...lá `a frente a circulação também está cortada? E a carranca, pois claro que está. Insisti, e agora vou por onde? E ele, agora sai e segue para a esquerda e depois de umas ruas volta à avenida. Agradeci e enquanto fazia a inversão de marcha com os olhos dele tão fixos no meu veículo como os da minha gata enquanto espera os pássaros, pensava atabalhoadamente, não posso virar à esquerda, não sei sequer que ruas existem ali (também desconhecia as da direita mas enfim). Resolvi que continuava em frente na esperança de que houvesse por ali uma rua que me permitisse virar à direita. O semáforo estava vermelho e os dois veículos na minha frente abriram o pisca para a direita. Imaginei que se eles continuassem a virar à direita talvez segui-los fosse boa ideia. Tive sorte: viraram à direita e não seguiram em frente, antes meteram por uma via de três faixas e aí perdi-os de vista porque o meu único palpite era a exigência de voltar a virar à direita; logo, mantive-me nessa faixa enquanto lhes dizia adeus que já aceleravam noutras direcções. Ainda me perdi ligeiramente num caminho secundário mas voltei à faixa da direita na esperança de encontrar uns semáforos conhecidos. E é que os encontrei mesmo. A partir daí foi canja. Andei a virar aqui e ali para conseguir chegar antes das 14,30. E cheguei. Carreguei as coisas, subi no elevador mais rápido e antes de meter a chave à porta ela abriu-se e o meu filho num sorriso terno e descansado, estava a ver que não chegavas a horas. Estivemos uns minutos à conversa e logo de seguida lá foi para a sua reunião de trabalho. Acionei a via verde, arrumei o que levara e saí. Tinha uma data de recados para fazer até às dezoito.

        Dei conta de quase tudo. Avancei para a linha vermelha e fui até ao Corte Inglês para a sessão Poemar, Viagens pela minha Terra (em verso alheio). Quando me sentei na sala, carregada de encomendas, suspirei tão longamente que a colega do lado me olhou, facto não vulgar. Ali, as pessoas ou se conhecem e falam baixo umas com as outras, ou nada acontece. Na situação, nada devia acontecer, denunciou-me a fundura dos suspiros. Creio que nem tirei o caderno. O Poemar é de sentir e não de escrever. Foi tão bonito ouvir os poemas na voz de Rui Spranger, por vezes acompanhado do mentor José Anjos e com música de Sara Santos Ribeiro. E como a voz se alterava, e chegava a parecer outra, consoante o poema! Agora mordaz, agora troçando ternamente, ou onda raivosa que se levantava voraz e tudo varria. Tinha lanchado no Metro, já sem tempo para o fazer mais tarde, mas, do tanto que fiz, nada me caiu tão bem como a poesia. Foi água para a minha sede. E para ali fiquei, planta ressequida, a embeber, a embeber, as folhinhas desmaiadas arrebitando contentes. Bom, falta dizer que os poemas eram todos sobre a cidade do Porto (pelos vistos antes houve poemas do Minho e de Trás-os-Montes). Poemas e prosa poética. Gente que desconhecia e gente que logo identifiquei. Por exemplo, a prosa de Miguel Torga, ainda que não tenha lido O Reino Encantado e nem Portugal. José e Rui nasceram no Porto a Sara é de Lisboa, mas eles atiraram-lhe ao sorriso com Manuel Pina, “Eu não nasci no Porto, nasci-me no Porto”. A selecção de poemas e poetas foi feita com critério, os filmes (pedaços), sobretudo de Manuel de Oliveira, constituíram momentos telúricos que cimentaram o ambiente do norte e portuense; não me perguntem sobre a música, parece-me ter ouvido apenas alguns acordes. A voz sim, bebi-a inteira.

        Um grande bem haja ao Corte Inglês e a José Anjos pela sensibilidade com que aborda os temas e o bom gosto na escolha de quem traz consigo. Em mim, valeu.


Nota: alguém deu uns tiros no placard da velocidade média e virou as câmaras para o ar. Portanto, andámos todos a arriscar, felizes da vida. Já as arranjaram e não fui informada. Daqui a uns tempos recebo duas multas. Mas agora não vou pensar nelas.

domingo, 31 de maio de 2026

O Tempo que nos Falta

 

        Ele há dias em que a vida parece apostada em nos arredar os planos ou, pelo menos, se diverte a complicá-los. Manhãzinha, nada o faria prever. Era uma sexta feira quente e bastante apetecível, depois de um café com leite moreno; mais um dia em que pensei “era bom dar uma volta a pé”, mas não o fiz. Lembrei outros anos, dias de avental atrapalhado por bolo e lanche com meu pai e a nossa satisfação contemplando a sua, em mais um ano a acrescentar. Não me demorei nos inevitáveis da morte, a vida chamava-me aos gritos: as flores que necessitavam alimento, as compras de fim de semana, as pequenas coisas que apontara fazer antes de partir. No super, as duas caixas abertas tinham filas sem fim. Fui pedir a uma das meninas se não podiam abrir outra caixa. E ela, falta de pessoal, férias, atestados, ta, ta, ta...Esperei já a olhar o relógio e a encarnar o meu papel de resmungona com uma cliente próxima que andava a encher o carrinho. Já a depositar o carro de compras, passa açodada a senhora dos desabafos, que ia ao carro buscar os óculos de leitura: pedira o livro de reclamações e logo abriram outra caixa. Serviu a lição: da próxima vez faço o pedido, em caso de igual resposta, engreno o dito livro.

        Sozinha em casa devido a um acaso inesperado, entre arrumos de compras e apanhar a roupa já enxuta, fiz o lanche e acomodei-o na mala arranjada de véspera. Verifiquei que me esquecera de várias tarefas e que ficariam em espera; há mais marés que marinheiros. Comecei o almoço, teria de estar em Lisboa antes das catorze e trinta se queria ver o filho; com os novos limites de velocidade a duração da viagem ultrapassa os sessenta minutos. E queria muito. Eram as doze e dez, o telemóvel dá sinal de sms. Fui ler. Era o motivo das minhas preocupações do momento, a razão por que corro para o telemóvel mal entra um sms. Fazia um pedido, uma das tarefas esquecidas. E vocês o que fariam se uma pessoa muito doente vos pedisse alguma coisa?! Satisfaziam o pedido certo? Foi o que fiz.

        Regresso a casa. Era quase o quarto para as treze. Ainda tinha de grelhar a carne, aquecer a sopa e almoçar, esqueci o arroz de ervilhas. Saí antes das treze e cinco. Vesti uma blusa que não engomei, de certeza tinha outras mas foi a primeira que vi, não me lembro se mudei a saia, mas sei ter-me esquecido de mudar os ténis. Não me penteei. Paciência. E no caminho descansei mais ou menos, aproveitando as abertas dos limites de velocidade que são poucas e ignorando alguns sinais limitativos. Enfim. A segunda circular tinha já umas filas razoáveis mas ia evoluindo (as pessoas são como os caracóis, mal vem o sol desatam a sair de casa).

        Sempre a controlar o tempo, viro para a alameda que me interessava. Um desvio obrigatório e uns pinos mais à frente. Desorientei. O perigo de ser desorientada é a falta de juízo que se instala, fico de imediato do lado da desrazão, bloqueio. Portanto, virei de acordo com o sentido, mas pensei que contornando a rotunda mais à frente e vindo no sentido contrário, saía depois dos pinos e continuava alameda fora. Só que não. Fiquei quase na mesma. Olhei o relógio e os pinos e verifiquei o pouco tempo de que dispunha e que eles não obstruíam completamente a via, dava para passar um veículo. Eis como penso se e quando me desoriento: não somo dois e dois. Não reparei que a via não tinha trânsito algum, não pensei que a zona devia estar interdita nos dois sentidos e ter mais pinos lá à frente a demarcá-la. Portanto, numa de animal pouco inteligente, passei no tal espaço e fiquei para lá dos pinos. Só que, ali plantado, estava um guarda ou segurança, não sei bem. Devia ser um guarda, vi apenas (também me afecta a vista) uma camisa azul de manga curta e um colete dos utilizados nos acidentes.

(cont.)

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A Luz do Mundo

 

        As opções de vida acerca de haver ou não filhos merecem respeito. Entendo quem, por opção, não queira tê-los, tenho amigos que escolheram essa via e suponho que sejam tão felizes quanto um homem e uma mulher que se gostam podem sê-lo. Mas também lamento os que desejam descendência, têm um jeito todo especial para crianças e, por qualquer razão física ou de outra natureza não conseguem chegar ao porto. E casos existem em que se entra em litígio porque um diz sim e outro diz não. É certo que, por amor ao outro, por vezes um dos elementos cede. Mas não pode ficar contente com a cedência. Afinal, um dos seus sonhos é negado pela pessoa que se desejava colaborasse na sua realização. E não é um sonho qualquer - não é aquela viagem especial, o veículo xpto, a subida profissional, a casa ideada. Um filho é o desejo de colaborar, em geral com muito prazer à mistura, no milagre de um novo ser humano, pensando que só miraculosamente duas pessoas que se gostam (ou não, mas gostando é tudo qualitativamente diverso e melhor), depois de um acto de união sexual participam nesse milagre de dar vida. Lamento as cedências quando são coacção - o desacordo sobre o nascimento de um filho pode desfazer a vida conjunta e cada um procura o que deseja com outra pessoa. Mas há casos em que um dos elementos resolve o dilema deixando prevalecer o desejo do outro. A consciência de uma decisão de comum acordo, o sim ou o nada de bebés, é factor de união, mas, no segundo caso, a falta de igualdade entre os dois elementos – aceitemos que um vence e outro é vencido -, pese embora o constituir uma opção, não consigo discernir até que ponto essa é uma união saudável. Que pode ser, talvez haja factores de substituição e a mágoa vá desaparecendo. Enfim.

        Por variadas razões tardei em casar e ter filhos, não me julgava talhada para tais trabalhos. Mas, como a grande maioria das mães, mal nasceu o primeiro, aprofundei o sentimento amoroso. Foi isso. Tenho filhos adultos e independentes em toda a linha. Não me julgo uma mãe chata: não telefono senão por motivo inadiável, sei da vida deles o que querem contar e tento respeitar os seus gostos e carácter. Nunca lhes espiolhei o telemóvel nem o portátil, visitam-me se lhes apetece e quando.

    Ora, nas arrumações que já conhecem, uma das preciosidades que descobri (guardada por mim, claro), foi uma carta de Natal de um dos meus filhos. Pela letra ainda muito redondinha e escolar (não está datada e nem assinada) suponho que andaria entre a antiga 4ª classe e o 5º ano. Não vou reproduzi-la, sei que ele não gosta que mostre o que me escrevia. Uma folha de caderno e a sua letrinha redonda enchendo-a de ponta a ponta. Mas não resisto a um parágrafo menos íntimo e ainda assim tão de maravilha. E lógico, em tema a que a lógica escapa. Escreve ele:


Sei que se costuma dizer que o amor de mãe é inexplicável e inimaginável, mas nunca nada disseram sobre o amor de filho. Não sei como é o amor de uma mãe, nem nunca vou saber, mas duvido que seja maior que o de um filho. Sim, eu sei como é, mas não consigo explicá-lo. Porém sei que é forte, que o sinto todos os dias (…)


    Esta folhinha de caderno deu sentido ao tudo que fiz – desejo que nunca saibam até onde, perderia valor


domingo, 17 de maio de 2026

A Luz do Mundo

 

        Fui professora da turma durante os três anos do ensino secundário; no 12º ano ensinei-lhes psicologia, disciplina que detestou e tive mesmo alguma dificuldade para levá-lo a bom porto; resmungava com os temas e fazia fincapé, em filosofia é que se sentia bem. No final do ano, à pergunta da praxe: “e a seguir, o que pensa fazer?” Respondeu-me seguro: vou para Filosofia. Caiu-me tudo, ele não estudava, nem detinha na escrita o rigor que um estudante de filosofia tem de cultivar, não o imaginava a ler e compreender as obras dos filósofos. E nem sequer tinha boas notas na disciplina, era aluno entre o dez e o doze, classificações que não aguentaria na universidade. Disse-lhe tudo isto e muito mais. Mas manteve, era a disciplina de que mais gostava. Fizemos uma aposta (apostei muito com alunos e à conta disso conseguimos que alguns galgassem a barreira do exame) – garanti-lhe que nem sequer concluía o primeiro ano; ele garantiu que tirava o curso completo. Como previsto, abandonou o primeiro ano a meio. Emigrou para a Escócia. Certa manhã de frio inverno, encontrei-o num comboio, o emprego escocês era sazonal. Disse-me sorrindo, “por agora perdi a aposta, mas ninguém sabe se um dia não me apetece voltar ao curso”. Libertei-o da dívida e desejei-lhe sorte na Escócia. Sei, como ele sabe, que não voltará ao curso.

        Sucede que um dos tesouros que encontrei no escritório é um escrito seu. Fez-me sorrir. Está inteirinho naquela curta folha de papel retirada de um bloco e rabiscada com a sua letra incerta, eivada de infância. Guardei-o também por gostar do garoto; para além de tudo, persiste-me a desarmante ingenuidade que o habitava.

Professora, eu perdi a minha mala, não a encontro em casa e já a procurei em n sítios e não acho. O típico aha! :)

Peço desculpa, mas não encontro o teste, se quiser faço-lhe um novo. Deixo aqui o meu e-mail.

...hotmail.com

Beijinho e boas férias e até para o ano!! :))”

Prontifica-se a fazer novo teste, mas despede-se desejando boas férias e “até para o ano”.

Que um anjo benévolo e persistente o vele, onde quer que pare. O papelito pertence-me, sinal de uma relação que foi, e está além do dizer.

sábado, 16 de maio de 2026

A Luz do Mundo

 

        Pronto, é verdade que fiquei agarrada às palavras desde que aprendi a juntar as letras. Os livros e os filmes acompanham-me os tempos livres, são peças de que sinto falta. No lugar onde vivo não existe um cinema e contento-me com as fitas exibidas nas plataformas. Não é a mesma coisa, mas ver no portátil é muito melhor que não as ver. Enquanto professora, pugnei pelos livros – mais tarde, também por filmes –. Tive momentos de leitura diária de livros escolhidos por mim e que, sobretudo na primária, encantavam os ouvintes sempre contrariados quando interrompia a leitura; e tempos houve, já na secundária, em que cada aluno escolhia um filme para comentar. Se a matéria era propícia, acompanhava com  um filme. Não me lembrei de perguntar se gostavam dessas variações, mas delas faziam relatórios, por vezes subordinados a questões.

        Acabamos sempre a influenciar alguém com as preferências próprias. É nisso que espero. Este ano, na Academia Senior, uma avó de gémeos  confessou-me emocionada que cada garoto lhe tinha oferecido um livro dos recomendados. Foi um passo, mas à pergunta, “e já os leu?”, respondeu negativamente. Mas a oferta diz que a avó falou neles. Não sei como se cria em alguém o interesse pela leitura, mas vou tentando. O exemplo vivo, por vezes, pega. Mas nem sempre é bom sinal. Senão vejamos.

        Tive em tempos por aluno um garoto inquieto e magrinho, débeis anéis aloirados, olho entre o castanho e o verde. Durante o primeiro e segundo ciclo fora colega de um dos meus filhos e conhecia-o dos aniversários. Um galito metediço e brigão que tínhamos de vigiar. Por ser o mais miúdo da turma, ganhou desde logo uma alcunha meio terna que nunca desdenhou e até aproveitou quando criou o mail. No décimo ano notava-lhe algumas observações interessantes (era participativo), embora quase nunca usasse cadernos. Havia gente com igual hábito, o que me preocupava; negociámos, entretanto, um dossier com determinado número de itens comuns de todos e que contaria na avaliação (demos-lhe mesmo um peso). Ele chegava sobre a hora, um caderno dobrado em óculo, pedia uma caneta e rabiscava o que lhe parecia de interesse (ele e os outros). Não era grande aluno, mas, talvez por nos conhecermos há anos - conheci-o com pouco mais de meio metro -, procurava e conseguia nota positiva e afirmava gostar da disciplina.

(cont.)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

A luz do Mundo

 

        Comecei as arrumações de primavera. Está visto que podem pensar muito razoavelmente, “e eu com isso?”. Pois. Nada com isso. Nem sequer para darem a necessária mãozinha (adiante, Beatriz, não te ponhas com conversa de chacha). 

        Talvez por ter começado pelo escritório, os achados foram extraordinários. Embora reconheça ter sido parcialmente desalojada - a secretária, comprada com verba de solteira, sofreu ocupação total e prescindo de arrumar gavetas que me não pertencem. Por outro lado, a estante, prateleiras repletas de livros bem como a parte central dos arrumos que ficam abaixo, são de minha lavra. Há anos que não desalojava todo o conteúdo das curtas prateleiras que duas portas de madeira protegem (alienei as laterais). Ali guardei sentimentos e emoções, razões mais que suficientes para a minha demora na organização. Passo a explicar: ignoro o momento preciso de encontrá-las, mas saliento três inexplicáveis cartas (envelope e folha), completamente virgens, atadas com um laço em tecido de quadrículas verdes e bege onde perpassa um fio dourado (é uma fita mesmo bonitinha) que não ousei desatar porque sou uma inábil em laços e está tão perfeito que não pode ser meu, as pontas recortadas abraçando com exacta suavidade os sobrescritos e acordando-me para o tempo de primaveras distantes, fitas desse quilate a atar o rabo de cavalo - aquisição que implicava a funcionária recortá-las desse modo e a pedido. Portanto, a fita virá desse tempo, mas que mão feminina as terá enlaçado?! E que uso queria eu dar àqueles envelopes encorpados e de bom papel, com uma folha de carta que não é de carta, mas é por si só uma beleza de folha enrugada e recortada, veios esverdeados a alindar o conjunto, e que nem apetece manchar com palavras. Terá sido esse o meu pensamento?! É verdade que gosto bastante de papel e tenho memória de entrar na antiga Papelaria Fernandes e o comprar só porque sim. Primeiro escolhia-o num álbum de mostras e comprava duas ou três folhas. Pode ter sido o caso. Se houve destinatário pensado… não chegaram a partir. Nada vulgares, talvez as tenha comprado para escrever em datas específicas: festas de aniversário, nascimentos… cheiram um bocadinho a mofo, mas continuam lindos invólucros docemente envolvidos por laço de fita. Em delicadeza de dedos e inscrições de ternura, tentativas  de não importunar aquela íntima limpidez, voltei a guardá-las. 

        As coisas que encontramos. Que guardámos a mando do coração. Mas essas alinho amanhã. Ou.

domingo, 10 de maio de 2026

Agradáveis Contingências

 

        Neste preciso momento penso nos posts que li versando o tema do gosto. Não o bom ou mau gosto, mas aquilo que cada um aprecia na vida. Lembro-me que, ao lê-los, e li vários, avaliava ser boa matéria para eu mesma postar. Mas nunca me debrucei sobre os vectores do meu agrado, aquilo que a minha sensibilidade prefere, me torna melhor, me dá prazer e me pacifica. Esclareço que nenhuma dessas preferências resolve os meus problemas ou sequer me encaminha para a resolução. O que sinto em relação a elas é a criação de um espaço outro onde os ditos nós da corda da vida não têm entrada. Hão-de regressar. Mas esses momentos elidem-nos. Portanto, vou deitar-me a pensar sobre essa espécie de analgésico que me faz efeito nas dores de viver, os meus balões de oxigénio. Ou, se se quiser, de forma mais litúrgica, é o tempo do sagrado.

        Confesso que gosto das primeiras chuvas, do perfume de algumas flores, da visão dos malmequeres que também podem ser margaridas (silvestres ou não), dos campos alentejanos na primavera, de beber água se tenho sede, de mergulhar em águas marítimas, o sol a aquecer-me o corpo. Mas são momentos tão breves que duram o tempo de um sorriso grato, são simpatia emergente mas quebradiça. Nenhum deles chega a ser respiração. Porém, se me apresento num bom dia de praia, com um livro, vários banhos de sol e mar, olhares a contento sobre serra e água, a poesia a roçar-me a pele aquecida, os pés beirando ondas que os lambem de leve, então sim, estou real e mentalmente longe de tudo. Só ou acompanhada, pouco importa. Sou sempre eu e o mar, eu e o sol, eu e quem chamo e é em pensamento só meu. E nesse estar só me sinto mais unida ao universo, mais parte dele, mais elo de uma cadeia sem fim. Descrito este gosto, dou-me conta de que todas as minhas preferências têm idênticas características: exigem tempo - são vagarosas e demoradas -, pedem silêncios que, tanta vez, só o imaginário constrói a fim de poder pensar. Dou-me conta da maravilha que é pensar, da liberdade mental sempre ao dispor e que permite o estar e não estar, ou estar na totalidade – uma entrega física e mental que não sendo perfeita dá de si o máximo.

        Bom. A leitura também preenche vazios, me leva ao continente de autores que me retêm a atenção, me requerem a mente passeando pelas frases sempre a imaginar o descrito. Nunca saberei o que aprendi com as leituras não escolares. Ao invés da maioria dos leitores, parece-me sempre o mesmo: não aprendo nada. Mas sei com segurança que me esqueço de mim para seguir a vida de personagens que outros desenharam para prazer próprio e de gente como eu. E dizer que isto me basta é insuficiente porque o exacto é afirmar que a leitura me afasta de tudo, eu e as palavras bastamo-nos umas às outras. Talvez seja uma paixão fria como dizia do ensino António Gedeão. Discordo. Em mim, ensinar é uma paixão a quente, entusiasmante, dá-me vida, não é apenas um contacto mental, há qualquer coisa de físico numa aula, os olhares, os sorrisos, a tristeza. Ensinar é também aprender o outro e aprendermo-nos nele. Como costumava usar um professor meu, “Em tudo, o que importa é a relação.”.

        Depois desta arenga está a parecer-me que ficaram preferências por citar. Talvez inaugure um novo item:).



domingo, 3 de maio de 2026

Flores & Suspensórios

 

        É primavera e no muro do quintal há um mar de flores: ele é a buganvília vermelha que transborda, as roseiras de trepar que enlaçam o gradeado do muro e me lembram a doce avó Luísa a trazer-me duas podas minúsculas, “plante-as uma de cada lado do portão e vai ver”. E eu vejo. Vejo-a a ela, trigueira e enrugada, olhos de ternura compreensiva a mirar-me por detrás da grossura das lentes. E espero que também ela possa vê-las; se acaso não for possível, e se não houvera outras coisas a ligar-nos - que as há -, as rosinhas pequeninas, amontoando umas sobre as outras num contentamento rosa vivo, não me deixariam esquecê-la. A querida avó Luísa que não era e era minha avó e se faz presente em cada primavera: visita-me. E depois há as rosas Pierre de Ronsard, disseram-me que rosas antigas; não sou grande fã de rosas mas estas são belas. Bem próximas, as rosas vermelho sangue, grandes como punhos, esmeradas no recorte, perfeitas, atraem o olhar de quem passa a rasá-las. Altiva, a roseira vermelho sangue suplanta as outras e abre-se ao etéreo; não tem uma quebra, é seta apontada ao azul e rodeia-se de espinhos aguerridos, prontos a batalhas imaginárias - tão perto está das mãos de quem passa e nem uma a tocou. Tenho certa má vontade contra ser tão cheio de si, há alguma incongruência em ser flor e dominadora. As flores são doces, delicadas, bonitas no seu ser de pétalas diversas; apreciamos nelas a textura de cetim, a forma como curvam, a cor impossível que as tintas desejam imitar, o odor suave ou mais penetrante. Atordoa-nos a delicadeza presente nas flores de suculentas e cactos, perguntamo-nos como pode um cacto espinhudo originar flores de seda.

        Terá sido por isto que hoje, note-se, HOJE, experimentei os suspensórios, elemento muito a meu gosto no antigamente de mim, agora já de barba branca. São tão de idade que o metal de alargar e encurtar os elásticos enferrujou e deixou marcas – pois é, tive de alargá-los um nadinha. Mas, ó senhores... o que eu gostei de voltar a eles! Lembro uma ou duas fotos em que estão comigo, tenho um saco plástico aberto na mão, estou rodeada de alunos pequenos a mastigar e beber sumo (era a recolectora de lixo) e todos nós numa alegria plena que vibrava nas roupas claras, nos rostos redondos, nos olhos de surpresa boa, nos cabelos ao vento em redondezas da Torre de Belém.

        Como é que após umas cinco décadas, o elástico inda funciona?! E as mãozinhas que prendem nas calças nem sequer se soltaram como receei – sei lá, imaginei que já não tinham força e se escapavam ao menor esforço, feitas marotas. Mas não. Fixaram-se no lugar e dali não saíram. Tão queridinhas! Só porque ainda me querem bem – nem outra razão haveria para se conservarem tanto tempo, é que estão muito mais em forma que eu -, olho-as com amor (acho que é amor), carinho e mais que isso. Se fosse poeta glosava uma ode aos meus suspensórios que pegam nas calças com quatro mãozinhas travessas. Estão ali, todos deslaçados, cada elástico virado para seu lado num desalento compreensível. Mas já garanti, não voltam para a gaveta, amanhã regressam à faina e só por esse motivo os deixei atracados às calças. Não parecem convencidos, mas vai ser verdade.

        Olha, em vez do dia da mãe foi o dia dos meus supensórios. E depois?!


sábado, 25 de abril de 2026

25 de ABRIL

 

        Às mulheres que do passado me espreitam e por quem e para quem escrevo ainda algumas vezes, as que me fizeram ou colaboraram no fazer-me e não sabiam ler, ou liam romances de cordel por desconhecimento de outras leituras, as que nunca ouviram falar de Sophia e da madrugada esperada, elas que nem sequer esperavam alguma coisa e a quem a madrugada encontrava já a pé servindo na cozinha de seus senhores ou entranhadas no tojo das herdades, procurando chegar “ao fogão” antes do sol, arrear as merendas e seguir ligeiras para a lida do dia anterior. Às que não tinham nome de Catarina e nem de Eufémias sabiam, mas são as minhas heroínas a quem a circunstância e esses seres masculinos e de maior força física e poder escravizaram como puderam, levando-as de vencida, qual bezerra puxada por arreata.

        Nunca foram asa e inda menos gaivota. Engravidaram meninas, cumprindo a tradição de mães e avós. Umas desgraçaram-se para a vida quando “apareceram de barriga” sem um namorado que as puxasse para si – tinham sido apanhadas a caminho da fonte, num ermo onde andassem aos paus para o fogo, nos emaranhados de montes e herdades. Um homem - casado, solteiro, qual fosse o estado - as apanhou e abusou; não digo que homem, um animal cedendo ao cio. Mas as desgraçadas foram elas. As mais iam a bailaricos, tinham derriços, elas tinham a barriga a crescer, eram excomungadas até pela família e nascia-lhes um filho quando mal sabiam o que era o sexo, o prazer ausente quando um animal dito homem se lhes atirava para cima, as manietava e descarregava nelas o sémen impaciente.

        Abril quase apagou esta maldição: terminaram os filhos incógnitos, elas saíram debaixo da pata de tanto marido que não foi senão suserano. Porque casar e levar no enxoval um filho de outro, era invariável mau negócio; se as mais tinham poucos direitos, elas tinham menos. Que os “maridos bons” eram matéria rara. E não, não eram melhores os maridos das outras como se canta por aí. Só o sonho e o canto de sereia do corpo motivava casamentos que raro eram mais que amiganços.

        Em tudo há o melhor e o pior; e existem as atenuantes que temo em chamar tal: de época; as desculpas palermas das igrejas; o preconceito de nós todas que vivemos séculos de submissão e segundo sexo; o masculino controlo do mundo conhecido. Mas é objectivamente verdade: o 25 de Abril mudou a vida das mulheres para um lado melhor. A democracia puxou por nós. Não somos livres, creio bem que nunca o seremos. Mas temos a chance de tentar, temos as leis que nos protegem, criámos alguma consciência do valor próprio, entrámos em território antes só masculino. Bem sei, há muito por fazer e esqueci propositadamente outras benesses democráticas. Mas estou a pensar nelas, nessas pobres que me antecederam: não estudaram, não aprenderam a ler, sofreram às mãos dos homens sevícias que não contaram, foram escravas de maridos e senhores, levaram porradas muitas, trabalharam até à morte.

        Para elas que nada souberam da liberdade, da democracia e seus princípios, o meu Grande, o meu Enorme, VIVA O 25 DE ABRIL!!!