Às mulheres que do passado me espreitam e por quem e para quem escrevo ainda algumas vezes, as que me fizeram ou colaboraram no fazer-me e não sabiam ler, ou liam romances de cordel por desconhecimento de outras leituras, as que nunca ouviram falar de Sophia e da madrugada esperada, elas que nem sequer esperavam alguma coisa e a quem a madrugada encontrava já a pé servindo na cozinha de seus senhores ou entranhadas no tojo das herdades, procurando chegar “ao fogão” antes do sol, arrear as merendas e seguir ligeiras para a lida do dia anterior. Às que não tinham nome de Catarina e nem de Eufémias sabiam, mas são as minhas heroínas a quem a circunstância e esses seres masculinos e de maior força física e poder escravizaram como puderam, levando-as de vencida, qual bezerra puxada por arreata.
Nunca foram asa e inda menos gaivota. Engravidaram meninas, cumprindo a tradição de mães e avós. Umas desgraçaram-se para a vida quando “apareceram de barriga” sem um namorado que as puxasse para si – tinham sido apanhadas a caminho da fonte, num ermo onde andassem aos paus para o fogo, nos emaranhados de montes e herdades. Um homem - casado, solteiro, qual fosse o estado - as apanhou e abusou; não digo que homem, um animal cedendo ao cio. Mas as desgraçadas foram elas. As mais iam a bailaricos, tinham derriços, elas tinham a barriga a crescer, eram excomungadas até pela família e nascia-lhes um filho quando mal sabiam o que era o sexo, o prazer ausente quando um animal dito homem se lhes atirava para cima, as manietava e descarregava nelas o sémen impaciente.
Abril quase apagou esta maldição: terminaram os filhos incógnitos, elas saíram debaixo da pata de tanto marido que não foi senão suserano. Porque casar e levar no enxoval um filho de outro, era invariável mau negócio; se as mais tinham poucos direitos, elas tinham menos. Que os “maridos bons” eram matéria rara. E não, não eram melhores os maridos das outras como se canta por aí. Só o sonho e o canto de sereia do corpo motivava casamentos que raro eram mais que amiganços.
Em tudo há o melhor e o pior; e existem as atenuantes que temo em chamar tal: de época; as desculpas palermas das igrejas; o preconceito de nós todas que vivemos séculos de submissão e segundo sexo; o masculino controlo do mundo conhecido. Mas é objectivamente verdade: o 25 de Abril mudou a vida das mulheres para um lado melhor. A democracia puxou por nós. Não somos livres, creio bem que nunca o seremos. Mas temos a chance de tentar, temos as leis que nos protegem, criámos alguma consciência do valor próprio, entrámos em território antes só masculino. Bem sei, há muito por fazer e esqueci propositadamente outras benesses democráticas. Mas estou a pensar nelas, nessas pobres que me antecederam: não estudaram, não aprenderam a ler, sofreram às mãos dos homens sevícias que não contaram, foram escravas de maridos e senhores, levaram porradas muitas, trabalharam até à morte.
Para elas que nada souberam da liberdade, da democracia e seus princípios, o meu Grande, o meu Enorme, VIVA O 25 DE ABRIL!!!