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sábado, 4 de julho de 2026

A Leveza da Vida

 

        Cheguei de férias e pensei postar sobre esse tempo que é inteiro lazer. Esqueço a casa e suas represálias, o portátil faz retiro espiritual e o tlm cinge-se ao uso mínimo, que é como quem diz, só para filhos. Saiu um post diferente. Parece-me que o motivo é má consciência – tanta guerra inútil, mas que mata, derruba casas, destrói vidas e haveres. Tanto mal reunido na mente dos homens com poder, esses que deviam ser exemplo; e a voracidade do fogo a ajudar, comendo hectares de vida. Dói abrir a TV e assistir a tanta chama enraivecida, verificar ao minuto a violência progressiva desta máquina de destruição natural durante estes dias de sobreaquecimento. Portanto, não apetece contar de quartos limpos, varandas arejadas e viradas ao verde bem tratado onde quase ninguém passa e eu em leitura remansosa com paisagem ao fundo; e quase me envergonha descansar os olhos na horta cuidada e prolífica, antecipando o mar e uma praia em tudo semelhantes ao que considero minha pertença não exclusiva, excepto na tepidez da água que nos abraça íntima, gesto que repetimos a gosto.

        É verdade que não existem cardos do mar azulando pelas dunas, nem aquelas espantosas flores brancas que parecem açucenas e me sideram em cada vez que as contemplo enraizadas na areia, digo com os meus botões que quase flutuam por entre os grãos, sem água doce que lhes valha. Acredito que sejam tão lindas como as flores do deserto. Abismo nestas maravilhas improváveis da minha praia. Que ora nem vejo por ter encontrado caminho mais fácil e que não danifica a duna.

        Mas também é certo que me antecipo à multidão turística, e nas horas de calor intenso descanso no quarto e volto mais tarde para a encontrar igual, salvo a água mais longe ou mais perto, segundo o que a maré determina. É um lugar como tantos: vive da animação turística em época balnear. Tem bairros senhoriais que são casas de praia e ficam na sua maioria fechadas durante parte do ano. Uma pena! As ruas, a fachada e a pintura são iguais e com barras: brancas com barra azul, azul com barra branca, amarelas com barra branca e o inverso. Existe um passeio junto à linha da costa bordado pelo verde das árvores e onde passa o que suponho seja um riacho atravessado por várias pontes pequenas. Mais à frente, um enorme quadrado de água por certo marítima, surpreende. Apetece andar de bicicleta; neste lugar encontrei jovens e menos jovens pedalando.

        Talvez por ser madrugadora, em qualquer hotel, entro na sala de pequeno almoço no primeiro quarto de hora de abertura. Ali, os ingredientes apresentavam extensa variedade, possibilitando pequenos-almoços de natureza diversa: do muito frugal ao mais pesado, com bife, feijões, ovos com bacon e sem, ovos estrelados na hora, etc, etc. Havia pouca gente, quase toda portuguesa, e demorava-me a olhar os comensais ocupados a encher pratos sobre pratos e a digeri-los com afã digno de nota. Havia neles um isolamento de tudo, eram eles e o alimento; não levantavam os olhos dos pratos e, pressurosos, devoravam-lhes o conteúdo como se disso lhes dependesse a vida (em parte dependia). Eram tão velhos como eu, alguns um bocadinho mais. O que leva alguém a alimentar-se com tamanha sofreguidão?! Não é nada poética a imagem mais nítida que me ficou das férias, mas gravou-se-me aquela pressa na mastigação e o vaivém de pratos que os funcionários iam retirando e eles repondo. Encerrado o expediente, levantavam-se prestes e abandonavam o que me convenço hoje ser o seu santuário. Isto porque, logo que a sala de almoço abria portas, era vê-los, formiguinhas afadigadas. E eu que me considero pessoa de “boa boca” e não debico, pergunto-me como e onde encontravam o apetite para almoçar. Era refeição em que não os seguia, estava acompanhada e o restaurante repleto. Quem sabe comiam apenas uma saladinha e estou eu aqui numa de má língua...

domingo, 28 de junho de 2026

Necessário e Suficiente

         Hoje somos diferentes: Gozamos períodos de férias, quase não há as tabernas de antigamente e o mundo português encheu-se de cafés - é de bom tom haver uma taberna de degustação cuja não é sequer parente afastada das tais alumiadas a petromax, com as pipas à vista e um cheiro a vinho tinto que se incrustava nas paredes e revolvia o estômago, de mistura com a saturação de suores múltiplos e de vários dias, que o banho era graça de dia santo. Hoje, tomam-se os banhos que cada um entenda, escolhemos a bebida, petiscamos ou fazemos refeições completas. A vida quotidiana mudou. As mulheres e alguns homens sentem-se gratos às máquinas que lhes poupam trabalho, saem a sós se assim o entenderem, ganham a sua subsistência, caminho de cada um para ser dono de si. Que bom podermos escolher o que desejamos para o almoço ou o jantar. Que gosto ter profissão que assegure cuidados que antes nem havia. E que supremacia se, profissionalmente, fizermos o que gostamos.

        A escolaridade obrigatória foi prolongada, portanto, a dependência dos pais existe até mais tarde, a juventude começa cedo a sair à noite e prolonga manhãs na cama quando as noites esticaram ao extremo. Aos fins-de-semana e noites de festa, distribuídos democraticamente entre os dois sexos, os cômas alcoólicos tornam-se corriqueiros em hospitais e centros de saúde. E apesar dos preservativos e da pílula do dia seguinte, continuam a surgir mães adolescentes. São em menor número e, na maioria dos casos, os motivos da gravidez diferem dos antigos. A solução também pode diferir, o aborto foi legalizado. Não há dúvida que as mulheres são quem mais beneficiou do regime democrático. Contudo, a morte por violência doméstica continua a aumentar. Pergunto-me se o álcool anda metido nas brigas entre pares; se será por ausência de barreiras no respeito que é devido ao outro seja ele quem for; se são mentes frágeis que se deixam contagiar por filmes e redes sociais; se há muita energia que não se liberta por uso excessivo de telemóveis e outras conexões nas quais se gastam horas e horas; depois falta paciência para os da casa e o disparate sai agressivo à menor contrariedade.

        O que mais se verifica é que, antigamente, no tempo das tabernas, o mal era quase sempre de raiz exterior: a miséria, a falta de instrução, a falta de cuidados de saúde… a taberna era o limbo dos homens e o castigo de muita mulher. Hoje o mal vem de dentro, é individual e comum de muitos. Somos mais instruídos, mas nem por isso melhor formados; temos excesso de informação e raro sabemos distingui-la ou sequer pô-la de lado. Todos sabemos ler, mas interpretar continua a ser função de alguns.

        E eu que vinha para contar do mar e das férias, dou por mim neste atoleiro tão questionante como questionável. Fica para uma próxima.

        Divirtam-se.


quinta-feira, 25 de junho de 2026

Necessário e Suficiente

 

        O povo de que nasci não conhecia férias, nesse tempo não havia pausas. Entristece-me saber isto e mais que sabê-lo, ter assistido a essas vidas de trabalho que, sobretudo nas mulheres, era por demais intenso. A pausa, a existir, denominava-se mudança de uma função a outra. Alguns homens também entravam neste rol; chegavam a casa, comiam uma bucha e iam semear e vigiar o crescimento do plantio e, se necessário, regavam a horta que ajudava a sustentar a família. A horta era o lugar sagrado onde à força dos braços juntavam a fé cega na terra; iam buscá-la não se sabe onde, que ela, pobre e esfarelada, parecia ingrata aos que a não conhecessem, não a eles que lhe sentiam a miséria dos nutrientes e a vontade de germinação. Desconheciam o termo resiliência, mas tentavam sempre, puxavam por ela com carinho e velavam o canteiro de nabiça ou a couve tronchuda quase com o mesmo empenho com que ensinavam os filhos pequenos a dar os primeiros passos. Era admirável vê-los debruçados sobre a terra, aqui um montinho de hortelã, ali um rego de cenouras, uma correnteza de cebolo e outra de alhos; além, salsa e coentro a vicejar. E punham canas no feijão de trepar e sacudiam caracóis e outra bicheza, as galinhas de olho no verde hortícola e enxotadas na tardinha quando enfim o galinheiro se abria à liberdade breve de ciscar no lusco-fusco. Passava-se isto um nadinha antes de engolfarem no poleiro onde, por misericórdia divina, se equilibravam até o dia clarear e  haver os gritos de um galo esparvoado; mal soava o clarinete do macho sobranceiro, surgiam estremunhadas e prestes, pata aqui, pata acolá, sacudindo o sono, carraça pegadiça que se escondera nas asas. 

        Contudo, a maioria masculina, suada e suja, barba a sombrear empoeirados vincos do rosto, negava-se ao lar e parava na taberna em busca de alegrias avinhadas que caíam mal na carteira e não poucas vezes eram rastilho traiçoeiro em família. Ser taberneiro era um posto: atrás do balcão, o taberneiro sentia-se alguém, aviava copos de cinco e de dez, uma aguardente ou outra em copinhos pequenos e ia limpando com um trapo descolorido de tão surrado, os círculos arroxeados do fundo dos copos. Torneiras de água corrente não havia. Atrás do taberneiro, ao lado das pipas de vinho, um alguidar cheio de água que manhãzinha era limpa e à noite tinha a cor do vinho tinto, era serventia da casa. Havia muito menos higiene, lavar os copos era "passar por água". Os mais inveterados iam ficando e só desencostavam do balcão renitente à invectiva do taberneiro, “ já não avio mais nada, tudo p’ra casa, já passa das dez, passa aí a Guarda e ainda levo com uma multa”.  E havia quem, para desanuviar, jogasse o chinquilho e o dominó entre rodadas pagas à vez. Com a TV ninguém sonhava; lá bem no alto, o som do rádio abafava na algazarra. Fazia-se um silêncio de respeito para ouvir Amália, o conjunto Maria Albertina e a acordeonista Eugénia Lima, que se apanhavam já a meio por via da desatenção geral e mercê de alguém que conseguia destrinçá-los e gritava, “deixem ouvir, porra!”.  E então ia-se fazendo um silêncio geral e só faltava que os homens tirassem o boné como à passagem dos funerais. Em vez disso ouvia-se uma voz ou outra a traduzir a unanimidade, "é uma artista!". Ou, "sim senhor, isto é que é cantar/tocar!". E mal cessava a função retomavam o chinquilho, colocava-se outra pedra no jogo do dominó, pedia-se ou escorropichava-se a bebida. Era um mundo de homens onde o mulherio não tinha cabimento . Havendo novidade séria, as mulheres enviavam os filhos e esperavam fora que os seus homens viessem para lhes dar a má nova - morrera a mãe, o pai, um irmão, sabe Deus quem; um filho fora hospitalizado; a filha fugira de casa com o namorico; regressara o filho emigrante; a mulher morrera num repente, de um ar que passou por ela; o filho mais novo, gatinhara e fora encontrado a boiar na presa de regar a horta. Era quase sempre fatídico sinal um homem ser retirado às pressas desse mundo macho. Com as devidas diferenças, a taberna figurava  na miséria portuguesa o que os clubes ingleses representavam na classe superior: um apharteid masculino.

                                      (cont.)


quarta-feira, 16 de julho de 2025

Flash de Verão

 

        Estar na praia requer certa sabedoria. Não a rara sabedoria das palavras que se utilizam com pinça, qual mecanismo de relojoaria, mas tão só o reconhecimento de que, sem parede ou muro, todo o discurso se faz audível. É evidente, ninguém está na praia para cuscar e ouvir vizinhos de algumas horas, mas cumpre ouvi-los se não segredarem ou emudecerem.

        Bem cuidadas, modernas, as duas mulheres rondariam a minha idade. Plantaram o guarda sol nos arredores do meu – não se entende porquê, a praia é enorme – e, além de apanharem sol, conversaram sobre a vida. Ouvi da prole já com família constituída, do que serão imbróglios de heranças, de queixas pequenas e comentários tutti frutti, como é próprio entre pessoas que se conhecem e vêm de mundo comum. Uma delas sabia de tudo sobre tudo e denotava preocupação com o aspecto: ensinou a amiga a colocar o pareo, sugeriu que se enfeitasse com um lenço no cabelo (a outra preferiu chapéu de aba larga como ora se usa) e dependurou o telemóvel no guarda sol de modo a fotografar ambas com o mar em fundo. Estiveram que tempos a fotografar e apagar fotos até obterem o produto desejado. Deitei uns soslaios ao duo. A mais calada era alta, simples e ligeiramente triste. A colega tinha pulseiras quase até ao cotovelo, um atado de seda no cabelo bem tratado – não reparei se brincos, mas talvez – um pareo semitransparente e de laço alçado no altar das mamas; viajava-lhe em torno um postiço tom de tia. Repetiu várias vezes que o mar tinha uma cor apetecível, mas tudo nela repelia a água. A tristinha tomou coragem e foi ao banho uma vez. Pensei que, se estivera a sós, iria muitas mais e lhe faria bem às meninges. Quando as deixei, miravam o bronzeado mútuo, contentes de dois dias de praia e já “um tom” lhes passear na pele.

        E o mar ali tão perto...

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Tempo entre Parêntesis

 

        A força da vida vegetal vê-se a olho nu, pode mesmo sujeitar-se a medição e, se assim procedermos, saberemos o tempo em que a natureza é capaz de submergir um jardim, sufocá-lo de ervas que brotam enclavinhadas umas nas outras, vindas da humidade da terra. Já o filósofo de Mileto observava: tudo que é vivo precisa do húmido para existir. Na primavera a terra enfeita-se como para uma festa e se déssemos livre curso aos enfeites, devinha intransitável. Por vezes imagino esse mundo natural num crescendo de tudo cobrir, repleto de pequenos animais esquisitos e venenosos que onde tocam deixam bolha, maleita, mau estar. Penso em aranhas reboludas e babosas, ventre em felpa engandora, mosquitos vorazes, e o mais que vive indómito na imaginária natureza abandonada a si mesma. A seiva rebenta e corre pelo chão, os campos viram arco íris, beleza que o gado não vê, mas sente no estômago, que é como quem diz, baldeia na pança ou bandulho. O gado remói a beleza que já não é ela, tanto arrota florinhas breves como ramos de esteva e roamaninhos, lagartos que não fugiram a tempo (será?), talvez até ratos do campo bem pequeninos que marcharam enrodilhados no ervaçal. É claro que se os pobres não conseguirem fugir daquelas bocarras, talvez elas dêem por eles e os deixem escorrer pelos beiços, misturados com um cuspinho esverdeado e alguma haste seca que lhes cai da boca ou espreita lugar lá dentro. A vida interna de um mamífero é mecanismo sincronizado de várias estruturas interligadas. Como é que poderíamos não morrer?! Máquinas que vêm à vida têm de avariar. E vão avariando. Trabalham a remendos até um dia. Assim os humanos mamíferos.

        Bom, veio tudo isto a propósito de ter observado na praia – com muita ternura, esclareço – essa força vital que a natureza dos seres vivos traz consigo. Foi o caso do raiozinho de luz que vou contar. Estava eu olhando a água que sem acaso não é do meu mar, quando dei por eles. Estavam próximos de meus sisudos pés mergulhados em soalheira letargia. O meu olhar perdia-se tão na distância que os saltara. Faziam parte da família que, sem apercebermos, nascera perto do nosso guarda sol. Havia um juvenil pai adormecido deitado na sombra; uma mãe fotógrafa ao minuto, sempre rondando as crias para mais um recuerdo; e os dois garotos, completamente alheios aos adultos, entretidos no seu mundo. A mais velha teria uns quatro anos no máximo e talvez que ele nem dois – metidos em fatinhos de banho de padrão igual, a curiosidade da fralda espreitando na cinturinha dele. E eu que pensava na morte da bezerra, dei conta das crianças. Com a pá, a garota escavara um buraco e saltava-lhe para dentro para depois se içar ao exterior– a fundura tapava-lhe as pernas e o princípio do tronco. Entretanto, o garoto olhava muito atento. Ela repetiu várias vezes o movimento sempre seguida pelos olhos dele. A dada altura, ele arriscou pisar a elevação de areia escavada que aglomerava na borda e, perninhas bambas, quase se desequilibrou e caiu no buraco. A mãe fotógrafa não sei onde andava, sei que me sentei repentina na toalha, pronta a agarrar o bebé. Mas equilibrou-se enquanto a mana ia e vinha, buraco dentro, buraco fora. Captei o anseio no olhar, desejava imitar a irmã. Aguardei. Em menos de um minuto, atirou-se. Saiu-me uma interjeição, mas semi descansei ao vislumbrar a cabecita bandeando ao choque dos pés na terra. Caíra de pé. Pensei, agora fica ali até que a irmã o puxe. Qual! De repente vi a perninha curta tentando a borda sem conseguir, era quase só um pézito e um bocadinho de perna procurando apoio. E repetiu. E voltou a repetir. E ainda outra vez. Sem sucesso. A irmã não ajudou, não deu conselhos, a irmã continuava a jogar o fora-dentro, fora-dentro que o incentivava. À quarta vez, não sei bem como, apareceu um joelho pequenino e parte da coxa. Senti-lhe o esforço de alavanca que durou o que me pareceram vários minutos de músculos retesados, mas podem ter sido segundos. Num repente, estava cá fora. Não chamou ninguém, nada disse, mas o sorriso de vitória gloroficava o rostinho pequeno; parecia ter crescido. E logo se atirou de novo ao buraco. Quanto aqueles musculozinhos pequeninos se esforçavam na subida! Pensei no macaco da psicologia e mais no cacho de bananas. Seria a mesma coisa?! Nem que fosse. Na criança, o esforço é de uma ternura comovente. E não foi assim que muito aprendemos, por esforço e imitação?!

        Quando saí da praia, o abençoado pai mantinha a postura de sono solto, a mãe retomara a fotografia e os rebentos eternizavam o sobe e desce. Inenarrável aquela pernita titubeante, o pé como que pedindo ajuda à areia que desmoronava. A muda tenacidade do garoto. Nas minhas mãos, o formigueiro receoso, os meus gritinhos de velha tonta de cada vez que ele se atirava despedido e sem dar por mim.

        Foram momentos de espontânea beleza, ternura natural exposta à luz. Quanto o desejo nos motiva!

domingo, 15 de junho de 2025

Tempo entre Parêntesis

 

        Há uma idade em que os planos solares que fizemos, se acaso chegam à concretização, se mudam em dia inglês: têm as quatro estações. Na concepção, eram assombrosos; na realidade, são assombrados. Nublam-se por mau estar que esperava a hora de afirmação: percalço de uma queda; um desaforo intestino; uma alergia súbita; um dente esparvoado; um sabe Deus o quê a retirar-nos do éden em que não nos lembrámos de incluir os vários desmancha-prazeres em que o corpo se desdobra. Não é mau de todo, empresta algum movimento à roda da vida e redobra o valor beatífico de “um dia por outro” sermos como nos lembramos de nós, facto que é passado, mas de que nos custa muito despegar (termo que me lembra o sempre nítido “deslarga-me” de Lobo Antunes), portanto, o presente, nesta circunstância, é pouco usado; raro contamos com a realidade do que somos. Se padecer em férias é pior que sofrer fora delas, é, contudo, melhor que não as ter. E é isto. Vamos vivendo.

        Jamais o meu ser tinha experimentado férias de praia que não metessem ao barulho supermercados, fogões, idas à praça do município...coisas de quem não descansa nunca, sina da maior parte das mulheres portuguesas. É claro que excluo as mulheres que têm casa própria em qualquer estância e em casa uma Maria que lhes faz tabuleiros de carne assada; bacalhaus à isto e aquilo; arrozes e o mais que segue congelado se acaso a dita Maria não vai atrás agarrada às geleiras e a aparar as garotices dos pimpolhos. Está para todo o serviço, sacudir toalhas e aspirar a areia, vestir e despir a garotada, fazer mochilas e lanches, lavar e passar a ferro, ir às compras e encarregar-se das refeições, pôr a casa em ordem. Pois é, mas desta vez, mesmo sem Maria, consegui. Digamos que paguei a várias Marias. E gostei de fazer vida de porco, comer, dormir, tomar banhos de mar em água menos fria que a da minha praia. Porém, concordo com minha irmã: aquela água não nos liberta a mente, falta-lhe a frescura que nos leva as mágoas, senão todas, grande parte. Diria que não cheguei à catarse. Mas almejo. Compreendi – finalmente – quanta coisa a meus olhos se fechava (o trabalho mostra resmas de factos e impossibilita outros mais; tudo é como tem de ser). Gente desocupada de funções tem tempo para ver mais, pensar melhor, observar pormenores que escapam ao corre-corre. E descansar.

        Não me desagradou a vida de animal preguiçoso. Sentava-me na varanda a assistir ao despertar da outra gente, quando tudo era quieto e uma breve claridade antecipava o sol. Descia e o pequeno-almoço tinha pouca gente e pão muito fresco; diariamente bendizia aquele pão ainda morno que não tinha de buscar na padaria e me sabia a maravilha enquanto os pardais esvoaçavam à minha volta. Um ou outro passaricava nas costas da cadeira a meu lado e logo batia asas rumo à largueza das janelas abertas. Sem horário e tão perto da praia, seguia leve, desobrigada de carregos. Isto enquanto a maior parte do pessoal amontoava piscinas fora, à torra na respectiva espreguiçadeira, escutando as quedas de água fingidas (caso pudesse ouvi-las, que a gritaria de miúdos e graúdos desentraitados nos escorregas, era enorme). E a eterna mania da conversa ao telemóvel. O que deixará esta gente por dizer?! Talvez quase tudo seja ruído, barulho, nada. Tanto de nós é nada em vida tão curta como rara. Que estranhos somos.

(cont.)

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Como Açúcar no Fundo da Chávena

 

         As férias, tal como hoje se me apresentam, terminaram. Partiram os veraneantes que se apresentaram de visita. Uns, rumaram a penates, dentro ou fora do país; estes, apenas demandaram outras paragens e, algures, continuam a evasão estival; um ou outro, só agora goza férias. A todos desejo a recuperação de dois anos de insegurança que nos tolheu os passos e muito impediu. Por exemplo, o tão desejado tempo de lazer.

         Portanto, no finzinho desta primeira semana do pós-férias, fulo comigo ou apenas solidário, o relógio ameaça parar. Agora deu-lhe para atrasar as horas, alarga os minutos e vem desopilar o mau humor na pressa nervosa dos segundos, tic, tic, tic que até parece salto alto em fervente irritação. Antes, não me soava a corrida dos segundos, agora escuto aquele sapateado de máquina exasperada. Que coisa! Quanto a mim, e apesar da verdade ser inversa, garanto que os dias me são maiores. Devo sofrer da doença do relógio – oxalá não seja contagiosa – e acrescento à jornada um sem sabor que, por mais que faça e refaça, recusa mudança (às tanta é constipação d’alma). Portanto, são dias insossos, desenxabidos de todo e que contrario como posso. Voltei aos livros, penso no moreno café com leite das sextas e segundas que me tardam mais que o amigo do senhor rei, zanzando para as bandas da Guarda.

Mas ficam os bálsamos da presença. Persegue-me a benigna saudade dos teus cuidados, a medida verificada de te ser importante, a companhia que me és. Ninguém vê e comenta filmes comigo, senão tu; ocupas-te com o que leio, perguntas, dás opinião se acaso conheces; só tu me ofereces bilhetes para um espectáculo surpresa que sempre faz o meu gosto. E como a alma se afeita ao que lhe cai bem. Bastam uns dias e logo o hábito quer entrar. Que há bons hábitos, hábitos que são vida - sem metáfora. Mas pronto, resta a lembrança. Quero crer em amores fáceis e indestrutíveis. Tenho razões para acreditar. Como é que dizia Freud? “Temos de amar, senão adoecemos”. Colhi a frase num romance, mas tenho esperança que seja ele o autor; só lhe ficava bem, pois não era? E reparo que sou mais parecida comigo (o eu que imagino existir) nas tuas fotos. Ó inefáveis mistérios.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Sem Gaivotas ou Cavalos a fazer Sombra no Mar

 

    Nos intervalos desta vida de férias, respirando os bons ares do campo, dava escola paga e fazia recreios de horas e que os “alunos” adoravam tanto como eu. Tinha-os em nossa casa das nove às cinco e as horas passavam por nós sem que déssemos por tal. É claro que meu pai ralhava todos os dias porque os garotos lhe pisavam isto e mais aquilo, discurso que tinha apenas uma pontinha de verdade porque, brincando todos na rua de casa, por vezes a bola intrometia-se na agricultura e aninhava nos canteiros de feijão-verde, tomateiros, nabiças e o mais.  Na escola paga, também era feliz, ensinar divertia-me. Brincalhona empenhada e mais velha que os outros garotos, não se notava tanto a falta de jeito. Portanto, jogávamos horas sem fim “ao mata”, desforra atrás de desforra, e sentia-me vingada dos dissabores sofridos na ginástica do colégio onde nem uma bola apanhava. Limitava-me a permanecer ao fundo do campo, sem estorvar a equipa a que pertencia e  pronta a ser morta quando o adversário entendesse. Era uma morte santa e chegava-me bem no finzinho do jogo, uma vez que estava derrotada à partida. O esmero na pontaria dirigia-se às rebeldes e ousadas garotas que corriam desalmadas e tentavam por tudo apanhar a bola, condição para não morrer. Enquanto na escola paga conseguia ser das melhores e todos me queriam na equipa, no colégio, jamais fora escolhida; no final do "vamos escolher" das duas chefes de equipa, sobrava eu e outra aluna. Sempre as mesmas. Acontece que ela tinha pé chato, eu era apenas desajeitada, factor que me acompanha a vida. Mas pronto, habituei-me a conviver comigo.

 Depois, havia as horas compridas de tarefas domésticas. Um aborrecimento pegado. Entre outras coisas, competia-me passar a ferro. Usava um ferro de brasas e, enquanto “pegavam”, ia ler. De vez em quando distraía e as brasas ardiam por completo, quando ia pelo ferro só havia cinza. Hoje lamento profundamente o pouco que ajudei minha mãe. O quanto não vi de trabalho por fazer, o tempo que gastei a ler enquanto ela se esfalfava sem me obrigar a acompanhá-la.

Havia o arrancar das batatas e pô-las em monte no barracão. E desembandeirar milho, e descamisar, e malhar, e joeirar na eira. Uma data de coisas que obliteravam o colégio. E com as modernices passámos apenas a atafulhar a debulhadora (era o que mais gostávamos) Eu, de forquilha em punho, era belzebu atento servindo as maçarocas à dentuça da máquina. Minha mana e primo a carregarem os milhos aos pouco enquanto meus pais lançavam gigas de muito quilo e a bebé cirandava por ali, nós aos gritos, sai, sai, ou ainda te pisamos. Envoltos em nuvem de pó vivo e em sintonia com os estremeções do monstro, dentro do hálito de gasóleo transpirado, habitávamos um barulho de inferno. E terminávamos sujos e empoeirados. Ríamos uns dos outros e uma comichão insistente obrigava-nos a um banho no tanque onde meu tio caçula tinha posto peixinhos vermelhos apanhados na vala ora seca, e que nos circundavam em voltas de contorcionista admirado. Meu pai ajustava o preço com o senhor da debulhadora contando os sacos de milho. E comandava ao rés da máquina, vá, saiam lá daí que sujam a água. Mas depois ficava na conversa e era noite. Aproveitávamos a distracção e permanecíamos no tanque de rega até já não nos enxergarmos uns aos outros. Brincávamos. Então, minha mãe abria a janela e envolta na luz amarela do candeeiro de petróleo, meio a rir meio severa, saiam da água. E trazia-nos as toalhas. Era verão e existíamos sem depois. 

sábado, 30 de julho de 2022

Sem Gaivotas ou Cavalos a fazer sombra no Mar

 

Se leio as crónicas de Dulce Maria Cardoso, concluo que não existem duas vidas iguais e que, mesmo as semelhanças, somos nós, peregrinos solitários em busca da comunicação, a repará-las. Esta semana conheci-lhe o mapa de aniversários, delimitando o tempo que considerava férias, e o facto do términus lhe vir com o êxodo dos amigos que rumavam ao Algarve e demais lugares de veraneio. E da fúria de leitura que a assaltava em solitário Agosto, na pausa de amizades a banhos. Os amigos regressados traziam as histórias de férias. E contavam dos amores de verão, ainda gritos de sol, a saudade escaldando por todo o corpo. Adolescente de curta história, era nos amores dos outros que Dulce se recreava e espraiava a mente.  Vou deixar de lado Os cavalos de Tarquínia que não me lembro de ter lido e mais o modo como a escritora misturava o romance com a vida. E contraponho a minha versão.

         Eu adorava a escola e não me lembro de gostar das férias. A escola era-me simpática. Senão vejamos. Minha mãe, do primeiro ao último dia de colégio,  manteve o menu do almoço e que, sem acaso, era o meu preferido. Seguia num termo para estar mais ou menos quente, arrumado em saco que carregava no suporte da bicicleta juntamente com o dos livros. É certo que as batatas fritas estavam de orelha derrubada; que a carne fugia um tanto ao gosto original; e que ao ovo estrelado faltava o molho – estava recozido ou vagava  pelo fundo do termo, tingindo o que lhe fosse próximo. Mas continuava a ser o meu almoço de eleição. Por outro lado, as férias impediam-me de ver a única amiga.  Ficava-me a cinco quilómetros de distância e, com o calor, parecia esquecer-me. Não respondia a cartas e eu inventava que vivia outra vida. Impressionava-me o desmazelo afectivo a que me julgava votada. Em mim ela era uma Sempre-Viva e lamentava não poder contar-lhe as curtas novidades que me chegavam ou eu imaginava.   Contudo, a meio do verão, em tarde embezerrada, chegava-me pontual, o pai ao volante a desembrulhar recomendações e cuidados que, a serem cumpridos, nos apartavam todo o prazer. Nessa tarde, os ponteiros enlouqueciam nos mostradores dos nossos relógios minúsculos e logo logo nos surpreendia a buzina do automóvel que a roubava de mim. Fora deste contacto, havia o trabalho e os livros que lia amiúde, esticando os bocadinhos livres ou inventando-os, enquanto iludia as tarefas. Se, por azar, me perdia num romance e distraía da motorizada de meu pai, saía uma chuva de queixas, ordens e ralhos fortes, setas que me eram dirigidas e a minha mãe -  eu porque lia, ela por não me retirar os livros e pedir mais trabalho. Lembro a rega ao nascer do sol, o acordar estremunhado, meu pai no corredor em voz de comando, Beatriz levanta-te que tens de vir regar. Era trabalho em jejum e que requeria paciência e alguma habilidade a manejar os canos da água. Meu pai desorientava breve, sabe Deus com o quê de mim, os gritos baralhavam - ainda mais - a minha inépcia, virava para a esquerda em vez da direita – e vice versa – e ele tornava-se apoplético.   Nesse purgatório, o caso evoluindo de mal a pior, temia umas porradas. Bicho amedrontado, desejava apenas o fim  da função. Meu pai devia considerar que existia uma idade própria para os ajudantes da rega já que todos os rebentos da família, incluindo meu primo, o menos temeroso e mais paciente, por lá passaram à vez. O meu alívio quando o nome passou a ser outro, foi bem redondo.  Hoje recordamos dias de aspereza matinal e de que rimos, cada um contando a parte que lhe coube e a forma como a enfrentou. 

(cont.)