Cheguei de férias e pensei postar sobre esse tempo que é inteiro lazer. Esqueço a casa e suas represálias, o portátil faz retiro espiritual e o tlm cinge-se ao uso mínimo, que é como quem diz, só para filhos. Saiu um post diferente. Parece-me que o motivo é má consciência – tanta guerra inútil, mas que mata, derruba casas, destrói vidas e haveres. Tanto mal reunido na mente dos homens com poder, esses que deviam ser exemplo; e a voracidade do fogo a ajudar, comendo hectares de vida. Dói abrir a TV e assistir a tanta chama enraivecida, verificar ao minuto a violência progressiva desta máquina de destruição natural durante estes dias de sobreaquecimento. Portanto, não apetece contar de quartos limpos, varandas arejadas e viradas ao verde bem tratado onde quase ninguém passa e eu em leitura remansosa com paisagem ao fundo; e quase me envergonha descansar os olhos na horta cuidada e prolífica, antecipando o mar e uma praia em tudo semelhantes ao que considero minha pertença não exclusiva, excepto na tepidez da água que nos abraça íntima, gesto que repetimos a gosto.
É verdade que não existem cardos do mar azulando pelas dunas, nem aquelas espantosas flores brancas que parecem açucenas e me sideram em cada vez que as contemplo enraizadas na areia, digo com os meus botões que quase flutuam por entre os grãos, sem água doce que lhes valha. Acredito que sejam tão lindas como as flores do deserto. Abismo nestas maravilhas improváveis da minha praia. Que ora nem vejo por ter encontrado caminho mais fácil e que não danifica a duna.
Mas também é certo que me antecipo à multidão turística, e nas horas de calor intenso descanso no quarto e volto mais tarde para a encontrar igual, salvo a água mais longe ou mais perto, segundo o que a maré determina. É um lugar como tantos: vive da animação turística em época balnear. Tem bairros senhoriais que são casas de praia e ficam na sua maioria fechadas durante parte do ano. Uma pena! As ruas, a fachada e a pintura são iguais e com barras: brancas com barra azul, azul com barra branca, amarelas com barra branca e o inverso. Existe um passeio junto à linha da costa bordado pelo verde das árvores e onde passa o que suponho seja um riacho atravessado por várias pontes pequenas. Mais à frente, um enorme quadrado de água por certo marítima, surpreende. Apetece andar de bicicleta; neste lugar encontrei jovens e menos jovens pedalando.
Talvez por ser madrugadora, em qualquer hotel, entro na sala de pequeno almoço no primeiro quarto de hora de abertura. Ali, os ingredientes apresentavam extensa variedade, possibilitando pequenos-almoços de natureza diversa: do muito frugal ao mais pesado, com bife, feijões, ovos com bacon e sem, ovos estrelados na hora, etc, etc. Havia pouca gente, quase toda portuguesa, e demorava-me a olhar os comensais ocupados a encher pratos sobre pratos e a digeri-los com afã digno de nota. Havia neles um isolamento de tudo, eram eles e o alimento; não levantavam os olhos dos pratos e, pressurosos, devoravam-lhes o conteúdo como se disso lhes dependesse a vida (em parte dependia). Eram tão velhos como eu, alguns um bocadinho mais. O que leva alguém a alimentar-se com tamanha sofreguidão?! Não é nada poética a imagem mais nítida que me ficou das férias, mas gravou-se-me aquela pressa na mastigação e o vaivém de pratos que os funcionários iam retirando e eles repondo. Encerrado o expediente, levantavam-se prestes e abandonavam o que me convenço hoje ser o seu santuário. Isto porque, logo que a sala de almoço abria portas, era vê-los, formiguinhas afadigadas. E eu que me considero pessoa de “boa boca” e não debico, pergunto-me como e onde encontravam o apetite para almoçar. Era refeição em que não os seguia, estava acompanhada e o restaurante repleto. Quem sabe comiam apenas uma saladinha e estou eu aqui numa de má língua...