Fui professora da turma durante os três anos do ensino secundário; no 12º ano ensinei-lhes psicologia, disciplina que detestou e tive mesmo alguma dificuldade para levá-lo a bom porto; resmungava com os temas e fazia fincapé, em filosofia é que se sentia bem. No final do ano, à pergunta da praxe: “e a seguir, o que pensa fazer?” Respondeu-me seguro: vou para Filosofia. Caiu-me tudo, ele não estudava, nem detinha na escrita o rigor que um estudante de filosofia tem de cultivar, não o imaginava a ler e compreender as obras dos filósofos. E nem sequer tinha boas notas na disciplina, era aluno entre o dez e o doze, classificações que não aguentaria na universidade. Disse-lhe tudo isto e muito mais. Mas manteve, era a disciplina de que mais gostava. Fizemos uma aposta (apostei muito com alunos e à conta disso conseguimos que alguns galgassem a barreira do exame) – garanti-lhe que nem sequer concluía o primeiro ano; ele garantiu que tirava o curso completo. Como previsto, abandonou o primeiro ano a meio. Emigrou para a Escócia. Certa manhã de frio inverno, encontrei-o num comboio, o emprego escocês era sazonal. Disse-me sorrindo, “por agora perdi a aposta, mas ninguém sabe se um dia não me apetece voltar ao curso”. Libertei-o da dívida e desejei-lhe sorte na Escócia. Sei, como ele sabe, que não voltará ao curso.
Sucede que um dos tesouros que encontrei no escritório é um escrito seu. Fez-me sorrir. Está inteirinho naquela curta folha de papel retirada de um bloco e rabiscada com a sua letra incerta, eivada de infância. Guardei-o também por gostar do garoto; para além de tudo, persiste-me a desarmante ingenuidade que o habitava.
“Professora, eu perdi a minha mala, não a encontro em casa e já a procurei em n sítios e não acho. O típico aha! :)
Peço desculpa, mas não encontro o teste, se quiser faço-lhe um novo. Deixo aqui o meu e-mail.
…...hotmail.com
Beijinho e boas férias e até para o ano!! :))”
Prontifica-se a fazer novo teste, mas despede-se desejando boas férias e “até para o ano”.
Que um anjo benévolo e persistente o vele, onde quer que pare. O papelito pertence-me, sinal de uma relação que foi, e está além do dizer.
Há pessoas que se enganam a si mesmas e não conhecem os seus próprios limites. E o pior é que nunca dão a mão à palmatória, como se diz. Gosto sempre de a ler, minha Amiga.
ResponderEliminarTudo de bom.
Um beijo.
Era um adolescente-criança a pensar ser adulto:). E acho que sim, que hoje ele sabe isso. Quanto gostei de o rever!
ResponderEliminarIngenuidade ou chico-espertice??
ResponderEliminarBoa semana
Foi meu aluno durante três anos, Pedro, e já eu na recta final da carreira; acha possível que me enganasse tanto?! Sobre esse garoto eu poderia escrever um enorme capítulo. Quando a gente gosta do que faz os alunos são pessoas que contam, interessam-nos para além da função; surpreendi tanto nele como ele próprio não imaginou nunca, mas, para o post, não interessa. Convenço-me mesmo que nenhum aluno soube alguma vez o quanto me importava e o que lhe adivinhei nos gestos, na expressão corporal, no rosto, nas entrelinhas de conversas suas e de/com colegas. Todos nós somos revelação, basta haver alguém atento que, como película fotográfica, se deixe impressionar.
ResponderEliminarBoa Semana, Pedro
Bea, adorei a parte do "libertei-o da aposta"... Diz mais da Bea do que se calhar julga :)
ResponderEliminarE eu também não conseguia positiva a Psicologia com o professor, então cancelei a disciplina e fui estudar sozinha. Tive 14 :)
Cláudia - eutambemtenhoumblog
Por vezes, como foi o seu caso, o professor é o problema:). Aí, há que arriscar e trabalhar muito. Mas não sei se eu mesma não fui a causa errada desse aluno entrar para Filosofia.
EliminarAs minhas apostas normalmente eram apenas para ver quem ganhava e espicaçar os alunos para estudarem alguma coisa; Acontecia com os que iam a exame com dez. Previa que iam chumbar e apresentava o argumento: um dez, em exame descia para oito e era chumbo certo. Houve um ou outro que chumbou, mas a maioria, só para contrariar a professora e lhe mostrar que valia mais do que ela pensava, esmerava-se e passava. Era uma alegria infinda terem derrotado as minhas certezas e não perdiam a ocasião de mostrar a minha má avaliação quanto à sua sabedoria. Neste caso apostámos mesmo com sanção para o perdedor. Aceitei por saber que ele perdia:). Caso ganhasse, o contrato era pagar a aposta quando estivesse a exercer:).
Espero mesmo que não se tenha perdido nos caminhos da vida.
Tanta ternura nesse último parágrafo...
ResponderEliminarÉ que sinto mesmo ternura por aquele magricela:).
ResponderEliminarHá alunos assim... alunos que nos marcam e alunos que marcamos mesmo sem nos darmos conta e nos surpreendem...
ResponderEliminarVida de professora:).
ResponderEliminarUm abraço, prosa
Há realmente alunos que fazem a diferença! São tantas as histórias que guardamos na memória! Neste momento, vem à lembrança duas histórias: um miúdo com olhos de amêndoa e traços indianos que fumava enquanto me aguardava à entrada da escola e outro, cujos pés não chegavam ao chão na "primeira classe" e hoje é um médico bem charmoso! Bj
ResponderEliminarEstá a ver, Gracinha, o pequenino cresceu e de duas maneiras pelo menos:). Eu também não chegava com os pés ao chão se me sentasse normalmente na carteira; na primeira classe levei o tempo a fingir que me sentava, mesmo à pontinha da tábua o que me cansava bué:).
ResponderEliminarAlunos que fumassem na primária nunca tive e acho que se os tivera não permitia que fumassem à porta da escola, eram um mau exemplo para os outros, ainda que, eventualmente tivessem idade para fumar. Na secundária é diferente, têm outra idade, mas os alunos e professores continuam a não poder fumar no interior.
Parece-me que aquilo que todos nós pretendemos é que eles não fumem. Alguns serão fumadores, mas que não sejamos nós a incentivar e antes a notar o prejuízo que do tabaco pode vir - tenho um filho nessa situação e sempre o aviso; mas nunca fumou em nossa casa.
Bea, não é um pouco "cruel" o professor que aposta que o aluno não vai conseguir passar ou fazer algo? Pelos vistos é uma estratégia que poderá funcionar em certos alunos mais competitivos, mas com outros poderá ser negativo, certo? Será fundamental o professor ter um muito bom conhecimento psicológico de um aluno.
ResponderEliminar(isto são perguntas de uma leiga na matéria e que encara que o estimular alguém deve ser sempre pela positiva...)
Agora o seu escritório fez-me lembrar a célebre arca de Pessoa :)
ResponderEliminarSe me permite, a questão que eu colocava era o que a fez interessar-se por este aluno em específico. Faz-lhe lembrar alguém? Um filho?
Porque, deduzo, não seria da mesma maneira com todos, pois não?
Gostei do post e até já comentei que apanha-me ausente e a verve e a inspiração explodem!! Mas vou ler tudo... e comentar :)
Ah, Ah, Ah. Dias existem em que a gente escreve para não pensar tanto, para não entristecer tanto, para "pensar noutra coisa" - ao menos enquanto escreve. Nesse caso procuramos temas fáceis e longe do que nos atormenta ou preocupa.
ResponderEliminarTive muitos alunos especiais, não apenas um. Este garoto não me lembrava ninguém, mas sempre o achei muito desvalido, um tanto inocente no que dizia e sempre inseguro (quanto mais inseguro, mais se indispunha com as colegas). Depois dormia pouco porque jogava com noctívagos na net - suponho que a dinheiro, mas não asseguro. Ia cedo para a cama mas punha o despertador para jogar - os pais ignoravam este facto. De manhã, ou chegava com atraso ou faltava. Para não chumbar por faltas comparecia, mas tanta vez só de corpo (sei tudo isto porque tinha aulas com a turma à primeira hora e quis perceber o que se passava) Enervava-se com facilidade porque, como eu lhe frisava, faltavam-lhe horas de sono e o corpo precisa descansar. Penso ainda hoje que o seu carácter o faz vulnerável a muitos perigos. Quando voltei a vê-lo não o senti assim tão mudado. E nem me pareceu que gostasse de me ter visto. Eu é que fiquei contente em revê-lo e fui falar-lhe.