quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Lavagante

 

        Por fortuito acaso originado nas distracções a que sou dada, encontrei-me em Lisboa sem compromissos. “Lavagante” nem sequer foi primeira escolha. Mas, após pesquisa aturada, verifiquei ser o filme mais curto; e o último argumento de António-Pedro Vasconcelos. Dois motivos de peso. Haver Nuno Lopes também conta, é rapaz que não desmerece. Resolvi-me.

        A sala encontrava-se dentro dos parâmetros: alguns gatos pingados. Custo a crer que as fitas hoje dêem lucro, mas devem dar ou não existiriam. Apesar de tão pouca gente a assistir, a máquina não me autorizou sentar-me com uma cadeira de intervalo do outro(a) espectador(a). Parvas das máquinas. E eu que gostava das meninas que me davam opiniões sobre os filmes e me informavam sobre a duração da publicidade que me permitia vê-los desde o princípio, após viva corrida; chegava e a sala escurecia; depois o meu problema com a iluminação dos degraus e mais procurar o número do lugar que não via. Enfim, tudo isso passou e agora resmungo para a máquina que não me sorri nem elucida, mas cumpre - desde que não deseje bilhete com intervalo de uma cadeira vazia. A medida pretenderá cultivar relações de vizinhança num cinema quase vazio?! Ná. São birras de máquina programada para casa cheia (ah, ah, ah).

        Gostei da realização de Mário Barroso pessoa que desconheço de todo. Filmou a preto e branco, aproveitou bem os jogos de luz e sombra, e conferiu densidade aos personagens nos grandes planos do rosto. Amei grande parte dos diálogos entre o par amoroso. As duas jovens do elenco surpreenderam-me pela beleza exacta que emanam. Dão corpo ao estribilho “uma é loira e outra é morena” e a loira consegue, mercê do conluio entre linguagem e interpretação, certa aura de mistério sempre sensual. Creio eu que o cinema vive também desse encanto. E há a época: Salazar e a repressão sem descanso, a pide e as cargas da polícia sobre os estudantes (podiam ter aprofundado mais este aspecto), a censura no mundo dos jornais. Nuno Lopes é o jornalista eternamente frustrado com os cortes da censura. É ele o fio que une toda a história. Penso que desconheço O Lavagante de Cardoso Pires, mas a história é verosímil. Parece-me que a trama poderia ser mais desenvolvida, os desconcertos e diferendos entre uma menina-bem com amizades fascistas e um médico com simpatias democráticas, para ultrapassarem a paixão momentânea, seriam inevitáveis, veríamos os acertos e o seu contrário, a mudança em ambos que só o amor traz e justifica a tomada de posição feminina que sela o filme. Não vimos. Pode ficar à conta da subtileza artística. Ou ser outra coisa.

        O certo é que saí sem me envergonhar de mais um filme português. Lavagante deu um passo em frente na reconciliação. Obrigada a todos os intervenientes, incluindo o escritor que hoje seria centenário. Um grande, um enorme Bem Haja, António-Pedro. Orgulho-me de ti, imagina. Ficaste-me.


14 comentários:

  1. Respostas
    1. Eu gostei, Prosa. Mas é como dizem os meus filhos, "a mãe gosta de filmes a preto e branco".
      Bom fim de semana também para ti

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    2. e acrescentam meio a rir, "dramas".

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  2. Gosto muito de ir ao cinema e vou várias vezes! Levo a sugestão Bea 😘

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  3. Li Lavagante e pensei em comida... afinal é um filme :P

    Nunca tinha lido nem ouvido nada acerca do mesmo. Vou ver!

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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    1. Vá sim, Cláudia. É filme que se vê muito bem.
      Bom fim de semana para o trio

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  4. "O lavagante é um crustáceo primitivo, sem grandes requintes na cozinha. É mais saboroso que a lagosta e parece que mais selvagem porque não se adapta tão bem aos viveiros" (pág. 15 do livro de José Cardoso Pires).
    "O lavagante alimenta o safio que depois devora, e assim acontece com as duas personagens desta história" - sinopse da obra.
    Obrigado pela partilha Bea, fiquei curioso por três razões: por ser sugerido por si, por ter argumento do nosso duplamente admirado António-Pedro Vasconcelos (que pena ele já não estar entre nós para assistir à estreia e nos continuar a falar e encantar de filmes. Dizem que o tempo e pressão transformam a grafite em diamante, suponho que o mesmo se possa dizer do APV) e por casualidade ter ouvido na TSF uma entrevista a Mário Barroso, o realizador, que me interessou e que a páginas tantas quando lhe pediram uma sugestão musical ter indicado o poema "Agora Não é Tarde" do cantautor Pedro Barroso, sobre os sonhos que nos ficaram por realizar e não só, musicado e declamado pelo próprio e que desde aquela tarde em que o ouvi não me sai da cabeça, nem dos ouvidos. Mesmo.
    Bom fim de semana, Bea.

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  5. A frase acerca do lavagante que alimenta o safio engordando-o até que ele não consiga defender-se, sai da boca de Nuno Lopes e suponho que textual. Os lavagantes são maldosos, animais de grande perigo porque inteligentes, digo eu. Identifico-me com o palerma do safio; só espero que não me saia um lavagante ao caminho.
    Não sei se António Pedro era grafite que a memória e o tempo mudam em diamante. Sei que era afável e as suas aulas sobre cinema foram um encanto. Além disso, convidou todos os alunos para um jantar que organizou (nenhum outro professor o fez até hoje). Não tive a dita de o ver em amena cavaqueira.
    Vá lá ver o filme e depois venha cá contar:)
    Bom fim de semana
    Nunca é tarde para umas coisas e é quase sempre demasiado tarde para outras. Cada um realiza as que pode. Mas hei-de ouvir esse poema de Pedro Barroso cujo me lembro de frequentar a faculdade no meu tempo. Bom, só o encontrava no bar, podia nem estudar por lá. Tinha coletes aos quadradinhos, era bastante avantajado e acho que cabelo e barba compridos. Uma figura. E muito popular.

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  6. Ainda não fui ver, mas parece-me imperdível. Agora ainda mais que li o que escreveu sobre o filme. Obrigada, minha Amiga Béa.
    Tudo de bom.
    Um beijo.

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  7. Penso eu que a Graça vai gostar :).
    Um abraço e Boa Semana

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  8. Já tinha ido ver...e ainda bem que não escrevi, caso contrário poderia demovê-la (ainda que a Bea não seja pessoa de se deixar muito influenciar)...como dizer: não amei mas também não desgostei. O potencial é enorme, mas há algo que não resulta. A metáfora subjacente é uma lição de vida.

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  9. Mas para mim que tenho má impressão dos filmes portugueses, foi bom. Não é uma grande obra, mas vê-se bem. Ia preparada para alguma coisa que como de outras vezes me desagradasse. Não aconteceu. Só o vi, como disse, por ser o filme mais curto de todos os que estavam. E isso pareceu-me, depois, ser defeito.
    A metáfora é de Cardoso Pires, eles só a repetiram, né?
    Boa noite, CC.

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  10. Não o quero perder mesmo. As palavras da Bea são mais uma boa referência a juntar a outras opiniões que já tenho sobre este filme.
    E sendo o argumento a despedida do António-Pedro Vasconcelos, só pode ser bom como todos os filmes que nasceram da sua sensibilidade.

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