segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Um Professor

 

Ao longo dos dias – com intervalos, é certo – tenho tentado dilucidar pessoas, situações, objectos e o mais que agradeço terem acontecido na minha vida. Escrevi sobre gente que me ajudou a ser e ficou impressa; sobre vestidos; sobre; sobre.

Mas hoje escrevo acerca do professor que menos gostei e se mantém tão inesquecível como o meu preferido. É talvez ele o verdadeiro responsável por ter seguido Letras e não Ciências, facto de que nunca me arrependi. Esse professor retirou-me qualquer hesitação. Ora isto, bem vistas as coisas, é bastante salutar.

Soube desde cedo  que os números não eram a minha praia. Não sei se por verdadeira burrice, achava-os - ainda acho – desinteressantes. Talvez o mundo seja numérico e por isso harmonioso, talvez haja a beleza da matemática, quem sou eu para duvidar se tive duas ou três positivas em toda a minha incrível relação com a disciplina. Pois. Mas não me interessa. Uso o mundo dos números por necessidade e não lhe passo cartão. Quando o estudei, era pesadelo que o professor escurecia.

Fique claro que as negativas que tinha eram merecidas, sabia pouquíssimo de qualquer assunto e o meu estudo em casa consistia em começar o primeiro exercício e falhar, insistir uma ou duas vezes, apagar, partir bicos de lápis confrangido e fechar os livros. Nos dias de chamadas ao quadro, rezava para não ouvir o meu nome. Se calhava acontecer – oito gatos pingados, como havia de escapar -, o doutor mandava-me sentar poucos minutos depois e pumba, uma nega na chamada. Eu aliviava por me sentar, que estar de pé ao quadro, frente à turma conhecedora das minhas habilidades e com os fosforescentes olhos dele pousados na minha figura, dava cabo de mim; mirravam-me as poucas carnes e as meias até ao joelho caíam-me pernas abaixo, apesar de antes de me levantar as puxar com força. Ora, senti-las a descer era quase tão mau como olhar para os números e não saber o que fazer deles. Mãos e pernas não paravam de tremelicar e tinha um objectivo: voltar ao lugar. Portanto, quando ele trovejava um  “sente-se” irritado e cheio de perdigotos, exibindo o mesmo bom modo com que a gente imaginava na infância o diabo de forquilha alçada a enviar mais um pecador para o inferno, eu ia num instante para o lugar,  as meias a descerem o que faltava. Assim como assim, desde que chegava ao quadro que esperava sentar-me. Fim do suplício.

Para meu azar, o doutor ensinava-me três disciplinas: matemática, física e ciências. Ora em física eu era outro desastre. E portanto tinha duas negativas à secção de ciências, daí dar a caderneta a assinar a meu pai sempre de madrugada. Um olho aberto e outro fechado, ele assinava sem ver, o nome todo torto na linha. Honra seja feita ao doutor: no final do ano, para que eu pudesse transitar, dava-me positiva a uma das disciplinas. Por norma seguia a lei da alternância, se num ano me dava dez a física, no outro o dez ia para a matemática. Os dois sabíamos que não merecia nenhuma delas, que eram mesmo dadas. Mas permitiam-me passar de ano.

Sou grata ao senhor doutor que me mostrou sempre o caminho a seguir e o desobstruíu.

18 comentários:

  1. O mundo é das ciências, mas são as letras que o tornam belo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu não encontraria frase melhor. Estou convicta disso mesmo e, além da minha falta de jeito para o resto, creio que a falta de ambições de poder e economia florescentes também me projectam para esse lado de letras recatadas e alguma solidão de onde se olha e vêem paisagens que o outro mundo esquece, ainda que as enalteça.
      Um dia bom, Joaquim.

      Eliminar
  2. Eu era mais desenho, trabalhos manuais e ginástica.
    Um desastre!
    Boa semana

    ResponderEliminar
  3. Booommm....não falei dessas disciplinas por puro desporto e porque, sendo leccionadas por religiosas - frequentei um colégio - elas afirmavam peremptórias que nunca tinham dado negativas nessas disciplinas e portanto.... Bom, a ginástica, a dada altura descobri que corria e saltava em comprimento razoavelmente o que me subiu a nota; mas era sem dúvida como o rapaz da anedota, marchava ao contrário, levava o tempo a acertar o passo como a irmã nos ensinara:). Os lavores femininos é que me perdiam de todo, fazia e desmanchava tanta vez que rasgava os panos do bordado. A irmã que me ensinava já não sabia o que fazer e lamentava-se, "ai filha eu ensinei tanta gente, aqui e nas colónias, e todas as meninas aprenderam menos tu". Mas não fui um caso perdido:) e se a irmã me visse hoje, orgulhava-se de certeza. Até a de desenho. O facto é que além da falta de jeito aquilo não me interessava nada e sem interesse sou uma abécula.
    Bom dia, Pedro.

    ResponderEliminar
  4. Hahah que engraçado. Eu também nunca fui muito de úmeros, mas agora estou em Contabilidade. Curioso =P

    Beijocas

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bolas, Cláudia, como é que conseguiu, isso é que é força de vontade. Não chego tão longe.
      Bom dia:).

      Eliminar
  5. Eu tive uma professora de inglês que dizia que, para a vida prática, o importante da matemática era a tabuada e as regras de três simples.
    Já a conheci adulta, mas ainda hoje concordo com ela :)
    Sempre fui de Letras. Das Ciências era péssima a Matemática e Desenho (ainda hoje não consigo fazer um risco direito). Contudo, adorava Ciências Naturais (a bicharada e as pedras), Geografia (o desejo de dar a volta ao mundo) e também Físico-Química (saber porque acontecem as coisas).
    E no entanto, no antigo 5ºano do Liceu tive um professor de Matemática que investiu tanto em mim que, só para não o desiludir, consegui ter notas bem decentes.
    Claro que escolhi Letras.
    E lá vivi a minha vidinha prática só com a tabuada e as regras de três simples, ambas óptimas para fazer contas de cabeça e não ser enganada nos trocos ;)

    E o Gato, dona bea, como está o Gato?
    Já pronto para a fotografia ou ainda não?
    Um dia feliz para ambos.
    🐈

    ResponderEliminar
  6. Olá Maria
    Como é óbvio, não posso concordar mais com a sua professora.
    Fui um caso de Letras muito claro, era mais ou menos má a todas as disciplinas da secção de Ciências e boa às de Letras. Adorava as línguas e queria estudar latim e grego e ir para a antiga alínea de românicas. Não pôde ser. Paciência. Ainda julgo que devia ter seguido românicas ou, mais actual, o curso de línguas e literaturas modernas. Mas, lá está, não deu. Não sou por isso uma arrependida, mas ter-me-ia dado maior prazer e glória.
    Não me lembro de ter professores a investir em mim:))), mas não me sinto nem senti alguma vez preterida. Bom, senti um bocadinho numa disciplina, mas não me fez verdadeira mossa.
    O meu gato está um espectáculo. É um bocadinho desquadrilhado - um tanto disforme, tem a barriga muito grande, já pensei em lhe comprar uma cinta -, mas à parte essa falta de donaire e formosura, é todo bom. Continua com pêlo de gato maltês. Acho que ainda é um bebé meigo e brincalhão e, como diz um dos meus filhos, não é bonito, é mesmo o mais feio dos que já por aqui passaram, mas é muito querido em ambos os sentidos e direcções. E isso sim, importa.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pobre Gato, ainda bem que ele não sabe ler... ou sabe?
      Não acredito que ele seja assim tão feio. Além disso, não se esqueça da história do patinho feio que virou um belo cisne 🦢
      E, ao contrário do que dizia o Vinicius, beleza não é fundamental: há coisas bem mais importantes.
      E o frio chegou aqui!
      ☃️

      Eliminar
  7. Um professor deixa sempre uma marca... eu pelo menos lembro cada um deles (e penso que os que vivem também de mim se lembrarão 😊)!
    Mas ainda hoje o Inglês é uma língua que está longe da perfeição, graças a um professor jovem e militar que falava de tudo menos do essencial!
    Bj

    ResponderEliminar
  8. Quando fui para o décimo ano, acho que cresci 1 centímetro, por deixar a matemática no passado.
    Quando o meu marido, dado à matemática, ajudava as minhas filhas a estudar a disciplina, juro que sentia náuseas.

    ResponderEliminar
  9. :))). É isso, saiu-me um peso de cima quando entrei em novos caminhos que não incluíam matemática. Afinal havia mais mundo.
    Magui, eu sou uma criativa nos números e não obedeço a regras. A única vez que ensinei matemática a um dos meus filhos até encontrei conexões novas e lhas ensinei toda contente. Só que ele, no dia seguinte, disse-me um tanto desanimado e descoroçoado com o saber materno que aquilo não era nada assim, estava tudo errado e só na minha cabeça havia tais relações. E eu que estava já entusiasmada com o meu génio recém descoberto, tive de reconhecer, sou um zero à esquerda de uma vírgula.
    Mas vivemos como o resto das gentes, né?
    Boa noite.

    ResponderEliminar
  10. Excelente texto, Bea!
    Eu fui má aluna a matemática até ter encontrado uma explicadora que tornou simples tudo o que até ali me parecia complicadíssimo. Reunia os muitos explicandos numa sala transformada em sala de aula e não havia quem não compreendesse o que ela explicava. Em poucos meses dei por mim a levantar o dedo quando na escola o professor perguntava «quem quer vir ao quadro?». Inimaginável até ali!
    O velho professor, que sabia muito (diziam os entendidos) mas não sabia ensinar, quase me fez desistir dos números. Não recordo o nome dele apenas o que lhe chamávamos: "Palhinhas" (porquê? não posso aqui revelar).
    Segui letras, mas ainda hoje, acredita, gosto de fazer exercícios de matemática e jamais esquecerei a Dona Teresa Maria.
    Bea, adorei voltar aos bancos da escola!!!
    Beijo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É isso mesmo, Teresa, aquele meu professor de matemática era assim: eu percebia tudo o que ele dizia e nem precisava fazer grande esforço.
      Melhor do que saber muito é preciso saber passar a mensagem, ter o dom de saber ensinar.

      Um dia bom para ambas!
      🍁🍁

      Eliminar
    2. Teresa, o meu professor também tinha fama de saber do que falava, mas era muito intolerante e afastava os alunos; não sei se explicava bem, eu não entendia um boi daquilo. E também tinha uma alcunha que não divulgo e pela qual todos os alunos o conheciam. Nunca tive explicações, tinha de aprender nas aulas.

      Eliminar
  11. Bea, estou certa de que se esse professor de Matemática lesse este teu texto ficaria orgulhoso de ti.

    ResponderEliminar
  12. não sei, prosa. Encontrei-o quando tinha dezassete anos e tive a desfaçatez de lhe dizer que fora o professor que mais detestei. Arrependo-me disso e sobretudo da forma como o disse. É má acção que não esqueço. Acho que, mesmo involuntariamente, me vinguei. E vingança é sempre vingança: um sentimento negativo. Tenho má consciência.

    ResponderEliminar