sábado, 31 de outubro de 2020

Um Versículo

 

Livro de Rute 1, versículo 16

Não insistas comigo, respondeu Rute, para que eu te deixe e me vá longe de ti. Aonde fores, eu irei; aonde habitares, eu habitarei. O teu povo é meu povo, e o teu Deus, meu Deus.

 

 

Foi num romance de amor feito em belezas de cordel que li o versículo pela primeira vez. Então, não fazia ideia do que fosse a Bíblia. O mais sagrado que conhecia em letra impressa era o catecismo. Dele, lembro crianças lindas como não há, e figuras etéreas e celestiais, anjos de asa aberta vigiando garotos que atravessavam pontes estreitas sobre rios caudalosos. Perguntei vezes sem conta a minha mãe por que razão as respectivas mães os deixavam ir para aqueles sítios tão perigosos, parecia-me que havia de ser coisa de gente desobedecida. Mas impressionei com a força daquele amor posto assim em três linhas de letra miúda. Não procurei saber mais. Os meus sete oito anos estarreciam à profundeza do sentimento e sua entrega absoluta; e no que nos ultrapassa não se mexe, é assim por assim ser.  Ajudada pela trama do romance - a frase era posta na boca da heroína e dedicada ao amado -, criei a noção de se tratar de um amor profundo entre homem e mulher.  E assim vivi e cresci sem atropelos de maior. Curiosamente, foi também numa aula de catecismo que descobri O Livro de Ruth e o seu verdadeiro sentido. Por qualquer razão, enquanto frequentei o colégio, as aulas de religião e moral ministradas pela minha querida directora, senhora a que não consegui até hoje encontrar defeito, cingiam-se ao novo testamento e a questões da existência para as quais eu não estava minimamente preparada e só hoje valorizo (custei a chegar lá). Tinha pois dezassete anos quando descobri o antigo testamento. Foi numa aula de catequese, que se estamos num colégio de freiras temos catequese até à morte, mas com outro nome. Ali, dava pelo nome de Grupos de Reflexão. A irmã responsável não se parecia com a amável e sábia directora, mas dava-nos a bíblia para a mão. Portanto, enquanto ela ia falando, eu entretinha-me a descobrir pragas e más vontades de um Deus irado e vingativo e sacrifícios humanos que me arrepiavam dos pés à cabeça mas também me descansavam, tinha a certeza absoluta que nenhum dos meus progenitores seria capaz de pensar em me oferecer em sacrifício a um Deus. Foi também por essa altura que entendi que não há milagres, a fé humana tem perna mais curta que a mentira e portanto falta matéria prima que os produza.

Bom. Antes que me perca ainda mais: certa vez de catequese (ou reflexão, se preferem), ao folhear a bíblia como de hábito, dei de caras com o Livro de Ruth. E eis senão quando, descubro que as palavras que tanto admirava eram de Ruth sim, mas dirigidas a outra mulher. Ruth, então viúva, falava para sua sogra. Caí das nuvens. Muito boas e amigas seriam a sogra e Ruth. Portanto, ao invés de perderem brilho, as três linhas cintilaram. Creio que existe bem no fundo de todos os homens essa esperança de encontrar assim um amor devotado, uma amizade radical de onde habitares habitarei, a certeza absoluta num outro de companhia, seja ele quem for.  Não é um “Deixa tudo e segue-me”, mas é quase. E se for esperança infundada? Não há esse tipo de esperança, tudo que se espera existe enquanto espera.

20 comentários:

  1. Interessante. Não sabia.
    Sou católica, mas conheço pouco da bíblia.

    Beijinhos e bom fim-de-semana.

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  2. Olá bea,

    Passei só para desejar bom fds.
    Não me meto em discussões teológicas, não tenho conhecimentos profundos, mas o que li deu para perceber que não gosto desse deus cruel e vingativo do antigo testamento: prefiro os deuses do Olimpo.
    Gosto mais do novo testamento com a bondade de Jesus: mas tudo isso são histórias...

    Por aqui o dia amanheceu lindo, espero que por aí também.
    Não se esqueça de ver a Blue Moon logo à noite, com o 🐈 ao colo, claro (eles também gostam de miar à lua).

    Abracinho e turrinha.
    🌾🍂

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  3. Pois...tudo no mundo são histórias. Umas, vividas e contadas; outras, só contadas ou só vividas. Também não tenho conhecimento profundo de teologia, mas como católica educada a condizer, sei algumas coisas, provavelmente vistas e interpretadas à luz do catolicismo. Mas a verdade é que tudo é susceptível de interpretação e nada existe em estado puro.
    A minha directora devia ser da sua opinião, nunca nos leu coisa alguma do Antigo Testamento, bastava-lhe sabermos que existia. Bom, o Deus cruel e vingativo até que exerceu sobre mim certo poder encantatório, era bastante parecido com os humanos e todo outro do que morava no Novo Testamento. Além disso, abundam episódios que o tornam interessante, gosto de histórias:).
    Pois é, ontem dei-me conta de que a lua estava quase cheia. A ver se vejo. Com o gatito, é claro.
    Bom fim de semana prolongado, Maria.

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  4. Texto  interessante Bea em mais uma história da sua vida e que eu, enquanto seu leitor atento, agradeço.
    Interrogo-me vezes sem conta se é mais difícil explicar a fé ou negá-la. Talvez seja um debate em vão.
    Sabemos que duvidar de tudo é próprio do homem, porque é o único ser que pensa, contudo parece impossível a ideia de se poder alcançar qualquer esboço de realidade pelo conhecimento. Não tenho dúvidas, é mais fácil conseguir-se a salvação pelo caminho do amor e do trabalho - mesmo assim, passo a vida a pedir proteção divina :).
    Dito isto, a minha sensatez leva-me a aceitar todos os credos e confissões, com respeito e tolerância, numa espécie de ecumenismo de igrejas e com a porta aberta igualmente ao ateísmo.
    Todavia, continua a haver um argumento de difícil refutação e que de certa forma sempre abalou o meu edifício religioso:
    "Porque não criou Deus um mundo livre de sofrimentos e de tristeza, no princípio, quando não havia no indivíduo mérito nem demérito para determinar os seus actos?".
    E é isto, uma boa noite Bea.

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    1. Não sei responder. Mas esse mundo que refere até me parece um paraíso. E depois, como se distinguiam um do outro?! Também verifico que não consigo pensar um mundo de natureza paradisíaca
      Boa noite, Joaquim.

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  5. Como eu gostaria de ser, de ter uma amizade assim plena. Mas sou apenas pessoa comum e essa capacidade de assim me entregar, transcende- me. Mas a ideia é muito inspiradora. Fique bem, Bea.

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  6. Talvez seja um ideal, Nina. Os ideais, como a esperança, Têm de haver.
    Boa noite.

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  7. Olá Bea!
    Hoje a pétala é sua.
    Tirei de um comentário deixado no Rol.
    Beijo, bom domingo, saúde.

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  8. Ainda não vi. Já a visito.
    Boa tarde, Teresa.

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  9. Nunca li a bíblia e já andei na catequese também.
    Mas já tive curiosidade em pegar nela.

    Este também nunca tinha ouvido. Sempre a aprender, por isso é que isto é giro =)

    Beijocas

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    1. Em todo o lugar é sempre a aprender, Cláudia, desde que se tenha essa curiosidade:)

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  10. Estava a lê-la e a pensar no meu caso. Também andei nas freiras e o único livro permitido era a Bíblia. Com o antigo Testamento e tudo, pois quanto mais assustadas melhor. Mas creio que toda a gente devia ler a Bíblia. Foi o meu livro de aventuras, de histórias maravilhosas, de histórias de terror, de histórias de perdão e de amor. E foi o meu primeiro livro...
    Cuide-se bem.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. A bíblia, como eu disse, não foi o meu primeiro livro. Em Religião e Moral tínhamos o novo testamento que não era novo para mim, ouvia-o durante as missas desde que me lembro.
      Concordo, todos deviam ler esse livro tão antigo. Mas é cada vez menos conhecido.
      Boa semana, Graça.

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  11. Li algumas partes da Bíblia e devo ter uma... algures na biblioteca e há muito que desejo abri_la pois tem histórias muito interessantes!
    Um dia destes... leio! Bj

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    1. Como escrevi ali em cima, considero a bíblia um bom livro. E o Antigo Testamento foi uma agradável surpresa para mim. Mas ainda o não li todo.

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  12. Pelo que vou lendo aqui não deixa de ser surpreendente a quantidade de pessoas que não leram a Bíblia. Não sei se serão todos católicos, nem isso interessa, pois como a Graça Pires diz toda a gente devia ler a Bíblia, é um livro fundamental, nem que seja para discordar... Foi por a ter lido nos teens que comecei a pôr em causa quase tudo o que me tinham ensinado em criança, havia muita coisa que não estava certa; e a pouco e pouco fui deixando de acreditar...
    Mas fui baptizada com um mês e fiz as comunhões todas, mas reitero: não gosto daquele deus do Antigo Testamento, que provocou carnificinas e pragas e sei lá que mais dignas de um filme do Tarantino :-(
    Mas respeito quem acredita, obviamente, cada um acredita no que quer.

    Boa tarde, bea.
    🍂🍁🍂

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  13. Olá Maria:)
    A bíblia, quando a estudei, aprendi que não pode ser lida e entendida literalmente. Por essa razão gostaria de ler a tradução de Frederico Lourenço, julgo eu que é capaz de desmistificar algumas passagens de mais duvidosa interpretação. Par mim é um livro santo, sagrado. Talvez a não tenha estudado com afinco, me faltem livros do Antigo Testamento, mas, o que nela é exemplar está no Novo Testamento, o que melhor conheço.
    Eu não sei se cada um acredita no que quer. A fé não é um querer. Em meu entender é-lhe superior. Para outros, será inferior, sinal mesmo de menoridade. Mas o certo é que não existimos sem ela. Podemos ter fé nos homens, no mundo, nas coisas, num deus. Ninguém vive em pura descrença. Que nenhuma pureza nos pertence.
    Boa semana, Maria.

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  14. Não conhecia, mas afinal a sogra terá insistido em que a nora a deixasse... Esse versículo pode ser interpretado de várias maneiras, ou não?Boa semana!

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  15. sim, a sogra, após a morte do filho, como era o uso do tempo, achava que já nada prendia Ruth ao lugar e incentivava-a a regressar a sua terra e casa de origem (o que não significa que o fizesse alegremente, mas ela queria o bem de Ruth e julgava que seria mais feliz junto dos dela). E Ruth respondeu mais ou menos o que está no início do texto.
    Tudo pode ter mais do que uma interpretação, não é? Eu acredito que Ruth e a sogra eram na verdade muito amigas, inseparáveis. E que cada uma o provou.

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