terça-feira, 30 de setembro de 2025

A Liberdade Passou por Ali

 

        A fadista começou o espectáculo com músicas do seu álbum recente, as cantigas de intervenção cantadas no pós abril de 74. José Afonso, Sérgio Godinho; Fausto; José Mário Branco. E até cantou a senha da revolução “E depois do adeus”. Foi o apogeu (meu e acredito que de mais gente). Cantarolei com ela, facto que decerto confrangeu as minhas manas, preferiam-na pura, sem o meu eco a soar-lhes no ouvido; a meu favor tenho que foi acto espontâneo, veio-me o espírito revolucionário ao de cima, impossível calá-lo. E mais, Gisela deu um viva específico a José Afonso e pediu uma salva de palmas, facto que me comoveu e soltou vários assobios e aceitação em dobro. Outro momento alto aconteceu quando cantou “Que força é essa amiga”, canção que todos lembramos ser de Sérgio Godinho e a que a amiga Capicua adequou uma letra que diz muito a todas as mulheres que se prezam de sê-lo. Aqui deixo um bocadinho da letra só para tomarem o gosto:

Vi—te a trabalhar o dia inteiro
A limpar a cidade dos homens
Por amor, ou por pouco dinheiro
Ficam velhas as tuas mãos jovens
O teu peito, o teu colo é consolo
A despeito do teu próprio choro
Que força é essa?
Que força é essa, que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer
Que só te manda obedecer
Que força é essa, amiga?
Que força é essa, amiga?
Que te faz levar o mundo todo na barriga

(…)

        E, com toda a propriedade, pediu para a amiga Capicua uma salva de palmas. Prontamente expressiva. Mas houve de imediato quem se levantasse e fosse embora – sei porque estávamos no corredor a meio e tinham de passar na nossa frente. E já acontecera com alguns gatos pingados quando cantou Zeca Afonso.

        Em seguida, os fados. Mas aquilo que me arrasou foram as canções de intervenção e a introdução corajosa de Gisela antes de cada uma. Sem referências específicas, todos sabíamos o que ler nas entrelinhas e qual o significado de a fadista dizer que são canções de novo necessárias. Achei lindo e gratificante ouvir de alguém que não viveu o 25 de Abril de 74, a importância de continuarmos a ser democratas. Gisela João tornou-se a minha Gisela Sem Medo. Pela coragem, mas também pelo gosto. Pelo profissionalismo do espectáculo, desde o cenário em branco completo, ao original guarda roupa na mesma cor; pela boa disposição; por não abdicar de valores que transporta e não se coibir de chamar a atenção do público para a sua universalidade. Por instigar à partilha na medida em que o particular não pode ser dominante, a democracia assim o exige. E, como frisou, há valores de que nos esquecemos e que temos de cuidar; a democracia pede-o encarecidamente – digo eu.

(cont.)



domingo, 28 de setembro de 2025

A Liberdade Passou por Ali

 

        O Fado não me move por aí além, desconheço uma casa de fados e nem aprecio espectáculo apenas fadista. Reconheço ser positiva a renovação no fado, mas não morro de amores por Ana Moura e outras fadistas recentes e mais jovens que o vestiram de nova roupagem e o fizeram renascer; mas longe de mim negar-lhes o valor que aportaram à canção nacional. Gostos são gostos. Exceptuo Amália, cuja voz move e comove e António Zambujo, um alentejano que modula influências musicais a jeito seu e me cativa até no fado. Do resto, pouco guardo neste género de canção dita nossa e que pontua por amores malfadados, ciúmes mais que explicáveis, duplicidades amorosas e triangulares onde existe quase sempre uma mulher que tudo transige em função do amado disperso por ângulos que tornam mais aguda a vida da pobre amorosa. Ignoro se realmente o fado nasceu com a cigana Severa. Mas é certo que a sua história vem de tabernas, copos e bebedeiras, guitarradas e mulheres de amor vendido, hoje dito fácil, que na realidade nem se chamará amor. Contudo, aqui estou para a apologia a uma fadista. As voltas que a vida dá!

        A despeito do meu sentimento para com a canção nacional, os familiares mais próximos apreciam fado. E, se programam ouvi-lo, acompanho - Sabe Deus quantas mais vezes poderemos juntar-nos amenos e ainda suficientes e capazes. Por tal razão nos deslocámos ao Caixa Alfama. Depois do Cante Alentejano que acompanhei de viva voz, depois das fotos com os meninos do Cante que as manas não dispensam e eu repudio; depois de Viviane, uma intérprete e tanto, sobretudo cantando em francês as músicas de Piaff (quanto lamento ter-se cingido à unidade); Viviane que afirma cantar diverso – chama-lhe “fado mediterrânico” - canta e interpreta este tipo de canção de forma bastante original.

        A terminar, no palco principal, Gisela João. Nada esperava e tanto me trouxe. A mim e a muitos como eu. Que o agrado medido em palmas não deixou dúvidas. E é claro que o nosso presidente Marcelo lá estava na primeira fila, facto que, em minha opinião, não indicia mais do que ele gostar de fado. Afirmam minhas manas que devia nascer de novo a ver se surgia menos ingénua; mas sempre retruco que são demasiado pessimistas e vêem os outros com olhos maléficos. Elas olham em frente e continuam, “tá bem, tá bem...o pai é que tinha razão, és uma anjinha”. É muito difícil sairmos do rótulo, portanto, desisto; mas bem no fundo de mim subsiste a minha pseudo certeza. Além do mais, o que ganharão elas ao imaginar maldade e segundas intenções em tudo e mais alguma coisa?! Não me parece haver lucro em tamanha desconfiança baseada na pretensão de saber o humano mundo.

        Conhecia Gisela João da net. Ouvi-a algumas vezes. Tem voz possante. Visualmente, é quarentona muito de se aproveitar: em cenário e adereços brancos, apresentou-se de imaculada camisa larga (parecia masculina) sobre o que semelhava cuequinha branca daquelas antigas, até ao umbigo, e um topezito de cal, em tudo semelhante aos que usamos quando os decotes são em demasia pronunciados. As pernas indiciavam mulher do norte, o que o doutor google confirmou. A completar a indumentária, sapatos bem altos e de salto fino. Achei bem.

(cont.)

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Dias sem História

 

        Os dias somam-se uns aos outros, encadeiam em engrenagem feita de horas e pouco tempo resta à memória para focar uma imagem, lembrar uma conversa, reiterar a naturalidade de um gesto que surpreendemos. Quanta hora escoa sem darmos conta, os dias correndo inexoráveis para o fosso dos esquecidos, sem pensamento que os detenha e rememore. O que fizemos nesses dias talvez perdidos ad eternum?! É incógnita que, ao invés da matemática, jamais se desvela; podemos fazer contas e mais contas que não lhe achamos o valor certo, apenas presentificamos o que a memória guardou em algum lugar dos seus habitáculos. Vem esta arenga a propósito do dia de ontem, nada extraordinário. Mas admito que sim, houve uns flashes. Se não, falta-me a capacidade para retirá-lo do anonimato. Vamos lá, faz um esforço preguiçosa.

        Ora bem, as insónias são praga pior que os pulgões e todos os organismos vivos que me habitam as flores e não são elas. É indubitável, a insónia apegou-se-me, criou hábito; mora nas minhas noites, e de certeza me tem em alta conta, ainda que eu não entenda a preferência, detesto-a à força toda. Portanto, ontem comecei o dia à procura da lata do café enquanto a gata salganhava pelas minhas pernas a querer o mata bicho. A minha gata não é dada a ternuras senão nos miados. De tanto gato que já tive nunca um foi tão arisco nem tão docemente me miou. Haja Deus! A bichana tinha de ter alguma coisa boa.

        Depois de um café com leite, cujo me está proibido em grau supremo, fiquei apta para caminhar. Um café (com leite) abre-me a alma, compatibiliza-me com inimagináveis actividades, melhora-me o mundo e a circunstância. 

        Caminhando, não encontrei humanos, esses seres tão plausíveis. Bom, havia as ovelhas, os pássaros a esvoaçar na claridade que despontava, as flores que teimam em sobreviver na beira de estrada e me lembram certas pessoas que admiro, vivem por teimosia e gosto, mau grado o lugar que lhes calhou em sorte. Gastei a manhã em afazeres que detesto, mas nestes dias beiram o agradável.

        Viajei sem sobressaltos e quase cumpri os limites de velocidade. Os meus fortuitos acontecem mais no Metro. Desocupada, posso observar sem perigo - a maioria dos viajantes fixa o telemóvel. Reparei na ternura africana de uma mãe com filho(um a dois anos) no colo e o cabelo do garoto rapado até meio da cabeça, o resto desenhado em quadradinhos pequenos cada um com um tufo a meio, parecido a um botãozito fofo e em que apetecia pôr o dedo. Amoroso conjunto. Umas estações depois, sentei-me frente a um casal jovem; apanhei uma frase dela, “quer dizer que te atrasas sempre por causa do dentista – pausa da garota –, e achas tu que espero sempre por ti; no mínimo, atrasas meia hora, e eu fico à tua espera na mesma, é isso?”. Eram também africanos ou só descendentes. Pensei que iam brigar apesar da entoação dela ser mais de quem descobre alguma coisa e está surpresa. Atrevi-me a mirá-la: olhos líquidos de gazela, bem redondos. E não enganavam, a garota gostava dele. Segredaram baixinho e saíram amigos e namorados. Falta saber se ela vai esperar sempre e se o dentista existe mesmo. Há que preservar o mistério. Também entrou uma jovem com um bebé metido naquelas coisas de que já nem sei nome, mas permitem transportar os bebés na frente das mães, pernitas penduradas e eles satisfeitos. Se eu fosse mãe de hoje queria usar aquela tira de tecido que deixa as crianças em contacto de intimidade com a mãe. Mesmo lindo. E como ninguém lhe deu lugar, levantei-me. Que maravilha a forma natural como aquela teenager entrou, pôs a mochila no chão(do Metro), deitou a mão à espessura do rabo de cavalo e soltou os anéis do cabelo que caíram em chuva livre por ombros e costas, caracóis desatrelados luzindo o súbito contentamento. Como são bonitas as raparigas quando não fazem pose e nem se sabem observadas.

        Pois é, ainda fui ouvir aquele que chamo “o nosso professor” e é poeta. Ausento-me das apresentações dos seus livros, mas, podendo, vou às aulas que dá. E pude rever o editor da Guerra e Paz com seu chapéu, simpatia e simplicidade. Terei imenso prazer se a Guerra e Paz singrar a sério, sem problemas económicos e por largos anos. Manuel da Fonseca tem bom gosto nas obras que edita, ama a língua portuguesa e os livros, e escreve lindamente; nestes tempos em que editoras e livrarias vão fechando, é um corajoso. O “nosso professor”, que só é “nosso” por termos feito (eu e uma colega querida) um primeiro curso com ele; é rapaz escorreito, rodeado de fãs. Tem palavra fácil e precisa, sempre vigorosa. Física e mentalmente muito assertivo, argumenta com rigor e denota muito queimanço de pestanas. Tem seu quê de satírico que lhe aumenta a aura, mas as suas aulas são a sério: ensina com o entusiasmo de um verdadeiro professor. Mesmo com os velhos isenta-se de complacências, está ali e é pago para dar uma aula: é o que faz. Defende os ditados, os TPC, a leitura em aula e outras coisas. É sempre um gosto ouvi-lo. Será por ser velha e defender o mesmo?!

        Lendo o que escrevi, concluo que afinal ontem foi um bom dia.


PS: Há tempos que reparo ser pouco afirmativa no discurso: escrevo demais o termo não. Hoje tentei evitar, mas, sem contar estas linhas, escrevi oito nãos explícitos. Levar o tempo a negar é feio. Por acaso, Rentes de Carvalho pensou semelhante um dia destes.

domingo, 14 de setembro de 2025

Um Dia Atrás do Outro

 

        Passou uma semana desde o último post. A mania de contar o tempo pertence-nos. Ignoro se inscrita no ADN ou fruto de aprendizagem. Verdadeiramente, parece-me que o tempo não é de passar e somos nós quem dentro dele começa e acaba. Nós o inventámos para contar a brevidade da vida, alinharmos afazeres, conversarmos assentes sobre os tempos de haver tempo: passado, presente e futuro; esta estratificação do que em si mesmo não é senão um continuum, organiza-nos o discurso, orienta-nos o pensamento simples e a reflexão mais elaborada, situa-nos.

        Sei. É tempo de escrever. Mas nestes dias de tudo, de uma guerra iminente, da inércia culpada ou das hesitações que apontam a pérfida fraqueza e o desejo de colo, nestes tempos em que o continente mais antigo se porta como uma criança, mas não é senão um velho senil agarrado a sonhos impossíveis, confesso: perco a vontade.

        Fico-me a olhar a gata que é seta disparada na minha frente e lembro o mercado biológico na Herdade de Freixo do Meio, o pão de bolota que nem aprecio, mas tem muita freguesia e é feito por alguém com forte acento estrangeiro; a senhora – possivelmente inglesa - que vende colares e gargantilhas tão bonitos e baratos, garantindo que não faz dois iguais; os vendedores de mel e de batata doce que lhes apregoam a doçura; o holandês que vende queijos da sua produção artesanal; as meninas com olhar de poço profundo junto às essências, vestindo árabe discreto, altas, um moreno estonteante. E singram lindas, num admirável roçagar de sedas, pulseiras em braços de serpente misteriosa. Também o público que compra detém elementos insólitos: aquele senhor de farto rabo de cavalo que chega descalço, a dama que usa um colar que lhe chega aos joelhos, os garotos de pés nus e perna ao léu que se refrescam livremente no tanque que foi bebedouro de bestas. E mais.

        Almoçamos: mesas e bancos corridos, dois pratos em escolha prévia e sempre de produtos da herdade. Gosto destes almoços em que parecemos conhecer-nos uns aos outros por refeiçoarmos juntos. O certo é que, mesmo sentados lado a lado, não estamos senão com aqueles que trouxemos. A dar o tom ao almoço, o grupo de cante da minha terra - um dos elementos junta-se comigo na peixaria e quando fiz referência ao mercado adiantou, “estamos sempre lá; a gente gosta daquilo”. Ali pontuam alunos que tive há mais de vinte anos e onde já os filhos fazem uma perninha. Há até uma raridade que poucos conhecem: um francês reformado que veio há poucos anos viver por cá e canta alentejano como os melhores; diz ele que foi a forma de aprender a língua. Espero eu que o seu português seja diverso do de minha cunhada, inglesa de gema, que chama o filho mais velho de Joséi.

        Aos solavancos na estrada de terra, a última surpresa: o bambi dos desenhos animados despedia-se olhando-nos fixo e sem surpresa, estátua plantada nas suaves curvas da savana empoeirada do Alentejo. Uma meiguice líquida no olhar, como que a prometer, até à próxima.

        Não sei do futuro, tento pensar que só o presente existe em verdade e circunstância. Sei que particularidades desta natureza me agradam e sustentam num mundo de homens cada vez mais alienados do seu ser.

domingo, 7 de setembro de 2025

Manhã de Domingo

 

        Não sei que agradável dor nos invade às primeiras chuvas do verão que, tranquilo, se despede. Este é o tempo em que deslizam rosto abaixo doces lágrimas de nuvem, alegria líquida e mansa que nada iguala. E se a cinza do céu é desejada, a melancolia, essa, infiltra-se sem apelo por toda a fresta humana. Como se o ar a produza ou apenas cumpra o destino, satisfaz os deuses descendo sobre a tristonha penumbra que aterrou na manhã. Os domingos são dias desabitados, salas vazias e sem voz que lhes quebre o jejum. São os dias do Senhor, razão suficiente para que nunca nos pertençam, somos visita sempre tolhida e estranha. Estamos neles sem à vontade, abúlicos, canhestros. uns monos. Dos domingos aproveita-se o descanso e pouco mais.

        Lá fora, a poeira assentou e nos campos os animais retoiçam com vigor redobrado, o cheiro a terra molhada a entrar-lhes pelas ventas. O gado gosta de chuva, não se constipa, não resfria.

        A cidade é flor suspensa em hipnose de vácuo, quieta, isenta de som. Quem sabe a rotação e translação da Terra, arrastando fadiga de séculos, também descansem nos domingos. Não há o tracejado de uma conversa de passagem, ruídos de quem bole pelos quintais, um motor que acorde a estrada. Que mistério guia as manhãs de domingo e as faz tão silenciosas. 

        E o que acontece dentro das casas, por detrás dos olhos fechados das janelas?! Muitos aproveitam e dormem, descansam; abençoado seja o seu sono. Há os que fazem o amor de domingo, com tempo e bom humor; e benditos sejam por conservarem e animarem a chama. Mas há os que não têm domingo, trabalham por turnos e folgam quando calha, fingem domingos às quartas ou sextas feiras, a vida gira-lhes ao contrário da outra gente; oxalá se habituem ou apenas encontrem novo emprego, sem diacronias com o resto do mundo. Alguns estarão a ler, outros no telemóvel ou nas redes sociais a cuscar. Muitas mães estão a pé ou já estiveram – puseram a máquina da roupa a lavar, alimentaram os animais, fizeram uma sobremesa, engomaram as peças que os filhos desejam vestir. Há os que velam, são os anjos da guarda dos humanos. Não são bombeiros de piquete, nem médicos de Banco, nem trabalham por turnos. São os que dormem pouco e contam as horas até ser manhã; pensam-se talvez inúteis, mas a inutilidade de uns é a utilidade de outros. Eles formam a teia protectora que abriga e mantém os adormecidos deste mundo. O seu desejo de adormecer condensa no sono dos outros.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

A Busca de Sentido

 

        Gasta-se a vida em busca de sentido. Do sentido que temos dentro dela. Não do sentido da vida em geral, mescla de seres animados e inanimados que povoa este mundo que para muitos é de Deus e para tantos será outra coisa. Sentido que nos pertença como homens, o sentido de cada um no mundo pequeno que lhe coube, ou conquistou, ou. E que foge. Se transmuta. Perde-se e readquire-se. Em cada mutação há um florescer por entre pedras, progressiva força ou debilidade, mas sempre afirmação vital. Quanta gente cresce e envelhece sem que a questão lhe aflore a mente. Há uma ignorância feliz, robusta, que se nega o mais que pode ao sofrimento alheio. E vêm as desculpas, não posso ver; sou muito sensível; faz-me mal. Acontece muito com a experiência da morte ou a sua proximidade. Mas quem vê, quem “sabe” do sofrimento alheio; quem, por bem querer, assiste filhos, pais, cônjuges, amigos, gente que se não despega do afecto. Esses, que sentido encontram, que processo os levará a refazer o círculo sempre incompleto do sentido?! Não sei, mas é certo que hão-de levantar-se; depois da tempestade, a bonança.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Tempus Fugit

 

        Se colocamos em perspectiva os males de ontem, parece-nos quase sempre que os de hoje, que doem e fazem mossa no presente, são mais fortes, piores, crescem-lhes garras e cadeias de tormento. Ora, ainda que diverso disto, um dos grandes males de sempre é a luta insana e contra relógio que comanda a vida dos homens. Acontece demasiadas vezes a toda a gente. 

        Andava eu a apreciar as novas entradas no CAM, a experimentar entrar e sair; a sair para observar em pormenor o tecto da célebre pála, dando um soslaio para as várias cadeiras de plástico branco espalhadas na clareira em frente e onde algumas pessoas descansavam concentradas em si e parecendo satisfeitas com isso; e ia eu entrando de novo e descendo as escadas de mármore tão bonito agora tapadas com um metal que deve estar na moda, já que a entrada da Casa da Música também assim é, eu ressoando escada abaixo e aqueles bancos de pedra corrida a virem-me à memória - ainda estão no mesmo lugar -, eu sentada perto de adultos com crianças que comiam bolachas ou só vinham perguntar alguma coisa e retornavam à relva e à brincadeira; onde pares de namorados paravam para atacar os sapatos, ou apenas decidir se iam à biblioteca ou se estendiam na relva. Pensava nisso e nas cadeiras plásticas. A sério: apetece-vos ir para a Gulbenkian sentar numa cadeira plástica que podem mover no sol ou na sombra do terreiro?! Talvez apeteça ter uma peça móvel para sentar em modo unipessoal, já que várias estavam ocupadas. Retomando o assunto, é claro que no final da escadaria não estava o wc de sempre, mas outra coisa qualquer. E subi, pom, pom, pom. Fui comprar a entrada no museu e salta-me o jovem, a senhora quer mesmo entrar? É que daqui a um quarto de hora o museu fecha. E eu para dentro, mas quem me manda a mim andar a passaricar sem ver as horas?! Do lado de fora, sorri-lhe à simpatia e prometi voltar noutro dia. Ainda não era o dia de convívio com Paula Rego. Ora bolas!

        Semanas passadas, lá me pespeguei. Lembrada de que não encontrara o wc, resolvi investigar-lhe o paradeiro. Não sei se consigo encontrá-lo de novo, tanto corredor branco baralhou-me, senti-me, ao vivo, num filme de ficção científica - julgo que tudo em mármore, mas preciso confirmar, atordoei um bocado. Com ajuda, atingi o objectivo. Satisfeita a primeira condição, marchei contente ao museu. Ia disposta a sentar-me em contemplação, Paula Rego é alguém que admiro e gosto-lhe dos temas. Mas qual contemplação?! Os quadros estavam lá na sua inteira realidade, na feiúra bela em que Paula os concebeu. Algumas figuras parecem querer sair da pintura, apostrofar-nos; aquelas mulheres-homens cheias de músculo, o sofrimento de tantas, a ingenuidade daquela, a amargura nos vincos de rostos endurecidos. E o simbolismo de tudo: Portugal a derramar-se sem espartilho. Enfim, eu queria mesmo era ver em pormenor e com tempo – fui cedo e tudo. Mas não havia onde sentar-me e a minha acção contemplativa não transige: só funciona na posição de sentada. É forçoso. Portanto, vi-os sim senhor, mas não contemplei. Gostei da sensibilidade que soube juntar Paula Rego com Adriana Varejão, gerações diferentes e parecidas. Admirei os rasgões de Adriana lembrando carne lacerada e outros golpes. Até achei bonita a disposição das pinturas em pequenas salas de faz de conta. Mas quem é que, num museu reconstruído, se lembra de expor pinturas e lhe retira o sentar?! Será também uma nova técnica?! É que o único banco que vi, curiosamente, estava nas costas das paredes onde as obras estão instaladas, espaço que, a bem falar, já não é exposição. O que pensaria disto Rui Mário Gonçalves, crítico de arte e professor universitário, que, como primeiro trabalho, pedia aos alunos que olhassem um quadro do MAC durante meia hora para depois escreverem as suas impressões.

        Será que a concepção da exposição, ao preferir as divisões de casa falsa, retira a distância necessária à contemplação? Pode ser preconceito, conservadorismo elevado à última potência, mas ausência de todos os assentos?! Todos, todos?!