Os dias somam-se uns aos outros,
encadeiam em engrenagem feita de horas e pouco tempo resta à
memória para focar uma imagem, lembrar uma conversa, reiterar a
naturalidade de um gesto que surpreendemos. Quanta hora escoa sem
darmos conta, os dias correndo inexoráveis para o fosso dos
esquecidos, sem pensamento que os detenha e rememore. O que fizemos
nesses dias talvez perdidos ad eternum?! É incógnita que,
ao invés da matemática, jamais se desvela; podemos fazer contas e
mais contas que não lhe achamos o valor certo, apenas
presentificamos o que a memória guardou em algum lugar dos seus
habitáculos. Vem esta arenga a propósito do dia de ontem, nada
extraordinário. Mas admito que sim, houve uns flashes. Se não,
falta-me a capacidade para retirá-lo do anonimato. Vamos lá, faz um
esforço preguiçosa.
Ora
bem, as insónias são praga pior que os pulgões e todos os
organismos vivos que me habitam as flores e não são elas. É
indubitável, a insónia apegou-se-me, criou hábito; mora nas minhas
noites, e de certeza me tem em alta conta, ainda que eu não entenda
a preferência, detesto-a à força toda. Portanto, ontem comecei o
dia à procura da lata do café enquanto a gata salganhava pelas
minhas pernas a querer o mata bicho. A minha gata não é dada a
ternuras senão nos miados. De tanto gato que já tive nunca um foi
tão arisco nem tão docemente me miou. Haja Deus! A bichana tinha de
ter alguma coisa boa.
Depois
de um café com leite, cujo me está proibido em grau supremo, fiquei
apta para caminhar. Um café (com leite) abre-me a alma,
compatibiliza-me com inimagináveis actividades, melhora-me o mundo e
a circunstância.
Caminhando, não encontrei humanos, esses seres tão
plausíveis. Bom, havia as ovelhas, os pássaros a esvoaçar na
claridade que despontava, as flores que teimam em sobreviver na beira
de estrada e me lembram certas pessoas que admiro, vivem por teimosia
e gosto, mau grado o lugar que lhes calhou em sorte. Gastei a manhã
em afazeres que detesto, mas nestes dias beiram o agradável.
Viajei
sem sobressaltos e quase cumpri os limites de velocidade. Os meus
fortuitos acontecem mais no Metro. Desocupada, posso observar sem
perigo - a maioria dos viajantes fixa o telemóvel. Reparei na
ternura africana de uma mãe com filho(um a dois anos) no colo e o cabelo do garoto
rapado até meio da cabeça, o resto desenhado em quadradinhos
pequenos cada um com um tufo a meio, parecido a um botãozito fofo e
em que apetecia pôr o dedo. Amoroso conjunto. Umas estações
depois, sentei-me frente a um casal jovem; apanhei uma frase dela,
“quer dizer que te atrasas sempre por causa do dentista – pausa
da garota –, e achas tu que espero sempre por ti; no mínimo,
atrasas meia hora, e eu fico à tua espera na mesma, é isso?”.
Eram também africanos ou só descendentes. Pensei que iam brigar
apesar da entoação dela ser mais de quem descobre alguma coisa e
está surpresa. Atrevi-me a mirá-la: olhos líquidos de gazela, bem
redondos. E não enganavam, a garota gostava dele. Segredaram
baixinho e saíram amigos e namorados. Falta saber se ela vai esperar
sempre e se o dentista existe mesmo. Há que preservar o mistério.
Também entrou uma jovem com um bebé metido naquelas coisas de que
já nem sei nome, mas permitem transportar os bebés na frente das mães, pernitas
penduradas e eles satisfeitos. Se eu fosse mãe de hoje queria usar
aquela tira de tecido que deixa as crianças em contacto de
intimidade com a mãe. Mesmo lindo. E como ninguém lhe deu lugar,
levantei-me. Que maravilha a forma natural como aquela teenager
entrou, pôs a mochila no chão(do Metro), deitou a mão à espessura
do rabo de cavalo e soltou os anéis do cabelo que caíram em chuva
livre por ombros e costas, caracóis desatrelados luzindo o súbito
contentamento. Como são bonitas as raparigas quando não fazem pose
e nem se sabem observadas.
Pois
é, ainda fui ouvir aquele que chamo “o nosso professor” e é
poeta. Ausento-me das apresentações dos seus livros, mas, podendo,
vou às aulas que dá. E pude rever o editor da Guerra e Paz com seu
chapéu, simpatia e simplicidade. Terei imenso prazer se a Guerra e
Paz singrar a sério, sem problemas económicos e por largos anos.
Manuel da Fonseca tem bom gosto nas obras que edita, ama a língua
portuguesa e os livros, e escreve lindamente; nestes tempos em que
editoras e livrarias vão fechando, é um corajoso. O “nosso
professor”, que só é “nosso” por termos feito (eu e uma
colega querida) um primeiro curso com ele; é rapaz escorreito,
rodeado de fãs. Tem palavra fácil e precisa, sempre vigorosa.
Física e mentalmente muito assertivo, argumenta com rigor e denota
muito queimanço de pestanas. Tem seu quê de satírico que lhe
aumenta a aura, mas as suas aulas são a sério: ensina com o
entusiasmo de um verdadeiro professor. Mesmo com os velhos isenta-se
de complacências, está ali e é pago para dar uma aula: é o que
faz. Defende os ditados, os TPC, a leitura em aula e outras coisas. É
sempre um gosto ouvi-lo. Será por ser velha e defender o mesmo?!
Lendo
o que escrevi, concluo que afinal ontem foi um bom dia.
PS:
Há tempos que reparo ser pouco afirmativa no discurso: escrevo
demais o termo não. Hoje tentei evitar, mas, sem contar estas
linhas, escrevi oito nãos explícitos. Levar o tempo a negar é
feio. Por acaso, Rentes de Carvalho pensou semelhante um dia destes.