Pela tarde entrámos em Salamanca, cidade que me conquistou ao primeiro olhar, sendo que o primeiro olhar estava já distante, dois garotos nas minhas saias, brincalhões e briguentos como compete a quaisquer irmãos. Nesse dia de Outubro, Salamanca esfriava, o vento correndo as ruas em pressas de fim de mundo e eu, como de hábito, a contrariar o clima e quase a tiritar no meu casaquinho casca de ovo. Então, conheci apenas algumas ruas e a Plaza Mayor. Não tenho saudade a esse tempo de os garotos crescerem; ficou em mim feito Idade Média. Mas tenho saudade dos seus olhos risonhos e confiantes e de estarem longe de problemas insolúveis. Julgo que os pais sentem essa melancolia, não desejam que o tempo volte atrás, mas sabem que, o esse amor incondicional dos filhos está a prazo. Aconteceu connosco, aconteceu com eles. É absolutamente normal, mas se o relembro, sai-me do pensamento uma trança: o orgulho que tenho neles, a pena de tanta vez perderem os bons sinais de quem foram e a inescapável nostalgia.
Portanto, olho aberto e sem desculpas, em Salamanca surgiu-me outra cidade. Explorei finalmente as duas catedrais de que apenas tinha visto cúpulas, fotografei alguns pormenores e gostei mesmo daquele poço mouro a meio de um claustro na Catedral Velha. Quis em tempos ter um assim (parecido) no quintal, mas não está autorizado fazerem-se furos numa urbanização e desisti do meu pocinho com grinalda de ferro forjado; haveria um balde suspenso por uma corda que cirandavam abaixo-acima, abaixo-acima, por via da roldana, gema preciosa no centro da grinalda. Salamanca lembrou-me este sonho há muito posto de lado. Julgo ter sido ainda na Catedral Velha que vi um Cristo Redentor semi erguido, sangue em pernas e braços, e um decidido vigor no olhar enquanto pega no manto/mortalha, como alguém a quem falta fazer uma data de coisas e já vai com atraso. A escultura, imediatamente atrás do altar, é mais convincente que o Cristo morto na Cruz de que fala Pessoa e as igrejas gostam de mostrar para nossa consolação (somos sempre mais felizes que Ele). Como é que em três dias este homem-Deus expiou os pecados de toda a humanidade: presente, passada e futura?! Olhem, não tem explicação.
E o nosso Santo António de Lisboa lá estava como sendo de Pádua e, do mal o menos, alguém escreveu que nascido em Lisboa. Uma mão de pianista avança aberta, olhos de inocência; parece um menino, o nosso santo. A custódia na outra mão é que. Ou será que o santo corria Pádua de custódia em punho?! Terei de me informar melhor.
Chamou-me a atenção uma Nossa Senhora morena e muito jovem em fundo de brilhos. Pois digo-vos que aquela morena de cabelo ligeiramente ondulado a dar no ombro (ela mesma ou quem lhe serviu de modelo, ou sequer o imaginário do escultor e pintor) tem olhos de quem sofre e está algo saturada da vida que leva. É sofrimento resignado denunciando uma indisfarçável ponta de contrariedade. Como se tal situação lhe estivesse fora dos planos. Gostei dela de rajada. Encontra-se rodeada de anjos, a maioria dos quais só cabeça e asas (pobrezitos). Os pormenores das asas também se me alojaram nas meninges. Todas coloridas, mesmo as dos quatro anjinhos papudos que encimam a imagem e são uns barrigudinhos amorosos e com sexo. Estive a olhá-los à lupa e não há uma menina sequer. Deixo ao leitor a consideração do fenómeno. Em baixo e a fechar o quadro, dois anjos que nada de asinhas, anjos adultos, digo eu. Ambos donos de competentes apetrechos de voo, exibindo remiges e o que mais haja. E há neles um natural e imoderado gesto, como de quem vai cruzar a perna, as rótulas escaroladas e um nadinha de coxa ao léu, mesmo por detrás do altar. Acresce que o anjo à direita da morena usa uma espécie de chapéu à Robin dos Bosques, figura das minhas simpatias desde os livros de banda desenhada de meu tio. Conclusão: este altar moveu-me. E não sei onde pertence, julgo que à catedral velha por recordar a enormidade de talha dourada em que pousavam os referidos voadores, mas posso, por esse mesmo motivo, estar enganada.
E depois anotei o retábulo e a abundância de cenas religiosas que contém. E mais que dele, sacrílega artística que sou, animou-me a pintura abaulada do tecto sobre. Suponho seja o fim do mundo com os ressuscitados todos contentes e brancos (seremos assim, todos iguais uns aos outros?) e Cristo em grande plano (é de certeza Ele, tem a chaga do lado e a marca dos pregos), etéreo e dançando. Arriscaria dizer que é uma das posições do ballet, mas isto se entendesse uma unha de tal forma de expressão. Antes O imagino todo humano e contente, pulando ao ritmo do "consegui, consegui". E o pessoal ex defunto a bater palmas. Que ressuscitar três dias depois de morto é uma coisa; e ressuscitar séculos depois, é outra.