Esfumada a francesa, a dupla revigorou. Jaime extasiava perante senhoras e jovens de alta roda que ousavam o fato de banho. Mas, nas praias que correu, raro as viu em tal preparo. Dizia-lhe Paulo que no Algarve é que era, ou nas praias do Estoril onde havia mesmo menina que, num duas peças decotado, varria o juízo a um homem . Nas praias alentejanas, não. Tantos dias eram ovos goros, nem um assomo de fêmea. Mas, na estada em Porto Covo, aldeia minúscula de pescadores e praias pequenas, encontravam por vezes uma ou outra mãe de família no recato da barraca listada, a sopeira sempre à mão e por conta da prole, um pescador contratado para carregos e guarda costas. As madames - à média de uma ou duas por praia –, matronas enfarpeladas e pouco apetecíveis, bordavam ou aborreciam-se na sombra da lona estirada sobre a entrada. Não era bem visto ser trigueira, tom que quadrava a trabalhadores braçais. E a gente citadina fazia gala na distinção, que, vá-se lá saber porquê, sempre a cor da pele serviu para dividir os homens. Seguindo os ditames da moda, as damas empoavam rosto e demais pele visível, olhos e boca a ressaltarem da alvura. Só os mais informados sobre tendências e usos estrangeiros o saberiam, mas a era da pele de leite estava de partida. A elite horrorizava o rosto escuro de varinas e pescadores e protegia-se. O sexo feminino embiocava ou exibia chapéus de aba extensa, revessava melancólico e besuntava produtos para clarear a pele. Mas deitava disfarçado olhar à destreza dos braços morenos e musculados dos homens. Mais tarde, no confessionário, “tive maus pensamentos”, uma atenção de ventosa ainda agarrada à indiferença de membros retesados no esforço de puxar cordas e redes. Neles, o ranço de cheiro a peixe. As damas desagradadas de si, mirando-se num espelhinho, cheias de boquinhas e trejeitos. Mas a ventosa. A perturbação. Um remoinho interior de abraços morenos a confundi-las, mas que quero eu. E davam por si a invejar o desplante das varinas de língua fácil e roda de tamanco habituado. As varinas que ondulavam em perna pela rua, eterno bandeio de saias enodoadas, sementeira de escamas e escorrimentos, canastra à cabeça, um filho ou outro nos calcanhares. As damas retocavam o pó de arroz e o espelhinho mostrava o rosto pensativo que eliminavam com um estalido.
Jaime e Paulo eram deuses dourados, folgando pelas
areias no entusiasmo de mar e céu, uns dias por outros atrevendo-se a banhos. Banqueteavam-se
pelas tabernas, riam e conversavam horas a fio, Paulo cumprindo papel de
anfitrião. Adormeciam de bem com a vida e, durante o sono, Jaime era seduzido
por sereias de terra metidas em estonteantes duas peças e tinha sonhos molhados
e exaustos de que acordava entre o susto do coração descompassado e o prazer do
corpo a deslaçar. Pensava às vezes em Veridiana e procurava imaginá-la a
melhorar, nos olhos um lampejo da força antiga, o corpo ganhando energia. Vivia a
desejo, como a sua mãe agradaria. Descobria-se na novidade do mundo.