A hora do jantar tardava em demasia. Quando por fim se fez
tempo, já no refeitório, tudo nos aborrecia. A sopa demorou a ser servida e
vinha demasiado quente, as conversas dos companheiros de mesa desproviam de
interesse, e nem tugimos ao boato que
passou, mesa a mesa, sobre um possível piquenique antes do início das aulas. Tudo irrisório. Desatentos dos mais, Esparguete
e eu ansiávamos pelas maçãs que nos
esperavam debaixo da hortênsia. Quando Maria entrou no refeitório para nos
falar como todas as noites, os rapazes calados, exultámos em íntimo segredo.
Nessa noite, nada entendi do que disse, não sei quem se portou melhor ou pior,
que tarefas extra tinham de ser feitas, ou se estava escalado para o dia
seguinte. Mal terminou, mandou-nos
recrear durante meia hora antes de subirmos à camarata. Dentro de mim o coração
segredava contente, falta-pouco, falta-pouco, falta-pouco. Fingindo casualidade,
e como tanto nos acontecia, dispersámos os dois para o pátio da cozinha. Junto
à hortênsia baixei-me e, às apalpadelas, procurei as maçãs. Avancei o braço,
recuei, aproximei-me do centro da flor, afastei-me, rodei o braço em círculo
largo. Nada. A minha mão não tocou um único fruto. A hortência, muda de todo, como se não fosse nada com ela. Troquei de lugar com
Esparguete que ficara de plantão na esquina. Infrutífero. Debaixo da hortênsia
não havia sequer uma maçã. Parecia-nos impossível. Revi todos os meus passos,
ninguém me seguira. Roubaram-nos, silvou Esparguete, quem será o desgraçado,
dou-lhe uma coça se descubro. Raivoso, deu um pontapé na planta, merda de hortênsia. Sem palavra, mergulhei num desalento mais negro
que o desamparo de lua nova que nos envolvia. Voltámos para casa cabisbaixos,
Esparguete remordendo vinganças e esperas acrescentadas de faço assim e faço
assado. Em mim acendiam-se súbitos os arranhões. A dor tomava-me por fora e por dentro, que
não há como a inutilidade do gesto para nos amarfanhar a alma. Pensava onde
falhara. Antevia o que Esparguete, por empenho de raiva descoroçoada, ainda não vislumbrara. A alcunha de Esparguete
era-lhe insuficiente, devia chamar-se poeta-de-lava, eternizava em ternuras
ínfimas por todas as coisas e ardia por qualquer palheta. Enquanto ele
desaforava, eu matutava. Alguém me tinha visto a esconder as maçãs.
Descoroçoados, zanzámos em passo lento, corpo pesado de tristura. De súbito uma garra reteve-nos, laçou-nos pelos braços.
Descoroçoados, zanzámos em passo lento, corpo pesado de tristura. De súbito uma garra reteve-nos, laçou-nos pelos braços.