quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Pós-Natal

Há quem viva o advento a preparar o Natal,  a trabalhá-lo desde as fundações. Sem esquecer aquele Cristo Menino que nasceu não se sabe quando, mas convencionámos ser benção dessa noite feliz. É como afirma e sublinha o Papa Francisco: sem o nascimento dEle a festa não existia. Que um Deus aceitar ser homem não é coisa vulgar, os deuses têm a divindade em grande apreço. Mas o nosso Deus prescindiu dela (só parcialmente) e deu-se ao trabalho de nascer, viver e morrer como qualquer ser vivo. Como qualquer, não. Como um homem que é mais que homem. Cristo foi o homem perfeito, qualidade que não existe senão nEle.
Bom, mas eu não vinha por uma aula de catequese. Vinha mesmo para pensar o pós-natal dessa gente bem aventurada que tece a teia natalícia com arte e paciência. O que lhe acontece quando passa a quadra? Fica ainda imbuída do espírito e prolonga-o muito para além do Dia de Reis? esvazia como balão? Ou nada disso?  Tenho para mim que é um pós parto difícil, as mudanças de paradigma não se fazem sem luta. Julgo mesmo que nos dias subsequentes zanza sonâmbula e lhe falta chão, desirmanada da casa ainda em traje de festa. Entre o Natal os Reis, a recuperação tarda. Reapossa-se de si tacteando, como quem vem de sono profundo e ainda não domina e nem lhe apetece o menu do corpo e da vida que lhe coube. A vontade que antes enfileirava resoluta, agora inibe, receia, desapetece.

E ao invés de nuestros hermanos, o Dia de Reis apanha os portugueses já de costas para o Natal. É dia de arrumos e o infiltrado espírito de serviçal comanda as operações. Frio. Cego. Eficiente. Esquecido da ternura desembrulhada em cada objecto,  uma saudade amorfa e prestativa a orientar o quadro de ano inteiro.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Dia Vinte e Quatro

 Levanto-me cedo, a gata colada às pernas como se a ração desça por mim abaixo. Satisfaço-lhe o instinto e dou início ao ritual do café a subir na cafeteira, uma fervura odorosa e borbulhante que deslizar e deixa bem morena a taça de leite quente, volutas de vapor a coalharem apetites, bebe-me. Que nem precisava, o desejo à beira da satisfação é gosto líquido.
Depois das cerimónias matinais, posto o traje de guerra, nada me pára. Primeiro os últimos embrulhos e o sistémico compartimentar de prendas: casa, sobrinhos, manos, outros. Uma foto que rejeita a moldura, cortar, verificar, embrulhar. Está tudo. Porta fechada às prendas.
E agora, e agora. A roupa no estendal e nova máquina, gorda de sujidade promíscua. Um doce? Um bolo? Ainda não. O almoço urge, que as visitas cumprem horário. Sai um almoço de festa antes da festa. Depois sim, arruma-se a cozinha para a desarrumar de novo. As visitas vão à sua vida de visitar, e beijos e abraços, e queres isto e queres aquilo, quando a gente já não engole nem mais um átomo. E um sai a isto e outro àquilo.
Sozinha com o mais novo. Os dois na cozinha. Enquanto prepara refogados e corta batata doce, teço paciências no leite creme, derramo-lhe uns toques de caramelo, deito-lhe uma altura de claras em ondas marotas, borrifo com estradinhas leves de caramelo e entrego tudo a forno forte com lume por cima, a dourar a crista das ondas. Ficou lindo. Entretanto, bato o bolo de amêndoa a pensar na torta de chocolate que tem uma apoiante cativa e se tornou um clássico.  Arrumados os doces, é hora de mudar a agulha. As batatas doces estão descascadas e em água, a cebola e alhos cortados. Breve estrugem alhos e cebola enquanto acomodo no forno as batatas cortadas em rodelas, apenas regadas com um fio de azeite. Deito o capão no tacho, misturo a marinada em que dormiu, tapo. Seja o que Deus quiser. Atiro-me às batatas doces restantes que corto em palitos. Antes de iniciar a fritura, ocupo-me a instruir o meu ajudante no pôr da mesa, e vejo se a lareira está de feição a ser quente e acolher o Natal. Chegam todos. Há uma azáfama em volta da mesa e das cadeiras, do faqueiro e dos pratos, das notícias que não se sabiam de um primo a outro. E eu na cozinha fritando batatas e a mexer a abóbora cozida e escorrida para os fritos de tradição. Uma mana põe o avental enquanto a outra orienta no frigorífico a salada de frutas. Uma supervisiona a sala, a mais velha acompanha-me na cozinha. Toma conta da abóbora enquanto frito e lhe vou chegando ingredientes. Provo a massa, está boa, acrescento um tudo nada de aguardente. Agora sim. Ela deita colheradas na frigideira, eu viro e embrulho em açúcar e canela. Entretanto, a última fritada de batata normal para os eventuais que não comem batata doce. De seguida, estão todos à mesa a devorar a entrada. Todos, menos eu e a mana. Coloco o tabuleiro de bacalhau no forno para uma achega de calor e misturo o sangue na cabidela. A mana tira o avental e vai sentar-se. As entradas estão no fim. Levanto os pratos. E quando bacalhau e carne chegam à mesa, ah, esqueci a salada. Volto, encho um recipiente, tempero e levo. Nova viagem a tirar a última fritada de batata (julguei que poderia fazer falta mais uma), espero um pouco até que estejam prontas. Tiro o avental. Levo mais pão. Volto para reencher o jarro de água. Sento-me a provar a cabidela e o bacalhau. Pode ser do apetite mas parecem-me bem. A salada esgota e volto a fazer nova. Levo. Quando levanto a mesa, não há bacalhau nem cabidela nas travessas. O resultado do exagero nota-se em doces e salada de frutas. Há bolos intactos e a salada está alta, os fofos de abóbora levaram um avanço e o meu doce é um nozinho de claras a boiar num laguito amarelo de leite creme, um cabelo escuro de caramelo em travessia preguiçosa.

E depois foi ir arrumando na máquina e lavando. No pós doces, conversar à roda da lareira, falar disto e daquilo. Rir. Distribuir e receber presentes. Aquela alegria. E abraços e beijos de despedida. E gosto muito de ti, até para o ano e que nos voltemos a juntar. E parece-me que o Menino Jesus nos sorria da sua cama de almofada e havia mais gente do que a que víamos. Tenho certeza.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Dia Vinte e três

À medida que se aproxima o Natal,  os afazeres e tarefas vão caindo sobre ele e exigem, subterrando capacidades de apreciação. Ao longo do dia, preparam-se carnes e doces; revêem-se ingredientes, fazem-se as últimas compras e embrulhos, dá-se um retoque na casa. Na corrida de à rua, as noites perdem o encanto gelado. Falta tempo para o brilho encantatório e longínquo das estrelas, o sugestivo dos enfeites, o sossego frio da escuridão. Tudo acontece no interior das casas.
Ao modo da outra gente, também ultimei compras e embrulhos. Que, no resto, a surpresa mudou-me o itinerário. As visitas anunciaram que chegavam para jantar e fizeram-me uma revisão ao frigorífico e ao programa do dia. Em vez da mansa execução de  doces foi um ver se te agrado no fogão, seguido de um jantar demorado. Depois, esgotada por três noites alimentadas a migalhas de sono, desvaneci. E por isso hoje é domingo mas vai ser sexta. Desço para um pequeno almoço de café com leite vigoroso, ligo o turbo e os doces têm de sair; temo a falta de tempo para o vagar amoroso com que me habituei   a alimentá-los. Mas há que tentar. Apesar de um almoço e um jantar de festa. Que o Natal me chegou sem aviso e de véspera. Mas de brilho superior. Tudo se há-de fazer. O menino Jesus espreita-me das almofadas, nuzinho e divertido, nem um pelinho eriçado no corpo roliço, que um deus paira sobre as minudências. Pode que me dê uma mãozinha.
E à noitinha a casa enche como ovo, a cozinha numa azáfama de tachos e lumes e cheiros insidiosos, os homens na sala abrir a mesa e carregar cadeiras, a compô-la de copos e pratos comandados pela menina da família. Tão bonita uma mesa cheia de festa, debruada de gente!

Há-de ser.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Dia Vinte e Dois

Hoje era para ser um dia de coisas boas, mas a segunda noite má dentou-me a alegria. Nada sem remédio, diga-se; todos os dias têm uma noite, portanto vivo em esperança. Almoço marcado com uma amiga. A vida tem-nos trocado as voltas, apostada em gorar os nossos encontros. Acho uma maldade andar assim a rebentar os nossos balões de oxigénio. Mas hoje foi de vez, rompemos o enguiço. Esperei-a na beira da via férrea, paciente e saudosa do cheiro que evolava das traves sustituídas agora por blocos de cimento. À vista da linha do comboio transmuto, viajo para lugar longínquo onde tudo é diverso e outro. Ali, hei-de renascer. Não entendo a nostalgia do que não vivi nem o facto da via férrea me ser família. Mas já me resignei, é questão de aceitar, não lhe assiste explicação plausível. O efeito dos caminhos de ferro no meu espírito é um mistério. Quem sabe se fosse maquinista, revisora, fiscal... Mas não sou. E pronto, Durante a refeição conversámos, trocámos presentinhos, e acabei  a embarcá-la.
          Ao princípio da noite, o concerto. Tão, mas tão bonito. Pela primeira vez, tive pena de não ter adquirido o programa. E portanto não fiquei sabendo o nome da fadazinha que apareceu de branco vestida com uma sobressaia de tule vermelho e um rabo de cavalo bem puxado acima, a franjinha garota a rematar. Sim, sim, uma fada: Jovem, leve e magrinha, com cinturinha de vespa cingida a fita vermelha e voz de cristal. Desconheço a que modalidade do bel canto pertencia, mas era uma voz cristalina como ela inteira. Linda, linda, linda (oxalá eu tenha sido um bocadinho assim, há quem diga que os meus rabos de cavalo lá bem no alto tinham certa graça, mas era coisa em que então não pensava). Pois esta menina, que era uma menina na casa dos vinte, cantou em inglês – suponho que era galesa -, com voz límpida e clara como água, canções de filmes. Canções mais sentimentais que natalícias, mas talvez mais deliciosas por isso. Comoveu-me, sim; até porque, lá bem em cima, a letra passava em português. E o público não regateou palmas e assobios em barda. E ela, uma Audrey Hepburn desvanecida, agradecia em vénias sucessivas, mãos postas. Já assisti ao canto de outras mulheres – várias – no mesmo auditório. Mas nenhuma aliou a figura ao canto. A maioria canta quase extática. Mas a garota era toda movimento. Não que bulisse muito. Ao contrário. Era a expressão do rosto; eram os braços e as linhas que descreviam, os arcos tristes, a alegria a sacudi-los, a melancolia a adoçá-los em alongamento prolongado; eram as mãos de dedos que abriam e fechavam como anémonas; eram os olhos vivos e irrequietos, ora ardentes ora dolorosos, tão doces se agradecia ao público.
E o coro da Gulbenkian e a orquestra, excepcionais, alegres, a mexerem connosco. O maestro, de que também ignoro o nome, a ensinar refrões para todos cantarmos. Por comparação com as músicas de ano passado, este concerto foi melhor e completamente diverso. Quem tem uma fada sininho a cantar com sensibilidade e voz de tal timbre, tem muito mais do que deseja. No final, os músicos e coro endoidaram e, num ar de rock e batida forte, puseram narizes, armações de rena, barbas e barretes, agitaram os cachecóis vermelhos e dançaram enquanto cantavam e tocavam. Contagiado, o público  imitava-os.

         Depois foi seguir num carrego enlevado. Eu e mais duas sacadas de livros que também assistiram. Para o ano, eu seja ceguinha se não levo também uma peça de roupa vermelha. Ai isso é que levo.

Dia Vinte e Um

Em véspera de viagem durmo intranquila, velo horas atrás de horas, observo-as espojadas no mostrador, postas em vagar de passo certo que arremeda pressas na mudança de dígitos e logo volta ao ramerrame habitual.  Portanto, o alarme do relógio não chega a cumprir função, a voz numa virgindade amuada,
Não gostas de mim; tanto tempo a escolher sons, hesitas entre rainy day e writing adventure no temor do sono pesado que não te visita, e depois é isto, quando já bochecho a clarear a voz, cortas-me as asas.  
e por mais que eu,
 Não, não, bem sabes que muito te prezo, acompanhas-me sono e vigília e não existe ser que tão bem me conheça. Se te emudeço é por mor do incómodo a outra gente.
desliga de mim e continua viagem, posto em imperturbável indiferença. Desço ao pequeno almoço, ideias voadoras em regresso manso e sorridente, atrasámos?, eu a cingir um elástico nos cabelos ensonados, vá lá que vêm bem dispostas, já briguei com o relógio. E depois ficamos a chá e torradas e elas suspendem sobre as letras em curiosidade protectora, enquanto o mundo se lamenta a estender uma mão para fora da noite, hora de acordar. Não usa relógio, o mundo. Evolve. Intrépido. Inflexível. E nós com ele.
Há que despachar. Tomar a estrada. Seguir. Paragem rápida para uma lembrança doce. E o mundo que corre na janela, viajantes com atraso a roncar estrada fora, que Deus os guie.
Chego de novo. Sigo escada acima que os elevadores emburraram os dois e lá estão de braços cruzados e olhar carrancudo, bem assentes no rés do chão. Palermas. Atravesso uma manhã de trabalho que vai caminhando para a meia tarde. E um almoço apressado. Mas prometi. Portanto, nada de descanso.

Encontro-me com uma delicadeza de pessoa. Foi sorte minha ter-me cruzado a vida. Vai buscar-me, ensina-me caminhos para guiar até sua casa e  que não aprendo nem por nada. Serve-me chá e bolos. Faz questão da sala para nós duas. Chávenas lindas, tão elegantes quanto ela. E o seu pôr-me à vontade tem coisas pequeninas e raras. Trouxe uns pratinhos de sobremesa para os bolos, mas, com a minha falta de elegância, tirei um bolo e acabou. E ela, silenciosa, quase sem se dar por isso, copiou-me e pôs de lado os dois pratos. Depois, mostrou-me livros e trabalhos que faz em horas livres e deu-me a escolher dois. É uma artista esta senhora, molda, pinta, escreve. E tem cinco netos sempre por perto, um deles bebé e amoroso. Todos dentro da casa que é a sua e não tem quintal. Por vezes, estão muita hora. Reconheço, temos vidas muito diversas. Admiro-lhe o carácter, a serenidade com que envelhece, o modo carinhoso como convive com o mundo sem deixar de expor os pontos de vista pessoais. Depois, levou-me de novo. E fiz viagem com uns bocadinhos dela. Vou tê-la por perto. Mesmo à beirinha de mim:). Companhia.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Dia Vinte

O meu estendal subtrai-se ao calendário dos homens, não lhe existem dias santos, feriados, fins de semana.  Braços abertos e eternos, aguarda que a roupa lhe chegue. Espera. Como a palavra no poema de Eugénio, “até que passe um vento que a mereça”. Paciente com os elevadores postiços que já foram suporte de cortinados, a escutar-lhes as queixas e um ou outro parafuso esquecido que concorda num tremelique de cabeça, ao que nós chegámos; tão estimados que estávamos na sala e agora...isto. E os parafusos tremendo de leve pelo aguçado do bico. E isto são pormenores matinais, coisa mais  agradável que a roupa que escapa das mãos e se suja, o inferno das molas que parecem enguias, o cão que se enrola nas pernas e quase me faz cair quando não preciso dele para isso sou bem capaz de queda sem ajudas.

E volto. Pondero segundo pequeno almoço. Desisto. Abro a janela, aqueço o corpo e a alma. Zanzo. Mosca que tenta não incomodar. Coisa impossível é ser mosca sem incomodar. Visito a entrada de cada um. Tudo tão sereno. Em algumas florescem palavras novas. Noutras, dura ainda o sono de véspera ou prolongam a longa letargia do inverno. É triste uma casa assim sem efeitos de vassoura, um aceno de mão, uma flor à espreita. Vou andando. Andando. Oiço aqui uma música, leio ali um artigo, deixo além um sinal de presença. Entretanto, listo mentalmente as compras. Tanto recado precisamos cumprir para que o trem não saia dos trilhos. De novo em casa, preparo um almoço simples e rápido e começo a ajeitar casa e mesa para receber uma visita. Mais um arroz doce e fatias douradas e a estrear que não saíram muito bem, tenho de estudar este assunto. Mas quando a visita chegou carregando mais uns acréscimos  para o lanche, a casa estava quente, o chá pronto, as fatias e o arroz doce na mesa. Depressa passou o bocadinho de languice que nos permitimos. Noitinha, palavra que é título de um poema de Florbela, “a noite sobre nós se debruçou...”. Mas o jantar. Mas a sopa. Mas a mala com os pedidos e os devidos. Mas o meu cachecol vermelho que está quase quase. E uma amiga a ligar-me, coisa boa. Fecho a janela, já não dou mais para este dia.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Dia Dezanove

Por qualquer obtusa razão, hoje não me apetecia levantar. O sono perseguia-me. Custei mesmo a acordar, tão empenhada estava em encontrar um dos sapatos que deveria calçar e não aparecia em lugar nenhum. E eu à beira de perder o transporte e só com um sapato calçado. E mais umas peripécias que esqueci. Apetecia continuar a dormir nem que fosse para procurar o sapato que não chegou a aparecer. E depois tinha tanto sono que nem houve sessão de leitura ao pequeno almoço. Deu jeito, terminei mais depressa. E desatei a enviar mails por mor da greve dos correios. Mas havia um almoço. Ah pois, o almoço de perninhas de frango com mel e vinho branco acompanhado com batata doce assada. Não é mau, mas foi de afogadilho que tinha marcado de me despedir da piscina e a estas coisas não falto nem que a vaca tussa. E hoje, tinha uma pista à disposição. Nadei, nadei, nadei. E descobri (finalmente! Já não era sem tempo) que fiz uns avanços no crawl. Boa! Claro que ainda me canso qb, mas menos que há uns tempos. Espero que, daqui a um ano, já consiga mergulhar em apneia até meio da piscina, mas duvido, os pulmões não se aguentam. Voltei leve e contente, pronta a arranjar o material e preparar tudo para ir de visita a meu pai. Trabalho duro está ali. Já escurecia quando dei os últimos retoques. Portanto, lá vim. Ainda sem sentir o cansaço. Esfomeada, claro. Felizmente, não fiz jantar. Graças a jantares e almoços de natal, vou tendo umas folgas aqui e ali. Que venham natais em abundância. E portanto. Aqueci a sopa que sobrou e me soube a néctar divino, assim uma canja estilo a que Jacinto comeu em Tormes e o deixou de boca aberta, provavelmente para repetir como eu repeti. Posto isto, tive a minha prenda de Natal. Calhei de olhar para o telemóvel e os meus amores madrilenos vêm passar a quadra. Viva! Mas quando arrefeci, o corpo não se aguentava. E olha, deitei-me. E estou por aqui às dentadas a uma maçã boazíssima (devia escrever boníssima, mas é termo que recuso, parece-se com boné e a maçã não merece) e a escrever estas parvidades, contente do trabalho que vou ter este Natal. Corrijo, contente por ter à minha volta pessoas que gosto e me vêm da infância mais os descendentes de cada uma.  Família.  E, por hoje, é isto.