domingo, 3 de maio de 2026

Flores & Suspensórios

 

        É primavera e no muro do quintal há um mar de flores: ele é a buganvília vermelha que transborda, as roseiras de trepar que enlaçam o gradeado do muro e me lembram a doce avó Luísa a trazer-me duas podas minúsculas, “plante-as uma de cada lado do portão e vai ver”. E eu vejo. Vejo-a a ela, trigueira e enrugada, olhos de ternura compreensiva a mirar-me por detrás da grossura das lentes. E espero que também ela possa vê-las; se acaso não for possível, e se não houvera outras coisas a ligar-nos - que as há -, as rosinhas pequeninas, amontoando umas sobre as outras num contentamento rosa vivo, não me deixariam esquecê-la. A querida avó Luísa que não era e era minha avó e se faz presente em cada primavera: visita-me. E depois há as rosas Pierre de Ronsard, disseram-me que rosas antigas; não sou grande fã de rosas mas estas são belas. Bem próximas, as rosas vermelho sangue, grandes como punhos, esmeradas no recorte, perfeitas, atraem o olhar de quem passa a rasá-las. Altiva, a roseira vermelho sangue suplanta as outras e abre-se ao etéreo; não tem uma quebra, é seta apontada ao azul e rodeia-se de espinhos aguerridos, prontos a batalhas imaginárias - tão perto está das mãos de quem passa e nem uma a tocou. Tenho certa má vontade contra ser tão cheio de si, há alguma incongruência em ser flor e dominadora. As flores são doces, delicadas, bonitas no seu ser de pétalas diversas; apreciamos nelas a textura de cetim, a forma como curvam, a cor impossível que as tintas desejam imitar, o odor suave ou mais penetrante. Atordoa-nos a delicadeza presente nas flores de suculentas e cactos, perguntamo-nos como pode um cacto espinhudo originar flores de seda.

        Terá sido por isto que hoje, note-se, HOJE, experimentei os suspensórios, elemento muito a meu gosto no antigamente de mim, agora já de barba branca. São tão de idade que o metal de alargar e encurtar os elásticos enferrujou e deixou marcas – pois é, tive de alargá-los um nadinha. Mas, ó senhores... o que eu gostei de voltar a eles! Lembro uma ou duas fotos em que estão comigo, tenho um saco plástico aberto na mão, estou rodeada de alunos pequenos a mastigar e beber sumo (era a recolectora de lixo) e todos nós numa alegria plena que vibrava nas roupas claras, nos rostos redondos, nos olhos de surpresa boa, nos cabelos ao vento em redondezas da Torre de Belém.

        Como é que após umas cinco décadas, o elástico inda funciona?! E as mãozinhas que prendem nas calças nem sequer se soltaram como receei – sei lá, imaginei que já não tinham força e se escapavam ao menor esforço, feitas marotas. Mas não. Fixaram-se no lugar e dali não saíram. Tão queridinhas! Só porque ainda me querem bem – nem outra razão haveria para se conservarem tanto tempo, é que estão muito mais em forma que eu -, olho-as com amor (acho que é amor), carinho e mais que isso. Se fosse poeta glosava uma ode aos meus suspensórios que pegam nas calças com quatro mãozinhas travessas. Estão ali, todos deslaçados, cada elástico virado para seu lado num desalento compreensível. Mas já garanti, não voltam para a gaveta, amanhã regressam à faina e só por esse motivo os deixei atracados às calças. Não parecem convencidos, mas vai ser verdade.

        Olha, em vez do dia da mãe foi o dia dos meus supensórios. E depois?!


sábado, 25 de abril de 2026

25 de ABRIL

 

        Às mulheres que do passado me espreitam e por quem e para quem escrevo ainda algumas vezes, as que me fizeram ou colaboraram no fazer-me e não sabiam ler, ou liam romances de cordel por desconhecimento de outras leituras, as que nunca ouviram falar de Sophia e da madrugada esperada, elas que nem sequer esperavam alguma coisa e a quem a madrugada encontrava já a pé servindo na cozinha de seus senhores ou entranhadas no tojo das herdades, procurando chegar “ao fogão” antes do sol, arrear as merendas e seguir ligeiras para a lida do dia anterior. Às que não tinham nome de Catarina e nem de Eufémias sabiam, mas são as minhas heroínas a quem a circunstância e esses seres masculinos e de maior força física e poder escravizaram como puderam, levando-as de vencida, qual bezerra puxada por arreata.

        Nunca foram asa e inda menos gaivota. Engravidaram meninas, cumprindo a tradição de mães e avós. Umas desgraçaram-se para a vida quando “apareceram de barriga” sem um namorado que as puxasse para si – tinham sido apanhadas a caminho da fonte, num ermo onde andassem aos paus para o fogo, nos emaranhados de montes e herdades. Um homem - casado, solteiro, qual fosse o estado - as apanhou e abusou; não digo que homem, um animal cedendo ao cio. Mas as desgraçadas foram elas. As mais iam a bailaricos, tinham derriços, elas tinham a barriga a crescer, eram excomungadas até pela família e nascia-lhes um filho quando mal sabiam o que era o sexo, o prazer ausente quando um animal dito homem se lhes atirava para cima, as manietava e descarregava nelas o sémen impaciente.

        Abril quase apagou esta maldição: terminaram os filhos incógnitos, elas saíram debaixo da pata de tanto marido que não foi senão suserano. Porque casar e levar no enxoval um filho de outro, era invariável mau negócio; se as mais tinham poucos direitos, elas tinham menos. Que os “maridos bons” eram matéria rara. E não, não eram melhores os maridos das outras como se canta por aí. Só o sonho e o canto de sereia do corpo motivava casamentos que raro eram mais que amiganços.

        Em tudo há o melhor e o pior; e existem as atenuantes que temo em chamar tal: de época; as desculpas palermas das igrejas; o preconceito de nós todas que vivemos séculos de submissão e segundo sexo; o masculino controlo do mundo conhecido. Mas é objectivamente verdade: o 25 de Abril mudou a vida das mulheres para um lado melhor. A democracia puxou por nós. Não somos livres, creio bem que nunca o seremos. Mas temos a chance de tentar, temos as leis que nos protegem, criámos alguma consciência do valor próprio, entrámos em território antes só masculino. Bem sei, há muito por fazer e esqueci propositadamente outras benesses democráticas. Mas estou a pensar nelas, nessas pobres que me antecederam: não estudaram, não aprenderam a ler, sofreram às mãos dos homens sevícias que não contaram, foram escravas de maridos e senhores, levaram porradas muitas, trabalharam até à morte.

        Para elas que nada souberam da liberdade, da democracia e seus princípios, o meu Grande, o meu Enorme, VIVA O 25 DE ABRIL!!!

terça-feira, 21 de abril de 2026

Ambiguidades

 

        Slauerhoff é poeta (e novelista) holandês. Morreu aos trinta e oito anos, antes de se habituar à idade. Conheci-o com “O Descobridor” de Cristina Branco que uma amiga me apresentou e até ofereceu. Desarmei de encantamento. Ambos, poeta e cantora, eram a minha medida. Depois desse vieram outros cêdês, sou de coleccionar músicas e livros de autores preferidos. “Ulisses” foi um dos que mais gostei e reconheço que, enquanto fez parceria com Custódio Castelo, todas as canções e fados valiam, tinham peso singular; depois que a parceria se dissolveu encontrei vários assim-assim sem perder o interesse pela voz da Cristina.

        Sem porquê, lembram-me muito os versos – que, nesse tempo, cantei à exaustão – de “A uma princesa distante”. Ficou-me o início da canção, “Jamais voltaremos a ver-nos / entre nós dois há um mundo pelo meio. / Por vezes, de noite, à janela nos detemos / mas são outras as estrelas que vemos”. Bom, talvez a história de vida de Slauerhoff os torne compreensíveis, naturais: o poeta era médico em navios, fácil lhe seria cruzar uma princesa ou alguém a quem assim designasse e que, expectavelmente, não veria mais. Ignorante da data da composição, posso imaginar que cantem uma despedida irrevogável como terá sido a do seu divórcio. Mas na verdade imagino outras coisas. Slauerhoff sempre foi de saúde débil e morreu diz-se que de malária, mas por certo também da tuberculose que o consumia há tempo demais. A tuberculose não faz poetas, mas dá certa sensibilidade em grau exacerbado, uma melancolia quase mórbida e que advém talvez da sensação de se sentir morrer aos poucos. Por si mesma, a doença não é aguda, é antes um enlanguescer de tudo que antes era interesse e vivacidade, uma desistência e falta de desejo que enfraquece corpo e alma e se faz acompanhar do matraqueio da tosse. Imaginei sempre, mesmo antes de pesquisar a vida de Slauerhoff, que ambos se cruzavam num navio, um entrando, outro saindo; que eram duas pessoas iguais a todas as que entravam e saíam, mas que só entre eles o raio acendeu, só eles souberam dessa possibilidade impossível. E acho bonito. E possível.

        Se dou por mim à janela, penso neles, se existirão factualmente amantes indefinidos que miram céus diferentes. Ignoram o nome um do outro, mas, num cruzamento de olhos, reconheceram-se.

        Mesmo que falso, é bonito na mesma:)

domingo, 19 de abril de 2026

Mágoa

 

        Pensamos gostar de escrever, agrada-nos dizer sim ao apelo de deitar às letras o que sentimos ou imaginamos e que é sentir diversamente. Mas por vezes perde-se o apetite, ataca-nos uma afasia capsular, um transtorno talvez inominável a barrar as palavras. Em geral – mas não sempre – surge relacionado com o sofrimento e a injustiça que comporta. Não o Teu sofrimento. O sofrimento que presencias, a dor que sentes sem a sentir, a mão que apertas e deslaça nas tuas, o riso que já não ouves e faz de ti palhaço incapaz, um rosto a minguar na almofada, olhos sem expressão. É certo, todos morremos de alguma coisa e somos de alguma forma um fracasso que passa pela vida: não a dominámos e antes fomos e somos joguetes da perversão que exerce sobre o tempo que pertence a cada um e no final nos anula.

        Tanta lei, tanto decreto, tanta norma de viver. E não há quem pense no sofrimento inútil, doloroso, progressivo e inexorável de uma vida transmutada e que não deseja continuar. Ficamos eternamente na questão, presos – dizemos – à ética. Mas que ética existe em assistir à deterioração progressiva de um corpo e sua dependência de terceiros para todo e qualquer gesto?! Que ética é essa que deixa pessoas conscientes mas já sem palavras ou movimentos, à mercê dos outros, esperando a morte que lhes tarda e a que a debilidade própria impediu a antecipação?!

        Quanta injustiça no mundo. Mas também muita luta: de mulheres e seus direitos, de imigrantes, de salários mais justos, por uma habitação que nos guarde, pelas crianças que vivem apavoradas em cenários de guerra e morte e por todas as outras a quem devemos protecção, etc. É assim a injustiça dos homens. Mas contra ela lutamos e lutaremos. Não lhe veremos fim. Mas podemos lutar, temos um corpo e uma mente que podem determinar-se em deixar um mundo melhor. Mas e eles? Esses que são atingidos por doenças desapiedadas, das que matam passo a passo, em suplício de Tântalo?! Que luta podemos por eles?! Nada podemos. E isso não apenas dói. Corrói, retira pretensas certezas, enraivece e subtrai qualquer desejo. E a vontade, essa vaidade tão humana, serve zero, é inoperante. Mas em nossas camas dormimos o sono dos justos.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Inscrição

 

        Penso voltar, criar uma aberta, chegar a este porto de salvação e escrever. Mas só penso. Sei do assoberbamento e de quase não ser possível quando te tenho por perto. De soslaio, não vá eu embaraçar-te, reparo na juventude que te mora nas mãos longas e brancas ajudando-me na cozinha como ninguém. Moves-te familiar, faca sobre a tábua de corte, hábito que, cada vez mais, noto que te embebe. A teu lado, desvaneço por dentro no receio da tua perturbação e bendigo todos os momentos em que te quis sem saber de ti. Desejei-te com o inteiro de mim, prolongadamente. Propus-te a um parceiro avesso a mais noites sem dormir, e biberões, e fraldas, e doenças incógnitas. Por esses meses de insistência perseverante, olho-te sempre como se foras apenas meu – que não és, bem o sei; consegues mesmo a proeza de ter a mal disfarçada preferência paterna.

        Jamais me pareceu que gostasses de crianças e desta vez descubro-te na atenção aos sobrinhos, no saber como vesti-los e servir a refeição; no teu modo inteligente e sagaz de jogar cartas com o minorca, seis anos verborreicos que se te grudam como cola e calmamente refreias, ensinando regras sem impor - propões com humor, continuamente puxas por meninges infantis que, é indubitável, te admiram. Observo o jogo (eu que nem consigo conhecer as cartas) e vem-me a tua infância de infindáveis jogatanas com os primos; eram partidas cordatas, transpirando concentração. Hoje, dois adultos e duas crianças mantêm o estilo – fora os apartes educativos da tia e teus. A garota mais velha, de quando em vez, põe os dedos entre os teus caracóis sempre despenteados, um gesto terno que podia ser meu e a que dá gosto assistir. Sim, o minorca tem razão, ganhaste nova família. Mesmo. Vejo-vos e oiço da cozinha, e noto que não se esforçam por utilizar termos básicos, antes explicam as novas palavras que usam e repetem-nas várias vezes durante o jogo. Pergunto-me se faria semelhante. Se, em presença do minorca, não me limitava a simplificar a linguagem. Na verdade sou bem menos didáctica. Passa-me pela cabeça a ideia de que não fui grande educadora; e não devo ter sido. Mas a verdade é que, olhando-te agora, ninguém o diria. Grande parte foi trabalho teu sobre a genética. É verdade que manténs os  defeitos, mas aperfeiçoaste as qualidades. Parabéns, meu doce filho. Tanto amor e não consigo proteger-te. E, como o poeta, temo que tropeces numa gota de água. 

sábado, 4 de abril de 2026

Páscoa

 

"Deste-nos um trabalho imenso a matar, 

custou imenso erguermo-nos sobre os pés. 

Não vais agora pôr-te a ressuscitar

p'ra começar tudo outra vez"

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente, 1977 - Domingo de Páscoa


"(...)É hoje dia de Páscoa. De ressurreição. Não é um problema nosso. É um problema de deuses. (...)Esquece, entretanto. Sentado no escritório - esquece. (...) está um dia bonito. Olho-o nos pinheiros imóveis da mata. Curioso: não há pássaros a explicá-lo. Estão mudos. Estarão talvez meditando no fim das coisas. É horrível, mas os pássaros também morrem. Esquece, entretanto. Olho o sol escorrendo pelos pinheiros. A vida existe. Agora, agora. E é quanto basta para haver sorriso no mundo."

idem, 1980 - Domingo de Páscoa

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Sul-Norte e o Inverso

 

        Dizer-me. Mesmo dizendo o mundo, dizer-me, tanta vez sem bem saber o que digo nem dosear a forma como me vou insinuando por dentro das palavras que também são eu. Ignoro se seremos capazes de, em algum momento, dispensar a subjectividade que nos constitui no todo e no particular. 

        Sigo pela segunda circular, as vias pejadas de trânsito. Somos muitos. Mas cada um no seu mundo, na intenção que ali o levou, no fim que pretende e de que a segunda circular é um meio. Imagino que a esta hora um vento de cansaço e desejo nos empurre para casa, o trânsito rola já sem atrito, serão as vinte e uma. Penso em condutores esfomeados, apressados por compromissos ainda em espera, ansiosos por rever doentes lá onde querem estar com eles; ou apenas desejando beijar os filhos que encontram já deitados e desejam ver inda de olho aberto; e há também os inquietos, os fugazes por natureza, os sem sossêgo para quem limites de velocidade são desimportâncias; são os mesmos que se sentem mal quando à sua frente segue uma mulher ao volante e pioram se alguma os ultrapassa. O seu fito é escapulir mais rápido, furam as faixas ora uma ora outra, marinheiros experientes vencendo ondas, ganhando metros atrás de metros, sabe Deus porquê. Viro à direita olhando com saudade os que seguem para oeste. Penso nessa amiga longe, no que fará em hora de paz caseira: talvez ajeite os óculos a ver um programa guardado em dupla cumplicidade, ou apenas converse quotidiana, ou terá consigo os netos e, como tanta mulher, lhes vigie a higiene nocturna, a dar uma mão terna; no final, de olhos quietos, emudece no estado de calma amorosa que só a visão da infância adormecida propicia. Penso isto pisando de leve o travão, enquanto faço a curva no sentido contrário ao caminho para ela. No meu todo da esquerda, desaparecendo no ímpeto de velocidade em crescendo, as viaturas seguem para Norte. Não é o norte da estrela polar; que, para quem ali circule, talvez seja. É um norte desconhecido, onde nada me espera e ninguém conheço com a confiante largueza dessa amiga de tanto ano. Atravessa-me sempre o mesmo pensamento: e se fosse para o norte; onde chegaria, metendo por essa via em que a velocidade aumenta na proporção da distância a percorrer. Entro na ponte a enxotar a melancolia do incógnito. A seta do sul sobe por três vias, um percurso recto clamando por mim- ali malogrei ilusões várias, e, em sentido inverso, engrinaldei esperanças. Já a atravessei em sangue, desolada, inquieta, infeliz; mas também curiosa, ansiosa, saudosa, em calma indiferença ou, na grande maioria dos casos, em radiosa solidão, sentindo o pulsar da vida em volta: o sol, o falso chão que as rodas pisam, o sibilar baixo do motor num encanto que me seduz, o lufa-lufa de tanta gente. Vidas. Na ponte somos quase iguais, rolamos.

        Na viagem de ida, o casario onde hei-de internar-me impõe-se; parece-me tão fechado que não caberei por lá. Mas em quinze minutos, o abrir da porta e o trinco a deixar-me com um pé na tua casa – que é tua, não duvides. Pouso a mochila e o saco sem ruído porque trabalhas, mas logo, logo, tu vens silencioso e abraças-me e só nesse momento o sol me penetra inteiro e se interna nas minhas veias, desenvolve. Olhas-me. Preocupas-te não sei porquê, está tudo bem nesse hiato que criaste por mim. E logo retornas ao trabalho. Então, rebentam-me uns restos do que fui. Cubro o quotidiano com um parêntesis opaco e não esqueço, antes de sair, de usar os olhos que trago fechados na alma, assim como quem põe óculos escuros porque o sol lhe veio num repente.