Numa tarde desta primavera atípica
- era a véspera do dia dos museus -, resolvi visitar o MAD (Museu de
Art Déco). Não entendo a razão de tanta demora quando sei que me
agradam os ingredientes deste tipo de arte. Mas pronto, lá fui até
ao Calvário depois de uma prévia olhadela ao google maps que tem a
virtude de indicar o percurso consoante o meio de transporte; pelo
que sou muito grata à dita ferramenta.
Ao
invés do que me sucede quase sempre – lá diria Aristóteles que o
necessário é o que acontece sempre ou quase sempre -, cheguei, sem
premeditação, uns dez minutos antes da última visita guiada.
Comprei o bilhete e já está. Por ser a única portuguesa, a guia
dissertou em inglês. No problem, era inglês para iniciados como eu,
com a vantagem de perguntar em português se não entendesse. A garota era jovem e principiante, estava um tanto nervosa. Mas portou-se
lindamente, foi simpática e sabia a lição. No final, os falantes da língua inglesa deram-lhe
parabéns pela boa pronúncia e o mais. No meu caso, agradeci o facto
de ter respondido – em português - às várias questões que me
suscitou a visita (sou um bocadinho chata).
Pois
é, o museu pertence à Bacalhoa que é como quem diz a Joe Berardo,
e, no final da visita, houve prova de vinhos que recusei por tal
néctar não ser do agrado das papilas gustativas que me pertencem.
Pensam vocês que não entro no mundo do paladar divino e talvez seja
verdade, de vinho desgosto e ambrósia não sei o que seja. Mudando
de assunto: estou aqui a pensar, desconheço se os seis euros do
bilhete incluíam a prova ou seria um extra. De qualquer modo, não
provei nem comprei a bebida. Mas saí do Calvário completamente
ressuscitada; não as pernas, não a mente, inteirinha, da ponta dos
cabelos à ponta dos pés, ténis e tudo.
Amei
aqueles objectos delicados, originais e de desusado requinte.
Candeeiros e lustres, os primeiros convidando intimidades penumbrosas
e ciciantes em seus vidrinhos coloridos; os segundos, num apelo ao
glamour intemporal da belle époque, afectivos polvos em abraço de
beleza esfuziante, modelados em cristal e brilho. Perpassei,
milimétrica, a elegância das peças de louça. Linda, a mostra-o jarra de Bordalo
Pinheiro refinado e de chapéu alto, aligeirou o popular e surge de fraque, usa
laço e talvez monóculo, faz-se citadino cingindo a si a bengala de
castão dourado; e a sua obra não desmerece. Ali brilha um Picasso feito vaso,
vários Laliques com sua ternura delicada e contundente a entranhar-se,
imorredoura, na sensibilidade de quem os repara.
O MAD é uma viagem
ao pormenor e pareceu-me muito feminino. Ou tão só uma homenagem à
Mulher como nos sugere a amostra na entrada. Uma parte
existe dedicada às bailarinas. Nela, as estatuetas das ditas
senhoras abundam. E é admirar-lhes a elegância do gesto, a breve
curva das mãos, o arco tenso do tronco, a pose de dedos, a leve asa
de pés. Olhando-as, bibelots pequenos e frágeis, é impossível não
as aliar ao artista que lhes deu o ser, de certeza com amor. Só é
possível criar coisa tão fiel ao original, se esse trabalho
reproduz o acto amoroso entre criador e criação. E ainda: existe uma
sala dedicada à mulher, talvez seja um quarto ou o quarto de vestir,
já não recordo. E é infinitamente feminina, tão bonita que
apetece. Ainda que saibamos não ter hoje habitações onde caiba tal gineceu (talvez o mesmo que Virgínia Woolf referia como “um espaço que seja
seu”), é agradável e até saudável saber que alguém o teve
assim, repleto de pormenores delicados. Ou muito semelhante. Digo eu,
proletária convicta a quem beleza das coisas atrai como a luz à
borboleta. É que não haja dúvida, isto foi movimento de gente
endinheirada, para aí uma burguesia que precisava gastar o que tinha
e apostou no glamour estiloso. Parece que o movimento nasceu em
França (bem se vê pelo nome, não é?), logo universalizado pelo
interesse que suscitou. Explodiu, qual grito triunfal, entre os anos
vinte e trinta do século passado. Está pois a fazer cem anos.
Bom.
Para finalizar: eu não diria que que o MAD é inteiro em Art Déco. Antes afirmo, daquilo que conheço, que mistura Art Déco com
Arte Nova. O mobiliário não é todo de linhas direitas. Há várias peças (pareceram-me em
abundância) que são pródigas em enfeites florais e também nas
curvas tão sugestivas da Arte Nova. A Guia não
o citou e pode nem ser verdade o que digo, amparo-me ao senso comum. Mas, seja um único, ou dois estilos, a
conjugação resulta: é autêntica pérola. O próprio espaço, uma casa
fidalga de dois pisos, cujo primeiro proprietário foi o conde de
Abrantes, sofreu remodelações e passou por várias mãos; contudo, guardou a traça inicial e mantém originários pormenores, arquitectónicos e de natureza doméstica. Mas tudo isto e muito mais
vos dirá o/a guia. E já basta para abrir o apetite.